VADE RETRO, SATANÁS

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Autoria de LuDiasBH

anjcai

Era uma noite ventosa e gélida de agosto. Uma lua magriça esgueirava-se entre nuvens cinzentas. O caminho era negrusco e fastidioso. Montados em duas bestas ruanas, voltávamos o pároco e eu de uma extrema-unção no vilarejo, para a qual fôramos chamados às pressas, na boca da noite. Éramos, na verdade, conduzidos pelos animais com seus passos vagarosos, pois não tínhamos qualquer noção da senda trilhada. Eu desconfio até, que o vigário estivesse a tirar uns cochilos, coisa que lhe era muito peculiar, enquanto eu, nos meus 12 anos e no meu primeiro ano de sacristão, carregava uma chispa de medo, mas nada que a presença de um homem de Deus ao lado, não pudesse apagar.

Pelo barulho da cachoeira, percebi que havíamos chegado ao velho pontilhão. Os animais refugaram, tentando voltar. Em sintonia, todos os pelos de meu corpo eriçaram e um frio cortante varou meus ossos. O vigário, com voz trêmula, rezou o Credo com extrema rapidez:

– Creio em Deus-Pai, todo poderoso, criador do céu e da terra e em Jesus Cristo seu único filho, Nosso Senhor, que…

Um vulto amorfo tomou forma na entrada da ponte, exalando uma insuportável murrinha, misturada com o cheiro de enxofre queimado e, com uma voz cavernosa, suplicou:

– Homem santo, em nome de seu Senhor, eu te peço que me ajudes. Uma das minhas asas, nesta noite miserável, partiu-se ao se chocar contra uma rocha e, com muito custo, aqui cheguei em busca de socorro. Se aqui estiver, ao clarear do dia, homens e cães se abaterão sobre mim com pedras, porretes e dentadas, no intuito de me tirar a vida. Esquece o teu Credo e tem misericórdia de mim.

Padre Ambrósio, armado de sua cruz, respondeu com uma voz anserina:

– Vade retro, Satanás! Por que haveria eu de socorrê-lo?

O excomungado, com voz desaforada, respondeu:

– Porque eu sou a razão de tua vida. De minha existência dependem padres, pastores, rabinos e toda essa gente que adormece e amanhece usando o meu nome. E, em meu nome criaram incontáveis “doutrinas de salvação”, com o disfarce de me combater. Infundiram na própria raça o medo, para dele se servirem, quando deveriam ter ensinado a homens e mulheres, que a salvação deve vir de si mesmos, usando a própria força com sabedoria, precisão e firmeza. Mas, como viveriam os “arautos da salvação”, se assim agissem?

– Cale a boca, arrenegado dos infernos, você não sabe o que diz. – gritou o padre.

O demônio, indiferente ao xingamento do pároco, retomou seu discurso:

– O que fazem os profissionais da fé? Prometem acalmar as angústias da morte, dando às pessoas o direito à imortalidade, sem registro, é claro, enquanto lhes tiram uma parte dos salários, ganhos à custa de muito suor. E, em nome dessa mesma fé, os que falam em nome de Deus fizeram e fazem massacres por todo o mundo, derramando o sangue de pessoas inocentes. Atrasaram a Ciência, massacraram mulheres e ainda continuam a fazê-lo. Em vez de ensinarem a viver o presente, ensinam as pessoas a arrastarem consigo o passado, como numa via-crúcis, de modo a tê-las sob o domínio do amedrontamento.

– Está a vomitar sandices, cão-tinhoso – esbraveja padre Ambrósio.

O diabo faz ouvidos moucos e continua:

– E tu, quantas vezes clamas por mim em teus cultos? Muito pouco citas o nome de teu Senhor. Dizes a teus ouvintes que tudo de ruim é, por excelência, obra minha, ignorando que a espécie humana é dotada de razão. Por que não lhes ensinas a ter consciência de seus limites, fazendo uso da racionalidade? É muito mais fácil e vantajoso vencer pelo temor, não é mesmo? Como todos os outros de todas as crenças, tu fazes da fé um instrumento político, uma muleta moral em benefício próprio. Por isso, urge que me salves, para o teu próprio bem. O meu fim é o teu fim. De que viverás após a minha morte? Qual será a tua nova profissão? Cuidado! Serás responsável por centenas de milhares de desempregados, que “trabalham” em nome da “salvação”. Hão de arranca-ter a pele. Se me deixares morrer, pereceremos juntos.

Confesso que, mergulhado naquele embate verbal, o medo se evaporara de mim. Restava-me apenas uma profunda curiosidade quanto ao comportamento do padre Ambrósio. Salvaria ele o acidentado Satanás? Ignoraria sua preleção e passaria à frente? E o que seria de seu futuro?

Nota: Imagem copiada de http://www.flogao.com.br/guzula/131660682

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