SANTO ANTÔNIO NA CABEÇA

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Autoria de LuDiasBH

santan

Manelzinho já nasceu dono de si. Com ele não tinha essa de horário para mamar. Quando cismava de ordenhar a mãe, aprontava um berreiro tão grande que retumbava em toda a pracinha de Arandaí, a ponto de parar missa, interromper ordenança na delegacia e interferir no sono do prefeito e de sua vereança, a qualquer hora da noite ou do dia.

O moleque foi crescendo livre como um bichinho desembestado, assim como também cresciam os seus ataques de nervos, o que para muitos era falta de uma boa pirata. O que não era bem verdade, pois, dona Emilina, genitora do pixote, gostava de botar tudo nos eixos e não foi por falta de umas boas rebordosas que o tormento bípede não se endireitou. A coitada da mulher há muito deixara de fazer ou receber visitas, temendo as traquinagens do infeliz, pois, aonde Manelzinho chegava o marasmo saía correndo amedrontado. Escarafunchava coisas, escangalhava o que estivesse funcionando e deixava suas impressões digitais em tudo que fosse substantivo concreto. Quando nada tinha para aprontar, ficava zanzando na rua atrás de quem lhe desse um dedo de prosa. Se recebia atenção, aboletava-se num canto qualquer e ali ficava que era só ouvidos.

Manelzinho crescia carregando tamanha intimidade com os números que fazia contas no ar, enquanto as pessoas ficavam matutando com os centavos e os inteiros. Por causa dessa sabença foi ganhando fama em Arandaí. Ajudava no balanço das biroscas, do açougue, das duas pequenas lojas de tecido, sem jamais negar obséquio a quem quer que o procurasse. Se alguém dissesse que foi o Manelzinho quem aferiu seu pagamento, estava dito e ponto final, pois o rapazote nos seus quatorze anos botava até os contadores formados no bolso de suas calças de pegar frango. Não só entendia de juros simples como de compostos. Quando lhe perguntavam como fazia tais cálculos, ele se limitava a responder:

– Sei lá! É tudo pro rumo!

Não me pergunte o leitor como, pois não sou de ficar xeretando a vida de ninguém, mas o fato é que Manelzinho foi parar na capital mineira. Com dezoito anos já era gerente da Padaria Popular e aos vinte bandeou-se com dois amigos para os Estados Unidos da América onde viveu 11 anos, entre pratos e camas de madames.

Há cerca de um mês, tive o prazer de reencontrar meu ex-colega de escola, resfolegado dentro de uma pequena piscina de hidromassagem em Caldas Novas (Goiás). Depois de efusivos cumprimentos, contou-me sobre suas andanças pela Europa, visitando museus de arte. Falou-me, sobretudo, da emoção que sentiu ao visitar o quarto onde Van Gogh viveu seus últimos dias, em Ausvers-sur-Oise, vilarejo francês. Em suma, Manelzinho inspirava e expirava cultura por todos os poros. Nada havia nada nele que me trouxesse à mente aquele menino de outrora.

Conversa vai, conversa vem, eis que entra na piscina, onde Manelzinho e eu nos encontrávamos, um senhor de cabeleira farta e sedosa, preta como as asas da graúna e que fazia uma inusitada composição com suas sobrancelhas brancas como as penas de uma cacatua. Mas não alegrado com o calor da água que o envolvia até o peito, o dito senhor achou por bem refrescar toda a sua plumagem com mergulhos incessantes, num abaixa-e-sobe sem sair do lugar. Como a água começasse a esfriar, meu amigo e eu optamos por mudar para uma piscina mais quente. Ele se enroscou no seu roupão de mil fios egípcios e lá fomos nós. E foi aí que Manelzinho voltou às suas origens, ao se deparar com seu chambre de altíssima qualidade, todo manchado de preto em razão da água pardacenta que emigrava de seu short de surfista.

A princípio, meu amigo pensou em acionar o hotel por perdas e danos. Já até calculava no ar o valor de sua primorosa peça estragada. Para tanto, voltamos ao local do crime para colher evidências para o processo. Mas seus cifrões demoraram no ar até o momento em que descobriu que a cabeleira negra como as asas da braúna de certo senhor encontrava-se toda manchada de branco e preto, e por seu rosto e pescoço escorria um caldo escuro, que ia lambuzando tudo por onde passava.

Manelzinho mostrou ao réu o seu roupão manchado. Ele se desculpou, dizendo se tratar de uma pintura recomendada por seu cabeleireiro e comprada na Itália na sua última viagem. Iria processar a marca italiana e dividir com ele o ganho. Para tanto, pediu-lhe que passasse o seu endereço para contato. Mas o amigo do dono da cabeleira preta como as asas da braúna, que tudo acompanhara em silêncio, contou-nos depois, confidencialmente, que a pintura fora feita com Tablete de Santo Antônio, sendo os cabelos domados com chapinha. Mui amigo!

Tendo perdido todo o seu verniz artístico das telas de Leonardo da Vinci a Picasso, meu amigo foi à gerência do hotel relatar o ocorrido. Disse que só perdoaria o sucedido, se o Thermas Boulevard Hotel passasse a exigir que os hóspedes só entrassem nas piscinas, se usassem tinturas capilares quintessenciadas. E arrematou:

– Agora eu sei o porquê de o pobre Santo Antônio ter ficado careca!

Tamanho foi o fricote de Manelzinho que no dia seguinte, quem passasse pelo saguão do hotel deparava-se com um vistoso aviso, onde se lia:

Senhores hóspedes, pedimos-lhes não entrar nas piscinas com Santo Antônio nacabeça.”

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