SÁ GERONILDA E A LEGIÃO DO MAL

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Autoria de LuDiasBH

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Quelé e Dasdores poderiam ser considerados um casal comum, iguais a tantos outros que encontramos pelo sertão mineiro, se não fosse pelo destemor que carregavam pelo sobrenatural. Não havia caso de assombração que levantasse um fio de cabelo dos dois. Enquanto os demais presentes se benziam, sobre certas histórias tidas como verdadeiras, eles se estouravam em sonoras gargalhadas. Algumas gentes chegavam a dizer que eles eram assim, desprovidos de respeito pelas forças do mal, porque tinham apadrinhamento com o demo.

Sá Geronilda, irmã mais velha de Quelé, vivia com o casal desde a morte da mãe. Havia oito anos que a coitadinha apanhara um ar de estupor, de modo que perdera o jogo das pernas, tão finas quanto as de uma saracura. Mesmo assim, trabalhava o dia todo, debulhando milho, catando feijão, ralando mandioca, picando verdura ou qualquer outro serviço que não demandasse o uso de forças nos cambitos. Jamais se queixava da vida terrena, mas vivia às turras com aquela que existia além de sua parca razão. A estuporada tinha medo da própria sombra. Um pio de coruja já era um aviso de mau agouro. Portanto, orava dia e noite pelo irmão e pela cunhada, que andavam por aí desafiando as forças do coisa-ruim.

O pequeno quarto de adobe de Sá Geronilda, caiado do teto ao chão de terra batida, era o seu palácio celestial. As paredes brancas traziam gravuras de santos, enfeitadas com papel crepom e cordões coloridos. Um grande crucifixo de madeira envernizada enfeitava a mesinha de cabeceira, tendo ao lado uma jarra de vidro cheia de flores de plástico vermelhas e, na frente, o rosário feito de sementes de açaí. Ali habitava toda a legião do bem. Como sempre dizia, se um não pudesse dar seu adjutório numa determinada hora, logo outro tomava o lugar. E, se a tribulação fosse muito grande, haveria de ajuntar uma dúzia deles para fazer debandar o esconjuro.

Sá Geronilda tratava seus guerreiros com muita deferência. Conhecia todos pelo nome, feitos e especialidades. Antes de dormir, o “Dorme com Deus!” era individualmente distribuído. Além de extremamente devota, trombeteava pelos quatro ventos que homem algum pousara a mão para baixo de seu ombro, de modo a fomentar o desejo da carne. Por isso, aspirava à santidade, de modo a fazer parte de seus queridos companheiros de quarto.

O caso a seguir, em que tomam parte os personagens acima, contado e recontado pela gente do povoado de Brejaúba, sucedeu numa sexta feira da paixão, momento em que os filhotes de Satã ficam à solta, atazanando as criaturas de Deus. Portanto, que ninguém ouse duvidar de sua veracidade, sob pena de puxar para si a latomia do mal.

Quelé e Dasdores tinham ido visitar uma parenta que se encontrava nas agruras das dores do parto. Sá Geronilda recusou-se a acompanhar o casal, alegando que aquele não era um dia para se sair de casa, mas nela permanecer em oração. Ficaria com a sua legião de santos e com os dois cachorros da família, Lerdeza e Lombeira. E assim aconteceu.

Contou Sá Geronilda que tudo transcorria na mais absoluta calmaria, até que os dois cães começaram a ladrar sem alívio, de um modo nunca antes acontecido. Ela, munida de sua cruz, cai aqui, cai acolá com suas pernas esquecidas, resolveu ver o que se passava. O sol, já frio, ia devagarzinho deixando o céu, de modo que a sua luz ainda lhe permitiu ver com exatidão aqueles seres estranhos em frente à casa. Era uma gente para lá de sombria: não falava, não sorria e nem movia um só músculo do corpo descorado feito vela. Ou eles eram almas penadas, ou habitantes de outros mundos, ou enviados de Lúcifer, lá das profundezas dos infernos. E assim permaneceram por um bom quarto de hora: eles encarando ela e ela encarando eles. De repente, o chefe do submundo pulou na frente e deu o comando para que os demais atacassem a estuporada. Foi quando ela gritou por sua legião de santos. Todos pularam da parede e se puserem a lutar contra os malditos. A luta foi encarniçada. Sá Geronilda chegou a temer por seus amigos, já com suas vestes rasgadas e com o corpo cheio de sangramento. Mas os santos venceram, obrigando a legião do mal a desaparecer, deixando uma fumaça fedida para trás.

Quando Dasdores e Quelé chegaram, depois da parenta ter posto mais um cristão no mundo, encontraram Sá Geronilda desmaiada do lado de fora da casa, ao lado de Lerdeza e Lombeira que dormiam um sono solto. Cuidadosamente levaram-na para dentro de seu quartinho, onde encontraram os retratos dos santos descolados da parede e espalhados pelo chão. Assim que voltou a si, ela contou os fatos acima mencionados. Contudo, o casal, depois de conversar com alguns vizinhos, achou por bem levar a parenta para uma consulta com o doutor Apolônio, que chegou à conclusão de que Sá Geronilda tivera uma crise nervosa e arrancara ela mesma as fotos da parede. Será?

A pobre mulher, indignada com seu irmão e sua cunhada, que não acreditaram no que ela havia presenciado, a ponto de levá-la a um homem, que nada conhece das coisas do além, no seu comento jura por todos os seus santos que a batalha foi deveras acontecida. E, em nome da verdade e do bem, vaticina:

Um dia, Lerdeza e Lombeira vão ser abençoados com o dom da fala para contar todo o acontecido. Os meus dois companheiros não haverão de me deixar como potoqueira nesta história.

8 comentários sobre “SÁ GERONILDA E A LEGIÃO DO MAL

  1. Pedro Rui

    Lu
    Eu tenho quatro elementos na minha família, Snoopy, o cão, Branquinho, Boris e Faísca; os três gatos nós partilhamos amor com eles e eles nos dão em dobro. Não custa nada.
    Abraços
    Rui Sofia

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Rui

      E os bichinhos desenvolvem um grande apego a nós, enchendo-nos de amor.
      E, como diz, isso não custa nada.
      Os animais, muitas vezes, são melhores do que gente.

      Abraços,

      Lu

      Responder
  2. Pedro Rui

    Lu, eu também não tenho uma religião específica, através das minhas acções pratico o bem. Ontem tive que dar casa a um casal de gatos e 4 crias, porque os seus donos ficaram sem residência, temos que nos ajudar uns aos outros.
    Um beijo com carinho
    Rui Sofia

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Pedro Rui

      Que gesto bonito.
      Todas as pessoas que possuem amor à natureza e aos bichos são do bem.
      Os bichinhos são criaturas de Deus e precisam do nosso carinho.
      Eu tenho dois gatinhos: Jade e Lulu.
      Amo os bichinhos.
      O importante é o que fazemos de bom neste mundo.

      Abraços,

      Lu

      Responder
  3. Pedro Rui

    Lu realmente acontecem coisas que nós não vimos, mas mesmo assim elas lá estão.Obrigado pelo texto, mostra a fé e o acreditar, logo nos chamam louco. Como tu sabes que eu leio a Bíblia e dizem que eu sou loco,a verdade que lá está escrita é o que está a acontecer, referindo-me à ira de Deus.
    Abraços Lu
    Rui Sofia

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Pedro

      Quanto mais conhecimento tivermos em nossa vida, melhor.
      Devemos viver com sabedoria, sempre evitando qualquer forma de fanatismo.
      O fanático não usa a razão para tomar suas decisões e, por isso, não tem equilíbrio na sua forma de agir, pois vive preso em amarras.
      Eu não tenho uma religião específica, gosto de ler sobre todas e tirar delas o que acho melhor para se viver bem.
      E sei que você faz o mesmo, pois se mostra uma pessoa muito sábia.
      Gosto também de fábulas, pois nos trazem grandes ensinamentos.
      Se ler a Bíblia faz com que você se sinta bem, continue lendo.
      Não se importe com a opinião dos outros sobre si.
      Nem sempre as pessoas entendem-nos.
      O importante é a boa opinião que você tem de si mesmo.
      A sua presença no meu blog tem o enriquecido muito.
      Muito obrigada!

      Grande abraço,

      Lu

      Responder
  4. Paulo Afonso

    Olá, Lu. Não tenho visitado seu site como gostaria por absoluta falta de tempo. Além de escrever três artigos diariamente, ainda adotei uma gatinha. Ela já passava os dias no quintal. Depois, passou a ficar também durante à noite. Chegou o frio e coloquei uma casinha para ela. Adorou. Só sai para comer. E eu fico curtindo a nova hóspede.
    Apareça por lá quando quiser.

    Grande abraço para você e seus leitores.

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Paulo

      Eu sei como é.
      Fico feliz que esteja cuidando de mais um bichinho.
      Bendito seja seu coração generoso.
      Mas sempre será bem-vindo!
      Eu sempre vou lá, embora não comente.
      Amo os bichinhos,
      Às vezes, mais que gente. (rimou)

      Abraços,

      Lu

      Responder

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