OS MÚSICOS DE BREMEN E O ROCK IN RIO

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Autoria de LuDiasBH

 bremen

Fiel era muito fiel a seus donos como prova seu nome, mas isso não tinha significado muita coisa em sua vida de cão. Enquanto estava na flor da idade, ainda lhe faziam uns dengues, mas agora que a velhice chegara, quando não ignoravam sua presença, os membros ingratos daquela família punham-no, a vassouradas, para fora. Pelo que vira, a ingratidão fazia parte da genética humana. Por essa e por outras, resolveu botar o pé no mundo, abandonando aquela gente. Com certeza nem daria fé da sua ausência. E, além do mais, cacunda de otário é poleiro de esperto, de modo que não iria mais latir a noite toda para espantar bicho ruim e ladrão, pois cachorro mordido de cobra não come mais linguiça. Estava na hora de botar um fim naquele abuso.

Quando Fiel já havia caminhado um bom pedaço de chão, encontrou um burro que seguia cabisbaixo, parecendo não carregar muita crença na vida. Logo o companheiro contou-lhe que estava fugindo de uma olaria, onde trabalhava que nem sovaco de aleijado e, além disso, ainda servia de comida de chicote. Toda a raiva de seu dono era descontada nele, que nem tinha forças para reagir, pois, onde a razão não fala, doido é quem não se cala. Bastando ver na sua cacunda as lanhadas e as marcas das cargas que conduzia. Quando era novo, o dono chamava-o de Riqueza, mas agora que envelhecera, não tinha nome fixo. Numa hora era Preguiça, em outra Moleza, mas o mais comum era Desgraça. Ele precisava fugir dali, pois, quem se encosta a toco, não quer sombra.

Os dois puseram-se a caminho, sem lenço e nem documento, pensando no que poderiam fazer com a própria vida. Conversa vai, conversa vem, acabaram descobrindo que ambos gostavam de música. Fiel, quando jovem, era uma fera no tambor e Riqueza, quando estava muito sorumbático, afastava-se da casa para não incomodar o dono, e punha-se a tocar flauta. Assim, descobertas as habilidades, resolveram que poderiam fazer parte da Orquestra Municipal da cidade de Bremen, pois, o amanhã é sempre outro dia.

Os novos amigos já iam longe, tagarelando sobre o futuro, quando, no acostamento da estrada, depararam com um gato que era só couro e osso. O macambúzio animal também havia fugido de casa. Contou aos viajantes que, quando jovem, era a coqueluche de sua dona, tendo recebido o nome de Fofinho. Mas a mulher passou a parir mais do que dava conta, e não mais tinha tempo para ele, esquecendo até de lhe dar comida. Qualquer coisa que um dos seus moleques fazia, era ele quem pagava o pato, ou melhor, o gato. O marido da dita, com ar de gozação, deu-lhe um novo nome: Surrado. Só Deus sabe quantas surras tomava. Estava na hora de cair fora, pois sapo não pula por boniteza, e sim por precisão. Ao saber do plano dos novos companheiros, resolveu acompanhá-los, já que tocava trompete maravilhosamente bem.

O trio caminhava cheio de esperança numa vida melhor, quando encontrou um galo derribado e pensativo no mourão de uma cerca. Se não fosse pelos três terem chamado a sua atenção, não os teria visto.  Esperava ali o seu fim, já não aguentava o martírio de sua vida. Depois de ser coagido a lutar contra seus irmãos durante certo tempo, assim que começou a fraquejar nas lutas recebeu a sentença fatal: iria para a panela, portanto, só lhe restou fugir de tanta crueldade. Bem dizem que o limão depois de espremido é jogado fora. Sentiu-se constrangido por não saber tocar instrumento algum. Mas logo deram a Sansão a função de cantor. Tinha a certeza de que não faria feio.

Já cansados de tanto caminharem, e a noite também caindo, os quatro amigos avistaram uma casa ao longe, onde poderiam descansar da jornada. Mas, para tristeza do grupo, viram logo que estava habitada. Se fosse por gente de bom coração, que faz o bem sem olhar a quem, até poderia lhes oferecer um pernoitamento. Mas logo a esperança arrefeceu-se, ao descobrirem que ali se escondia uma perigosa quadrilha de ladrões. Só lhes restava tramar um bom plano para colocar os meliantes para correrem. A união faria a força.

Plano acertado. Leal subiu em Riqueza, Fofinho em Leal e Sansão em Fofinho, criando uma figura danada de pavorosa que a luz do lampião projetou na parede da sala, onde o bando jogava cartas. Diante da visão de tão esdrúxula figura, os ladrões saíram estabanados, caindo numa cisterna vazia, coberta com mato, de onde não conseguiram sair. A polícia foi avisada e os ladravazes presos, mas colocados na rua depois de dois anos de bom comportamento. Inclusive se converteram a certa seita no xilindró. Contudo, uma semana depois de soltos, arrombaram dois bancos, retomando a vida criminosa de antes. O comunicador Datena, que comanda um programa policial, mostrou a cara lavada do bando no último sábado. E, de novo, a polícia encontra-se atrás deles. Bem se diz que a impunidade é um convite a crimes maiores.

Mas a história não acaba por aqui, até por delicadeza para com os quatro animais. Com a prisão dos biltres, eles, os animais, tornaram-se manchete em todos os jornais nacionais e internacionais. Uma grande soma em dinheiro, que fora prometida a quem indicasse o paradeiro dos pilantras, seria entregue a eles. Seus antigos donos, na maior adulação e falsidade, tentaram trazê-los para suas respectivas casas, prometendo mundos e fundos. Mas gato, cão, burro e galo escaldados têm medo de água quente, de modo que o quarteto deu aos donos a bunda como resposta. Com o dinheiro montaram a própria banda. Hoje são famosos em todo mundo. A última notícia que saiu na mídia é que irão participar do próximo Rock in Rio. E outra, o galo, além de cantor, aprendeu a tocar guitarra.

Nota: Imagem copiada de www.viajeshoteles.net

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