POEMA PROS OPERÁRIOS DA CONST. CIVIL

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Autoria de LuDiasBH

CIVIL

Quem é esse que se arrisca na proteção, ergue andaimes
amassa cimento, vara pregos, traça paginação de pisos e
paredes, faz massa, coloca reboco, assenta revestimentos,
faz dilatação, talha mármore, madeira e granito, gera vãos
pra janelas e portas, mas cuja vida é cheia  de humilhação?

Quem é esse que tem mãos calejadas, músculos talhados
pela areia e argamassa, tosse pulmonar vinda do cimento
que arregaça, e depois do serviço obrado é logo esquecido,
impedido de entrar nos locais onde seu suor deixou o sinal
do sofrimento, gerado pelos longos meses de trabalho?

Quem é esse que se ergue quando a garoa da madrugada
inda chora e, enquanto o patrão dorme na sua cama macia,
seus frágeis ossos já balançam no lotação com dezenas de
outros irmãos, rumo a ?a vida de desesperança, numa luta
inglória e vazia, tentando apenas subsistir?

Quem é esse que de segunda a sábado a marmita carrega
entupida de macarrão e, depois de muitas horas de labuta
come a subnutrida dieta de operário braçal e, mesmo sem
energia pra continuar na fadiga, necessita prosseguir, quer
chova ou faça sol, quer sinta bem ou mal?

Quem é esse que de tanto ocultar a dor passa a não mais
acreditar em patrão ou amigo, desconfia de qualquer coisa
que se move — até da velha e surrada gaiola da obra que nas
paredes sobe — e anda com um pé na frente e o outro atrás,
achando que no fundo gente é tudo igual?

Ele é o oleiro da vida, o artista filho da Terra, que dá forma
ao que toca, vida ao que talha, levanta mansões e choças,
maternidades e cemitérios; é o ontem e o hoje, o eterno e
o agora — é o grande artífice da construção civil.

Criativas são as ideias, braços e mãos desse hábil operário;
constrói casas, ruas, muros, pontes, estradas e prédios que
minguados erguem-se do chão e, depois, miraculosamente
quase tocam o céu, desafiando o douto físico e matemático
Isaac Newton com a “lei da gravitação universal”.

Ele é um democrata nato! Levanta sem distinção a morada dos
bons  e dos maus; dos arrogantes e dos humildes; inda que a sua
família, desprovida de conforto, prossiga em seu barraquinho
inacabado, bem coladinho ao seio do chão.

Ele será eterno! Viverá pra sempre nas coisas que constrói;
em tudo que levanta fica gravada sua marca; ainda que as
gerações não se lembrem de seu nome, quedará na Terra
como os escravos que suspenderam as pirâmides do Egito;
essas ainda permanecem, mas foram embora os faraós.

Pouca chance teve pra lidar com os livros da vida, mas leva
dentro de si o dom divino daquele que aprende apenas com
o sopro de Deus; os diplomados só lhe ministram as regras,
entretanto é ele quem bota a mão na massa, com seu saber
empírico — nascido da observação e da experimentação.

Ele é o filho amado da mãe Terra; todos os dias acaricia-a
com as mãos, ainda que rudes, suadas e repletas de calos;
gosta de tocar a terra, pois um dia se unirá a ela que irá se
lembrar dele — seu filho, caboclo singelo, sem estudo, mas
que dela jamais sentiu vergonha — e ela lhe ofertará, como
agradecimento, um naco de seu torrão para que nela seus
ossos adormeçam eternamente, achegados a seu coração.

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