QUERO UM PÁSSARO-CARAMANCHEIRO

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Autoria de LuDiasBH

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Caros leitores, eu, Maria Virgulina, não sou dada a botar a minha intimidade à mostra, até porque sou uma mulher pudica e muito direita, polida nas ditosas aulas de Educação para o Lar e aluna esmerada das Pias Irmãs Educadoras, mas hoje o meu homem tirou-me do sério. Quisera eu que ele pertencesse a uma das dezessete espécies do pássaro-caramancheiro. Não que o dito ande esvoaçando por aí, pois, se assim fosse, eu já lhe teria tosado as asas desengonçadas. Apesar de ser uma senhora pudibunda, não sou de aguentar safadice. Trata-se de outras estripulias, que me deixam abespinhadiça, mortífera que nem veneno da mamba-negra, apesar de minha cantada e decantada pudícia.

Os pássaros-caramanhceiros são verdadeiros cavalheiros alados, que decoram a entrada de seus caramanchões com requinte artístico, para receber a fêmea. São exímios em reparos domésticos, caprichosos na arrumação e sabem escolher muito bem aquilo, que levam para casa.

Acreditem os senhores que depois de uma alongada e extenuante viagem a trabalho, que me deixou mais estropiada de que burro de tropa nas chapadas mineiras, eu chego e encontro o desditoso de nosso moquiço de pernas para o ar. De pernas só, não, mas de barriga, cabeça e bunda. Todos os lençóis sujos, pratos e copos espalhados pelo chão, fogão queimado, geladeira rançosa e banheiros cheirando a catinga de cadela no cio. Livros, DVDs e CDs compõem o mosaico do desregramento, acasalados com caixas de pizzas e latas de cerveja vazias, aqui e acolá, indicando que uma corja de sem o que fazer passou por tais paragens. Só sei que o nauseabundo de nosso barraco acabou me deixando furibunda, como nunca estive até então, indo ao desencontro dos pacíficos ensinamentos das Pias Irmãzinhas. A única coisa que ele, o capirocho, escolheu bem fui eu, sua companheira. De resto, suas escolhas são um descalabro ambulante.

E, como se o arranjar da alcova já não fosse um sinal do mais profundo carinho, o pássaro-caramancheiro ainda deixa à fêmea a decisão de fazer ou não amor.

Ainda azoeirada depois de doze horas de voo, querendo apenas um banho quente e cama, lá vem o cara de pau se aprochegando. Mão no cabelo, escorregando pelas costas e se dirigindo para os países baixos. Reclamo que estou cansada e ouço o típico “Você deve ter arranjado alguém especial por lá.” Mas que diabo, o macho humanoide acha que decisão do acasalamento sempre lhe cabe e, ainda por cima, neste ninho de baratas em que se transformou nosso tugúrio. Se pelo menos ele tivesse comprado um jogo de lençóis egípcios de mil fios e salpicado sobre o leito umas gotas de Chanel nº 5 e me mimoseado com um Champanhe Pernod-Ricard Perrier-Jouet, eu poderia até ter deixado a questão em aberto, assim como as fendas do amor. Mas, sem nenhum sinal do mais profundo carinho, nenhuma Corte Marcial far-me-á tomar uma decisão a favor do meliante em questão.

Entre os pássaros-caramancheiros a decisão da fêmea depende da ornamentação e da riqueza do arranjo que o macho usa para atraí-la.

Pois é, caros amigos leitores, se eu fosse espiar o ornamento de minha casa, levando em conta as circunstâncias em que a encontrei, ficaria até o ano 2050 sem um affaire ou, no popular, um bate-virilha. E, se levasse em conta a riqueza do arranjo, voltaria à Idade Média para pegar um cinto de castidade emprestado e ainda deixaria a Cérbero a responsabilidade pela chave. Assim não dá para ser feliz! E muito menos para sofraldar a roxura carnal. O arranjo do meu diacho só atrai a minha embirração.

O pássaro-caramancheiro canta maravilhosamente. Sem falar que é um dançarino arrebatador. Haja talento artístico! Exibe um inseto no bico, faz barulho, bate as asas e dança para a fêmea, que o avalia no patamar de seu caramanchão.

Meu homem não conhece nem mesmo as sete notas musicais. Sua voz, desprovida de entonação e tão melodiosa quanto uma taquara rachada, é capaz de sarapantar até as vítimas da tsé-tsé. Não sabe a diferença entre os passos do bolero e os do samba. Faz feio até num bate-coxa. Tampouco se preocupa em me mimosear. Não me traz um colar de diamantes vermelhos, ou uma pulseira de alexandrita, ou um anel de turmalina paraíba ou um pingente de esmeraldas. Jamais me regalou com um cruzeiro marítimo pelas Ilhas Gregas ou me surpreendeu com um Silver Ghost 1906. Se eu avalio os seus modos canhestros, minha lequência entra-lhe por um ouvido e sai pelo outro. É birrento que nem burro bravo.

Se a corte for bem sucedida, a fêmea permitirá que o macho se aproxime e se acasale com ela, que é sempre o juiz na escolha.

Gente, a única corte de que o meu varão já ouviu falar foi a de Dom João VI, e olhe lá. E de juiz só conhece o do campo de futebol, a quem abendiçoa com muitos xingatórios inenarráveis. Tampouco sabe o que significa “estou com dor de cabeça” ou “deixe para amanhã, pois estou muito cansada hoje”. Logo vem com o único provérbio que conseguiu memorizar: “Não deixo para fazer amanhã, o que posso fazer hoje”. Seu cérebro achavascado ainda funciona dentro do liberal princípio quântico do “vai-ou-racha”. Desalmado, bárbaro e truculento – bicho pagão.

Na obsessão por agradar, tal pássaro expõe, na entrada do caramanchão, penas azuis, conchas de caracol, flores coloridas, vidros, CDs e tudo que brilhe. Essas coisas agradam a fêmea.

Comigo é tudo tão diferente! Assim que abro a porta da sala, sinto como se tivesse chegado ao Inferno de Dante, com o capeta-mor, senhor maléfico do universo, esparramado no sofá, sorvendo sua loira gelada. Fico azul de raiva, dentro de uma concha do mais gélido mutismo, com vontade de lhe quebrar a cabeça com vidros, CDs e tudo que estiver ao meu alcance. Com a moléstia de minha raiva soltando faíscas por todos os lados, fico na maior brilhantura hidrófoba.

Quando avista uma fêmea, tal pássaro acelera seu repertório de trinados. Quando vê que ela está se aproximando, ele pia de mansinho, começa a brincar de esconde-esconde.

Quando avista uma fêmea, não importando se é viúva, solteira, casada, amancebada ou tico-tico-no-fubá, meu “encosto” fica inconveniente e acelera seu repertório de piadinhas chulas. Assim que ela se aproxima, ele fala alto e começa a se mostrar cada vez mais babaca, tipo “Olhe eu aqui!”. Isto quando não fica literalmente babando. Melhor seria que, no seu joguinho de esconde-esconde, ele descambasse num buraco negro e dali nunca mais voltasse.

O pássaro-caramancheiro usa seus requintes artísticos na competição com outros machos. Eles também brigam, roubam os ornamentos uns dos outros e destroem os caramanchões dos concorrentes, tudo pela fêmea.

Hahahaha! Vou ficar dura e roxa esperando atenção. Imaginem os leitores que contei ao meu desenxabido arremedo de homem que meu patrão estava me assediando, e ele achou que isso era delírio meu. Pois havia muitas garotas boazudas no meu trabalho e o bofe não teria olhos para mim, já caindo do galho. Mas que, se assim fosse, caberia a mim a defesa, pois sou maior de idade. Ele até torcia para que fosse verdade, pois NÓS poderíamos ganhar uma boa grana com um processo por assédio. Miserável! Além de não ter requinte algum, ainda quer me entregar de bandeja.

Talvez seja mesmo um cagão, um berdamerda, um brochote, um borra-botas, um bunda suja. Perdoem-me o palavrório, caros leitores, mas a indignação tirou o bom senso desta recatada criatura, ex-aluna das Pias Irmãs Educadoras. Depois desta minha humílima confissão, quero pedir o parecer de vocês, meus amigos e queridos leitores, pois não sei se compro um pássaro-caramancheiro e mando o meu homem plantar batatas, ou se fico com essa praga, com o intuito de ganhar o Paraíso na outra vida. Por favor, ajudem-me!

Fonte de pesquisa sobre o pássaro-caramancheiro:

National Geographic edição 124 Cientistas estão estudando o Caramancheiro (Amblyornis macgregoriae) porque ele é parecido com a gente. Para o biólogo evolucionista Jared Diamond, essa espécie é “a mais humana das aves”. É um pássaro capaz de construir uma cabana que lembra uma casa de boneca e fazer arranjos tão artísticos de flores, folhas e cogumelos que bem poderiam servir de modelo para um quadro de Matisse. Alguns sabem cantar simultaneamente as partes do macho e da fêmea no dueto de outra espécie, outros imitam com facilidade a gargalhada estrepitosa da ave kookaburra (Dacelo novaeguineae) ou o ronco de uma motosserra. Para completar, todos são dançarinos. É muito comum na Austrália e Nova Guiné.

2 comentários sobre “QUERO UM PÁSSARO-CARAMANCHEIRO

    1. LuDiasBH Autor do post

      Theylo Victor

      Que bonitinho!
      Tenho a certeza de que irá encontrar alguém muito especial para amar.
      Sei que você merece, pois me parece alguém muito terno, de coração muito amoroso.

      Obrigada por visitar o blog.
      Volte sempre, será um prazer tê-lo aqui.

      Abraços,

      Lu

      Responder

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