Tiradentes – PATRIMÔNIO E CINEMA

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Autoria de Luiz Cruz

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A Mostra de Cinema de Tiradentes chegou a sua 18ª edição, ou seja, chegou ao que no Brasil chamamos de maior idade. A primeira edição foi realizada em uma tenda de circo, no Largo das Mercês e foi fantástica, mesmo que naquele ano houvesse chuvas torrenciais e o largo ficasse alagado. Ao longo de sua trajetória, a Mostra cresceu e se aprimorou, chegou a mais uma edição com saldo muito positivo, porém, ainda com graves problemas.

Só tem opinião quem tem experiência! Acompanhei todas as edições, e em algumas cheguei a assistir a cinco sessões diárias. Até a 15ª edição, escrevi crítica sobre a Mostra, ressaltando aspectos positivos e negativos. Encaminhei a crítica para a mídia que deu cobertura para o evento, mas nenhum dos veículos publicou sequer uma linha das minhas análises. Nas 16ª e 17ª conformei-me com a possibilidade de não haver avaliação local sobre a Mostra. Agora retomo ao tema, aqui no blog Virus da Arte & Cia., espaço aberto, dedicado à arte e à cultura.

A Mostra de Cinema de Tiradentes abre o calendário de eventos da cidade. Aqui se realiza eventos diversificados e praticamente ao encerrar um, já se iniciam os preparativos para o seguinte, e assim é o ano todo. Desta maneira, a cidade não tem mais trégua e tudo gira em torno de eventos. Pelos fatos que assistimos ao longo da Mostra que se encerrou, o melhor seria que a Prefeitura de Tiradentes, o IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e o Ministério Público Federal convocassem todos os promotores de eventos em Tiradentes para repensarem e reformularem suas propostas e, que antes de tudo, haja respeito à cidade. Ou seja, nenhum evento realizado aqui é mais importante que a cidade. Tiradentes não tem que se adequar ao evento, mas é esse que deve se adequar à cidade, que é Patrimônio Nacional, desde 1938. Patrimônio, cinema e vandalismo são uma combinação que, no mínimo, requer parada para reflexão e novas posturas. Patrimônio e Cinema são uma combinação perfeita para Tiradentes. Mas vandalismo não vai bem nem com Patrimônio e nem Cinema.

Essa última Mostra de Cinema de Tiradentes foi mais uma edição em que a cidade foi vítima de atos de vandalismo, com a destruição de patrimônio particular, no Beco do Zé Moura. E a proprietária teve que comprar um cadeado, e ela mesma abrir e fechar o beco para evitar os atos diversos. Experiência que Ouro Preto já toma em todos seus eventos – o fechamento dos becos – visando a proteção do patrimônio e do cidadão.

Na manhã de 31 de janeiro, saí para ver a cidade e me deparei com um cenário assustador: centenas de garrafas estilhaçadas no Alto de São Francisco, no Largo da Rodoviária, no Largo das Forras e pelas ruas. Parecia cenário do Carnaval de 20 anos atrás, quando a cidade recebia milhares de vândalos. Uma garrafa de vidro quebrada torna-se uma arma branca em potencial. Isso precisa ser coibido. Como? Cabe às autoridades pensarem e agirem. Acredito que se alguém estivesse em Paris ou Berlim, portando uma garrafa de vidro e logo a estilhaçasse ao chão, seria no mínimo multado ou preso. Pode ser questão de educação, mas é, sobretudo, questão de segurança. Portanto, Tiradentes encontra-se com suas ruas com milhares de cacos de vidro, tudo pronto para o Carnaval, quando muitos foliões bebem e resolvem andar descalços, resultando em inúmeros acidentes. Durante a Mostra, a cidade tem dois públicos: um para a Mostra e outro para a noitada. Shows deveriam ser definitivamente proibidos e é necessário atenção aos subterfúgios e às festas particulares.

A Mostra deve ter o mesmo desafio de todos os eventos, encarar a reação da população local que não participa de nada e cada vez mais fica de fora. Há sessões em que não há sequer uma pessoa da cidade, ou seja, nativa ou residente. Somente na 17ª tivemos exibição de documentários envolvendo personagens locais e regionais, e, consequentemente, foi um grande sucesso! Na 18ª Mostra havia Uma História para Contar, com personagens tiradentinos. Com público motivado, nem a chuva fez com que a plateia abandonasse a exibição, que foi transferida para o Centro Cultural Yves Alves.

Tudo na Mostra é gratuito, o que a torna uma boa oportunidade para aprendizado e recreação. Mas ela tomou um rumo curioso, pois parece que está cada vez mais direcionada para cineastas do que para cinéfilos. A Mostra Aurora é para especialistas em fazer cinema: os planos, os cortes, a sonoplastia e tantos outros aspectos que só interessam a quem faz cinema. É o cinema autoral, visceral, experimental para os cineastas divagarem. A Aurora é exibida no Cine Tenda. Para quem não gostar dos filmes autorais basta apenas se levantar e sair – o que faço nos primeiros dez minutos das obras consideradas viscerais, quando são de compreensão impossível.

A curadoria da Mostra é descentralizadora, mas com apenas um curador é impossível. No mínimo seriam necessários três curadores, com experiência e olhar diferentes. A Mostra de Cinema, com apenas o curador Cleber Eduardo, acabou virando uma mostra de amigos e conhecidos seus, que estão aqui praticamente todos os anos. E com isso, a verdadeira diversidade do Cinema Brasileiro acaba ficando de fora. Dessa forma, acredito que o curador nem deve assistir a todos os filmes e tampouco os organizadores do evento. Prova disso foi a exibição do filme O Animal Sonhado, realizado por seis diretores, que está no catálogo e na programação sem nenhuma indicação de idade. A obra apresenta cenas de sexo entre dois pares, quatro pares e até coletivamente, em todas as possibilidades e posições imagináveis, inclusive com insinuação de incesto, sendo exibida no Cine Tenda, a um público heterogêneo, desde criança de poucos anos até a terceira idade. Curiosamente os maduros foram saindo e ficando a plateia que jamais deveria estar ali, ou seja, os menores. A culpa não é do segurança, que nem sabia o que seria exibido e nem tinha recebido orientação alguma. Então, de quem é a responsabilidade? Definitivamente é preciso que a curadoria realmente assista aos filmes, não só para selecioná-los, mas também para indicar onde ser exibidos. Já assistimos, no Cine Praça, cenas absolutamente desagradáveis de sexo explícito. No Largo das Forras não é local para exibição de obras que contenham tais cenas. Nesse caso, torna-se necessária a intervenção do Ministério Público, pois transcende muito além da responsabilidade pessoal de uma curadoria sem pé e nem cabeça.

Enfim, Cinema é Arte. No Cine Praça, tivemos belos filmes como Sinfonia da Necrópole, que nos levou a refletir sobre o cemitério de Tiradentes, que está saturado. Necessitando urgentemente que se crie o Cemitério Municipal, o que ocorrerá com o Plano Diretor que está sendo elaborado. O comovente curta-metragem A Pequena Vendedora de Fósforos é de grande sensibilidade, ou ainda a exibição de O Menino e o Mundo, no Cine Tenda, que deixou a plateia inteira comovida pela história e criatividade da animação. Durante as oficinas, com centenas de participantes, surgiram novos olhares sobre a localidade. Os espetáculos levaram alegria e lazer para muitas pessoas. Tiradentes e Cinema resultam numa excelente combinação, sem dúvida! Conversei com muita gente sobre a Mostra. Para Antonieta Ferreira, residente na Rua São Francisco, bem em frente ao Cine Tenda, a Mostra deveria acabar. Eu não acho. Mas a Mostra precisa e deve ser repensada!

Nota: fotos do autor, os personagens de Uma história para Contar.

12 comentários sobre “Tiradentes – PATRIMÔNIO E CINEMA

  1. Luiz Cruz

    Olá Terezinha,
    Você que sempre acompanha a Mostra pode entender os pontos expostos no texto. Este ano, o ponto alto, realmente, foi Histórias para Contar. Infelizmente, a moçada só vem beber, o que fazem em qualquer lugar, desde que seja com badalação. É uma pena, não compreenderem a significação de nosso Patrimônio Cultural e nossas relações afetivas e identitárias para com ele.
    Recebe um forte abraço,

    Luiz Cruz

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  2. Terezinha

    Luiz, muito bom o texto.
    Tenho ido a Tiradentes quase sempre, no período da Mostra de Cinema. Adoro o clima da cidade nesses dias.
    Quanto aos filmes: em geral, os filmes apresentados nos primeiros dias da mostra são escolhidos com mais cuidado. Do meio para o fim, baixa a qualidade. Neste ano, estive aí no finalzinho. Nada bom na sexta, dois bons infantis na manhã de sábado. Histórias para Contar – muito bom. A fotografia ficou muito boa, o som, as histórias. Valeu!

    Quanto ao cuidado com o patrimônio: uma luta eterna! O tal do povo é insubordinado! Entende a que povo me refiro, né? Fico pensando, por que o prazer, a alegria da maioria das pessoas tem que ser diminuída devido ao comportamento de alguns que nem aproveitam a vida de verdade?

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  3. LuDiasBH Autor do post

    Luiz

    Tiradentes, essa joia incrustada nas Minas Gerais precisa ser tratada com muito carinho. E não há nada mais nocivo ao patrimônio público do que eventos mal planejados. A exemplo disso tínhamos a Feira Hippie na Praça da Liberdade, aqui em Belo Horizonte.

    Como você bem diz, um evento só tem significado quando traz melhorias para a cidade. Fora disso trata-se de uma propaganda enganosa e nociva.

    No caso da “Mostra de Cinema de Tiradentes”, você aponta pontos conflitantes, que devem ser levados a sério pelas autoridades responsáveis e, inclusive, deve chegar a uma estância maior, que tomará as medidas necessárias, coibindo os erros e a destruição dessa maravilha chamada Tiradentes.

    Parabéns pela coragem com que defende esse patrimônio tão importante para o Estado, o país e o mundo.

    Abraços,

    Lu

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    1. Luiz Cruz

      Lu,
      Fico grato por sua atenção e observações.
      A realização de um evento que reúne um grupo maior de pessoas, deve ter um programa sério de gestão e planejamento, especialmente visando a segurança. Ou seja, quanto maior o número de participantes maior a probabilidade de acidentes. E aqui, durante os eventos a cidade trabalha em sua capacidade máxima. O primeiro grande entrave para a segurança é a obstrução das via públicas que dificulta sobremaneira a circulação de veículos, ambulância e auto-bomba.

      Não sei quanto a Prefeitura de Tiradentes arrecada com a Mostra de Cinema, mas provavelmente deve ficar no prejuízo. O que em qualquer cidade europeia evento desse porte geraria impostos a serem investidos na localidade. Aqui, acabamos ficando com a ressaca moral e o lixo!

      Enfim, temos que ter esperança e acreditar que um dia poderemos contar com as autoridades, especialmente a Prefeitura, a Câmara, o IPHAN e o Ministério Público. Afinal, a esperança é a última que morre!
      Um abraço forte e amigo para você.

      Luiz Cruz

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  4. Luiz Cruz

    Olá Nicia,
    Acredito que quem viaja para participar da Mostra, ou fazer as oficinas, não quebra garrafa pelas ruas. Com certeza são pessoas comprometidas tanto com o CINEMA quanto com o PATRIMÔNIO. A vandalismo ocorre com o público da noitada, que vem só para se afogar na cerveja e cachaça. Tudo começou com os SHOWS. Por que CINEMA tem que ter SHOW?

    Acompanhando as Oficinas do Plano Diretor, pude mais uma vez ter certeza de que não temos ideia do público que circula por Tiradentes, tudo é uma sacação – um chute! Acredita quem quiser que em Tiradentes comporta 10 mil pessoas num final de semana, seja lá em que evento for. No máximo pode chegar a 5 mil, mesmo assim seria um desastre ambiental.

    A obstrução da Praça da Rodoviária precisa de uma solução. Mais uma vez, o Plano Diretor vai indicar locais mais adequados para receber os eventos. IR e VIR é um direito constitucional e não devemos de forma alguma obstruir vias públicas. Concordo plenamente com sua colocação!

    Menos às vezes é Mais. Um público de milhares de pessoas pode comprometer o evento. Um público menor, pode ser muito mais interessante e acima de tudo respeitar nosso Patrimônio. Eventos como Foto em Pauta, Tiradentes em Cena, Artes Vertentes ou a Mostra Nacional de Orquídeas são compatíveis com a cidade, a arquitetura e o meio ambiente. Estes eventos precisam ser mais reconhecidos e valorizados. Nenhum deles atrairá público que faz quebradeira de garrafas pelas ruas centenárias de nossa querida Tiradentes!

    Obrigado por sua leitura e retorno.
    Um abraço,

    Luiz Cruz

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  5. Nicia Braga

    Luiz, nada mais pertinente. concordo com tudo e compartilho desse pensamento. Quando fazia parte da Asset, nós nos reunimos com a Raquel para discutir uma série de questões. Ela não foi muito simpática e, como todos nós sabemos, o patrocinador cobra. O mais triste é saber que muitos dos atos de vandalismo foram praticados por pessoas que moram na cidade e arredores(aproveitando a confusão). Deveria ser proibida a venda de bebida em garrafa por questão de segurança. Quando, ouvindo o MG (jornal da Globo), deram a notícia de que passaram pela cidade no 1º fim de semana 10 mil pessoas e que eram esperadas 20 mil no segundo, fiquei pensando onde caberia tanta gente. Não adianta pensar na prefeitura, porque parece que não temos prefeito.

    Alguns eventos como o Foto em Pauta, o Tiradentes em Cena e o Artes Vertentes são pequenos e bastante interessantes.O problema é que as pessoas(comerciantes em geral) querem o bônus, mas se esquecem de que o ônus vem junto. É uma falta de consideração com os trabalhadores, que perdem o acesso à Rodoviária e tem que andar muito mais. Alguma coisa tem que ser feita, mas, como você, não sei por onde começar.

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  6. Sarahy Fernandes

    Excelente texto, Luiz. Parabéns pela reflexão e que chegue aos responsáveis, autoridades, e que tomem atitudes condizentes com os postos que ocupam. Quem gosta de cinema quer, com certeza, a continuidade da Mostra, mas que seja um evento responsável, pois importa mais a preservação de Tiradentes e sua identidade.

    Responder
    1. Luiz Cruz

      Sarahy,
      Muito obrigado por sua presença e retorno. Você que vêm sempre acompanhar a Mostra e parece que o faz com grande prazer, Uma exibição de Cinema no Largo das Forras é um evento fantástico, além de tantos outros aspectos. Porém acho que precisa mais atenção e cuidado, especialmente com o público infantojuvenil.

      Nenhum evento realizado aqui é mais importante que Tiradentes e seu Patrimônio Cultural e Humano – que devem ser respeitados e preservados.
      Um grande abraço,

      Luiz Cruz

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  7. Cristina Santos

    Parabéns…Seu texto contém informações pertinentes que esclarecem detalhes particulares referentes à Mostra de Cinema, que deixam leitores como eu, curiosos e tentados a ir e vivenciar tal arte. Mas concordo com você a respeito do cuidado que se deve ter em relação às cenas impróprias exibidas. O cinema é uma ferramenta educativa importante, e a indicação sobre a idade, garante um público compatível. Tem coisas que é bom aprender na hora certa.

    Responder
    1. Luiz Cruz

      Olá, Cristina, é um prazer ter você aqui no blog Virusdaarte.
      A Mostra é um evento interessante e muito rico, possibilita muitas oportunidades além do próprio Cinema. A adequação para a exibição é um aspecto muito relevante, um descuido pode comprometer toda edição. Os “pequenos” já estão expostos a muitas coisas indevidas e eventos com o suporte como este deveria primar por orientar da melhor maneira possível, evitando exatamente o que você colocou – antecipar informações desnecessárias e indevidas.
      Receba meu abraço forte e amigo,

      Luiz Cruz

      Responder

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