PÓ DE PIMENTA NO SALÃO DE BAILE

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Autoria de LuDiasBH

pimen

A cidadezinha de Umburana era famosa em toda a região por seus bailes que varavam a madrugada. Ali, não havia quem não dominasse o traçado com maestria, fosse homem, mulher ou criança. Até os rebentos já se formavam saracoteando na barriga das mães. O certo é que nas noites de sexta-feira e sábado o arrasta-pé comia de concha. Nas matinés de domingo, a criançada não negava a raça. O maior impropério que poderia ser dirigido a um umburanense seria dizer que manqueteava das pernas num bate-coxa. E pisar no pé de uma dama era considerado um ato da maior insolência, que poderia redundar ao desavisado numa quarentena distante do salão da sociedade local, com seus escorregadios ladrilhos avermelhados, que ainda recebiam uma camada ajeitada de cera carnaúba, antes de cada noite dançante, afim de que os pares pudessem se deslizar com atilamento. E os de fora, que ali chegavam, limitavam-se a observar as voltas e reviravoltas dos casais deslizando-se pelo salão, com medo de levar uma corrigenda, caso se atinasse a enfiar no meio daquela gente.

Num certo outono, chegou a Umburana um forasteiro bem apessoado que depois de muito se ataviar, dirigiu-se ao renomado salão. Pediu uma mesa bem próxima ao palco, onde se empoleirava o pequeno conjunto musical, e se pôs a observar os dançadores até o primeiro intervalo da orquestra, quando jovens e idosos assentaram-se, pois ninguém é de ferro. Mas, assim que as primeiras notas voltaram a ser tocadas, o forasteiro, cujo nome não me foi dado a conhecer, convidou Dasdores, a mais afamada dançarina do lugar, para um sacolejo, que prontamente aquiesceu. Os dois rodopiaram até o raiar do dia, o que deixou os umburanenses de orelha em pé. O forâneo ganhou tanta fama através da boca da rapariga, que as moças casadoiras passaram a disputar a sua atenção, fato que revoltou os marmanjos da cidade que, para se livrarem do moço, armaram-lhe uma cilada.

Era noite de sábado. O salão estava tão cheio que as gentes saiam pela cumeeira. O forasteiro viera mais louçainho e cheiroso do que nos outros dias. As casadoiras rodeavam-no. Cada uma trazia a esperança de ser a escolhida da noite. Ele repassou o olhar em todas elas, até se fixar numa franguinha jururu que não era outra senão a filha mais nova do prefeito. Tomou a moçoila nos braços e se pôs a vascolejar pelos quatro cantos do salão. Havia momentos em que era possível sentir que o casal levitava. Porém, em meio à peleja dançante, o filho do delegado estatelou-se no chão. Ao se levantar, acusou o forâneo de tê-lo derrubado. O mafuá estava armado. Um soco foi desferido no queixo do visitante que revidou com outro no olho do ofensor. O certo é que o forasteiro foi botado a chutes no olho da rua.

Os bailes continuaram a suceder com o mesmo ardor de sempre. A vida fluía dançante em Umburana. Apenas Dasdores trazia a lembrança do forasteiro em seu coração. O fato é que dois anos se passaram até que um novo estranho aportasse no lugar. Tinha o cabelo da cor de uma espiga de milho descascada, uma vasta barba que lhe cobria metade do resto e um bigode grosso que fazia uma cedilha em cada ponta. Apresentara-se como enviado do governo estadual para vistoriar as escolas. Foi tratado a broa e pão de queijo pelo prefeito e família, com medo de que a verba usurpada da merenda escolar fosse descoberta. A ele foi dada toda a deferência e a chave da cidade. Em sua homenagem foi organizado um grande baile. Mas, poucas horas antes da homenagem, o estranho pediu ao prefeito permissão para visitar e filmar o salão de baile, pois queria registrar todas as honras recebidas, de modo a mostrar a seus superiores como fora tratado por lá. Exigiu que ali fosse sozinho, para não lhe atrapalhar a concentração, de modo a filmar a luz da lua entrando pelo salão ainda escuro. E assim foi feito.

Permita-me o leitor que eu aqui faça uma detença, para lhe repassar certa informação, antes de prosseguir no relato, conhecida apenas das mulheres de Umburana, desde que me jure guardar o mais sepulcral segredo: segundo me contou minha madrinha Nena, conceituada dançadora em tempos idos, as mulheres dançantes de Umburanas não usavam calcinhas para que as coxas deslizassem uma na outra, de modo a favorecer os passos da dança com mais desenvoltura.

Assim que começou o baile em homenagem ao estranho visitante, que pediu desculpas por ali não comparecer, em razão de uma forte dor de cabeça, os casais puseram-se a dançar inflamadamente. Depois de certo tempo, as mulheres começaram a coçar as partes pudendas, despistadamente, e os homens a comichar olhos e nariz.  Mas à medida que a ardideza aumentava, as damas tomaram o rumo do rio que ficava por perto, a fim de refrescar o brasume das partes pudibundas, de modo que o salão ficou sem nem uma cabrocha para um rodopio.

Zé da Farmácia, perito nos mais variadas panaceias, logo descobriu a causa do sororó.  Derramou uma meia dúzia de palavras no ouvido do delegado e, logo um bando de homens bateu em direção ao hotel, onde se hospedara o estranho. Ali, encontraram apenas um bilhete do moço, que não era outro senão o forasteiro de Dasdores, em que confessava ter espalhado pó moído de pimenta-malagueta no salão, para vingar o modo como fora enxotado da cidade.

O fato, meu caro leitor, é que os bailes de Umburana nunca mais foram os mesmos de antes, pois as damas tiveram que se submeter a inusitados banhos de ervas nas partes pudicas, para expulsar a ardentia e, segundo me contou minha madrinha Nena, muitas delas jamais voltaram a pisar num salão de baile, de tão acoelhadas que ficaram.

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