Arquivo da categoria: Poesia

Temas diversos

MULHERES SEM SOL

Autoria de LuDiasBH

museso

Eu vi muitas mulheres prisioneiras,
perquirindo a vida através de janelas,
buracos de algodão grosso e rugoso,
ferindo seus olhos na rudeza da cela.

Cativeiros tecidos de panos ásperos,
grotescas figuras perdidas nas trevas,
espectros de uma existência sinistra,
cadeias de dóceis e tristonhas servas.

Jamais viram as trilhas do caminho,
presas ao calor abafante das burcas,
cavoucos temíveis da cor da crueza,
cárceres móveis de demência bruta.

Os seus corpos são cavernas isoladas,
o lugar mais desditoso deste planeta,
vegetação desprovida de fotossíntese,
onde o sol nunca nasce ou se deita.

Nota: Imagem retirada de http://www.ci-cpri.com/?p=994

ÀS MENINAS MUTILADAS DA ÁFRICA

Autoria de LuDiasBH

SOMAL123

Aqui estamos nós, indefezas, na fila da tortura.
Trançaram nosso cabelos e vestiram-nos, todas,
com roupas iguais, como irmãs da mesma sina.
Disseram-nos que era um dia de festa e alegria,
mas os gritos lugentes de nossas companheiras
dilaceram os nossos coraçõezinhos de meninas,
e demonstram a farsa dessa peversa mentira.

Nós somos somente um bando de garotinhas,
impotente diante dos ditames de sua “cultura”,
ratinhas cobaias, indefezas, em seus biotérios,
assombradas, amendrontadas e horrorizadas,
num estado afligente de abandono e desamor.
Cada menina que deixa a fila sinaliza nossa vez
de enfrentar a lâmina infame de tal urdidura.

Sou a próxima vítima desta diabólica agonia.
Bloqueio meus olhos e encarcero meu rosto,
como se pudesse erguer uma barreira contra
esta cerimônia de perversidade desacanhada.
Atrás de mim, pelos gemidos incontidos, sinto
que as minhas pávidas amiguinhas tremem e
abafam o grito da inocência esfacelada.

Uma lâmina infectada e sem piedade, na bruta,
cortará meus “clitóris” e tão “pequeninos lábios”.
O corpo mutilado e amarrado sangrará dias a fio,
e depois se avolumará como se fosse explodir, e
eu me consumirei em dor até perder os sentidos.
Delírios febris consumirão meu corpo e espírito.
Tomara Deus, Alá ou Jeová que em seus braços
eu acorde – depois de ter na Terra morrido.

CONFISSÕES DO ENCANTADO

Autoria de Pierre Santos
PP

Sou antes. Sou um dia. Existo pelos trópicos.
Meu coração se espalha como pedra. Entanto, estou deserto,
penhasco milenar, aquém oblongo opala e já fui índigo.
Estou sempre. Estou perto.

Por três noites dormi num sóbrio monastério
a noroeste da polar estrela
e fui miniaturado por um monge azul,
que me deixou sem barba e sem estela.

Tive a mão lida por uma cigana em plena Costa Brava
e após fluí encosta abaixo em amplo vôo exausto,
como quem quer saber o dia em que nasceu
e a data do holocausto.

Na praia de Kyrenia conheci o amor e seus unguentos
com que uma deusa ungiu-me, acariciou-me
e comigo rolou Mediterrâneo a dentro,
dando-me de presente o sol, seus heliotrópicos.

Por um instante me esqueci dos trópicos…
mas os meus pés alados enfrentaram solertes o hemisfério,
enquanto sereias de fogo me embalavam
e fadas de outra esfera iluminavam rumos e mistérios.

Hoje sou leme. Agora, sem espanto, canto o meu encanto
e ora estou sempre. Sempre!

 Nota: ilustração de Guido Boletti

MEUS VERSOS

Autoria de J.Triste

munch

Meus pobres versos,
Tão dispersos,
Tão sem jeitos
E imperfeitos,
São sinceros, todavia !
E possuem a primazia
De despertar corações
Endurecidos,
Empedernidos,
Amolecendo-os,
Enternecendo-os!

Meus versos são meus cantares,
Meus lamentos, meus penares,
Sinfonias de minh’alma!
Meus anseios, minha calma,
Meus sonhos, felicidades,
Prantos, risos e saudades !

Há sempre, nos versos meus,
Uma flor… um malmequer!
Uma reverência a Deus
E um coração de mulher!

Nota: ilustração À Mesa de Café, Edvard Munch

MÉDICO DE OLHOS

Autoria de Dr. Ivan T. Large

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Os anos vêm, os anos vão.
Olhos vêm, olhos vão.
Eles chegam, dois de cada vez,
desfilando na passarela – minha sala,
em busca de diferentes soluções.

São tantos os problemas:
uma dor, uma dificuldade para ler,
dor-d’olhos ou simplesmente uma coceira…
Problemas que sou incumbido de resolver,
pois é o que indica, em letras maiúsculas,
a placa fixada na porta da minha sala:
“MÉDICO DE OLHOS”.

Aproximo-me de glóbulos inquietos,
munido de minha lanterninha e de
equipamentos cada vez mais sofisticados.
Examino-os, ilumino-os, transilumino-os,
atento ao mínimo detalhe, uma anomalia
qualquer, que me ajude a desvendar
o segredo daquele olhar.

Como uma criança,
tento encaixar metodicamente
as peças do meu quebra-cabeça.
Interminável lida que dura o dia todo,
até os ponteiros do relógio indicarem que
o sol já se pôs e é hora de ir para meu lar,
amainar o cansaço, à espera de um novo dia,
que promete à mesma rotina voltar.

Foram muitos anos de estudos, desafios
e sacrifícios para conseguir este prêmio:
ficar confinado o dia todo numa sala com
janelas fechadas, como num pseudocativeiro,
escrutando olhos e sendo espreitado por eles.
Talvez eu seja apenas um cativo em meio
a milhares de olhos apreensivos ou gentis.
Mas confesso: sou um prisioneiro feliz.

Atrás desses olhos, vivem seres humanos.
Ao tentarem resolver os problemas de vista,
é-me permitido aproximar-me de suas vidas,
e, durante os minutos que dura a consulta,
tenho o privilégio de fazer parte delas.

Olho nesses olhos, que também me fitam,
alguns jovens e outros já cansados, posso ver
tristeza, alegria, mágoa, medo ou esperança.
E, como por encanto, num piscar de olhos,
abre-se à minha frente o livro de uma vida,
onde eu posso ler incríveis histórias,
que nunca foram escritas.

Muitas são tristes, é verdade!
Mas ainda assim, como são bonitas!

Nota: ilustração copiada de pt.wikipedia.org

A NAVEGANTE

Autoria de Kelly

CS.12.3.4.5.6.7

Uma coisa tenho aprendido,
que nem toda água do oceano
consegue afundar um navio.
Ele navega sobre os mais
diversos mares.
A água só pode afundá-lo, se
entrar e permanecer dentro dele.

Estou tentando esvaziar os compartimentos
que estão inundados em meu navio, e,
que fazem com que ele pese mais
do que o necessário.
Eles quase o fizeram naufragar.
Eu não o abandonei nem poderia,
jamais abandonar.

Quero, sim, é velejar,
deslizar e descobrir novos mares,
ancorar, quando o porto for seguro,
recarregar, e seguir viagem
até o lindo e infinito horizonte azul.

Nota: pintura de Leonid Afremov