UM CONTO PARA CASTRO ALVES

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Autoria de LuDiasBH

navine

Os navios negreiros aportavam-se nas costas de meu país – infeliz.
Os comerciantes de escravos davam aos negros rações de milho – escarros.
Pra que recuperassem a força perdida nos porões dos cargueiros – negreiros.
E lhes besuntavam os corpos rígidos de ébano com óleo de coco – reboco,
Pra conquistar a atenção dos dinheirosos compradores – os tais senhores.
Quanto mais reluzissem os corpos negros e mais brilhassem,
Destaques dariam aos músculos rijos e à carnadura perfeita.
No entanto, ó ventura desfeita, ó tamanha desdita, lá longe…

Naquela noite de lua cheia era festa na aldeia dos Marsupiais. Celebrariam o casamento de 20 jovens casais que mal haviam deixado a adolescência. Altos e fortes, os homens resplandeciam mostrando uma fiação de pérolas brancas cada vez que sorriam. As mulheres vestiam tecidos multicores e traziam na cabeça guirlandas de flores. Os idosos e as crianças, ao ritmo dos tambores, cantavam canções da terra. Tudo estava preparado para a entrada triunfal dos noivos.

De repente, a lua cobriu-se de sangue e dor. A aldeia foi invadida por homens da mesma raça e da mesma cor. Indefensos, os jovens casais, ainda com as roupas festivas, tornaram-se uma presa fácil para o caçador voraz. Cruelmente amarrados, eles foram entocados em rústicas canoas, enquanto rumavam para muito além do cais.

Dois ferrugentos navios esperavam-nos lá adiante, na costa africana. Deu-se a infame separação. As mulheres seriam enviadas a um destino para servirem às senhorinhas brancas. Os homens seriam levados a outro lugar para servirem nas plantações e nos engenhos de cana-de-açúcar. E assim, partiram as duas naus, cada qual em busca de um mar diferente.

A viagem era monótona e penosa. Não que isso fizesse alguma diferença, pois os jovens, tanto num navio quanto no outro, já se encontravam dilacerados pela agrura da segregação. Não mais nutriam amor pela existência. A morte era a única libertação possível. Para que viver, quando não se tem mais crença e, se a esperança é a única bússola que norteia a vida? Sem ela, qualquer túmulo serve para enterrar o corpo oco e a alma de felicidade despida.

E veio rápido o banzo que tomou conta do respirar de cada um dos amantes. Mussitavam em desespero nomes queridos. Os tumbeiros indolentemente carregavam seus mortos-vivos por entre as ondas compadecidas. Ia um atrás do outro até que chegasse o momento de tomar caminhos diferentes. Caminhos desprovidos de qualquer vislumbre de esperança. Triste e cruel sentença. Morte em vida.

Conta uma testemunha ocular, a quem prometi guardar o nome em segredo, para que não a tomassem como louca, que, antes de os dois velhos navios deixarem as águas africanas, quando um navegaria a noroeste e outro a sudeste, algo inusitado aconteceu, mal o sol começou a beijar as águas marinhas.

Os mastros desceram repentinamente e não havia força que os levantasse. Os navios estagnaram-se. Um cheiro de mirra e alecrim tomou conta do ar. As conchas, corais e as estrelas-do-mar começaram a flutuar em meio a uma espuma branca, que fazia bicos de crochê em volta das ondas azuis como safira. Das entranhas do mar subiu o som do repicar alegre dos tambores junto com uma cantoria de crianças. O céu encheu-se de centenas de arco-íris e era possível ver anjos com trombetas sobre eles. Esperança!

Então, aconteceu o maior de todos os milagres já vistos sobre a Terra, prosseguiu a testemunha. Pelas vigias dos porões, vinte corpos masculinos saíam como se fossem voláteis, tamanha era a facilidade com que se esgueiravam para fora. Feixes de raios dourados sustentavam-nos na horizontal. Quando se encontravam todos milimetricamente perfilados, a alma de cada um deles emergiu de seu corpo, em forma de bailarina, com tiara de flores nativas da África. E os corpos, apenas os corpos, mergulharam-se nas profundezas do mar, enquanto as bailarinas punham-se a postos, esperando algo que estaria por vir.

E o que aconteceu às mulheres? Perguntará o leitor mais encantado com o milagre. Eu também fiz esta mesma pergunta à testemunha. E ela me contou que o mesmo ritual mágico aconteceu a elas. Só que as almas que de seus corpos saíram, emergiram em forma de bailarinos tão brilhantes como as facetas de um diamante negro. E seus corpos, apenas seus corpos, desceram suavemente e foram sepultados pelo mar.

A seguir, os feixes de luz ficaram ainda mais brilhantes, transformando a abóbada celeste no mais resplandecente dos cenários. Os querubins fizeram soar suas trombetas, enquanto os arcanjos e os serafins cantavam Hosana nas Alturas. Bailarinas e bailarinos delicadamente enlaçados voaram em direção ao horizonte, até parecerem quarenta pontinhos luzentes rumando para as terras africanas. Só então os navios voltaram a singrar.

Sentindo que eu ainda estava ávida por maiores explicações, a testemunha contou-me o porquê de o masculino gerar o feminino e vice-versa:

“A nossa alma toma a forma daquilo que se passa em nosso corpo físico. Se nós estamos felizes, nossa alma se rejubila, mas se estamos sofridos ela sangra. Criamos alma nova quando recobramos o entusiasmo de viver, mas a mortificamos quando perdemos o amor pela vida. É na alma que se encontram as manifestações de nossa sensibilidade e se expandem as nossas emoções. As palavras, embora expelidas pelo corpo físico, têm a sua ressonância na alma. Você já deve ter ouvido alguém dizer: ‘Isto me doeu na alma!’. E foi isso, minha amiga, o que aconteceu aos jovens negros. O amor, que lhes foi roubado ainda na flor dos anos, ultrapassou os limites do corpo físico e tomou-lhes a alma com tanta veemência, que ela se expandiu e criou um corpo próprio, ainda que etéreo. E o que era a alma senão o amado ou a amada tão bruscamente despedaçado fisicamente, mas conservado mais vívido do que o coração, dentro de cada um deles?”

Não entendo o porquê de sermos chamados de humanos – ledo engano,
Se homens tiranizam outros homens, pela ambição desmedida – em vida,
Como pranteia em seus versos o poeta baiano Castro Alves – dos escravos.
Por que é assim que deve caminhar a humanidade – em sua insanidade?
Até hoje procuro respostas, mas não as encontro. Arimã! – busca vã.
Debrucei-me sobre a areia e chorei por mim,
E por aqueles que vieram antes de mim – como escravizadores.
E por aqueles que ainda virão depois – como escravos.

Nota: Imagem copiada de http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos-revista

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