TIA MIÚDA E O CARTÃO DE CRÉDITO

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Autoria de LuDiasBH

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Minha tia Miúda é uma mulherzinha achaparrada, dessas bem socadinhas em que um muxicão não lhe atravessa a pele com desimpedimento.  Mas, no que tem o corpo de atarracado, tem a língua de frouxa e delongada no fraseado, principalmente quando se bota a mercadejar. Ela nunca foi de fazer conta de seus gastos, pois diz que isso é coisa de rico muquirana. Portanto, é a alegria dos negociantes da cidade e dos mascates que por sua casa passam dia sim e o outro também. Compra o que vê e o que não vê. Compra até mesmo na modorra, quando está com preguiça de se arribar de sua velha espreguiçadeira. Dá um pequeno abrimento no olho direito e solta sua voz esganiçante:

– Deixa aí na cadeira, homem de Deus, junto com o preço da mercadoria, e passa aqui amanhã pra pegar o caraminguá.

Quando mudou para Belo Horizonte, minha tia Miúda sentiu-se num verdadeiro paraíso fiscal. O filho, meu primo Vicente Charleston Silva, empregado num certo banco nacional, logo fez um cartão de crédito com que mimoseou a mãe no dia de seu aniversário. Ela o recebeu como se fosse o passe para sua liberdade plena, pois ninguém pode viver numa capital, vendo tanta boniteza sem poder adquirir. Isso é uma judiação das brabas que não se pode impingir a um cristão, ainda mais se for fêmea. Mas agora não tinha mais “corecoré”. Era ela e seu cartão rua acima e rua abaixo, unidinhos, dois inseparáveis cupinchas. Aonde um ia, o outro ia também. Até o dia em que o filho entrou desesperado em casa, tendo nas mãos uma fatura de cinco folhas:

– Mamãe, a senhora está roubada, ou melhor, maniatada, se não pagar tudo que deve. Onde já se viu fazer tanta compra assim. Vai ter que vender a casa, o cachorro, o papagaio, o gato e até o urinol, se é que alguém ainda o use.

Mas tia Miúda fez ouvidos de mercador, pois achava o filho muito atarantado, igualzinho ao finado pai, de uma tacanhice sem limites, de modo que deu o dito por não dito. Ela só foi esparralhar na real, quando escolheu dois pares de botas de camurça numa loja de calçados, para aguentar o frio nas solas dos pés, e o cartão não passou o débito. Fez mil e uma tentativas, mas só lia a palavra funesta: INVÁLIDO. Aí a coitada entrou em nervosidade e partiu em busca do adjutório de Santo Expedito que resolve as coisas impossíveis. Mas até para o milagreiro a dívida era grande em demasia. Uma amiga sua, conterrânea do interior, contou-lhe sobre uma igreja onde o pastor resolvia qualquer pendência. Não havia enguiço que o homem não botasse fim.  Se ele vencia o demo, haveria de libertá-la daquele débito do mal, pois o que estava acontecendo era coisa de satanás, que tirara sua razão, fazendo com que ela se oberasse tanto. E, assim, minha acaçapada e devedora tia prometeu ir logo de manhazinha em busca do dito presbítero.

Tia Miúda levantou-se imbuída da mais fervorosa esperança. Mal tomou um copo de café forte acompanhado de dois beijus de tapioca e uns três toletes de requeijão, partiu para a tal igreja, onde seu nome já constava da lista dos atendimentos. Lá pelas tantas foi chamada pelo pastor. Depois de acertar o dízimo e a sua presença futura no templo, foi levada para uma roda com o homem de fé e cinco obreiros. E, ali, em uníssono, os seis varões expeliam palavras raivosas contra satanás, num tom ascendente de voz, enquanto minha não tão santa tia ia fazendo volteamentos de trezentos e sessenta graus em torno do próprio corpo.  À media que as imprecações se avolumavam e as vozes se elevavam, o corpo da pequena mulher ganhava mais impulso. Eram um açulamento daqui, um arranco dali e a coitadinha azoratada, bêbada de tanto desnorteamento. Mal e mal ela conseguia se equilibrar de pé em meio às volteaduras e ouvir algumas frases da rogatória:

– Satanás, deixa esta mulher. Eu te ordeno, sai deste corpo, pois este corpo não te pertence. Vamos, filho dos infernos, eu te esconjuro em nome do poder forte a mim conferido: desaloja, desaloja, agora desaloja…

E os devotos passaram a gritar em couro, em meio a palmas e bater de pés no assoalho da igreja:

– Desaloja, desaloja, desaloja, desaloja… – (o “e” soando como “i”)

Minha tia Miúda, gotejando suor por todos os poros, com seus cabelos rebeldes desafiando a gravidade, e com os olhos a despencar das órbitas, começou a gritar com todas as forças que ainda lhe restavam:

– Lojas Americanas, Casa Bahia, Ricardo Eletro, Itapoã, Carrefour, Extra, Topa Tudo, Mercado São José, Açougue Tremendão, Magazine Luiza, Armazém do Grilo…

E eu ali, num banco acompanhando tudo, sem nada poder fazer. Resumindo, tia Miúda vendeu tudo que tinha para pagar as dívidas. Voltou para o interior, onde é a alegria dos negociantes da cidade e dos mascates que por sua casa passam dia sim e o outro também.

2 comentários sobre “TIA MIÚDA E O CARTÃO DE CRÉDITO

  1. Mário Mendonça

    Lu

    Desaloja, desaloja, desaloja…..o dizimo também foi no cartão…..???….

    Esses pastores….

    Mário

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Mário

      Embora apresentada como piada, isso acontece todo dia por aí… risos.
      Haja ingênuos neste mundo de meu Deus.
      hahahahahhaahhahaha

      Abraços,

      Lu

      Responder

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