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Textos sobre variados tipos de arte

JAN STEEN  –  A FESTA DE BATIZADO

Autoria de LuDiasBH                                                             (Clique na imagem para ampliá-la)

O pintor Holandês Jan Steen (cerca de 1625-1679) era casado com Margaretha Van Goyen, filha do seu mestre em Haia, Jan Van Goyen. É visto como um dos mais importantes pintores do seu país do século XVII. Em sua extensa e variada obra encontram-se trabalhos narrativos e alegóricos, paisagens e retratos. Predominam sobretudo as pinturas de gênero. Ele gostava de reproduzir a vida do povo em pintura simples e alegres, a exemplo de Bruegel que gostava de retratar camponeses.

A composição intitulada A Festa de Batizado trata-se de uma pintura de gênero, obra do artista holandês em estudo, cujo tema já está expresso no título.

Numa grande sala reúne-se um grupo composto por quinze pessoas e um bebê. Todos se mostram alegres e ativos. Ali se encontram parentes e amigos do casal festivo. À esquerda vê-se um enorme vão para a cama, onde a mãe é vista deitada, tendo ao seu lado duas mulheres, uma delas de pé e a outra sentada numa cadeira de madeira, de costas para o observador.

Uma grande mesa ocupa o centro da sala em torno da qual se reúnem as pessoas. O pai, de pé, segura seu bebê enrolado num manto vermelho, como se esse fosse uma boneca de tão rígido que se mostra. Uma mulher, de costas para o observador, arrasta uma enorme cadeira de madeira para sentar-se. Duas outras preparam num imenso caldeirão algum tipo de alimento. No chão são vistos utensílios, dentre os quais estão uma bandeja com pão e um almofariz. Cascas de ovos espalham-se pelo chão e também o que parece ser um ovo inteiro.

A figura no primeiro plano (mulher de costas para o observador) usa roupas coloridas e alegres. Ao contrário das demais, não usa toucas ou panos na cabeça, mas um grande coque, deixando seus cabelos a descobertos, o que era incomum à época. Seu colete combina com o manto do bebê e o tecido da cadeira atraindo o olhar do observador. O berço do bebê é visto em primeiro plano, à esquerda.

Ficha técnica
Ano: 1664
Dimensão: 89, 9 cm x 108,6 cm
Técnica: Óleo sobre tela
Localização: Wallace Collection, Londres, Grã-Bretanha

Fonte de pesquisa
História da Arte/ E. H. Gombrich

CARRACCI – PIETÀ

Autoria de LuDiasBH

O pintor italiano Annibale Carracci (1560-1609), oriundo de Bolonha, foi um dos grandes responsáveis pelo início do período barroco, tendo deixado uma importante contribuição para a pintura. Pertencia a uma família de artistas e estudara a arte de Veneza e a de Correggio. Quando em Roma, o artista viu-se fascinado pelas obras de Rafael Sanzio, sobretudo pela simplicidade e beleza de suas criações, numa época em que os maneiristas tomavam novos rumos.

Uma das obras-primas do artista é o retábulo Pietà que apresenta a Virgem Maria com o filho morto no colo. “Pietà” é uma palavra italiana que significa “piedade”, sendo muito presente na história da arte. Diz respeito à Virgem Maria amparando o corpo sem vida de seu filho no colo. O assunto não tem fontes registradas, mas o que se sabe é que apareceu pela primeira vez em Florença, por volta de 1500, a partir de representações da descida de Cristo da cruz, enfatizando o corpo morto e suas feridas. Tem por objetivo inspirar piedade e tristeza no observador ao ver a dor angustiante de uma mãe (simbolicamente a mãe da humanidade) por seu filho que, segundo a crença cristã, morreu pelos pecados da humanidade, apelando diretamente pela emoção.

Esta obra encontra-se entre as mais belas pinturas do século XVII. O que se sabe com certeza é que foi encomendada pelo cardeal Odoardo Farnese. Não se sabe qual era o seu destino original e tampouco a data precisa em que foi criada. Supõe-se, pelo formato da pintura, que se destinava à devoção particular do responsável pela encomenda, ornando uma capela ou a residência de Farnese. Quanto à data de sua execução, presume-se que tenha sido entre 1598 e 1600. A obra deixou Roma por um tempo, indo para Parma e depois para Nápoles, onde se encontra até os dias de hoje.

A Pietá de Carracci é sem dúvida uma das pinturas mais famosas de seu tempo, como mostram as inúmeras cópias, derivações e transposições de gravuras através dos tempos. Hoje é um verdadeiro cânone da representação da Pietà no período barroco. Antes de executá-la, o artista fez alguns estudos, tendo três deles chegado aos nossos dias, o que permite acompanhar o seu raciocínio na criação de tão belo trabalho. É possível saber que ele modificou a posição do corpo de Cristo na última versão preparatória em relação à primeira, ficando essa bem próxima do resultado final. Na primeira versão a Virgem Maria encontrava-se ajoelhada ao lado do corpo de Jesus que repousava sobre o túmulo.

O quadro é simples, harmonioso e tocante. A Virgem está sentada no chão, tendo parte do corpo de Jesus repousando sobre suas pernas e ventre. A cabeça de Cristo descansa sobre sua mão direita que a ampara ternamente. Seu rosto choroso está voltado para o filho morto, cujas pernas estão estendidas sobre a mortalha branca no chão. Carracci conseguiu repassar, através das feições da Virgem e de sua mão esquerda — retratada num exímio encurtamento — como se perguntasse sobre  o porquê de tamanha judiação, repassando muita dor.

A escala monumental das figuras e a composição piramidal repassam a gravidade da morte de Cristo e o grande sofrimento de sua mãe. Um anjo tristonho se debruça sobre o corpo da Virgem e sustenta a mão direita de Jesus Cristo, como se mostrasse a ferida ocasionada pelo prego. À direita da tela está um segundo anjinho, com seu rostinho contristado, que espeta o dedinho na coroa de espinhos de Jesus. Ele olha diretamente para o observador, como se o convidasse a refletir sobre o sofrimento pelo qual passou o Salvador e sobre a dor de sua mãe Maria.  

O corpo de Cristo mostra uma beleza apolínea. Seu pé esquerdo, postado à frente do direito, mostra a marca do prego. Em razão de sua postura suas costelas estão visíveis, assim como seus músculos. A pintura carrega um acentuado vigor escu—ltórico. O grupo formado pela Virgem, pelo corpo de Jesus e pelos dois anjos desalentados está próximo ao sepulcro que se encontra aberto. Todos eles, envoltos pela escuridão noturna, repousam sobre a terra pedregosa, só visíveis em razão dos efeitos de luz e das cores de suas vestimentas. Luz e cor agregam à pintura uma atmosfera de grande emoção íntima, lembrando Correggio.

Após presentear Nápoles com esta obra, o cardeal Farnese encomendou outra pintura com o mesmo tema a Carracci e que hoje se encontra no Louvre. Carracci mostra nesta obra a sua habilidade em combinar de forma original o estilo de artistas do passado — Correggio e Michelangelo. A obra acima compartilha várias semelhanças composicionais com a escultura de Michelangelo. Carracci tomou emprestada a composição piramidal, o gesto da Virgem e a fluidez flácida do corpo inanimado de Cristo.

Ficha técnica
Ano: 1599-1600
Dimensões: 156 cm x 149 cm
Técnica: óleo sobre tela
Localização: Museu de Capodimonte, Nápoles, Itália

Fontes de pesquisa
História da Arte/ E. H. Gombrich
https://it.m.wikipedia.org/wiki/Pietà_(Annibale_Carracci)
https://www.artble.com/artists/annibale_carracci/paintings/pieta

Girolamo Batoni – ENEIAS FUGINDO DE TROIA

Autoria de LuDiasBH

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 Pompeo Girolamo Batoni (1708-1787), pintor italiano do período do Rococó, teve grande prestígio em Roma, sendo dono de uma retratística muito apreciada principalmente pelos aristocratas ingleses. Quando iam à Roma, eles encomendavam retratos pomposos, representados em cenários cheios de antiguidades, ruínas e obras de arte, o que era próprio do estilo do adotado pelo pintor. Foi aprendiz de Sebastiano Conca e Francesco Imperiale.

A composição denominada Eneias Fugindo de Troia é uma obra do artista. Mostra Eneias — um valente guerreiro troiano protegido pelos deuses —, fugindo da cidade de Troia que se encontra em chamas. Leva às costas o seu pai Anquises, já bastante idoso, e tem o filho Lulo, ainda criança, agarrado às suas vestes. Atrás deles está sua mulher Creusa, correndo, a acompanhá-los. A cena é mostrada com o grupo já fora da cidade, tendo às costas suas muralhas e no céu os clarões das chamas provocadas pelo incêndio.

Creusa, com as vestes esvoaçando ao vento, mostra-se visivelmente amedrontada, enquanto segue o marido, o filho e o sogro. Seu rosto volta-se para a sua direita, como se observasse algo aterrador. Seu braço direito estendido repassa a impressão de que ela busca se agarrar ao esposo. A distância entre ela e o pequeno grupo já sugere a separação que haverá entre eles, quando Creusa se perderá pelo caminho.

Eneias era filho da deusa Afrodite e Anquises. Ele teria que fugir, conforme conselhos de sua mãe, para levar avante o nome de Troia, ainda que fosse em outras terras, contudo, para sua infelicidade, na fuga sua mulher perde-se dele.

Ficha técnica
Ano: c. 1750
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 76,7 x 97 cm
Localização: Galleria Sabauda, Turim, Itália

Fonte de pesquisa
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann
Mitologia/ Thomas Bulfinch

Barocci – ENEIAS FUGINDO DO INCÊNDIO DE TROIA

Autoria de LuDiasBHenetroia

A composição denominada Eneias Fugindo do Incêndio de Troia é uma obra do pintor Federico Barocci que mostra Eneias — um valente guerreiro troiano, protegido pelos deuses — fugindo da cidade troiana e levando às costas o seu pai, Anquises, já bem idoso, tendo o filho Lulo segurando suas vestes, à direita. Atrás do grupo está sua mulher Creusa.

Eneias era filho da deusa Afrodite e Anquises. Ele teria que fugir, conforme conselhos de sua mãe, para levar avante o nome de Troia, ainda que fosse em outras terras. Contudo, na fuga, sua mulher perde-se dele.

O pintor mostra fogo espalhando-se e edifícios caindo, assim como o estreito e tumultuado local por onde passa o grupo, como forma de mostrar que a cidade está sendo destruída pelos gregos. A distância entre Creusa e Eneias é também indicativa da separação que acontecerá entre ambos. A cena é mostrada com o grupo ainda dentro da cidade.

Ficha técnica
Ano: 1598
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 179 x 253 cm
Localização: Galleria Borghese, Roma, Itália

Fonte de pesquisa
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann
Mitologia/ Thomas Bulfinch

Ribalta – CRISTO ABRAÇANDO SÃO BERNARDO

Autoria de LuDiasBH

O pintor barroco, desenhista e gravador espanhol Francisco Ribalta (1565-1628) foi o principal pintor de Madri no início do século XVII, tendo o abandonado o Maneirismo em favor do estilo realista. Foi o primeiro espanhol a ser influenciado pelo novo realismo iniciado por Caravaggio na Itália. Seu uso de luz e sombra a fim de dar solidez às suas formas fez dele o primeiro tenebroso espanhol nativo — um pintor que enfatiza as trevas em vez da luz. Serviu de grande influência para os pintores espanhóis posteriores, durante todo o restante do século XVII. Ele teve inúmeros seguidores, como Jerónimo Jacinto de Espinosa e seu filho Juan que faleceu ainda muito jovem — nove meses após a morte do pai — com 32 anos de idade. Executou vários quadros para o arcebispo Juan de Ribera em Valência.

A pintura religiosa intitulada Cristo Abraçando São Bernardo é uma obra-prima do artista. Trata-se de um trabalho monumental, com uma composição simples em que as formas são muito bem modeladas e de uma iluminação realista. A representação da visão é arrebatadora, obtendo Ribera o máximo efeito. A luz fortemente concentrada no Cristo e em São Bernardo tornam as figuras quase que reais. Obras tardias como esta antecipam os trabalhos de Diego Velázquez, Francisco de Zurbarán e José de Ribera no final do século XVII.

Cristo — ocupando a parte central da composição — traz o corpo ensanguentado pelas feridas ocasionadas pelos pregos e pela coroa de espinhos. Ele desce da cruz para abraçar São Bernardo. Seus pés ainda estão pregados no grosso madeiro. Sua cabeça volta-se com extrema ternura para o santo que desfalece em seus braços. O Salvador ampara-o. São Bernardo, representado à esquerda, é visto como uma pessoa magra, com as maçãs do rosto salientes e olhos fundos e fechados diante da presença do Salvador. Seu rosto, iluminado por um sorriso tênue, exprime um profundo sentimento de enlevo. Dois personagens postados à esquerda e à direita presenciam a cena, ficando praticamente despercebidos no fundo escuro da tela.

Ficha técnica
Ano: 1625/1627
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 158 x 113 cm
Localização: Museu do Prado, Madri, Espanha

Fontes de pesquisa
Pintura na Espanha/ Cosac e Naify Edições
https://www.museodelprado.es/en/the-collection/art-work/christ-embracing-saint-
https://www.britannica.com/biography/Francisco-Ribalta#ref11273

Irmãos Limbourg – MAIO

Autoria de LuDiasBH

Era muito comum na Idade Média a ilustração de calendários com quadros de ocupações relativas aos meses do ano. A ilustração acima, intitulada “Maio”, faz parte de um calendário anexado ao Livro de Horas, encomendado à oficina dos irmãos Limbourg (Paul e Jean). Presume-se que a composição tenha sido pintada com lupa.

As imagens têm por inspiração a vida real. Trata-se de uma representação de festejos relativos à primavera, comemorados pelos cortesãos. O grupo formado por quinze figuras cavalga em meio a um bosque. Homens e mulheres usam vestimentas e enfeites requintados e alegres.  O artista separa os cortesãos do suntuoso castelo, do qual divisamos os telhados, usando uma cerca feita de árvores, como se fosse uma cortina esverdeada.

Ainda que a arte dos dois irmãos artistas pareça um modo simbólico de contar uma história, usado por pintores medievais de tempos anteriores, pois é possível notar que a representação do espaço, onde as figuras se encontram, não foi bem reproduzido, o rigor nos detalhes leva a uma ilusão da realidade.

As inúmeras árvores dispostas não são reais, ou seja, não foram copiadas da vida real, sendo apenas simbólicas. Os rostos humanos ainda são criados a partir de um único modelo, trazendo apenas poucas diferenças entre uns e outros. Ainda assim, vários pontos separam esta pintura daquelas do início da Idade Média, sobretudo a alegria nela estampada. Já denota uma busca no sentido de representar uma fração da natureza da maneira mais fiel possível, distanciando-se, ainda que gradualmente, da maneira de contar uma história sagrada, como em tempos anteriores.

Ilustração: 1. Maio, c. 1410, obra dos irmãos Limbourg.

Fonte de pesquisa
A História da Arte / Prof. E. H. Gombrich