PUC – MONSENHOR SALIM

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Autoria do Prof. Rodolpho Caniato

 Era junho de 1953. Minha proposta de mudar meu trabalho de consultoria de São Paulo para Campinas havia sido aceita. Minha mudança para Campinas estava condicionada à certeza de que poderia continuar meu curso de Matemática na PUC de Campinas. A Secretaria dessa instituição me encaminhou para uma entrevista com o reitor Monsenhor Dr. Emilio José Salim. De forma muito afável e atenciosa ele deslindou os aspectos burocráticos de minha transferência.  Dele me despedi com a certeza de que podia decidir pela minha definitiva mudança para a cidade natal de Carlos Gomes.

Frequentar a PUC, ou melhor, a Faculdade de Filosofia, era topar quase todos os dias com Monsenhor Salim. Ele era não só o Reitor da PUC desde sua fundação, mas a encarnava e a dirigia pessoalmente, como pai. Isso significava e implicava sua presença constante, tanto para controlar as finanças e os “costumes da casa” quanto para escolher e contratar os professores. A PUC de Campinas ainda era muito jovem e ele a dirigia com cuidados e relações paternais. O fato de ser eu oriundo de uma transferência da PUC do Rio via USP e de ter meu processo passado inteiramente por suas mãos conferiam-me alguma notoriedade como aluno: era um “caso” único.

A montagem do telescópio e o parcial custeio por parte da PUC propiciaram meu contato mais próximo com sua administração e, portanto, com Monsenhor Salim pessoalmente. Seu acolhimento de minhas ideias relacionadas à Astronomia e à satisfação por ser a PUC a primeira instituição a ter um aparelho daquele porte aumentaram meu prestígio junto a ele. Daí resultou seu convite para que eu criasse e fosse o primeiro professor de COSMOGRAFIA, além de professor assistente do idoso e venerando Prof. Aníbal de Freitas, titular da Cadeira de Física.

Depois de março de 1964 em muitas ocasiões aconteceram movimentos estudantis de repúdio ao Regime Militar de 64. Algumas vezes os ânimos exaltados de movimentos estudantis produziram confrontos e agitações. Mesmo durante os momentos mais acalorados e de confronto, jamais o reitor Mons. Salim solicitou ou permitiu que a polícia entrasse no “Pátio dos Leões” ou fizesse alguma intervenção em qualquer dependência da PUC de Campinas. Em 1967 o governo militar impunha uma reestruração que forçava para uma radical mudança na estrutura da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, produzindo inevitáveis consequências na estrutura de poder da instituição e alguns atritos entre o diretor, o corpo discente e o corpo docente. A Congregação elegeu uma Comissão de Reestruturação. Eu fui um de seus integrantes.   

Em 1968, a Ditadura apertava o cerco político às instituições universitárias e às lideranças estudantis em todo o Brasil: logo viria o AI 5. Numa discussão acalorada com um líder estudantil dentro da Faculdade de Filosofia, seu diretor, sobrinho do Reitor, expulsou sumariamente o estudante. Isso acirrou ânimos e levou os estudantes à ocupação do “Pátio dos Leões”. Expulso sumariamente, o líder estudantil me procurou para que o defendesse.  Respondi que não poderia defendê-lo pessoalmente, mas, que poderia defender o DIREITO dele e de QUALQUER UM a um JULGAMENTO. Esse fato deu lugar a uma crise maior, também corroborada pela crise NACIONAL, e até internacional, envolvendo a maioria das instituições de ensino superior.

Essa histórica crise de 1968 colocou-nos em lados opostos: a mim, para isso eleito pela Congregação, e ao Reitor, a autoridade maior da PUC. Eu defendia para o aluno o DIREITO a um julgamento contra a sumária expulsão. Ele defendia seu DIRETOR que havia feito a expulsão. No calor da crise tentei explicar ao caro Reitor que ninguém queria ameaçar sua autoridade: a PUC por ele criada desde seu nascimento havia crescido; tornara-se adulta e desejava alguma participação na gestão de seus próprios destinos. Eu, nesse momento, tinha cinco filhos, já chegando à adolescência e bem sabia da “rebeldia” dos filhos contra a legítima, mas às vezes excessiva autoridade dos pais. Foi nessa altura que a saúde do Monsenhor Salim, já abalada por vários infartos muito anteriores, cedeu e o levou ao hospital. Seu passamento foi um choque para todos que tinham nele o “pai” da PUC de Campinas, homem culto que dedicou grande parte de sua vida a essa instituição.

Em outra ocasião, muitos anos antes, eu havia sido chamado à Reitoria para uma “conversa”. Já como recente professor das disciplinas de Cosmografia e de Exercícios de Física eu havia promovido uma série de conferências do filósofo Huberto Rhoden no Centro de Ciências, Letras e Artes, o “CCLA” de Campinas. O tema seria “A Filosofia Universal”. Como esse filósofo, autor de muitos livros, havia sido padre católico, ele era um “apóstata”, isto é, alguém que havia “saído” ou “deixado” a Igreja Católica. Sua presença em Campinas era considerada uma “apostasia” e vista com desagrado pelas autoridades da Igreja. O Reitor queria saber se era de fato uma “iniciativa de um professor da PUC?”, eu. Apesar de as razões da conversa serem sobre a “surpresa” da Direção da PUC com o patrocínio de um “nosso” professor, o nível da conversa foi de “alta consideração”. Num tom quase paternal, para que eu pudesse mais facilmente “voltar” ao “caminho da fé”, fui presenteado com um de seus livros que era usado na formação dos seminaristas de então: “Ciência e Religião”. Mesmo com esse episódio relembro com grata memória nossas conversas, nossos “encontros” e um “desencontro”.

2 pensou em “PUC – MONSENHOR SALIM

  1. Rubens Pantano Filho

    Histórias sobre os anos sombrios de 64/68… e que precisam ser registradas para que possamos compreender melhor os anos 60, tempos já bem distantes, inclusive para que não voltemos jamais àqueles cenários cinzentos. O mestre Caniato, como sempre, cordial, coerente… nos brinda com um registro sobre um episódio do período, com respeito e consideração por alguém que, por um momento, estava do outro lado da mesa. Tive a satisfação de ter sido aluno desse grande educador, quando o mesmo era docente na UNICAMP. Hoje, fico feliz por tê-lo como amigo… e também como uma grande referência na área educacional.

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  2. Paulo Bedaque

    Mais um texto cheio de ternura, história e sensibilidade deste que é um marco no ensino de Ciências e especialmente de Astronomia no Brasil, o prof. Caniato, de quem tenho a imensa honra de ser amigo.

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