QUINZINHO E O CELULAR

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Autoria de LuDiasBH

celu

Quinzinho nasceu numa família extremamente pobre, lá nas bandas de Francisco Badaró, no Vale do Jequitinhonha. Vivia alegrado com a vida que levava, brincando com seus boizinhos de chuchu, mas isso só até o dia em que passou a frequentar a escola rural da região. Foi ali que descobriu que o mundo ia muito além das cercanias da fazenda do Coronel Damião Cunha, que comandava o destino das gentes do lugar. E foi ali que descobriu também que o tempo de cativo já havia passado há muito tempo.

À medida que a cachola de Quinzinho ia acumulando sabença, mil e uma caraminholas passavam a fazer ninho ali. Ao estudar o descobrimento do Brasil, encafifou-se com a coragem dos portugueses que se aventuravam pelos mares em busca de riquezas. E foi assim que também chegou à conclusão de que precisava correr mundo, se possível atravessar o oceano, em busca de fortuna. Não mais se sujeitaria àquela vidinha oprobriosa de vimbunde do Cel. Damião Cunha. Ao terminar o Ensino Fundamental, com o diploma na sacola e 17 anos na cacunda, Quinzinho resolveu correr mundo.

Quinzinho aportou primeiro na cidade de Pasmado, onde arranjou um serviço numa loja de tecidos. Ali ficava a enrolar e a desenrolar rolos de tecidos para as madames do lugar que nunca sabiam exatamente o que desejavam. Mas uma coisa em especial chamava-lhe a atenção: o celular. Ficava embasbacado com os mais diferentes sons que saíam daquelas caixinhas e que faziam com que as mulheres até se esquecessem dos tecidos, e dele também, falando de tudo quanto é assunto. Uma delas, certa vez, falou até numa língua invencioneira, de modo que ele não intrujou nada. Mas era só a caixinha tocar que ele grudava os olhos nela. Até já ganhou pito por isso, quando uma bunduda metida a besta gritou para ele:

– Ei moleque, você não sabe que curiosidade é falta de educação? Vai cuidar do seu serviço.

E ele lá estava preocupado com conversa de ninguém? Só queria era compreender como aquela caixinha funcionava. É fato que já vira um telefone danado de graúdo e preto na casa do Cel. Damião Cunha, mas nunca nem mesmo botara a mão numa coisinha daquelas. E, mais uma vez, jurou para si mesmo que haveria de ter uma.

Depois de um ano na loja, Quinzinho foi convidado para ser o faz-tudo do filho do dono, candidato a vereador. Serviço que caiu como uma luva para as suas ambições, principalmente depois que o novo patrão fora eleito. Antojava-se ao ver o chefe falar de verba pelo celular, usando cifras cada vez maiores. Sua alegria redobrou, quando ganhou uma daquelas caixinhas do dito vereador, para que fosse contatado com mais rapidez. E era “faça isso” e “faça aquilo”, que pouco tempo sobrava-lhe para respirar. Mas o rapaz cumpria todo o mandado, pensando no dia em que seria dono de si.

Quinzinho começou a alçar voo, quando começou a frequentar as reuniões políticas, mesmo que fosse como um cão fiel do vereador. Ali foi aprendendo a verborragia que tomava conta das reuniões. A diarreia, digo, logorreia, varava a noite, de menos quando o assunto era dinheiro, ou melhor, verbas. Não posso omitir que esse também era o assunto preferido do rapaz, já muito chegado às grandezas do grupo político. Ali, considerava-se um deles, ainda que tivesse que entrar mudo e sair calado.

O fato, meu caro leitor, é que Quinzinho tornou-se a cópia fiel do agir de seu patrão. Quando chegava a um ambiente onde houvesse mais de três pessoas, tirava do bolso o celular e começava a falar com Deus e o mundo. O assunto era sempre negócios envolvendo altas quantias de dinheiro. E foi numa dessas que acabou caindo numa esparrela.

Meu primo Roger Vip, testemunha ocular e auricular das demonstrações de grandeza de Quinzinho, contou-me que o moço foi a revelação da noite, numa festa de confraternização do partido. Eis que lá pelas tantas, Quinzinho puxou do bolso do paletó o celular, virou de costas para o grupo, discou e se pôs a falar, agora de frente para os presentes. E assim assucedeu o diálogo:

Oi, mano velho! Desculpe o adiantado da hora, mas eu precisava conversar consigo sobre aquela quantia que lhe emprestei.

–  (Silêncio)

Tudo bem! Sem problemas!

– (Silêncio)

Isso! Pode depositar os cinquenta mil e o resto você deixa para o mês que vem.

– (Silêncio)

Sim, rapaz! Eu continuo interessado naquele cavalo, bicho de raça boa para cruzar com minhas éguas. Negócio fechado. Mas …

Antes de concluir a sua fala, o celular de Quinzinho tocou. E, ele totalmente azabumbado, sapecou:

É nisso que dá tanta modernidade! Depois que botei cinco chips neste celular ele está sempre me dando problemas.

O fato é que, depois dessa, o loroteiro ficou conhecido em todo o Pasmado e passou a ser chamado de Quinzinho Rico. E mais, com a fama adquirida, foi lançado a prefeito pelo partido, para as eleições de 2012… e ganhou.

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