OS MUITOS TONS DE VERDE

Siga-nos nas Redes Socias:
FACEBOOK
Instagram

Autoria de LuDiasBH

tomve

Nas margens do rio Jequitinhonha, entre Moinho Novo e Córrego Fundo, vivia Maria da Felicidade, vulgo Dadinha, com seu marido Pacífico Fonseca, conhecido pela alcunha de O Homem da Camisa Verde, suas duas filhas gêmeas, Maria Dália e Dália Maria e Adãozinho, o caçula. Aqueles eram tempos duros para as três mulheres, que viviam sob os mandos e desmandos do velho cabrão.

Antes de contar ao leitor a história dessa família, vou lhe dar alguns esclarecimentos sobre cada um de seus personagens, para que fique mais habilitado a emitir julgamento, caso exija seu coração. E, se assim não o desejar, peço que dê o dito por não dito.

Maria da Felicidade era a personagem central da família, tanto pelo excesso de labuta, quanto por sua bondade e pela judiação sofrida. Se a dor e a mágoa embrutecem alguns corações, não foi isso que aconteceu a Dadinha. Por sua generosidade ganhara o apelido, que no linguajar tosco da região significava “dadivosa”. Não era mulher de deixar um cristão sem valia, fosse qual fosse a causa. Alguns a tinham na categoria de santa, embora dentro de casa purgasse todos os pecados do mundo. Melhor seria se tivesse recebido o nome de Maria das Dores.

Pacífico Fonseca era um caipira metido a sabichão. Tinha sempre a última palavra e se dizia muito mais macho do que qualquer outro homem. A língua era afiada como um facão de açougueiro e as palavras ásperas como as plantas catingueiras. E, para diferençar dos homens da região, vestia sempre uma calça de brim cáqui e uma camisa de popelina verde. Não diversificava a vestimenta uma vezinha que fosse. No muito variava nos tons do verde: verde-mar, verde-lima, verde-broto, verde-chá, verde-bandeira, verde-limão, verde-abacate, verde-musgo… Só não aceitava mudar dois tons de verdura, que o acompanhavam dia sim e outro também: verde de raiva e verde de inveja.

Maria Dália e Dália Maria, ou seria Dália Maria e Maria Dália, pela ordem de chegada ao mundo? Que bobeira, isso não faz nenhuma diferença no desenrolar dos fatos. Bem, as duas meninas tinham a candura da mãe e o sofrimento também. Conheciam na pele a dor de uma lambada de bainha de facão e a aspereza de um laço de couro cru. Se Pacífico tinha desabrimento com as mulheres de fora, imagine com as de casa? Rezava ele que da galinha que canta como galo, deve-se cortar o gargalo. As duas coitadinhas eram, na voz dos vizinhos, comida de taca. Pobres florezinhas murchas e sem cheiro.

Adãozinho, ao contrário das meninas, era a denguice do pai, o herdeiro de sua linhagem. Pela pirola já se via que ia botar muita cabocla de joelho, para lhe lamber as botas, bazofiava o velho Pacífico. O menino não buscava água, não tangia uma galinha, não lavava um prato e tampouco atiçava lenha no fogão, pois isso não era coisa de macho, mas sim de mulher. Vivia a cavalo pelas cercanias, sendo ostentado como um troféu pelo pai fanfarrão e muquirana.

Os anos se passaram, Adãozinho transformou-se num rapaz caceteiro e, para alívio de Dadinha e das duas moças, resolveu buscar sorte grande na capital. Voltou dois anos depois, acompanhado de um gringo de olhos de gato, a quem dispensava uma atenção desmedida. Na rua, os vizinhos ironicamente comentavam com o velho Pacífico que da pirola de Adãozinho não nasceria cria. De modo que, ao ver o filho lamber a bota do branquelo, o velho Pacífico estatelou-se no chão, revirando os olhos. Foi levado às carreiras para a cidade de Jequitinhonha, mas voltou pior do que fora, com o juízo totalmente sacolejado. Tempo suficiente para que Adão pegasse o gazofilácio enterrado desde que se entendera por gente.

O velho Pacífico Fonseca durante muitos anos mexeu com lavras e, segundo as más línguas, havia tirado muitas pedras de valor. Fato desmentido por ele que alegava só ter encontrado cascalho. De modo que, alegando “dificulidade”, em casa só entrava o tostão contado para o feijão, o arroz, o fubá e o café. Na verdade, ele tinha muitas gemas escondidas e de conhecimento apenas de Adãozinho. Fato descoberto pelas duas Dálias após o derrame que deixou o esganado vegetando. Estava tudo escritinho, com letras de garranchos, numa caderneta ensebada, escondida na cumeeira da casa.

Adãozinho caiu no mundo com o seu gringo, desfrutando do abastamento deixado pelo pai, enquanto as três mulheres zelaram pelo sovina desalmado até o seu último alento. Com a morte do avarento, Maria da Felicidade passou a ser realmente feliz com os netinhos: Rômulo e Rêmulo filhos de Maria Dália, e Corália e Corélia filhas de Dália Maria. Ou teria sido o contrário?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *