SUA MULHER DORME COM UM GATÃO

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Autoria de LuDiasBH

paro

Há cerca de um ano atrás, recebi uma correspondência, via correio, num envelope pardo, dirigida a meu escritório. Antes de abri-la, olhei o nome e o endereço do remetente. Não reconheci nenhum e nem outro. Talvez fosse alguém em busca de emprego na minha pequena loja de roupas masculinas. Sem nenhuma curiosidade e com afazeres mais urgentes, deixei o envelope para ser aberto mais tarde.

O fato é que fui para casa sem abrir a tal missiva. E lá pela madruga acordei matutando sobre os negócios: compras feitas para o Natal, prazos a vencer, mercadorias a serem repostas, contatos e mais contatos a fazer e uma bendita cirurgia de peeling e lipoaspiração que minha mulher teimava em fazer, embora nada tivesse para ser removido, a não ser seu QI de vaidade. E nesse vai e vem de pensamentos entrou a tal carta.

Lembrei-me de que a única pessoa que ainda me mandava cartas era o pároco da cidade onde nasci e me criei, principalmente na época de Natal, pedindo donativos para seus pobres. Fora disso, havia muitos anos que não recebia umazinha. Eram e-mails para lá e para cá, resolvendo tudo que fosse necessário. Até os pedidos de emprego eram via internet, acompanhados do currículo. Fato que me aguçou a curiosidade sobre aquele envelope pardo.

 No dia seguinte, mal me assentei na minha cadeira do escritório, procurei apressado o tal envelope e o abri com impaciência. Havia dentro uma folha de papel almaço dobrada em duas partes que, pelo amarfanhado, via-se que tinha alguma coisa colada. E lá estava uma maldita carta anônima, ou melhor, um bilhete apócrifo. As letras que compunham a mensagem foram retiradas de revista e eram coladas toscamente. Eis a mensagem:

Senhor Romualdo, trate de mudar o grau de suas lentes, pois sua mulher está dormindo com um gatão negro, bem nas suas fuças, capaz de fazer qualquer fêmea morrer de inveja. Fato que acontece todas as tardes, enquanto o senhor se esborracha no trabalho.

O leitor deve estar pensando que eu não deveria dar a mínima para fofocas anônimas. Também já pensei assim, mas quando a arenga diz respeito a nossa vida, agimos totalmente diferente. Então fiquei fulo de raiva, como quem pensa que onde há fumaça há fogo. Ou que não se deve confiar nem mesmo em quem divide a cama consigo. Como agir diante de tal mexerico era o x da questão.

Pensamentos fervilhando por minha cabeça. Agora sabia por que meus amigos estavam me olhando constrangidos. E por que meus funcionários riam às minhas costas. E por que Leonídia queria fazer a tal cirurgia de peeling e lipoaspiração. Ela queria ficar sedutora para seu amante. E eu, pobre cornudo, só trabalhando feito burro de carga, para dar boa vida à mulher. Bem que ela só ficava elogiando os jogadores negros, chamando-os de deuses de ébano. Já chegou a me dizer que quase se casou com um belo angolano, antes de me conhecer. Eu era mesmo um babaca, um QI de ameba. Todo aquele seu excesso de carinho não passava de um despiste. Poderia até estar colocando chumbinho na minha comida. Nada como um marido morto para deixar a herança e o campo livre.

Criei coragem e falei com meu melhor amigo, Jodelmo, que me aconselhou a botar um detetive e não comer mais em casa, pois poderia estar correndo perigo. Conselho dado, conselho aceito. O difícil era explicar para minha mulher o porquê de estar comendo fora. Desculpei-me, dizendo que eram os festejos natalinos que não me permitiam estar em casa na hora do almoço. E o jantar? – inquiriu-me ela. Estava fazendo regime para a festa de Ano Novo, foi a minha resposta.

Só tomava líquido que eu mesmo preparava. E o detetive não me trazia nenhuma novidade. O amásio deveria estar viajando. Eu estava ficando zureta, pois Leonídia andava cada vez mais carinhosa e companheira. O que não faz a dor de consciência numa mulher? Imprimi à minha esposa o primeiro castigo, antes de obter qualquer prova da traição: não lhe dei dinheiro para fazer suas cirurgias, assim como cortei seus cartões de crédito. No princípio, ela ficou chorosa, mas aleguei que os negócios estavam mal e ela aceitou bem os fatos. Coisa de quem tem culpa no cartório.

Passei a dormir na sala, dizendo que estava com insônia e que, nas poucas horas em que dormia, roncava muito e que eu não queria perturbá-la. E, para dar o xeque-mate, passei a sair com a minha secretária, também casada. Chumbo trocado não dói, ensinara-me Jodelmo. Pelo menos eu iria me aliviando, enquanto não saísse o veredito do detetive.

Minha mulher desconfiou de que havia algo errado. Como são espertas as mulheres! E também colocou um detetive para me seguir. Antes que o meu investigante me trouxesse qualquer informação, o dela flagrou-me em várias situações impossíveis de serem explicadas. Ela me pôs para fora de casa por traição e entrou com o pedido de divórcio. Contei a meu advogado que ela também me traía. Ele me pediu provas. Eu não as tinha. Então que calasse o bico, senão ainda levaria nas costas um processo por difamação, pois carta anônima não serve como prova jurídica.

Seis meses após a separação entre Leonídia e eu, tive notícias de que Jeremias, um ex-empregado que eu pegara roubando e demitira por justa causa, andava zombando de mim, todo satisfeito por ter se vingado do vexame que lhe fizera passar. O leitor já deve ter intuído sobre qual foi a sua vingança. Isso mesmo, ele me enviou aquela fatídica carta apócrifa num envelope pardo. E pior, o sacana foi embora para a Índia.

Procurei minha ex-mulher para lhe contar tudo e lhe pedir para retomarmos o nosso casamento. Ela me mandou tomar naquele lugar importante para o corpo, mas horrível para ser lançado. Disse-me que esqueceria tudo, até a minha desconfiança em relação a ela, mas que não poderia perdoar o fato de eu lhe ter negado o dinheiro do peeling e da lipoaspiração, e ter lhe cortado os cartões. Pois, nenhuma mulher perdoaria aquilo. Disse-me, ainda, que o único gato negro com quem dormia todas as tardes era o seu bichano Deco José, que por sinal era muito carinhoso e bem melhor do que eu.

Pois é, amigo leitor, este é o segundo Natal que passo sem o cheirinho de lavanda de minha Leonídia, enquanto seu gatão dorme nos seus braços, não só à tarde, mas durante todas as noites. Desejo que a minha confusa história sirva de lição para os marmanjos, que se julgam muito espertos. Com mulher não se brinca, elas são muito mais hábeis do que nós. Ou melhor, elas são clarividentes.

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