Autoria de Glória Drummond
Morro de dó das galinhas! Há muito deixei de comer sua carne branca e sofrida. Espremidinhas nas granjas ao ponto de ocupar o espaço de um papel sufit… nunca dormem, não têm prazer algum. Botam e botam, com luz intensa nos olhos. Quando galeto, logo vai para o abate. Nascem de chocadeiras e vão passando na esteira nazista da seleção: ao menor defeitinho ou fragilidade e o pintinho é empurrado para um latão. Vai virar farinha… Os que trabalham nas granjas, no abate, não acham que são seres vivos! Que se a gente criar, vira um dócil e inteligente bicho de estimação! Tem até madame que compra caixa de pintinhos para dar de presente aos convidados das suas pestinhas que aniversariam, como se fossem brinquedos de plástico.
As caipiras, pelo menos ao entregar seu pescoço à faca ou ao destroncamento, tiveram antes uma vida razoável… Mesmo assim, se me convidam para comer um franguinho e vejo pescoço, asas, moelas, coração, peito, tudo num caldo que pode ser sangue coagulado (o famoso molho pardo), perco a fome. Sinto mal. Até carne de peixe não me apetece mais. Não faço distinção entre carne vermelha e carne branca. É tudo carne, exige sofrimento. É cadáver que ingerimos. Ferro, proteínas? Tiro-as de outras fontes. Breve vou eliminar os lácteos e ovos. Questão de consciência alimentar. Em nome da gastronomia, já imaginaram o que fazem com os gansos, cujo fígado vira o tal fois gras, tanta a comida que lhes enfiam goela adentro? E finesse à parte, que gosto horrível tem essa iguaria!
Caviar, nem pensar. Imagine eu comendo óvulos de “peixa”? Nem quando fui à Rússia. Há muito estou às portas do veganismo (vegetarianismo xiita), mas sem terrorismo, e cada vez mais saudável. Minha esperança é que um dia o homem deixe de comer carne, acabar com a natureza criando bois verdes (Ah! Esta Friboi do Toni Ramos e do Roberto Carlos!) para os gringos e aqueles churrascos chiques ou bregas de feriados, domingos e comemorações. Nos frigoríficos correm rios de sangue, adrenalina. O espetáculo é tão deprimente (já viu?), tanta é a dor, o medo dos que vão morrer, que os abatedouros ficam longe das cidades, das nossas vistas, ao ponto de as crianças não saberem de onde vem a carne maquilada que comem. Um dia perguntei a uma delas de onde vinham os alimentos. Quanto cheguei à carne, o menino disse: “Vem de um pé de carne, tia !” Depois que lhe expliquei, disse : “Carne, pá mim , não!”
Qualquer um que não fechasse seus olhos e consciência para a realidade do abate, diria o mesmo. Não é sem dor que os animais são abatidos. A sociedade do lucro, consumo é selvagem. Não perde tempo e dinheiro, quando mata milhares de animais todos os dias. Eles são esfolados ainda vivos, Se duvida, vá ver. Tanto que o nome antigo era matadouro. Nem o cavalo, esse animal que sempre acompanhou o homem no processo civilizatório, não escapa dos abatedouros. Antes de morrer cortam-lhe parte das pernas para o sangue escorrer, numa espécie de sauna, eliminando a cor escura da sua carne. Há açougues só de carne de cavalo! Os que apreciam essa suada “iguaria”, dizem: “Não comem cachorro na China, não matam golfinhos a paulada no Japão, Noruega?” Eu poderia acrescentar : Não há bichanos, esses seres esculturais, telepáticos, meio bruxos, sendo caçados para tamborim ou churrasco?
Não suporto o cheiro da mais asséptica e decorada casa de carnes. Sinto uma espécie de energia desprendendo daquelas carnes penduradas, dos comedores de carne disputando picanha, filés, bofes… Algo que beira a um filme de terror.
A comemoração do nascimento de Jesus exige rios de sangue embebedamento de perus. E lembre-se: o Tender, tão bonitinho, dourado, cheio de cravos, mel… é carne! Leitoinhas-bebês, com maçã na boca, estiveram dependuradas, tão branquinhas, nas casas de carne. O choro dos dóceis carneirinhos, que sangraram de cabeça para baixo até morrer, não sensibiliza. Você leu que o Filho de Deus se alimentou de carne em alguma passagem bíblica? Não! e não lerá nunca! Ele aboliu os sacrifícios de sangue do Velho Testamento. A multiplicação dos peixes? Foi pensando na plebe ignara e rude. A dieta básica de Jesus, dizem, era: frutas, cereais, vinho, mel, legumes e verduras da região. Como sei disto? Ora, lendo! Um pesquisador de dietas, nutrição, autor de uma tese sobre alimentação, presumiu. Depois Jesus, como Sócrates, nada deixou escrito. E por que, lhe atribuem (ou a Deus) a permissão para comer nossos irmãos, os animais?
Leonardo Da Vinci disse que no dia em que o homem conhecer a natureza dos animais, terá vergonha do seu passado de escravização, maus tratos, abandono, sangue derramado. Quando virá este dia? Vão passar Luas e Luas… Talvez um século. Vivemos num planeta atrasado. Comer carne atrasa ainda mais o processo de evolução da própria humanidade. O que fazer com tantos animais? Eles não seriam tantos, se não fossem criados como mercadoria. A natureza é sábia no seu processo de equilíbrio. Se os primeiros hominídeos viveram da caça é porque não dominavam as técnicas da agricultura, pastoreio e seus caninos eram imensos, diferentes dos nossos.
Quem sabe se respeitando aqueles que não têm voz e direitos não aprendemos e vivenciar o respeito ao self (o si mesmo), aos outros, e às minorias ?
Nota: Galo Morto (séc. XVII), de Gabriel Metsu e O Boi Esquartejado (1655), de Rembrandt
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