TERRORISTA NO PAÍS DO TIO SAM

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Autoria de LuDiasBH

carafe

Caros amigos, não aguento mais guardar só para mim esse pesadelo de que fui vítima, há quase três meses atrás. Dizem que ao dividir nossas agonias, o sofrimento é diluído. Então, preparem-se para ouvir a minha fatídica história.

Confesso que nunca nutri nenhum encantamento pelos Estados Unidos da América. Jamais senti vontade de conhecer esse país, talvez por não suportar o espírito de grandeza dos filhos do Tio Sam, que se julgam os suprassumos do mundo. E, também, pelas notícias que me chegam, contando como os latinos comuns são maltratados, antes mesmo de adentrarem no país, como se já fossem culpados por antecedência. Mas o fato é que acabei em tal lugar, apesar de toda a minha relutância.

Não me perguntem os leitores, já sabedores da minha antipatia declarada pelo país em questão, o que me levou a botar os pés em terras tão hostis. Existem certas coisas na vida que nem sabemos o porquê de acontecerem, embora muitos digam que nada acontece por acaso. O certo é que ali me encontrava, e deveria procurar curtir a minha pequena estadia da melhor maneira possível.

Dizem os aficionados pelo Tio Sam que tudo no país funciona maravilhosamente bem. Mas não foi o que aconteceu comigo e com meus companheiros de viagem. O hotel em que ficamos era uma grande bagunça, de modo que perdi a minha bagagem, ficando apenas com a roupa que usava. Até mesmo meu par de sapatos, novinhos em folha, evaporou-se misteriosamente. Talvez a mixórdia se devesse à festa de 4 de julho, dia em que comemoravam a independência do país. Azar o meu, que fui cair ali em data tão blindada.

Chateada com o desenrolar dos acontecimentos, resolvi fazer um artigo para meu blog, falando sobre os meus contratempos no “país mais avançado do mundo”. Como no hotel o barulho era incessante e as ruas de Boston se encontravam desérticas, pois todos foram para o centro da cidade, onde ocorriam as festividades, passei a mão no meu notebook, companheiro de todas as horas, e fui rascunhar o meu artigo numa pracinha próxima ao lugar onde me encontrava.

Mal havia digitado os primeiros parágrafos de minhas lamúrias, fui rispidamente interrompida por uma patola de mão que me tomou o notebook. Levantei os olhos, amedrontada, achando que poderia ser algum terrorista, quando fui intimada a ir a uma delegacia. Descartei a possibilidade de ser um fora da lei, pois esses não são afeitos a delegacias distritais. O intimador não me dirigia a palavra, apenas pedia que eu o seguisse, com gestos. Pelo visto, não me considerava uma grande criminosa ou alguém que pudesse lhe causar medo, uma vez que me colocou às suas costas. Pensei em correr, mas de nada adiantaria. Melhor seria saber a causa de estar sendo confundindo com um meliante. Naquele momento senti que perdida por pouco, melhor seria estar perdida por muito, pois desgraça pouca é bobagem! Que desabassem sobre mim a CIA e o FBI.

Assim que chegamos à delegacia distrital, aparentemente vazia, mais com um mundaréu de luzinhas piscando, aparelhos ligados e mapas da cidade cheios de alfinetinhos coloridos, eu fui conduzida a uma sala de vidros escuros, onde se encontrava o superior do homem, julgo eu, pois esse o cumprimentou com muita vênia. Fui deixada em uma cadeira fria, tiritando de medo e curiosidade, ao mesmo tempo. Alea jacta est!

Depois de quarenta minutos, o chefe chamou-me à sua mesa. No meu inglês macarrônico, comecei a me defender, tropeçando nas palavras. Não sabia se dizia que era brasileira ou não, pois, mesmo na minha agrura, sabia que nós, latinos pobres, não éramos bem-vindos àquele país. O tal senhor apenas me escutava, sem mexer um músculo do rosto. Por fim, terminei revelando a minha origem. Ele, então, começou a falar no nosso português adocicado, sem nenhum sotaque, fazendo com que eu eliminasse a possibilidade de que fosse oriundo de Portugal. Aliviada, exclamei:

– O senhor é brasileiro!

Ele ignorou a minha observação, como quem não mais quisesse pertence ao mundo dos “incivilizados” e passou a me explicar a causa de eu estar ali:

Você se encontrava de cabeça baixa, com uma cara de preocupada, numa praça desértica, escrevendo freneticamente. As câmaras da delegacia haviam registrado todos os movimentos do seu corpo rijo, levando os agentes a deduzirem que estava passando mensagens para terroristas. Em suma, você poderia estar a serviço dos cúmplices de Bin Laden. E, a partir daquele momento, encontra-se presa, sob o poder do Estado Americano, até que investigações provem o contrário. O que demandará, no mínimo, quarenta e cinco dias.

Estupefata, indignada e revoltada, senti que estava no ninho da águia, num país estranho, onde latinos choram e as mães não ouvem. Tentei argumentar, dizendo-lhe que não era islâmica ou, tampouco, sabia falar a língua árabe, e que não tinha na família, ascendentes ou descendentes árabes. E que o maior contato que tivera com aquela gente fora através das histórias das Mil e Uma Noites e os filmes de Aladim a que assistira. Mas de nada adiantaram minhas explicações. Estava presa e ponto final.

Injuriada, contrariada e desolada, acabei perdendo as estribeiras. Levantei-me da cadeira, mirei desafiadoramente a autoridade nos olhos, e corajosamente gritei em alto e bom tom:

– Eu queria mesmo é que a gente do Bin Laden jogasse uma bomba nesta sua delegacia distrital de merda e que o senhor fosse para os quintos do inferno.

Indignado, o sujeito pegou-me pela garganta e começou a apertá-la cada vez mais. Eu já estava desmaiando, quando repentinamente acordei com o braço pesado de meu esposo, bem em cima de meu pescoço. Ai que alívio! Eu estava na minha cama, na minha casa e no meu país – BRASIL!

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