SÁ JOANA ERA SÓ ENCANTAMENTO

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Autoria de LuDiasBH

caranca

Sá Joana era uma mulher comprida e arqueada, que parecia carregar todo o peso do mundo em suas costas. Seu rosto ovalado carregava dois olhos desassossegados, que tudo viam; um nariz acurvado, sempre sujo de rapé e uma boca quase banguela, com quatro dentes, sempre em movimento, para cima e para baixo, mascando seus nacos de fumo. Sua idade era indefinida para uma garotinha, que nem sequer era capaz de ter ciência da sua.

As mãos de Sá Joana eram fortes, com unhas chatas e sujas, sempre a carregar um saco cheio de molambos, latas e papéis velhos, que catava aqui e acolá, com a mesma reverência de quem agrega mais uma obra de arte à sua coleção. Os pés grandes e desajeitados, de conformidade com as mãos, estavam sempre metidos em sapatos ou chinelos rotos, dois a três números maiores do que o conteúdo, ou menores.

É-me impossível descrever com um mínimo de exatidão outras partes do corpo de Sá Joana, que só usava camisas ou blusas de mangas compridas, quase sempre masculinas, e um saião que lhe chegava até aos calcanhares. Tampouco sei quem lhe arranjava tais trajes. Mal suas roupas começavam a esfrangalhar, lá aparecia ela com uma vestimenta diferente, mas com a mesma “modernidade” da anterior. O estilista parecia ser sempre o mesmo.

Os cabelos de Sá Joana só andavam envolvidos por um pedaço de pano opaco. Pelos fiapos que se libertavam da prisão do lenço, posso concluir que eram pretos de nascença ou de sujeira. Pois nós, crianças sapecas, achávamos que nossa querida personagem só tomava banho quando chovia.

Nunca soube como surgiu o boato de que Sá Joana pegava toda criança malvada e a botava debaixo de seu saião para ali morrer. O mais engraçado é que a morte não se dava por asfixia, mas pela catinga que de seus quartos emanava. A vítima caía durinha no chão, depois de poucos minutos, e nada havia que a ressuscitasse. Dizem que foi assim que ela matara cinco de seus filhos, enquanto os outros três caíram no mundo, para se salvarem. Para meu espanto, soube depois que tudo era invencionice, pois nossa musa nunca tivera um companheiro e tampouco filhos. E que era virgem como nasceu.

Do que me lembro com bastante nitidez é que bastava alguém gritar: “Lá vem Sá Joana pegar criança má!”, para sairmos em debandada, feito um bando de cavalos selvagens, morro abaixo ou acima, muito mais por divertimento do que por sobressalto. Caíamos nas ladeiras, rasgávamos as roupas, perdíamos chinelos e… ganhávamos muitas surras e castigos. Mas nada era capaz de deter a avalanche de emoção e deleite diante do suposto perigo.

Sá Joana ria, ria, e ria com sua boca desdentada, de onde se desprendia uma goma de fumo, remexendo o saião de um lado para outro, compactuando com a nossa brincadeira e sempre se mantendo a certa distância, para nos dar a impressão de que jamais conseguiria nos pegar. Nós éramos os seus heróis e ela a nossa Joana d`Arc, ainda que representasse, nas brincadeiras, a guerreira inimiga.

Sá Joana sumiu durante uma semana, embora a procurássemos por todos os lados, até que tivemos notícias de que fora internada com pneumonia. Não tínhamos muita ideia do que era tal doença, mas esperávamos com impaciência seu retorno às nossas brincadeiras.

Sá Joana morreu. Vestiram-na com um longo vestido lilás, deixando apenas seu rosto de fora. Encheram o caixão com camélias, cravos e rosas. Nós, crianças, seguíamos logo atrás do féretro, carregando buquês de flores, enquanto a bandinha tocava atrás de nós, seguida por quase toda a população da cidade. Foi o mais próximo que estivemos de nossa Joana d’Arc. Nunca mais nossa vida de criança voltou a ser a mesma.

Hoje, passados muitos anos, olho para o céu e nomino uma estrela com o nome de Sá Joana. E fico esperando que ela me mande alguma mensagem. Mas estrelas não falam. Elas só ouvem. Converso com ela e lhe conto como vai minha vida e como andam os descaminhos do mundo. Então, ela pisca em assentimento. E eu me sinto em paz, apesar da saudade.

Nota: Cabeça de Velha Camponesa (1564)- Pieter Brugel

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