UM CORPO ESTENDIDO NO CHÃO

Siga-nos nas Redes Socias:
FACEBOOK
Instagram

Autoria de LuDiasBH alba12

Gente não é coisa,
seja lá de onde sai.
Gente é pra alguém,
um ser muito ESPECIAL.

O corpo permanece inerte no chão,
e as pessoas circulam apressadas.
Algumas olham a figura com pesar.
Outras viram o rosto, encabuladas.

Rodeiam-no, alheias e indiferentes,
as mais variadas espécies de gente:
mendigos, crianças de rua e ociosos,
esperando o estender da ocorrência.

Os homens da lei recolhem o corpo,
falando sobre assuntos bem triviais.
O usual não lhes prende a atenção,
neste mundo de dores tão desiguais.

As pessoas retornam-se aos afazeres.
Os desocupados, aos bancos da praça.
Os mendigos, aos pontos costumeiros.
As crianças dissipam-se como animais.

Mais um corpo caído sem identificação.
Só no IML irá adquirir uma identidade,
coa chegada de sua mulher e dos pais,
e até ganhará carinho, nome e idade.

Ele não era um vadio ou cão sem dono,
mas José Marcolino, marido de Marluce,
filho de dona Zica e do senhor Aderbal,
pai de Robson, Alice, Maryluce e Aderval.

Aquele que vir um corpo caído no chão
e cuja alma, dele já se desencarcerou,
deve se compadecer dos que chorarão
inconsoláveis, sua ausência e amor.

Nenhum ser vivo está livre desse  fardo,
pois o lugar pelo outro agora ocupado,
poderá estar no amanhã, aflitivamente,
por nossas lágrimas, molhado.

 Nota: Imagem copiada de http://vespertinaestrela.blogspot.com.br

2 comentários sobre “UM CORPO ESTENDIDO NO CHÃO

  1. Mário Mendonça

    Lu Dias
    Tu me fizeste lembrar desta maravilha:

    Roncou, roncou
    Roncou de raiva a cuíca
    Roncou de fome
    Alguém mandou
    Mandou parar a cuíca, é coisa dos home

    A raiva dá pra parar, pra interromper
    A fome não dá pra interromper
    A raiva e a fome é coisas dos home

    A fome tem que ter raiva pra interromper
    A raiva é a fome de interromper
    A fome e a raiva é coisas dos home

    É coisa dos home
    É coisa dos home
    A raiva e a fome
    A raiva e a fome
    Mexendo a cuíca
    Vai tem que roncar

    Quando ele nasceu
    foi no sufôco…
    Tinha uma vaga, um burro e um louco
    que recebeu seu sete…
    Quando ele nasceu
    foi de teimoso
    com a manha e a baba do tinhoso.
    Chovia canivete…
    Quando ele nasceu
    nasceu de birra…
    Barro ao invés de incenso e mira,
    cordão cortado com gilete…
    Quando ele nasceu
    sacaram o berro,
    meteram faca, ergueram ferro…
    Exu falou: ninguém se mete!
    Quando ele nasceu
    Tomaram cana,
    um partideiro puxou samba…
    Oxum falou: esse promete…

    O menino cresceu entre a ronda e a cana
    Correndo nos becos que nem ratazana.
    Entre a punga e o afano, entre a carta e a ficha
    Subindo em pedreira que nem lagartixa.
    Borel, juramento, urubu, catacumba,
    Nas rodas de samba, no eró da macumba.
    Matriz, querosene, salgueiro, turano,
    Mangueira, são carlos, menino mandando,
    Ídolo de poeira, marafo e farelo,
    Um deus de bermuda e pé-de-chinelo,
    Imperador dos morros, reizinho nagô,
    O corpo fechado por babalaôs.

    Baixou oxolufã com as espadas de prata,
    Com sua coroa de escuro e de vício.
    Baixou cão-xangô com o machado de asa,
    Com seu fogo brabo nas mãos de corisco.
    Ogunhê se plantou pelas encruzilhadas
    Com todos seus ferros, com lança e enxada.
    E oxossi com seu arco e flecha e seus galos
    E suas abelhas na beira da mata.
    E oxum trouxe pedra e água da cachoeira
    Em seu coração de espinhos dourados.
    Iemanjá, o alumínio, as sereias do mar
    E um batalhão de mil afogados.

    Iansã trouxe as almas e os vendavais,
    Adagas e ventos, trovões e punhais.
    Oxum-maré largou suas cobras no chão.
    Soltou sua trança, quebrou o arco-íris.
    Omulu trouxe o chumbo e o chocalho de guizos
    Lançando a doença pra seus inimigos.
    E nana-buruquê trouxe a chuva e a vassoura
    Pra terra dos corpos, pro sangue dos mortos.

    Exus na capa da noite soltara a gargalhada
    E avisaram a cilada pros orixás.
    Exus, orixás, menino, lutaram como puderam
    Mas era muita matraca e pouco berro.
    E lá no horto maldito, no chão do pendura-saia,
    Zumbi menino lumumba tomba da raia
    Mandando bala pra baixo contra as falanges do mal,
    Arcanjos velhos, coveiros do carnaval.

    – irmãos, irmãs, irmãozinhos,
    Por que me abandonaram?
    Por que nos abandonamos
    Em cada cruz?

    – irmãos, irmãs, irmãozinhos,
    Nem tudo está consumado.
    A minha morte é só uma:
    Ganga, lumumba, lorca, jesus

    Grampearam o menino do corpo fechado
    E barbarizaram com mais de cem tiros.
    Treze anos de vida sem misericórdia
    E a misericórdia no último tiro.

    Morreu como um cachorro e gritou feito um porco
    Depois de pular igual a macaco.
    Vou jogar nesses três que nem ele morreu:
    Num jogo cercado pelos sete lados.

    Nas escadas da Penha, Penou
    no cotoco de vela, Velou
    a doideira da chama, Chamou
    o seu anjo-de-guarda, Guardou
    o remorso num canto, Cantou
    a mentira da nega, Negou
    o ciúme que mata, Matou
    o amigo de ala. Tá lá
    Tá lá o valete
    No meio das cartas
    No jogo dos búzios,
    Tá lá no risco da pemba,
    No giro da pomba,
    No som do atabaque, Tá lá.
    E tá no cigarro, no copo de cana
    Na roda de samba, tá lá
    Nos olhos da nega na faca do crime
    No caco do espelho no gol do seu time…
    Tá lá o amigo de ala
    O amigo de ala
    Matou o ciúme que mata
    Negou a mentira da nêga
    Cantou o remorso num canto
    Guardou o seu anjo-de-guarda
    Chamou a doideira da chama
    Velou no cotoco da vela
    Penou nas Escadas da Penha

    Tá lá o corpo
    Estendido no chão
    Em vez de rosto uma foto
    De um gol
    Em vez de reza
    Uma praga de alguém
    E um silêncio
    Servindo de amém…

    O bar mais perto
    Depressa lotou
    Malandro junto
    Com trabalhador
    Um homem subiu
    Na mesa do bar
    E fez discurso
    Prá vereador…

    Veio o camelô
    Vender!
    Anel, cordão
    Perfume barato
    Baiana
    Prá fazer
    Pastel
    E um bom churrasco
    De gato
    Quatro horas da manhã
    Baixou o santo
    Na porta bandeira
    E a moçada resolveu
    Parar, e então…

    Tá lá o corpo
    Estendido no chão
    Em vez de rosto uma foto
    De um gol
    Em vez de reza
    Uma praga de alguém
    E um silêncio
    Servindo de amém…

    Sem pressa foi cada um
    Pro seu lado
    Pensando numa mulher
    Ou no time
    Olhei o corpo no chão
    E fechei
    Minha janela
    De frente pro crime…

    Veio o camelô
    Vender!
    Anel, cordão
    Perfume barato
    Baiana
    Prá fazer
    Pastel
    E um bom churrasco
    De gato
    Quatro horas da manhã
    Baixou o santo
    Na porta bandeira
    E a moçada resolveu
    Parar, e então…(2x)

    Tá lá o corpo
    Estendido no chão…

    Todas essas pérolas são do Mestre João Bosco.

    Abração

    Mário Mendonça

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Mário

      O João Bosco é um dos meus compositores preferidos.
      Suas letras são de cunho social, na sua maioria.
      Também gosto muito dele como cantor.

      Gostei de ver as letras relembradas.

      Abraços,

      Lu

      Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *