PÉ-RAPADO NEM PARA VISITA

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Autoria de LudiasBH

pes sujos

Dona Silvina e o senhor Deodato foram agraciados com seis meninas. Na verdade, não queriam uma prole tão numerosa, mas, enquanto esperavam a chegada de um varão, as meninas foram tomando a frente. Quando já eram cinco as mocinhas, dona Silvina deu um ultimato ao marido folgazão:

– Sendo menino ou menina, a fábrica será fechada e ponto final. Só eu sei o trabalho que essas crianças me dão!

E, para desencanto do senhor Deodato, quem chegou foi Rosalina, que era tão bonita como um botão de flor de laranjeira. E assim, as meninas foram se encorpando e atraindo os olhares gulosos masculinos. Mas rapaz algum servia para as filhas do distinto casal, pois dona Silvina sonhava para cada uma delas, criadas com tanta denguice, uma vida de princesa. Por isso, vivia dizendo aos quatro ventos:

– Filha minha só casa com rapaz diplomado, rico e bem apessoado. Pé-rapado aqui passa longe. Não serve nem como visita.

Coitadinhas das seis mocinhas: Rosalva, Rosilene, Rosana, Ronilda, Rosmânia e Rosalina! Elas nunca arranjavam um namorado tal e qual queria a mãe. Se o varão tinha duas das qualidades exigidas, faltava-lhe a terceira e, se tinha apenas uma, faltavam-lhe as outras duas. Enquanto isso, as moçoilas iam ficando com aqueles olhos de cachorro pidão, olhando para todo mancebo, à procura de um que agradasse à genitora.

O fato é que, como quem muito escolhe acaba ficando com o pior ou sem nenhum, a coisa foi se complicando. Já driblando o Cabo da Boa Esperança, sem mais alternativas para voltarem no tempo, casaram-se Rosalva, Rosilene, Rosana, Ronilda, Rosmânia e Rosalina com pés-rapados, o que deixou dona Silvina, já adornada pelos cabelos brancos, numa letargia do cão, pois jamais sonhara em ter como genros joões-ninguém. E pior, nenhum deles trazia sequer um dos atributos estipulados pela zelosa mãe. Contudo, compensaram o fato de não serem ricos, diplomados e bem apessoados, tratando suas filhas com muito amor e dedicação, ou seja, como camponesas pobres, mas bem amadas. E foi aí que dona Silvina mudou a cantilena:

– Não quero que minhas netas procurem se casar com moços diplomados, ricos e apessoados. O que importa é que sejam pobres, mas trabalhadores e que lhes dediquem muito amor, feito seus pais. Podem ser pés-rapados ou pés-rachados, o que importa é o amor.

A expressão pé-rapado refere-se a uma pessoa muito pobre, que nem sapato tem, de modo que, ao tomar banho, precisa rapar (raspar) as solas dos pés com caco de telha, para retirar o excesso de sujeira. Mas, nos dias de hoje, com tanta facilidade em comprar uma chinela, será difícil encontrar um pé-rapado.

Nota:  Imagem copiada de pensareorar.blogspot.com

16 comentários sobre “PÉ-RAPADO NEM PARA VISITA

    1. LuDiasBH Autor do post

      Mendes

      Acabei de visitar o seu site. Achei-o excelente. Dá para sentir a sua dedicação a esse trabalho. E tem que ser assim mesmo, se quisermos fazer a diferença. Mais uma vez, parabéns!

      Abraços,

      Lu

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  1. Patricia

    Ei Lu!

    Você e estes textos criativos e gostosos de ler é de mais ++++++++.
    Dona Silvana que de boba não tem nada, quando viu que suas mocinhas ficariam encalhadas, fez vista grossa. Com atributos estipulados ou não melhor pés-rapados que seis solteironas em casa rsrsrsr.

    Bjs.

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    1. LuDiasBH

      Pat

      Dona Silvina deve ter pensado:
      “Quem não tem tu, vai tu mesmo!”

      Pesquisar provérbios e expressões idiomáticas tem sido uma delícia.
      Virão muitas, ainda.

      Beijos,

      Lu

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  2. LuDiasBH Autor do post

    PP

    Você está com o seu próprio computador?
    Isso só acontece quando está usando um computador que não é o seu.
    Veja se é isso…

    Trate de voltar logo.
    Estamos aguardando.

    Abraços,

    Lu

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  3. Pierre Santos

    Quem disse que já voltei? Ainda estou aqui, preso no hotel, de onde só saio para ir de blindado às igrejas. Assim, aproveito o tempo para conversar os amigos. Dentro de 5 dias + ou – estarei voltando. Vmos ver.
    A propósito, está um saco ter que colocar meu nome e meu e-mail, todas as vezes que comento seus textos. Não há um modo de contornar isto, para quem já fez isto?

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  4. Pierre Santos

    Que delícia de texto, Lu! Fico admirado com a facilidade com que v. cria as urdiduras das situações e como sabe recheá-los com o vocabulário ideal para cada caso. V., menina, é um monstro sagrado. Mas vou continuar a insistir: precisa urgente reunir tudo isto em livro, ô xente!
    Outra delícia é o entrechamento, que vai culminar com a virada de cabeça da mãe das meninas, passando a pedir genros pobres mas com muito amor. Gostei também da tirada dessa menina aí em cima: o “pé rapado” agora virou, e com muito propriedade da menina, “pé de chinelo”.
    Adorei, Lu, adorei!

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    1. LuDiasBH Autor do post

      PP

      Deus seja louvado”
      Você já voltou de Chipre.
      E trate de plantar os pés com chinelo ou não por aqui.
      Estamos com saudades!

      Nem eu sei de onde tiro este linguajar abilolado.
      Gosto mesmo é de divertir o leitor.
      E também rio muito, depois.

      Não deixe de ler o texto do meu amigo: LAGARTO, O CARREGADOR DE BEBUNS.
      Você irá dar boas risadas.

      Muito feliz com a sua volta.

      Abraços,

      Lu

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  5. sandra

    Nossa tudo muito poetico e bem longe da realidade. Pobreza eh algo horrivel, tras o pior das pessoas. Os homens se afogam em bebida no buteco antes de ir pra casa e quando la chegam batem na esposa, nos filhos e chutam o cachorro.

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Sandrinha

      Muitos bebem como fuga, tamanha é a porcaria de vida.
      Não é fácil ser pé-rapado.
      A pobreza dói muito.

      Beijos,

      Lu

      Responder
  6. messias

    Lu,

    Acho que Dona Silvina, deveria resolver a eficiencia do primeiro produto para continuar a fabricar. Mas foi feliz em mudar a lógica de suas análises.

    Messias

    Responder
    1. LuDiasBH

      Messias

      Agora, com as sandálias havaianas (olhe a propaganda…) ninguém mais fica com os pés sujos.

      Abraços,

      Lu

      Responder
      1. RosalíAmaral

        Oi, Lu.,

        Os pés rapados com muito esforços conseguiram comprar seus chinelos, achando vantagem pois ficariam livres dos xingamentos. Mas não adiantou nada, pois passaram a ser xingados de pés de chinelo. Rs rs rs.

        Hoje em dia, quem precisa raspar as solas dos pés têm que desembolsar uma grana para pagar as sessões no podólogo! E as sandálias que antigamente calçavam os pobres, já têm preços de duzentos reais.

        Amiga, quando vir uma pessoa descalça, não fique achando que a pessoa não tem condições de comprar um calçado. Pode ser um estilo de vida. É isso mesmo, os “barefooters”, ao contrário do que acontece em alguns países e culturas, decidem andar descalços, pois apreciam a sensação do contacto directo dos pés com o solo, a obtenção da saúde e etc.

        Agora, se ouvir por aí “vai colocar o chinelo menino(a)!”, dê razão à pessoa, pois não dizem que andar com os pés no chão provoca resfriados e dores de garganta e ficam expostos às contaminações?

        Isso dos pais quererem que seus filhos casem com pessoas prósperas e influentes é tão comum! No mundo de hoje, se os pretendentes forem honestos e trabalhadores, já está de bom tamanho.

        Parabéns pelo texto.
        Abraço,
        Rosalí.

        Responder
        1. LuDiasBH Autor do post

          Rose

          Você mata a cobra e mostra o pau.
          Eu havia me esquecido dos pés de chinelo… risos.
          Pobre não tem jeito mesmo, apanha de todo lado.

          Por falar em “barefooters”, eu tenho um amigo que só vive girando pelo mundo.
          Agora está participando de missões na África.
          Ele não usa nenhum tipo de calçado.
          Quando vem me visitar, fica todo mundo de olho, achando aquilo estranho.
          Mas cada um é cada um.

          O contato com a terra é muito bom, mas traz muitos perigos.
          Uma amiga minha está em cadeira de rodas, por ter contraído tétano, quando estava descalça no quintal e pisou num prego enferrujado.
          Era uma moça linda e inteligente.

          Nossos avós e pais tinham razão ao alertar para o uso do calçado.

          Beijos,

          Lu

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