Arquivo da categoria: Depoimentos/Saúde Mental

Depoimentos de portadores de Transtornos Mentais.

BIPOLARIDADE E DIVÓRCIO

Autoria de Fernanda Soares

Meu ex-marido tem epilepsia (doença neurológica caracterizada por descargas elétricas anormais e excessivas no cérebro que são recorrentes e geram as crises epiléticas que podem se manifestar com alterações da consciência ou eventos motores, sensitivos/sensoriais, autonômicos. Portanto, a epilepsia é uma doença neurológica, não mental). Ele não foi diagnosticado como bipolar, mas suas atitudes me levam a crer que ele tem, sim, este transtorno. Não quis ir ao psiquiatra. Afirma que não tem problema nenhum, que todas as suas ações são bem pensadas e planejadas, que não há nada de errado consigo (só com os outros).

Durante o namoro e noivado ele terminou comigo algumas vezes a pretexto de que não dávamos certo, que éramos diferentes, mas depois voltava atrás. Depois que nos casamos ele mudou bastante. Em toda briga pedia o divórcio e eu tinha que contornar a situação. Do nada ficava triste e se isolava, depois apresentava-se cheio de alegria e grandiosidade, fazendo vários planos.

A primeira vez em que saiu de casa foi porque não fiz algo que ele queria. Reclamou dizendo que nunca faço nada para ele, mas depois de uma semana voltamos. Em outra discussão que tivemos ele surtou e me xingou de todos os nomes possíveis, quebrou objetos dentro de casa, esmurrou parede, porta e queria ir embora de casa e eu, como sempre, tentando fazê-lo ficar. Sempre dizia que só estava comigo pela minha insistência, que estava apenas empurrando com a barriga a nossa relação, pois sabia que um dia iríamos terminar.

Durante um período ele começou a ficar distante e tivemos muitas brigas. Ele me pediu o divórcio. No dia seguinte já tinha saído de casa e na semana seguinte já havia colocado nosso apartamento à venda. Em menos de um mês ele o vendeu por um preço menor, mudou-se para um bairro mais distante, comprou um cachorro, trocou de carro, trocou de aparelho celular, comprou roupas novas, tênis novo, aparelhos eletrônicos para sua nova casa, mudou de local de trabalho e com a parte dele no apartamento comprou um lote. Disse que iria construir a casa dele, do jeito que sempre sonhou. Tudo isso em menos de um mês.

Procurei conversar com ele depois de um mês, quando tentaríamos reatar a nossa relação, mas a princípio cada um ficaria em casas separadas. Porém, percebi que ele já tinha seguido a própria vida nesse pequeno tempo, feito suas mudanças radicais, tirado a aliança, mudado a rotina. E tudo isso não me incluía mais na sua nova vida. Disse-me que estava bem, como nunca tinha estado antes, que queria viver sozinho, que se sentia muito bem na sua nova vida.

A mãe dele morreu há uns quatro anos e senti que suas crises se intensificaram nesses últimos anos. Tivemos seis anos de relacionamento e ficamos casados durante dois anos. Falei para ele procurar tratamento, pois tudo indica que é bipolar. Disse-me que não tem problema nenhum, que é bem resolvido, decide as coisas da vida dele rápido, que está super feliz e cheio de projetos e planos.

Iremos assinar o divórcio semana que vem. Eu tenho quase certeza de que ele é bipolar, porém ninguém da família tem coragem de falar sobre o assunto com ele, pois é muito agressivo. Não quis nem fazer terapia comigo, já que estou saindo deste relacionamento à base de antidepressivos e fazendo terapia. Não tem sido fácil para mim.

Ilustração: Garota Chorando, 1964, Roy Lichtenstein

BIPOLARIDADE – SEM FORÇAS E SEM RUMO

Autoria de Aline Oliveira

Estou feliz por ter encontrado este espaço com tanta informação, esclarecimento e relatos, mas triste por fazer parte dos que sofrem com seus companheiros bipolares.

Vivo com meu companheiro há exatos 27 anos. No início foi tudo muito bom. Namoramos por 10 anos e nesse tempo a vida dele teve muitas oscilações de trabalho, desemprego e problemas familiares. Também ocorreram várias crises, porém sempre as relacionei aos acontecimentos e o apoiei. Estive ao seu lado em todos os momentos, mas, até então, não tinha sentido na pele o furacão que é a convivência com um bipolar. Como é sofrido!

Em 2013 resolvemos morar juntos. No primeiro ano foi muito difícil, pois ele ficou desempregado e passamos por muitos meses de tensão. Ainda acreditava que toda a ira e descontrole dele era pela situação vivida, porém logo tudo se voltou para mim. Eu era a culpada pela situação, eu era a culpada por seu nervosismo, eu era culpada por deixa-lo fora do controle…

Acordava às 5:30 horas da manhã para trabalhar. Chegava exausta do trabalho e do desgastante transporte público. Isso por volta das 20 horas. Ainda ia fazer comida. Ouvia depois que tudo estava horrível (antes minha comida era maravilhosa), que eu não fazia nada direito, que as camisas estavam sempre mal lavadas (lavava roupas aos sábados e domingos na mão, pois não tinha máquina), entre tantas outras coisas…

Comecei a ficar doente, pois me sentia culpada por tudo. Tive câncer e passei por duas grandes cirurgias. Nesse tempo fui ao inferno e voltei todos os dias. Mesmo sabendo da minha condição, ele alegava que eu fazia corpo mole. Com duas semanas de operada e 79 pontos na barriga, culpava-me por não termos relações sexuais, alegando que era homem e tinha suas necessidades. Passado esse capítulo, cogitei a separação, mas não tinha dinheiro nem para alugar um barraco.

Família, não tenho! Minha mãe era alcoólica e faleceu de câncer faz alguns anos. A família dele sempre sofreu com seu temperamento e eles não têm uma relação amigável. Sim, eu o amo e este é o grande motivo de estar com ele todo esse tempo. Infelizmente ele não aceita tratamento e, quando toco no assunto, fala que sou eu quem precisa de tratamento, pois sou louca e desequilibrada.

Passado um período, a vida dele foi se transformando, pois voltou a trabalhar, mas o comportamento continuava por períodos alternados, entre euforia e depressão. Por muita insistência e num período mais calmo da relação, ele resolveu procurar ajuda psiquiátrica, sendo diagnosticado com bipolaridade. Iniciou o tratamento que durou apenas uns seis meses, pois chegaram os efeitos colaterais, o que para ele era uma invalidez masculina. Ele se sentia castrado por não ter mais a mesma libido.

Desde então vivo numa montanha russa, entre momentos de carinho e meses de xingamentos, brigas, menosprezo, culpa, entre tantos outros motivos criados pelo seu cérebro monstruoso que surge de tempos em tempos. Com a pandemia veio o trabalho home office e ele desempregado. Estou há quase dois anos literalmente no inferno. Tudo é minha culpa, diz que eu sou burra, ignorante e não tenho sentimento por ele. Tudo isso sem eu ao menos abrir a minha boca.

Este é meu desabafo resumido desses 27 anos. Não cabe julgamento, pois além de me sentir um trapo, existe muitas coisas não ditas. Estou sem forças, sem rumo, sem ser eu. Preciso me reencontrar e sinceramente não sei como. Muito obrigada pelo espaço para este desabafo e parabéns por compartilhar tantas experiências.

Ilustração: Mulher Chorando, 1947, Cândido Portinari

BIPOLARIDADE! AJUDE-ME, POR FAVOR!

 Autoria de Luís Rodrigo

Encontrar este fórum de debate sobre doenças mentais, e em especial sobre a bipolaridade, foi como encontrar um oásis no meio de um deserto. Eu me identifiquei com muitas questões apresentadas aqui. Parabéns pelo trabalho e depoimentos. Obrigado! Ler o comentário de vocês traz senão um alívio, pelo menos uma luz no fim do túnel para mim. Continuem a trazê-los, pois ajuda muitas pessoas como eu, desnorteadas, sem nada conhecer sobre a doença.

Minha companheira é bipolar, mas faz uso de medicamento já faz mais de 10 anos. Estamos juntos há mais de 3 anos. Existem alguns períodos bons, mas há outros em que o convívio com ela é insuportável. Sua irritabilidade fica extrema e ela implica com tudo. Trata-se de uma pessoa altamente crítica e exigente, incapaz de reconhecer as coisas positivas. Apenas critica tudo e reclama por qualquer coisa.

Quando minha companheira morava com os pais, seus ciclos de bipolaridade pareciam ser mais claros. Havia dias em que não saia da cama, por exemplo. Depois que a nossa filha nasceu, acerca de um ano, ela melhorou um pouco, pois se sentiu mais motivada, devido à importância de estar bem para cuidar de nosso bebê. Na divisão entre nós, eu optei por arcar com todas as responsabilidades financeiras dela. Não somente com o básico, mas também com seus caprichos e gostos, na tentativa de aliviar o clima, para que ela cuidasse integralmente da nossa filhinha.

Tenho passado por uma fase sofrida e trabalhosa, pois ela só faz reclamar e enxergar os pontos negativos de tudo. Estou ficando exausto de tanto ceder, de tentar “resetar” o clima com um presente, com um vinho, com um gesto de carinho, sendo que ela mesma não mostra consciência de nada e nem agradecimento. Sempre justifica suas ações baseando-se em fatores externos ou de responsabilidade de outras pessoas.

Receio muito por nossa filha. Minha esposa diz que quer parar de tomar os remédios, mas, como parar, se ela só piora? Estou em dúvida quanto a isso. Procurei terapia para mim agora, para tentar entender o que essa doença implica e quais ajustes de expectativa tenho que fazer em minha vida. Embora tudo isso seja muito sofrível, sou capaz de entender e me ajustar em função de uma situação de força maior (doença), mas não sei até onde é doença ou má fé por parte dela.

É muito difícil este convívio no longo prazo. Todo o amor que tenho por ela está se transformando em frustração, ódio e, por fim, em compaixão, pois entendo que cuido de uma pessoa atormentada. Procurei terapia e a psicoterapeuta que me atendeu não fala, apenas pergunta e escuta. Entendo, mas preciso realmente ouvir informações de um profissional a respeito dessa doença. Preciso saber qual ajuste preciso fazer para poder conviver com a minha esposa. Não quero perder a minha família, nem deixar minha filha para que seja criada por ela sozinha em razão dos seus muitos desvarios.

Alguém me ajude por favor!

Ilustração: Ashes, 1895, Edvard Munch

MEU MARIDO É BIPOLAR E ALCOÓLATRA

Autoria de Marcela Gomes

Eu me envolvi com um homem quando eu tinha 15 anos e ele 25. Era um rapaz muito charmoso na época, inteligente e excêntrico, o que eu gostava nele. Tinha fama de beber e fazer uso de drogas, mas ao meu ver isso fazia parte do charme dele, já que eu era muito nova para entender as coisas. Foi amor à primeira vista!

Fui morar com ele em outro país, quando eu tinha 20 anos. Foi a melhor fase da minha vida, mas sempre tínhamos brigas terríveis por conta da bebida, quando ele ficava muito ciumento. Mas quando voltava à razão, tratava-me como uma princesa. Eu o amava loucamente e ele demonstrava o mesmo. Em razão das fortes brigas eu voltei para o Brasil e ele ficou por lá, porém aqui descobri que estava grávida dele. Ao saber, ele decidiu voltar para tentarmos a vida aqui em nosso país.

Minha gravidez foi o período mais difícil que vivi. O pai dele deu um apartamento para nós dois que nos casamos, mas ele não se adaptou àquela vida. Bebia o dobro, usava drogas em casa e tinha ataques violentos de ciúmes. Eu não podia sair para fazer uma caminhada que ele achava que estava no motel com alguém. Ele me abandonou no meio da minha gravidez e num ato impulsivo, viajou para a China, onde morávamos antes, apenas com a roupa do corpo. Sofri muito. Depois ele voltou, eu ganhei o bebê, mas as coisas só pioraram. Ele viajou e não mais voltou.

Meu esposo me abandonou com nosso filho de dois meses, sendo que minha família é de outra cidade. Eu entrei em depressão. O tempo passou e quando ele voltou foi morar em outro apartamento e não entrou em contato comigo, sendo diagnosticado depois como bipolar. Tempos depois voltou a me procurar e nós voltamos, mas não a morar na mesma casa. Estávamos casados, mas agíamos como namorados, pois a vida sob o mesmo teto não era suportável, devido aos maus hábitos dele. Ficamos por oito anos em casas separadas e mesmo assim era complicado demais. Foram muitas idas e vindas, mas eu ainda sentia algo por ele, acho que dependência emocional e financeira também. Ele despertava o pior em mim em nossas brigas.

Atualmente não nos falamos mais há três meses, desde que ele ameaçou me matar e matar o nosso filho em uma briga que tivemos, só porque o mandei parar de beber, pois eu queria dormir. Para mim foi o fim. Ele é alcoólatra, não é mais funcional, só faz beber o dia inteiro, desde que acorda até quando vai dormir. Está com ascite, inchado, deformado. Largou o psiquiatra faz tempos e se automedica. Toma os medicamentos com bebida alcoólica. Não toma banho por dias, nem escova os dentes. Só faz beber.

Ainda assim, eu sentia pena dele e tentava conviver com ele nos finais de semana. Mas para mim foi o fim, porque mexer comigo era uma coisa, mas mexer com o nosso filho é outra, de modo que meu coração endureceu. Ele não admite ser bipolar, apesar de ter sido diagnosticado. Não quer se tratar de acordo com as diretrizes dos médicos. Pensa que sabe mais que os especialistas no assunto. É triste ver alguém que você amou tanto acabar, tornar-se outro completamente diferente. Você sente saudades daquela pessoa, mas não a acha mais, é como se ela tivesse morrido…

Ilustração: O Bebedor de Absinto, Pablo Picasso

BIPOLARIDADE – JUNTOS SOMOS MAIS FORTES

Autoria de Pedro Silva

Vendo os diversos depoimentos aqui editados, venho contar um pouco do meu passado e presente no convívio com uma esposa bipolar. Espero poder ajudar outras pessoas que se encontram em tal sofrimento.

Estou junto a minha esposa há cerca de 20 anos. Sempre nos demos bem. Claro que existem aquelas briguinhas de casal. Estamos casados há 11 anos e temos uma filha de 7 aninhos. Desde que a conheci, ela passava por depressões todos os anos. Ia ao médico que lhe receitava alguma medicação e passado um mês ficava bem, isso na altura dos 16 anos. Ao longo dos anos ela percorreu vários psiquiatras, psicólogos, de tudo um pouco. Receitavam variadas medicações, sendo que umas davam resultado outras nem por isso, mas o problema todo é que quando se sentia bem, deixava de tomar a medicação, e isto durante todos os anos.

As coisas começaram a agravar-se depois do nascimento de nossa filha. Logo depois de nascer a criança, ela começou com a depressão. Até um ano e meio tive de ser eu a fazer tudo para a criança, pois ela não estava em condições. Não é nada fácil cuidar da casa e da filha, nunca dormir para dar leite e tratar da menina e depois ter que sair para trabalhar de manhã. Foi um caminho complicado, mas no fundo sinto-me mais forte, porque tenho uma menina que adora o pai. Adorei fazer tudo isto em prol de minha filha.

Como disse anteriormente, a partir daí começou a complicar. A minha esposa começou a ter outros relacionamentos, deixava de nos ligar, alterava-se conosco, começava a mudar a sua maneira de ser, a comprar muitas roupas, a gastar o dinheiro todo, a usar roupas mais provocantes, quando então descobri o seu primeiro caso. Conversamos muito e consegui perdoá-la. Como todos nós sabemos não é fácil, mas fiz isso pela nossa família.  Eu amava muito a minha esposa, como ainda a amo.

Passou mais um ano e ela voltou a fazer tudo novamente depois de tantas promessas e de ir a várias consultas de terapias de casal. Foi tudo em vão. Eu estava desesperado, não suportava tanta dor pelo que estava a passar. A minha cabeça não aguentava mais. E mais uma vez consegui perdoá-la. Ela contava que não sabia explicar o porquê de fazer aquilo, de procurar outros homens. Dizua que era a adrenalina que não largava as pessoas. Eu ouvia as conversas. Ela era outra pessoa que eu não conhecia. Mais uma vez desculpei-a.

No meio dos anos continuava a ter depressões como sempre tinha, depois voltava a me trair. Andou nessa vida por cerca de 7 anos. Tudo isso que passei começou-me a afetar-me. Comecei a ter problemas de ansiedade e crises de pânico, coisa que nunca esperava ter por me sentir sempre forte. Passou a ser um desespero, porque já não dava atenção a minha filha que foi sempre a minha força. Depois de conversarmos novamente, antes de botarmos um ponto final na relação, ela se comprometeu a irmos a uma psicóloga e nessa conversa fomos aconselhados a buscar um psiquiatra. Senti-me melhor depois de falarmos com a psicóloga. Ela foi muito clara com a minha esposa, o que me deu alguma força.

Fomos a uma psiquiatra e contamos tudo o que se passava. Ela foi clara, dizendo que o problema da minha esposa era por ser bipolar. Não tinha nenhuma dúvida. Neste atual momento a minha esposa está a fazer o início da medicação e espero que dê resultados, para voltarmos a ser felizes. Só consegui passar por tudo isto por amá-la muito.  Por isso, compreendo todos vocês pelo que passaram. É uma dor insuportável, e não desejo isso a ninguém.

Desculpem o meu desabafo, vou dando notícias. Quero agradecer pelo excelente blogue que permite partilharmos a nossa dor. Juntos somos mais fortes!

Ilustração: Mulher Chorando, Pablo Picasso.

RELAÇÃO AMOROSA E BIPOLARIDADE

Autoria de Carlos José Cipriano

A minha namorada (ela tem 39 anos e eu 31) terminou comigo faz dois meses. Morávamos juntos há praticamente quatro anos. No começo tínhamos um relacionamento perfeito, coisa de filme. Nós nos entendíamos em tudo, até mesmo além do limite esperado. Ela mesma dizia que a gente não brigava e vivia muito bem. Em relação ao sexo a nossa sintonia era algo fora do comum para a maioria dos casais.

Hoje consigo ver claramente que ela tinha fases depressivas. Após iniciar uma etapa financeira ruim na nossa vida (provocada por ela), uma fase eufórica começou — bem parecida com um relato que li aqui — entre o fim de um ano e começo do outro. A libido começou cair e passamos a ter relações sexuais duas ou três vezes ao mês. Chegamos a ficar dois meses sem qualquer tipo de relação amorosa. Cheguei a perguntar a ela se tinha “enjoado” de mim. Eu me sentia muito mal, pois até o beijo era diferente de antes.

No que diz respeito à questão financeira, percebi que se tratava de outro escape dela que gastava muito com roupas, mercado e, por último, com a decoração do apartamento onde morávamos. Até a forma de me tratar havia mudado. Eu sempre a chamava de minha esposa, mas notei que ela já me chamava apenas de namorado e ficava muito irritada se eu a contrariasse até mesmo nas coisas mais simples e insignificantes.

Na primeira vez em que ela teve uma crise eufórica, eu tive que chamar o SAMU. Fiquei com medo de acontecer algo mais grave, pois começou a gritar de madrugada, a me morder, a me unhar e dizer que eu estava a machucá-la. Após esse acontecimento falei-lhe para irmos a um médico. Ela resistiu, mas acabou indo, porém nunca aceitou tratamento e acredito que convenceu o médico de que não tinha nada. Ele apenas a diagnosticou como tendo sobrecarga de trabalho.

Agora no final de 2020 voltou a fase eufórica. Tentei lhe dar um calmante, mas ela literalmente surtou. Acabou me humilhando, falando coisas absurdas, distorcidas, surreais e me expulsou de sua vida. O filho dela — hoje já adulto — conseguiu levá-la a um outro médico que a diagnosticou com bipolaridade. Queria até mesmo interná-la e receitou-lhe remédios bem fortes. Ela novamente não aceitou qualquer tipo de tratamento, sob a alegação de que não tem nada e que apenas trabalha demais.

Hoje estou menos pior que antes, tentando evitar falar com ela, mas é uma vontade absurda de correr até ela e abraçá-la. No início eu tentava lhe falar todos os dias, mandava mensagens, procurava vê-la… Porém vi que isso estava me fazendo mal, deixando-me muito triste e sem ânimo. Eu a amo, queria viver para sempre com ela, mas realmente é muito pesado conviver com uma pessoa bipolar, quando essa não aceita o que tem e se recusa a fazer tratamento.

Identifiquei aqui vários relatos iguais ao que passei com a minha companheira até então. Claro que tive falhas em certos momentos, pois eu não sabia como lidar com seu comportamento instável. Na primeira vez em que ela surtou, fui extremamente paciente, como sempre, mas não adiantou nada, e da última vez tentei ser mais firme, seco, porém também de nada adiantou. Ainda fica uma esperança de ela aceitar se tratar e voltarmos, mas sei que isso é quase impossível. No seu caso vejo hoje também um ciclo. Ela trabalha muito, gasta tudo, compra algumas coisas e depois se desfaz e acaba se prejudicando e a quem está ao seu lado. Já teve vários namorados e já prejudicou muitos deles.

A única coisa da qual não posso dizer nada é sobre infidelidade. Nunca vi nada disso, mas sei que ela tem algo estranho com seus relacionamentos. Parece “enjoar” de um mesmo parceiro depois de certo tempo, pois basta terminar um relacionamento e rapidamente entra em outro. Depois de nossa separação eu já a vi no dia de Natal, saindo do trabalho com um ex-namorado. Eu a amo e espero que um dia aceite se tratar para o seu próprio bem.

Ilustração: Arlequim de Barcelona, 1917, obra de Picasso