SÃO SEBASTIÃO E O TRAVESTI

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Autoria de LuDiaBH

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Lenqué era o neto mais velho de Sá Jerosina da Bitaca. Ela o criara desde que era um periquitinho despenado, ainda enrolado nos panos de saco. O chicuta era tão doentinho e magro que fora dos enrolados só era possível lhe ver a cabeça. E que cabeça, meu Deus! Ainda por cima sem um fiapo de cabelo para fazer um remédio sequer. Sua mãe, já com um magote de catarrentos, mal tinha folga para cuidar do bruguelo, que mais parecia um filhote de cruz-credo. Atribulada com a desgraça do pixote, Sá Jerosina levou-o para sua casa e por ele foi tomando benquerença.

O rebento magriço já tinha sido desenganado pela parteira inhá Celuta, por Zé da Farmácia e pela benzedeira Sá Tiana. O médico, doutor Bezerra Silva, que visitava a região a cada dois meses, falou para Sá Jerosina que aquele era um causo inglório, pois remédio algum poria aquela cria para cima. Até o vigário, padre Gerosvaldo, já vinha preparando a avó para o desenlace. Seria mais um anjinho na corte celestial, motivo de orgulho para a família. Mas Sá Jerosina, que havia pegado aquele inhambuzinho desde que dera seu primeiro piado, não se dava por vencida. Haveria de lhe tirar aquele chiado do peito e o catarro da goela. Haveria de lhe engrossar as perninhas de graveto e tirrar a abirritação de seu corpo. Pensando assim, andava rua acima e rua abaixo à procura dos matos santos. E é bom que se diga que, além de consagrar o menino a Nossa Senhora dos Remédios, todos os dias ia à igreja pedir a proteção da comadre.

Para combater a asma, Sá Jerosina fazia uma infusão de alho, asplênio, agrião e hortelã, à qual ajuntava mel de abelha Pinto de Velho. Para o catarro, fazia o molequinho engolir, três vezes ao dia, uma ponta de garfo de banha de galinha caipira ou de capivara. E, para combater seu raquitismo, dava-lhe chazinhos de flores de amor-perfeito-bravo com folhas de nogueira e cardo-santo. Após o banho quente, fervido com casca de cebola e folha de laranjeira, friccionava o corpinho chuchado com azeite. A comida era a que Deus pusesse em casa, mas o pirão de fubá ou de farinha de mandioca com mostarda nunca faltava no prato. Ela fazia uma papinha e ia enchendo o fole do entibiado.

O fato é que Lenqué foi ficando taludo, pegando cor e pondo risada naquela carinha mal feita. A cabeça continuava graúda, mas Sá Jerosina até ficava alegre com ela, pois todo mundo dizia, inclusivamente o vigário, que cabeça grande era sinal de agudeza. O tempo passou e o menino, cada vez mais viçoso, entrou na escola para aprender as primeiras letras, além de acompanhar a avó toda noite até à igreja, onde agradecia a madrinha, Nossa Senhora dos Remédios, que lhe salvara a vida.

Já nessa época, Lenqué era chegado às coisas de Deus. Se deixassem, dormia e amanhecia na casa do Senhor. Logo recebeu o ofício de ajudante de coroinha. Certo dia, quando o bispo, autoridade máxima do mundo do Criador, em sua cabeçorra de menino inocente, esteve por lá e segurou sua mãozinha entre as suas, com anel e tudo, o pirralho sentiu-se o mais importante de todos os cristãos da face da Terra, embora seu mundo se reduzisse à sua cidadezinha. Não mais queria apertar a mão de ninguém com medo de sujar a bênção recebida, pois quem cuida tem para toda a vida.

Embora Lenqué tivesse grande amor por sua madrinha santa, o que mais o impressionava era ver São Sebastião com aquelas flechas pelo corpo e o sangue escorrendo de suas ulcerações. Muitas vezes, punha as mãozinhas nas feridas, tentando minguar a dor do sofredor. Não conseguia entender como poderia haver tanta ruindade no mundo. Quem fez aquilo só podia ser um desalmado, um filho do demo. E assim, profundamente compadecido, resolveu ser também um mártir, para fazer companhia ao santo torturado.

No catecismo, Lenqué aprendera que muitos mártires mergulhavam-se em azeite fervente ou recebiam flechas no corpo, assim como seu santo, ou passavam longos dias em jejum, ou flagelavam o corpo com cintos e correntes, ou saíam pelo mundo. sem coisa alguma, pregando o Evangelho de Cristo. Teria que escolher qual seria o seu martírio. Azeite quente era muito doído, pois já queimara o dedo certa vez; flechas, graças a Deus não existiam por lá; era muito magro para ficar sem comer e sua avó não iria gostar de sua magrém, e era muito novo e sem sabença para sair pelo mundo pregando o Evangelho. Sobrou-lhe o cinto e as correntes que, por sorte, sua irmã tinha em casa, numa caixa de sapato.

Lenqué tomou emprestado o cinto de couro e as correntes (colar e pulseiras em elos, feitos de latão) da irmã, sem lhe dizer nada. Achava que a boa causa justificava sua ação. E lá se foi o molecote para a igreja, botar-se perto de São Sebastião. Pegou sua roupa de coroinha, para dar mais significância ao ato, atarraxou a cintura com o cinto e pôs no pescoço e nos braços as correntes, o mais apertado que conseguiu. Ficou ali ajoelhado, em arroubamento, até cair no sono.

Lindinelson, o irmão dois anos mais novo de que Lenqué nos seus sete, companheiro de santidades e diabruras, resolveu sair à procura do desaparecido. Eis que, ao encontrar o irmão dormindo com aquela indumentária e ornamentos, saiu estabanado, gritando pela rua, à procura da avó Jerosina:

– Voooooooooó, o Lenqué virou travesti!

Sá Jerosina não entendeu aquele palavreado escalafobético de seu neto e não lhe deu nenhum assunto. Mas o moleque insistiu, com os olhos esbugalhados, quase pulando das órbitas:

– Vó, eu tô falando de homem que vira de mulher, de macho-e-fema.

Arreliada com a inquietação do neto, Sá Jerosina logo pôs fim ao falatório:

– Diabo de menino, veja se põe tenência nesta sua cachola, pois tudo quanto é santo se veste de mulher, passa até batom na boca e breia a cara com carmim. E o que é que tem isso? Vá caçar serviço, moleque!

E Lenqué continuou no seu sono generoso,  ao lado de São Sebastião, com a certeza absoluta de que prestava solidariedade ao mártir.

18 comentários sobre “SÃO SEBASTIÃO E O TRAVESTI

  1. Reini Dantas Leal

    Kkkkkkkk
    Lu, você me fez lembrar dos causos dos nossos conterrâneos do nordeste mineiro!
    Muito bom!

    Bjos

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  2. Manoel Matos

    Lu

    Ri até chorar. Gosto muito quando você conta causos que têm a cara do Vale do Jequitinhonha. Que venham muitos outros. Não sabia que existia o dia Internacional do Riso.

    Bejos

    Nel

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Nel

      O interior mineiro tem seu jeito bem peculiar de contar casos.
      Adoro visitá-lo e ficar horas a fio ouvindo as histórias.

      Abraços,

      Lu

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  3. Patrícia

    Lu,

    tive muita dó de Lenqué (nome danado de estranho tive que reler duas vezes, rsrsr) o pobre do menino tomou mais de sete ervas diferentes. Pensei, ou morre ou vira raízeiro. Até o banho era preparado… rsrsr. Santa avó . Só ela para explicar este final.

    Beijos

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Pat

      Sá Jerosina lutou muito para salvar Lenqué.
      Foi muito mato, mesmo… risos.
      E o menino tinha um coração danado de bom.
      Mas até eu rio muito, enquanto escrevo.

      Abraços,

      Lu

      Responder
  4. Matê

    Lu,
    Repito: toda vez que você usa esses regionalismos, acho uma delícia.
    Rir é o melhor remédio.
    Abraços,
    Matê

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Matê

      Esses regionalismos são bem engraçados.
      Eu mesma caio na risada, enquanto escrevo.
      Rir é mesmo o melhor remédio.

      Beijos,

      Lu

      Responder
  5. GERALDO MAGELA CORDEIRO

    Cara Lu,
    História inteligente e criativa, usando termos próprios do local e com um final muito engraçado.
    Parabéns!

    GERALDO MAGELA

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Magela

      A sua presença é sempre motivo de alegria.
      Volte sempre, pois tenho ainda muitos causos para contar.

      Abraços,

      Lu

      Responder
  6. Adevaldo Rodrigues

    Lu,

    Coitado do catarrento, coitado do Lenqué. Com esse nome o destino dele estava traçado.
    Ri como nunca e fiquei pensando nos Robérias, nos Zés Mocinhas e outros.
    Gostei do papo final quando Sá Jerosina diz que todo santo passa até batom na boca e breia a cara com carmim. Porque os artistas os pintam assim? Será que eles querem mostrar seu lado feminino.

    Abraço e obrigado pelo presente no Dia Internacional do Riso.

    Devas

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Devas

      O Pepeu Gomes disse que Deus é menino e menina.
      Os santos, portanto, também o são… risos.

      Quanto aos pintores, isso variava de acordo com época e com o estilo a que pertenciam.
      Há retratos em que até os bebês estão todos breados.. risos.

      Pois é, o coitadinho do Lenqué (rimou) só queria ser solidário a seu São Sebastião.
      Mas Lindinelson já conhecia as maldades do mundo… risos.
      Ainda bem que Sá Jerosina era cheia de pureza, uai.

      Feliz com a sua participação.

      Abraços,

      Lu

      Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Mário

      Acho que o nome precisa ser de acordo com o causo.
      Lenqué tem tudo a ver com o coitadinho do conto.
      No interior ainda existem avós dedicadas com Sá Jerosina.
      Para ela, só interessava ver seu pimpolho vivo.

      Abraços,

      Lu

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  7. Ana Lucia

    Lu querida,

    Você sempre brilhante nos seus causos. Que o seu dia seja repleto de risadas.
    Grande abraço.
    Ana

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Aninha

      Que bom “vê-la” por aqui!
      O que significa que o Fernando e sua mãe estão bem.

      Muitas risadas para você também…risos.

      Beijos,

      Lu

      Responder

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