UMA ENCHENTE FORA DE HORA

Siga-nos nas Redes Socias:
FACEBOOK
Instagram

Autoria de LuDiasBH

ench

Na ponta da rua ficava a nossa casinha  com suas paredes cor de creme e as janelas verdes por uns tempos ou azul em outros, dependendo do humor de meu pai. Ao fundo, existia um gostoso alpendre que dava vistas para o rio São Sebastião. À esquerda, havia um riacho com um pontilhão que nos separava das santas e piedosas mulheres da Rua da Areia. Não sei bem a causa de a rua ter esse nome, pois as demais também eram de areia misturada a um pó vermelho, bem peculiar à região. Chuvas naquelas bandas do Vale do Mucuri eram comuns durante quase toda a primavera e verão. Atravessar atoleiros de uma casa para outra era como brincar de pular amarelinha. Andávamos com pés, mãos e bundas enlameados para tristeza das mães, comprometidas com a árdua tarefa de nos manter limpos.

Voltando à minha casa, o meu quarto dava de frente para a rua. E era muito comum que um bando de primas, quase todas da mesma idade, fosse dormir juntas (umas nas casas das outras) nos finais de semana, para as traquinagens tão ansiosamente esperadas. Lembro-me de que as janelas de nossa casa eram divididas em bandas. E, para fugirem da lama, os cavalheiros vinham sempre pelas calçadas, alguns mais corajosos, assobiando, outros silenciosos e uns poucos passavam de carro. Mal percebíamos que já se encontravam mais afastados, abríamos a janela com o máximo de cuidado, tentando reconhecer os desavisados de tão remota hora, que se dirigiam à rua das santas e pudorosas mulheres.

Nós, meninotas levadas, viemos a descobrir depois que aquilo poderia ser uma fonte de renda. Passamos a contar às moças, que esse ou aquele namorado atravessara o pontilhão, para visitar as amiguinhas do outro lado. Enquanto ganhávamos caixas de bombons e outras guloseimas, namoros de longos anos eram desmanchados, e alguns que mal começavam, acabam antes do primeiro beijo. Lembro-me até do término de um noivado de longas datas, que depois, após muitas juras e pedidos de perdão veio a ser reatado. À custa de muito agrado, passamos a vigiar o dito infiel com atenção redobrada.

Sábado era o dia propício para atravessar o pontilhão depois da meia-noite, logo depois de terminadas as formalidades na casa das namoradas e quando as esposas já se punham a dormir. Mas eis que, num certo sábado, uma repentina tromba-d´água abateu-se sobre a adormecida cidadezinha como se fora o dilúvio de Noé. Em questão de segundos, a água chegou tomando conta de tudo, fazendo o riacho unir-se ao rio S. Sebastião e transbordar sobre ponte e pontilhão. A baixada, lugar onde habitavam as musas, virou um lençol avermelhado de água. Ninguém conseguia passar de um lado para o outro.

Mal o dia amanheceu toda a cidade descambou para ver a enchente. Presos do outro lado estavam os doces e santos maridos; os rapazes, cujas namoradas imaginavam estar como anjos no leito; assim como os garotos ainda cheios de espinhas, mas já aprendizes da arte do Kama Sutra. E, como todos se conheciam, os do lado de cá gritavam:

– Olha o carro de fulano, aquele é de beltrano, a moto é de cicrano, a bicicleta é de…

Para transportar os varões para as bandas de cá, onde estavam as enfurecidas amadas, foram arranjadas algumas velhas canoas. Cada “canoada” despejada era motivo de risos, zombarias e tapas na cara. A cidade entrou num reboliço com direito a mexinflório, bisbilhotice, corrilho, chocalhice e intriga. A vida dos “santos homens” foi exposta sem dó ou piedade. E lá também estavam muitos dos nossos reservados e moralistas parentes.

Só sei que o “amor” ficou por muito tempo longe das alcovas e muitas bocas em jejuns de beijos, tamanha era a raiva das mulheres, enquanto nós, crianças sapecas, serelepes e curiosas, passamos a ganhar presentes a rodo, pois a clientela sob a nossa jurisdição havia dobrado com o ciúme das damas do lugar. Rezávamos todos os dias por uma nova enchente. Éramos o Serviço Secreto Noturno da cidade (SSN). Tempos bons, aqueles!

Nota: Imagem copiada de http://tweengo.wordpress.com

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *