Arquivo da categoria: Poesia

Temas diversos

POEMA PARA OS ENFERMEIROS

Autoria de LuDiasBH

PIPI

Quem ousa dizer que não mais existem anjos,
se eles grassam por todos os cantos da Terra
com suas mãos de luz e coração compassivo,
levando alívio, consolo e amor aos locais mais
diversos, onde a tristeza e a dor imperam?

Quem pode falar que não mais existem anjos,
se eles deixam para trás seus entes queridos,
para socorrer os membros de outras famílias,
e mesmo cansados, explorados e esquecidos,
aliviam-nos no padecimento e na agonia?

Quem ousa dizer que não mais existem anjos,
se eles, com seus trajes suaves, acalmam os
enfermos, valendo-lhes o corpo com remédios
e o espírito com palavras de incentivo, mesmo
quando no próprio coração a tristeza governa?

Quem pode falar que não mais existem anjos,
quando lhes sustentam um mísero salário, são
logo esquecidos pelo bem que fazem, lesados
por um sistema capitalista feroz e, inda assim,
estão em seus postos, faça chuva ou sol?

Quem ousa dizer que não mais existem anjos,
se esses estão em todos os lugares da Terra,
abaixados sobre o leito dos doentes — alguns
esquecidos pelas famílias — diminuindo-lhes a
dor tenaz e o pranto que no rosto abatido rola?

Quem pode falar que não mais existem anjos,
se esses amparam todos os enfermos, mesmo
correndo o risco de infectarem-se e carrearem
doenças para suas preciosas famílias, quando
muitos familiares deles, receosos, afastam-se?

São tantos anjos de luz, compassiva legião do
bem; anjos divinos das mais diferentes idades,
circulando por todos os recantos desta Terra…

Alguns são bem novinhos, iniciando a jornada;
outros já bem experientes na sua caminhada.
Anjos negros, brancos, amarelos, morenos e
ruivos, todos luzindo como belos fachos de luz.

Anjos nos apartamentos e enfermarias; anjos
nos corredores e salas de cirurgias; anjos nos
serviços de urgência e postos de saúde; anjos
cuidadores de bebês e idosos; anjos nas salas
de exames e postos de atendimentos (SUS);
anjos nas beneficências e hospitais; anjos nos
serviços gerais — no céu, terra e ar.

Anjos em função da vida; anjos de todas as
plagas; anjos de diferentes locais. Benditos
sejam, filhos de luz! Arcanjos, querubins e
serafins; benditos sejam os enfermeiros da
Terra — ternos mensageiros de Jesus.

POEMA PARA MINHA MÃE QUE PARTIU

Autoria de LuDiasBH

poema

Por favor, todos vocês, ouçam-me por piedade!

Parem todos os relógios e  as máquinas; calem
os telefones fixos e os móveis; ensurdeçam as
vozes dos homens e animais; enrouqueçam os
instrumentos e sons dos arredores; emudeçam
todos os sonidos da Terra e que só as lágrimas
anunciem a descida de seu corpo, seguido pelo
murmurar choroso do vento:
— Ela partiu! Ela foi embora para sempre!

Que as aeronaves singrem o ar lastimando-se
e que escrevam nos céus a verdade mais cruel:
ELA PARTIU para nunca mais voltar.

As estrelas não são bem vistas, apaguem-nas,
uma a uma, por favor! Guardem eternamente a
lua e as flores; desmontem para sempre o sol e
a brisa; escureçam o azul do céu de uma só vez;
despejem os oceanos na amplitude do Cosmo;
livrem-se da música, das flores e árvores onde
cantam os curiós, sabiás, canários, rouxinóis…,
porque coisa alguma trará a beleza de tempos
atrás e nada existe que possa minimizar minha
dor, pois eu nunca mais ouvirei o som doce de
sua voz no durar de meus dias na Terra.

Por favor, meus parentes e meus amigos, atem
laços violetas nas torres das igrejas; botem um
manto roxo nos letreiros luminosos; impeçam as
crianças de divertirem-se nos parques; amarrem
tarjas negras nos braços dos passantes; cubram
a felicidade impressa no rosto dos enamorados;
empanem de preto a cor verdejante dos campos
e permitam-me também murchar, expirar, morrer,
pois minha vida já não tem significado algum.

Eu lhes suplico, ó gentis presentes, que não me
estanquem a voz com frases feitas; não me falem
de céu, paraíso ou eternidade; não me consolem
com promessas ocas e não me entorpeçam com
o sono da caridade, pois tudo será inútil diante da
dor pungente que me dilacera corpo e alma.
Mas, por favor, abracem-me! Abracem-me!

Ó minha mãe e adorada amiga, jamais tocarei
de novo a sua face e nem sentirei a ternura de
seu abraço; não ouvirei sua voz chamando por
meu nome e nem sentirei o repercutir de seus
passos pela casa; quando a noite ou o dia vier,
eu estarei só, e sozinha estarei quando a vida
me machucar, pois você era o meu Norte e o
meu Sul, era também o meu Leste e o Oeste.

Você, minha mãe, era tudo para mim
— meu incondicional amor nesta Terra;
era os meus dias úteis e meus finais de semana;
a minha força, os meus causos, a minha poesia
e era também a minha alegria mais profunda.

Eu imaginava que o amor de mãe fosse eterno,
porém a realidade aparece agora nas lágrimas
que ora escorrem pelo meu rosto murcho e roto,
na dor que despedaça meu coração sem rumo,
com o sentimento forte de ter morrido junto, pra
depois constatar angustiada que fiquei para trás,
aqui, sozinha neste vasto e inseguro mundo.

Que nos abracemos agora todos nós, filhos sem
mãe, deserdados do amor materno; que o nosso
conforto seja capaz de arrefecer o nosso luto, por
termos ficado tão sós; sós nos braços do mundo;
mas a vida deve continuar, dizem os sábios, pois
assim é, apesar de tudo.

Nota: este poema é uma homenagem à minha mãe e a todas as mães que já nos deixaram.

VIAGEM DE TREM A PARANAGUÁ

Autoria de LuDiasBH

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Meu amor e eu no trem,
descendo a Serra da Graciosa
em direção a Paranaguá.
Eis mais uma curva nervosa:
– Venha pra cá, meu bem!
Vá pra lá, minha sogra!

Virgem Maria, oops!,
que curva mais fechada!
A máquina até cheira o rabo
do último vagão desregulado.
Ele me enche de afeto na janela.
– Meu bem, isso não é nada!

E o trem cabriola abrutalhado,
jogando de um lado pra outro.
– Meu amor, vá pra sua janela,
Ai meu Deus, o trem vai virar!
Piuípiuípiíishishishapshashap
Já estou vendo Paranaguá!

Hmm! Que viagem mais ligeira!
Que pressa do trem no chegar!
Não precisava descer tão rápido!
A excitação foi tamanha, diante
de tanta beleza, que nem deu
tempo da gente se beijar.

Sssssssssssssssssssmack!

APAIXONEI-ME POR AMIGA

Autoria de LuDiasBH

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Sinto a língua molhada no meu rosto,
lambuzando-me com beijos de afago.
O corpo enroscado às minhas pernas,
olhos bebendo-me a alma – em tragos.

Enquanto Amiga corria pela praia,
de volta ao seu costumeiro destino,
lágrimas escorriam sobre meu rosto,
de volta ao meu, perdida – sem tino.

Ela – só um pontinho na areia branca.
Eu – um tosco borrão dentro do barco.
Ambas perdidas no tempo e no espaço,
salpicadas de gotas e pingos – amargos.

A chuva caía lá fora, molhando-a toda.
Regavam-me o rosto lágrimas doídas.
Eu levava um sentimento dilacerante,
ao deixá-la sozinha pra trás – na vida.

Ainda sinto o seu corpo naquele banho.
Desajeitada, com uma carência franca,
queria fugir, em meio às minhas pernas,
que, rijas, a sustinham – pelas ancas.

Ensaboava seu corpo de pelos dourados,
com o meu sabonete cheiroso de lavanda,
salpicando sobre si uma cascata cheirosa
de uma reconfortante espuma branca.

Deitamo-nos ao sol diante do mar azul,
sob o olhar surpreso de nossos vizinhos.
E secamos nossos corpos encharcados,
sob o farfalhar do morno vento marinho.

Eu – explodindo de afeto.
Ela – carente de afeição.
Eu – acariciando seu corpo.
Ela – beijando minha mão.

Antes de partir, roguei aos pescadores
que olhassem aquele serzinho solitário,
que caçava caranguejo, com destreza,
nas areias da praia – em desamparo.

Ainda sinto a ternura de seu abraço,
sua língua molhada sobre minhas pernas,
e seus olhos famintos de amor nos meus.
Amiga, como foi difícil dizer-lhe Adeus!

A VIDA E O PORTO

Autoria de LuDiasBH

porto

A vida nada mais é
que um grande porto,
onde uns chegam
e outros partem.

Esses choram de alegria,
porque estão chegando;
aqueles choram, tristonhos,
porque estão partindo.

Alguns chegam
bem alegres, festivos;
outros chegam
bem tristes, quebrantados.

Aqueles partem
abatidos, acabrunhados;
esses partem
satisfeitos, alegrados.

Alguns carregam
lágrimas nos olhos;
outros carregam
sorrisos nos lábios.

Aqueles partem
para de novo retornar;
esses partem
para nunca mais voltar.

Alguns chegam,
para logo partir;
outros chegam
para sempre ficar.

Aqueles querem ficar,
mas não podem;
esses querem partir,
mas são impedidos.

Uns dizem que vão embora,
e ficam;
outros dizem que vão ficar,
e partem.

Alguns permanecem
em terra firme;
outros partem
em águas profundas.

Esses acenam,
de pé, no cais;
outros acenam,
de pé, no convés.

Aquele lamenta:
– Deveria ter ficado mais!
O outro murmura:
– Eu ainda vou tarde!

E, assim, navega a humanidade!

Nota: Um panorama de Calecute, na costa do Malabar

A LUA É DOS NAMORADOS

Autoria de Alfredo Domingos

 LUA DE ALFREDO

Faço pães, esculpo pães,
confeito-os com creme.
São os tais pães doces.
Penso na amada que nem
reconhece em mim o amor.

Deixo um exemplar,
todos os dias, bem
na janela da casa azul.
Azul é a casa dela.

Passo de volta e vejo
que o pão foi retirado
Que bom! Ela o pegou.
Levou um pedaço de mim.
Pelo tanto de dias somados
devem ter o meu tamanho.

Malvina, finalmente,
trocou palavras comigo.
Soube do dono dos mimos.
Expliquei do meu ofício.
As tardes, ainda que de
poucos momentos,
passaram a ser nossas.

Ela me procurou entre os pães.
De alegria, morri e renasci
Queria gritar. Jorrar farinha branca, enfim.
O cheiro do pão assado tornou-se inodoro.
Ficou o seu perfume, pois os dois odores
não convivem no mesmo espaço.
Não há chance.

 Estamos bem próximos.
Toquei em suas mãos. Beijei-lhe a testa.
O amor está crescendo como a massa
É preciso que crie corpo. Que apareça.
Até ouvi de Malvina uma coisa linda.
Ela falou em me presentear com a lua
Sou louco pela lua, fascínio dos namorados.

Então lhe disse quase sem forças, lotado de amor:
– Traga a lua! Venha com ela debaixo do braço,
do mesmo jeito que faço com a bisnaga de pão.

Nota: Imagem copiada de www.lavioletera.com.br