PESADELO OU SATANISMO?

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Autoria de LuDiasBH

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Em nossa vida acontecem certos fatos, que o melhor que podemos fazer por nós mesmos é mantê-los debaixo de toneladas de concreto. Mas a nossa mente nem sempre nos é fiel para proteger a nossa carcaça contra a tortura das lembranças, que nos maltratam o corpo e o cérebro. Pelo forte elo que formamos ao longo dos últimos anos, eu peço a meus leitores a piedade de me ouvir, pois o meu coração está prestes a arrebentar feito uma represa refreada a duras penas, depois de longos meses de chuva. As recordações voltaram vívidas e sangrentas e preciso botá-las para fora.

Há cerca de uma dezena de anos, meu marido foi convidado para realizar uma pesquisa de campo num certo país latino-americano. Quando ele já se encontrava no final de seu trabalho, eram minhas férias aqui no Brasil, o que me possibilitou ir a seu encontro, apesar de já me encontrar no sétimo mês de gravidez. Íamos aproveitar e conhecer Machu Picchu, um grande sonho acalentado por mim.

Assim que cheguei de avião à capital do país, cujo nome manterei oculto, meu companheiro já se encontrava à minha espera. Tomamos um avião para uma cidade vizinha ao local de seu trabalho. De lá, ele pegou seu carro e viajamos três horas a mais, até o destino final. À medida que nos aproximávamos do povoado, eu sentia que estava voltando na máquina do tempo. Uma sensação hostil subia pelo meu corpo, como se fosse um aviso de mau agouro. Não queria desapontar o meu companheiro, sempre tão bom e generoso, contando-lhe o que ora me passava pelos sentidos. Chegamos ao anoitecer, quando a maioria das pequenas casas já se encontrava adormecida.

No dia seguinte, aquela sensação ruim havia passado. Ali permaneci cinco dias. As pessoas eram amáveis e me encheram de pequenas lembranças feitas por elas. Na partida, um bando de crianças acompanhou-nos por cerca de um quilômetro, correndo atrás do carro, apesar da chuva que caía há cerca de duas semanas, ininterruptamente. A estrada de chão era um lamaçal só. Mesmo com tração nas quatro rodas, nosso carro vencia com dificuldade as grandes poças de lama que se formavam ali e acolá. Quando já havíamos percorrido um terço do caminho, o meu marido perdeu o controle do veículo que, numa rodada abrupta, bateu numa pedra, perfurando o tanque de gasolina.

Apesar de ainda nos encontrarmos na parte da manhã, a chuva pirracenta não nos permitia ver quase nada. Com muita dificuldade vislumbramos uma casinhola, ao lado esquerdo da estrada. Resolvemos ir até lá pedir ajuda depois de caminharmos por cerca de quarenta minutos. Encontramos um homem com as feições bem maltratadas pelo tempo, cabelos grisalhos e revoltos e olhos aparentemente gentis. Aos poucos foram chegando algumas mulheres e homens com o mesmo perfil do dono da casa. Todos traziam no pescoço um amuleto feito de osso. Tive a sensação de que se tratava de alguma irmandade. Melhor seria que fossem criaturas do bem.

Aquelas pessoas disseram a meu marido que a uma hora dali, ele encontraria ajuda, já que elas nada podiam fazer a não ser me acolher. E ele se foi em busca de socorro. Deram-me um velho catre para eu me deitar. Comecei a cochilar, quando senti mãos agarrando a minha cabeça, enquanto o homem que me recebera, enfiava por minha goela abaixo uma cuia de um líquido verde e amargo. Em vão debati, tentando me livrar daquelas mãos sebentas, cheirando a alho e arruda. Depois disso não me lembro de mais nada.

Acordei-me num pequeno hospital de uma cidade vizinha para onde fora levada. Mal abri os olhos e tomei consciência de meu corpo, passei a mão pela minha barriga que, embora inchada e dolorida, não possuía mais o mesmo volume. Comecei a gritar enlouquecida pela minha filhinha (seria uma menina), enquanto meu esposo abraçava-me com ternura, explicando que eu havia perdido o bebê mal chegara ao hospital. Pedi-lhe que me mostrasse seu corpinho e ele me disse que já o havia enterrado, pois eu me encontrava ali, havia três dias. Dizia-me que éramos jovens e que outros bebês viriam em nossa vida. Chorei até adormecer.

Assim que consegui me levantar da cama, tomamos um avião para a capital e de lá para o meu adorado Brasil. A família e amigos confortaram-me durante longos meses. E, de tanto ouvir meu marido contar a história de como eu passara mal na estrada logo após a batida na pedra, sendo levada ao hospital em estado de choque, comecei a  acreditar que eu tivera apenas um pesadelo. Em vez de chorar – diziam todos – eu deveria agradecer a Deus por estarmos vivos. E assim eu o fiz, até parir uma linda garotinha de cabelos pretos como as penas da graúna e olhos de jabuticaba, quando pensei ter banido as lembranças das cavernas de minha memória.

Há cerca de um ano, fui a um passeio turístico com um grupo de amigos ao país em questão. Nós fomos levados à cidade próxima de onde meu marido havia trabalhado. Contei ao guia da excursão que havia conhecido o povoado X. Ele então me deixou estarrecida, ao contar a nosso grupo que ali foram presos, alguns anos atrás, adeptos de uma seita satânica que sacrificavam recém-nascidos ao demônio. Chorei a noite toda, pensando no destino de meu pequenino ser. Não via mais graça alguma na viagem. Só queria voltar para casa.

De volta ao meu país, eu nada contei a meu marido ou a qualquer outra pessoa. Embora possa parecer loucura. Eu converso apenas com os meus gatinhos que me fitam com olhos piedosos. Sei que, se o meu pesadelo foi real, muito mais sofreu meu companheiro tentando me preservar de lembranças tão macabras. Talvez eu lhe conte algum dia o que vim, a saber. Talvez eu nunca venha a lhe falar sobre isso. De tanto contar a mesma história do acidente, ele tem plena convicção de que ela é a verdadeira. E talvez seja! Ou é melhor que assim pense.

Hoje é um daqueles dias em que a memória volta vívida como os brotos nas florestas tropicais depois da chuva. Os pensamentos avolumam, tomam forma e tentam me devorar. Sinto-me à beira de um abismo. Não sei se fui vítima de um pesadelo, gerado por um acidente ou de satanismo.

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