OS LEILÕES E A RUA DA AREIA

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Autoria de LuDiasBH

moco

Janeiro era o mês de São Sebastião na cidadezinha, que se vestia de festa para vitoriar seu santo padroeiro. Havia dez noites de leilão, que fechavam com uma grande procissão, regada a muita reza e a fogos de artifício, no dia 20 do referido mês. Essa era a festa mais esperada do ano. Muitos casórios nasceram dali, assim como muitos rebentos, plantados nos cantinhos escuros da cidade. Uma coisa terminava levando à outra, pois ninguém é de ferro. O fato é que, nove meses após as bênçãos de S. Sebastião, muitos bruguelos pipocavam.

A parte mais deleitosa do mês festivo estava no pedimento das prendas. As meninotas eram escolhidas e distribuídas de acordo com o cronograma da madrinha de cada noite. Penso que os leiloeiros achavam que as ninfas, com suas carinhas de anjo, amoleceriam mais facilmente o coração empedernido dos somíticos, que no português castíssimo significa: unhas de fome, munhecas de samambaia, muquiranas e mingolas. Quem haveria de negar o pedido de uma esmola a um anjo?

O preparatório para o pedimento seguia todos os trâmites legais, de modo que o adjutório fosse o mais abundoso possível. Primeiro, os pais eram notificados de que suas pimpolhas estavam no rol das pedintes. Se a permissão fosse dada, as escolhidas participariam de uma reunião, onde era traçada a rota de peditório de cada grupo.

A cidade era divida em zonas e, de acordo com as posses da região, um número maior ou menor de donzelinhas era enviado. Mas a nós, franguinhas desabrochando, cheias de indagações sobre a vida, só interessava a zona das operárias do sexo, denominada Rua da Areia. Exatamente essa dita que nos era proibida. Aquela região estava destinada às moças mais velhas e de muito tento.

A profissão das mulheres de vida livre não exercia sobre nós qualquer obcecação. Era pura bisbilhotice mesmo. Inda mais depois que certo rapaz alegre contou ao grupo de pequenas, já abundante em hormônios, que havia um cabaré no local, enfeitado com papel crepom de todas as cores e com um palco de veludo vermelho e roxo, onde só se tocava boleros. Queríamos perscrutar o local e saber quais varões conhecidos andavam por ali a saracotear.

Chegávamos às casas da Rua da Areia, sempre de portas fechadas, onde as trabalhadoras da noite descansavam, e batíamos com força. Uma cara de sono entreabria a porta, ouvia o pedido, ia para cozinha e logo voltava com alguns ovos. Nesse ínterim, entre o pedido e a posse da prenda, esquadrinhávamos os cômodos com nossos olhos gulosos, à cata de novidades. Mas, para nossa glória e azar, num determinado dia, quando uma das damas noturnas abriu a porta de entrada, esqueceu-se de fechar a de seu quarto, onde um conhecidíssimo varão, vereador e noivo da filha do prefeito, aboletava-se. Ao ver aquelas carinhas curiosas, ele tentou se enfiar debaixo dos lençóis, mas o estropício já estava feito. E a novidade não tardaria a correr mundo, com certeza. Nem a CIA impediria o vazamento de tão precioso furo.

O leitor deve estar se perguntando: E daí? Daí, meu amigo, é que aquela zona era terminantemente proibida para nós, franguinhas ainda sem penas. A proibição vinha de dois severos códigos: pais e direção dos festejos. Logo, a infração era corpulenta, podendo redundar numa pena vitalícia, ou melhor, numa proibição de ir às festas do padroeiro. Depois de muita conversa, chegamos à conclusão de que deveríamos chamar o dito pulador de cerca para uma combinação. Assim foi feito. A gente não contaria nada e tampouco ele. E, assim, as duas partes litigantes entraram em acordo, selado com a mais duradoura lealdade, que perdura até os dias de hoje.

2 comentários sobre “OS LEILÕES E A RUA DA AREIA

  1. Adevaldo

    Lu,
    Lá na Rua da Areia nada ia acontecer com vocês, principalmente se entrassem na casa da Supriana e saboreasse aqueles deliciosos biscoitos. Eles eram gorduchos e até melhor que muitas frangas.
    Você é incrível nos seus casos.
    Abraço,
    Devas

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    1. LuDiasBH

      Devas

      Você tem uma memória de elefante.
      É por isso que é historiador.
      Supriana era mesmo a chefona do lugar.
      Muito bem lembrado… risos.

      Abraços,

      Lu

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