SÍNDROME DO PÂNICO – EXPLICANDO AO FILHO

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Autoria de Anna Paula Mattos

Minha história é como a de muitos aqui, cheia de profundo sofrimento.

Estava eu de férias, na praia com minha família, no início do ano. Estava tudo lindo, mas ao sair do mar tive um ataque de pânico. Visão turva, falta de ar e a sensação de morte, porém isto não foi o pior, pois após o ataque veio aquilo que minha médica chama de “ressaca pós-crise de pânico”.

Eu senti um vazio imenso, um medo tremendo, lágrimas que não paravam de vir e uma vontade de não viver mais, uma coisa horrível. Corri para o psiquiatra que me receitou fluoxetina, mas ao aumentar a dose não me explicou como devia tomar e eu, leiga no assunto, fiz uma super dosagem. Passei esse dia todo na cama, a voz não saia direito, meu corpo tremia e meu pai que é meu melhor amigo, permanecia ao meu lado, ouvindo da própria filha dizer que ela queria morrer.

Troquei de psiquiatra e também de medicação. Comecei a terapia e hoje posso dizer que minha vida já começa a caminhar para frente. Tenho um filho lindo de 10 anos e fui muito sincera com ele. Expliquei-lhe que eu tenho uma “doença” que não pode ser vista a olho nu, mas somente sentida. Disse-lhe que às vezes ele me veria chorar, mas que nesses dias eu precisaria de muitos abraços e carinho, pois esse seria “nosso remédio”. E assim foi feito. Ele entendeu perfeitamente. Percebeu que sua mamãe não chorava por causa dele e que ele, como parte de sua linda família, iria ajudá-la. Já se passaram 10 meses da crise mais forte da minha vida, mas posso dizer que não desejo esta dor a ninguém.

Todos nós, portadores de transtornos mentais, precisamos saber que a vida continua, temos que ter forças ao passar pelos momentos mais difíceis (sei que parece impossível), mas essa força nos ajuda a seguir em frente. E isso nos torna seres humanos melhores e mais sensíveis aos outros seres. Quando conheço alguém, que não tem vergonha de dizer que está passando por um problema psíquico, eu me solidarizo com ele, como se esta pessoa fosse da minha família. Sinto um orgulho enorme dela, pois sei que está lutando pela sua vida e está se fortalecendo e se transformando em alguém muito mais humano.

Ao final, tudo dará certo. Não devemos contar os dias para a cura (todos fazemos isso), mas viver um dia após o outro. Certamente uns dias serão bons e outros ruins, até mesmo de dar medo, mas todos passam. Tenhamos fé em Deus, na nossa família e principalmente em nós mesmos, pois todos nós somos capazes de vencer a batalha e encontramos  a paz.

Por aqui, comigo, a vida continua seguindo. Consegui um emprego novo onde me encontro muito feliz, vivendo um dia de cada vez, às vezes com pequenas angústias, mas isso é a vida. Sei que o que precisar encontro aqui no blog, conversando com os amigos e amigas de luta. Somos uma família POP e estamos sempre dispostos a ouvir e compartilhar os nossos desacertos e vitórias.

Nota: a ilustração é uma obra do pintor Edvard Munch.

11 comentários sobre “SÍNDROME DO PÂNICO – EXPLICANDO AO FILHO

  1. Juliana

    Anna

    Eu me solidarizei com o assunto, pois passei por essa experiência na infância juntamente com minha mãe que na época sofreu muito com a síndrome do pânico. Sempre fomos muito ligadas, e mais ou menos entre os 8 e 9 anos eu acompanhei de perto toda a doença vivida por ela. Foi muito sofrido para mim. Passei a sentir tudo que ela dizia sentir, falta de ar, nó na garganta, pontadas na cabeça. Tudo isso mais aquele medo de perder minha querida mãe!

    Até hoje sinto o reflexo de tudo que passei. Eu me tornei uma adulta insegura e ansiosa e faço tratamento com antidepressivos! Sei que já é difícil lidar com essa doença, mas cuidem para que seus filhos não absorvam tanto! Eles sofrem com a gente!

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  2. Joselaine

    Lu e Anna,
    como esse mal acaba acarretando problemas a toda família, eu agradeço muito você, Lu, pois só comecei a tomar o meu remédio depois de ler muitos comentários em seu blog e a segurança que você passa ao dizer que teremos melhora, tomando o remédio.

    Anna agradeço suas palavras também.

    Beijos

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Jose

      Nada a agradecer. Somos uma família que se ama muito, são uns ajudando os outros. Obrigada pelo seu carinho.

      Beijos,

      Lu

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  3. Joselaine

    Anna

    Eu também passo por esse transtornos, estou tomando 15 mg de escitalopram e fazendo terapia. O primeiro psicólogo me aconselhou a explicar ao meu filho que tem 10 anos, porém, mesmo explicando com sutileza e sem aprofundar, como tive muitos sintomas antes de ser medicada (como choro, vômitos, falta de ar e todos que conhecemos) infelizmente meu menino adquiriu pânico comportamental. Não sei se já escutou falar sobre isso. Levei-o ao psquiatra pois não queria mais sair, tinha medo de tudo, a toda hora pedia para eu sentir o coração, etc, mas vai para escola e aonde eu e meu marido estamos. O psiquiatra me disse que não era caso para medicação, mas para terapia, pois se comportava como se tivesse sintomas do Pânico, um medo inconsciente de me perder e não por falta de seretonina como nós temos.

    Descrevo minha história, pois o psquiatra me disse que, quando expliquei que estaria passando por uma doença não exposta, ele, na sua infantilidade, criou um medo dessa doença não cessar. Hoje ele está fazendo terapia e eu, em meus momentos de angústia ou medo, tento não passar para ele, para não se desestabilizar.

    Beijos

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Joselaine

      Vou pedir licença a Anna, pois sei que ela ainda irá lhe responder, e dizer-lhe que concordo plenamente com o psicólogo. Nós temos o costume de achar que criança é boba, mas, contrariamente, ela capta tudo, não tardando a perceber que a mãe (ou pai) anda a chorar, sofrer… O bebê de dois anos e meio de minha prima que passa por depressão, perguntou-lhe se ela estava “dodói”, porque só ficava chorando e se era por ele ser “um menino mau”. Sou, portanto, totalmente favorável ao fato de que a mãe (ou pai) conte aos filhos o que está lhe ocorrendo, usando uma linguagem de acordo com a idade de cada um.

      Jose, pode acontecer que a criança venha a reagir como seu filho, por ser ele muito sensível, assimilando o corportamento do genitor com transtorno mental. O tratamento, porém, será muito mais produtivo agora, do que se ele observasse o seu sofrimento, guardasse-o na memória e levasse-o para o futuro. Quando criança, eu via minha avó materna sempre chorando, sentadinha num canto, mas nada compreendia. Depois o mesmo aconteceu com minha mãe. Penso que teria sofrido menos se me tivessem explicado. Quando também fui vitimada pelo mesmo transtorno, jamais o escondi.

      Um segundo problema que vejo, quando os pais escondem tais fatos dos filhos, é a possibilidade de eles ficarem sabendo por outrem, o que é muito mais grave, ainda mais num mundo ainda preconceituoso em relação às doenças mentais. Imagine um priminho ou um colega de escola dizendo: – Sua mãe é doída!

      Um grande abraço,

      Lu

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      1. Joselaine

        Foi o que disse ao final, não estou contrariando, apenas dizendo o que estou vivendo. Concordo com todos em tudo, transtornos mentais, para mim são como reações do remédio, cada um tem um tipo. De coração acho maravilhoso a reação do filho da Anna, apenas comentei a reação do meu filho para ficarem atentos.

        Beijos

        Responder
        1. LuDiasBH Autor do post

          Joselaine

          Você não tem ideia de quanto o seu comentário é importante, ao mostrar o comportamento de seu filho, após conversar com ele. Os pais precisam estar atentos a essa diversidade, pois somente assim saberá lidar com ela. E este é o objetivo deste espaço: trazer experiências diversas, vistas sob diferentes prismas. Cada experiência relatada é de suma importância.

          Amiguinha, você não está contrariando em nada, só enriqueceu o debate, ao trazer um fato diferente e de interesse de todos os pais. Ainda que o seu filho esteja fazendo terapia agora, acho que agiu acertadamente ao conversar com ele, pois está tratando o problema na raiz. Imagine se isso fosse explodir quando ele se encontrasse adulto… Continue nos trazendo novas informações.

          Beijos,

          Lu

    2. Anna

      Joselaine

      Entendo a situação que passou com seu filho, mas deixo aqui o que a minha psicóloga diz para mim: “Somos seres únicos, que sentimos a vida e temos percepções diferentes dela.”. Acredito, sim, que cada criança reage de uma forma e tem jeitos diferentes de expressar os seus sentimentos.

      Meu filho é realmente muito apegado a mim e no dia da minha primeira crise de pânico, quando comecei a sentir a “ressaca pós crise”, eu me tranquei na varanda do apartamento e comecei a chorar muito, na verdade me escondi para que ele não me visse e essa foi a pior coisa que fiz. Ele começou a me procurar e não me achava, foi até meu marido chorando e disse que eu tinha sumido, quando sai da varanda ele estava em desespero. Prometi para mim mesma que não faria isso novamente e que a melhor forma dele entender era explicar com amor o que aconteceu comigo e esclarecer que nada tinha a ver com ele, e a parte dos abraços e beijos como remédio foram a forma de inseri-lo no meu tratamento, fazer ele ver que o Amor pode, sim, ser uma forma de ajudar, e mais que isso, foi esse gesto que me deu forças para seguir em frente.

      De vez em quando ele sente ansiedade, quando tem uma prova ou um trabalho para apresentar, mas como criança não consegue explicar o que sente, e nestes momentos mostro para ele que sinto isso, em grau mais elevado, e tento ajudar da minha forma para que ele entenda que é um sentimento normal, mas que precisa ser controlado por ele. Nunca escondi dele que passo pelo psquiatra nem que faço terapia, e quero que ele converse livremente com os amiguinhos dele sobre isso, pois acredito que somente assim podemos quebrar os estigmas e preconceitos destas “doenças”.

      Deixo aqui meu abraço carinhoso para você e seu filhinho, com a certeza que tudo dará certo.

      Beijos

      Anna

      Responder
  4. LuDiasBH Autor do post

    Anna

    Explicar aos filhos o que está acontecendo é realmente difícil, principalmente quando são pequenos. Eles estão acostumados a ver no pai e na mãe um porto seguro e, ao ver um deles desmoronar, o mundo também cai para eles. Se uma explicação não for dada, a criança, principalmente, passa a achar que seja ela a causa do problema, tornando-se arredia, introspectiva e triste. Por isso, achei maravilhosa a maneira como conversou com seu filhinho, fazendo com que ele compreendesse o que estava acontendo consigo e também levando-o a sentir-se importante no seu processo de tratamento. Sei que muitos portadores de síndrome mental terão no seu texto um belo exemplo. Parabéns1

    Abraços,

    Lu

    Responder
    1. Anna

      Lu,

      Obrigada por publicar meu humilde desabafo, saiba que nos momentos de crise, quando me sentia mais perdida do que nunca, suas palavras sempre foram um carinho e conforto para minha alma, você realmente faz parte da minha vida e recuperação (por mais que não há conheça pessoalmente)
      Se meu depoimento puder chegar ao coração de alguém e ajudar esta pessoa já me sinto realmente muito feliz. Obrigada novamente pelo carinho que tem com todos aqui.

      Mil beijos

      Anna

      Responder
      1. LuDiasBH Autor do post

        Anna

        Todos vocês que aqui chegam são muito importantes para mim, tanto é que passam a fazer parte da minha família. E como eu amo esta nossa família que cresce cada vez mais! Gosto de acolhê-los e abraçá-los (ainda que virtualmente) com muito carinho, dizendo-lhes:

        – Sejam POPs! E não esmoreçam nunca!

        Beijos,

        Lu

        Responder

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