O MENININHO URINOU NA MANJEDOURA

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Autoria de LuDiasBH

menje

Nos meus mais tenros anos, considerava a casa de minha avó paterna como o lugar mais santificado do mundo por agregar, em um dos seus quartos, um pedaço do Paraíso. Todos ali entravam na mais profunda reverência e postavam-se diante do altar por horas a fio. Naquele local, ninguém nos chamava a atenção e tampouco puxava as nossas orelhas. Todos os olhares ficavam voltados apenas para as divindades ali presentes.

Minha avó era extremamente devotada a Deus e a seus mensageiros. O quarto era um lugar especial para toda a esfera celestial, que ali se fazia representar nos mais diferentes tipos de material: cerâmica, louça, resina, vidro, papelão, cera, etc. Cada um era mais bonito do que o outro. Eu me sentia fascinada por aqueles que tinham luz própria, ou seja, uma lâmpada embutida por dentro. Passava horas e horas perdida na minha contemplação, pensando que o paraíso ficasse ali, com aquelas belezuras.

Dentre as muitas divindades existentes no quarto paradisíaco, estavam os soberanos, os senhores supremos do mundo: dois quadros separados, sendo um do Sagrado Coração de Jesus e o outro do Sagrado Coração de Maria. A eles eram feitas todas as nossas reverências infantis. Mas o chefão de todos era o quadro da Sagrada Família que, segundo a minha avó, era o responsável por olhar toda a sua família e tudo que tinha vida no mundo. A ele prestávamos a maior veneração. Nunca saímos daquele quarto, sem encher os nossos protetores de beijos e pedidos. Nenhuma das nossas diabruras era realizada naquele lugar. Tínhamos receio de ser observados por tantos olhares.

Havia um quadro naquele quarto, no entanto, que era objeto de nossa curiosidade e admiração constante. Ele ficava na parede, acima do portal da porta de entrada que nos levava ao paraíso. Se a gente ficasse de um lado, via a figura de Jesus; se ficasse do outro, via a de Maria. Aquilo era para nós a quinta essência da beleza. Saíamos de lá com o pescoço doendo de tanto virar de um lado para outro, sem que ninguém nos explicasse como tal milagre acontecia. Contudo, o mais encantador era o quadro do “Cristo que tudo vê”. Seja lá qual fosse a nossa posição no ambiente, ele estava sempre de olhos em cada um de nós. E, como sempre, ninguém sabia nos explicar o porquê. No muito diziam:

– É para ficar de olho em todos aqueles que não obedecem os Mandamentos do Senhor.

E cá para nós, a gente nem sabia quais eram os tais Mandamentos e nem se preocupava em sabê-los. Ainda tínhamos muito tempo pela frente para preocuparmo-nos com as coisas das gentes grandes. Elas que tratassem de cumpri-los, pois encontravam-se muito distante de nós, pirralhos ainda cheirando a leite.

Não consigo me esquecer do rosário de “muitos metros”, penso eu, pois é assim que eu ainda o vejo diante da minha pequenina figura, à época, fixado em uma das paredes do “quarto do paraíso”. Duas contas dele dariam para encher uma de minhas mãos. Eu ficava ali imaginando um monte de anjinhos subindo e descendo por ele. Nossa reverência era tamanha, que nunca ousamos tirá-lo da parede. Tudo no ambiente exalava  santidade. Até mesmo nós!

O presépio natalino de vovó, armado naquele quarto, era uma magia à parte. Era feito com jornal, cola de farinha de mandioca, borra de café e pó de malacacheta, também conhecida por mica, para imitar as pedras de uma gruta. Dentro, havia bichinhos de todos os tipos, e em volta da manjedoura um espelho enterrado na areia, imitando um lago, onde peixes e cisnes nadavam de mentirinha. Em volta, caixas com arroz germinando e outros tipos de plantas.

Certo dia, um bando de netos, incomodados com aquele Menino Jesus estático, resolveu trocá-lo por nosso priminho recém–nascido, bem mirradinho, que acabou deixando a manjedoura toda molhada de xixi, pois havíamos tirado a sua roupinha para dar mais veracidade ao fato. Não chegamos a levar umas boas chineladas por isso, pois vovó explicou a nossos pais que éramos muito inocentes ainda, mas o bebezinho carregou, por muitos anos, o apelido de “Menino Jesus”. Doces lembranças!

Nota: Imagem copiada de http://www.redevida.com.br

16 comentários sobre “O MENININHO URINOU NA MANJEDOURA

  1. Celina Telma Hohmann

    Lu
    Lindo, já pela manhã, ler um texto tão cheio de detalhes e memórias que nos fazem sentir que fizemos, também, de alguma forma, parte do cenário, é muito especial! Recordações. Há algo melhor? Se há, creio que o primo, mirradinho, recém nascido o felizardo, fez sua parte e sua avó, com a doçura das avós, perdoou os maluquinhos que o colocaram nu, tão pequenino, fazendo o papel do Menino Jesus! Com certeza, o menino original também fez seu xixi, mas aí, para não macular a imagem de Filho de Deus, ninguém nos contou, exceto você!

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Miss Celi

      Nós éramos aquilo que se chamava à época: uma turma do “capão virado”. E olhe que essa é uma das mais inocentes de nossas peripécias. Obrigada pelo seu comentário e seu carinho.

      Abraços,

      Lu

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  2. Alvimar Cury Júnior

    Lu
    Eu preciso ler novamente, porque penso que é uma honra entrar neste mundo que a você pertence. Além de ser um texto cheio de ternura, cativante. Imaginei cada cena, como se assistisse a um filme. Agradeço por expor a clareza de sua alma pura com tanta delicadeza. Muito, muito especial é você…

    Devo confessar que o texto suscita a vontade ver os quadros, e que não pude deixar de sorrir ao ler o último parágrafo, quando o menino urina, e é apelidado com um nome um tanto peculiar. Talvez nos fazer rir não fosse a intenção, mas foi tão divertido ler que o sorriso escapou antes que eu me desse conta.

    Essa parte de nós que persiste em continuar na mente é algo que representa tanto… Um pouco da criança que fomos e que ainda vive em nós. Maravilha seria se todo homem conservasse em si sua criança, porque elas, as crianças, são a essência da inocência presente ainda em tempos tão difíceis. Quando a deixamos ir nos tornamos mais insensíveis. Com maestria (qualidade inegável e facilmente notória em você, como em excelentes escritores), nos conduz através de palavras tão maravilhosamente regidas, a um universo lúdico e delicioso. Saiba , querida, que tem o poder de alegrar até mesmo os mais duros corações. Tenho eu orgulho em ser contemporâneo seu. E desejo sempre, cada vez mais, que seja sempre muito feliz.

    Um Natal repleto de alegrias mil. E um novo ano cheio de amor. Para você e todos a quem você ama.

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Alvimar

      É grande a minha felicidade por encontrá-lo aqui. É como se voltássemos ao tempo da “Menina Chupando Cana”. E, como sempre, você é generoso em suas palavras, pois vê no outro, imensamente mais do que ele traz em si de bom, o que é próprio das pessoas que têm grandeza de alma.

      Amiguinho, como deixa bem claro, não podemos soterrar a criança que existe em nós, pois é ela que nos faz mergulhar no passado, em busca de passagens como a que ora relatei, tornando-nos criança de novo, embora o tempo seja outro. Também rio muito, quando me ponho a lembrar das minhas peripécias infantis. Minha imaginação era por demais fértil… O que me rendia boas chineladas, vez ou outra. O nosso bando dava trabalho… risos.

      Sou eu quem agradece aos céus por tê-lo como um amigo muito querido. Amizade essa que muito me enriquece. Você é também um artista talentoso, um escritor sensível, e, em resumo, um ser humano da mais nobre estirpe. Retribuo os votos a mim dirigidos. Espero contar com sua presença aqui no blog, incontáveis vezes, em 2017. Seu comentário foi para mim um dos mais importantes presentes deste Natal. Obrigada!

      Abraços,

      Lu

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  3. Danilo Prado Autor do post

    Belo texto, Lu. Obrigado por compartilhar.
    Na minha infância praticamente todas as casas tinham gravuras religiosas. A religiosidade era enorme e as pessoas sempre iam à missa aos sábados ou domingos e feriados. O Brasil todo era mais ingênuo e existia pureza indisfarçável. Hoje, o mundo rodopiou. O seu texto fará muitos leitores voltarem ao passado.

    Forte abraço,

    Danilo

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Danilo

      A religiosidade de tempos atrás, culturalmente falando, era muito enriquecedora. As crianças sentiam-se parte do ritual, pois ajudavam em tudo. Os presépios eram a mais pura magia, com as pessoas competindo entre si, para fazer o maior e mais belo. O da minha avó paterna ocupava a sala praticamente toda. É uma pena que tudo isso venha desaparecendo. A cidade de Tiradentes, ainda hoje, faz reviver essa beleza, conforme mostram artigos aqui postados.

      Muito obrigada pela sua visita e comentário.

      Abraços,

      Lu

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  4. Pierre Santos

    Lindo texto, Lu, cheio de poesia e emoção. Todos temos os nossos presépios dos anos iniciais de vida e todos eles encontram-se aí sintetizados pela magia de sua narrativa. Em minha cidade havia muitos e maravilhosos, mas, o de que mais gostava era um que todo ano uma senhora, que trabalhava para minha mãe e morava numa casa pobre de bairro afastado, produzia, fazendo os seus figurantes diferentes e novos a cada ano. Ela armava na sala de chão batido de sua casa sobre um ‘bercinho’ de folhas de cana verde aqueles humildes figurantes por ela modelados em argila. Era uma incrível ceramista. E eu, que desde então me sentia atraído pela arte, ficava ali horas admirando aquela figuras de ímpar beleza.
    Obrigado, Lu, por fazer-me voltar àquele tempo, de que há muito já não mais me lembrava. Obrigado.

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    1. LuDiasBH Autor do post

      PP

      Todo comentário seu traz-me muita alegria. Como é bom saber que você se encontra bem!

      Minha infância transcorreu em meio a muita religiosidade, assim como você, também sempre nutri grande fascínio por esse mundo encantado em que a cultura faz-nos mais ricos, em meio a tanta criatividade. Imagino o encantamento que aquela senhora, que trabalhava com sua mãe, exercia sobre as crianças. Ela deve ser inesquecível para a memória de todos que a conheceram.

      Um grande abraço,

      Lu

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  5. Luiz Cruz

    Lu,
    Um delícia ler esta MEMÓRIA. Este é um presente de Natal para todos nós, leitores do blog. Muito obrigado por compartilhar.

    Um forte abraço,

    Luiz Cruz

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Luiz

      Sou eu quem agradece o seu carinho. Ninguém, mais do que você, sabe o quão importantes são os registros da MEMÓRIA, por menos importantes que pareçam.

      Abraços,

      Lu

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  6. Edward

    LuDias

    Neste berço está o amor. O drama deste novo mundo faz-nos, por vezes, suportar aflições, sofrimentos intenso, mas lá no fundo de cada um de nós, o amor se alteia, exacerba-se, e nos traz forças extraordinárias. Esse amor, todo vibrante, presente em nosso coração, é, com certeza, herança de berços maravilhosos, de um tempo que havia homogeneidade de sentimentos, grande presença do afeto e respeito pela educação. É isto que vejo e sinto ao ler seu maravilhoso texto. O amor presente em suas palavras de uma saudade que também restou indelével em seu coração. Esta educação, com a graça de Deus, também a recebi. Por isto, acredito, que minha sensibilidade penetra, e muito, nos textos em que os sentimentos mais lindos são revelados, não expressamente, mas implicitamente.
    Abraços

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Ed

      É incrível como essas lembranças ficam marcadas em nossa vida. Era tudo tão plenamente vivido, que parecia que estávamos numa dimensão diferente. Hoje, tudo é tão efêmero, cheirando apenas a bens materiais. O Natal resumiu numa mera troca de presentes.

      Abraços,

      Lu

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  7. Manoel Matos

    Lu

    Você nos traz suas lembrancinhas como um conto mágico. Viajei por cada canto da casa de sua avó, visitando os quadros e até toquei no enorme rosário. Foi uma viagem deliciosa.

    Abraços

    Nel

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Nel

      Estas são lembranças inesquecíveis para mim.
      A casa da minha avó era mágica.
      Também me lembro de cada cantinho dela.
      Adoro tais recordações.

      Abraços,

      Lu

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