Arquivo da categoria: Depoimentos/Saúde Mental

Depoimentos de portadores de Transtornos Mentais.

MINHA ESPOSA É BIPOLAR

Autoria de Carlos Santana

Até o início do ano passado eu mal sabia o que era o Transtorno Bipolar, muito menos que se trata de uma doença mental terrível com graves consequências tanto para a pessoa doente quanto para aqueles que a amam.

Sou casado há 23 anos e tenho três lindas filhas.  Minha esposa tem Transtorno Bipolar. Descobrimos a doença dela no início de 2019 de uma maneira muito complicada para toda a família. Descobri que minha esposa me traía com várias pessoas online e com alguns encontros furtivos com diferentes homens, pessoas sem sentido algum que em condições normais ela não consideraria interessantes quer fisicamente ou intelectualmente, inclusive flertando com alguns conhecidos.

Meu mundo caiu, fiquei desnorteado e sem entender porque minha mulher havia feito aquilo comigo. Descobri também que, embora esse comportamento ocorresse nos últimos meses antes de eu descobrir, desde 2015 episódios isolados ocorriam, com intervalos de meses e depois recaindo no mesmo tipo de comportamento. Como nada fazia sentido, nem pra ela mesma, fomos a dois psiquiatras que a diagnosticaram com o Transtorno Bipolar. Nos últimos anos, portanto, ela teve surtos maníacos que a faziam me trair.

Desde então fomos a vários excelentes profissionais para entender a doença, além de lermos bastante sobre o assunto. Explicaram-me que tudo aquilo que ela havia feito não era fruto da simples vontade, não se tratava de falha de caráter ou “safadeza”, mas, sim, de um sintoma terrível de uma doença mental grave. Compreendi como o Transtorno Bipolar faz a pessoa oscilar entre a depressão, normalidade e mania. Compreendi que os sintomas principais do estado maníaco são abuso de álcool e drogas, humor elevado, fala e pensamento acelerados, comportamento impulsivo, agressividade, hipersexualidade e traição dos parceiros.

Na maior parte dos casos, como no da minha esposa, os estados maníacos duram semanas ou até meses e depois se alternam com estados depressivos e longos períodos de normalidade. Mas existem também casos de ciclagem rápida e estados mistos em que mania, depressão e normalidade se sucedem de um dia pro outro. A forma como os sintomas aparecem também variam de pessoa a pessoa. Em alguns bipolares a hipersexualidade, por exemplo, manifesta-se na prática sexual descontrolada com qualquer parceiro e no consumo abusivo de pornografia. Na minha esposa a hipersexualidade manifestava-se pelo flerte, a vaidade excessiva, o ego inflado, a vontade de ser desejada e não pelo ato sexual em si.

É importante entender que apenas com conversas, orações e promessas as crises maníacas bipolares não serão controladas, porque as coisas que o bipolar faz em crise fogem da vontade e do controle dele próprio, sendo causadas por desequilíbrios químicos cerebrais. A doença mental só pode ser controlada com medicação correta e, enquanto isso não acontecer, novas crises virão.

De tudo o que li e das conversas que tive com os profissionais, estou plenamente consciente de que só é possível manter a relação com uma pessoa bipolar caso ela faça um pacto com seu parceiro de seguir corretamente o tratamento para o resto da vida, tomando a medicação e consultando-se com certa regularidade. Foi o que fiz com minha esposa ou, caso contrário, simplesmente não há como prosseguir no relacionamento. É importante também que o parceiro de um bipolar cuide de sua saúde mental e busque terapia sempre que necessário, porque não é fácil lidar com as consequências do que a doença mental faz com a família e com as pessoas próximas. Eu busquei esse tratamento e foi muito importante pra mim.

Atualmente, minha esposa está bem medicada e plenamente consciente de sua doença. Estamos muito bem, embora eu ainda tenha de lidar com os traumas decorrentes da história toda. Decidi apostar na continuidade do nosso relacionamento, porque sempre tivemos uma relação excelente e construímos uma vida juntos. Sei que sou exceção. Quando se trata de doença mental, normalmente as mulheres apoiam seus parceiros e tentam manter o relacionamento de pé, enquanto os homens abandonam suas parceiras doentes diante da primeira dificuldade. Eu decidi continuar porque ela se comprometeu com o tratamento, porque a conheço como ninguém e sei que ela merece todo o meu respeito.

Nota: a ilustração é uma obra de Pablo Picasso, intitulada Garota no Espelho

MEU COMPANHEIRO É BIPOLAR?

Autoria de Amanda Prates

                                              

Meu companheiro, com quem moro junto há pouco mais de um ano, foi diagnosticado uma vez com bipolaridade, mas outros psiquiatras disseram que teria apenas depressão. A verdade é que onde nós moramos não existem bons profissionais nesta área. Já tentamos todos aqueles disponíveis e nenhum realmente conseguiu diagnosticá-lo e cuidar de sua doença mental. No momento ele toma antidepressivo, medicamento que começou a usar depois de muita luta, após ter surtos e eu colocá-lo na parede (ou tomava a medicação ou eu iria embora), mas mesmo com o medicamento e uma certa estabilização, ainda tem uns pequenos surtos que me fazem pensar, se não deveria tomar medicamento específico para bipolaridade.

O caso dele parece ser mais complexo. No seu relacionamento anterior, surtava muito, traía muito, bebia muito e terminava com a parceira constantemente, sempre brigando e colocando a ex-companheira para fora de casa, inclusive quebrando as coisas (de porta do quarto à TV). No início do nosso relacionamento ele aparentava ser uma pessoa normal, apenas com depressão, depois surtou algumas vezes: gritava muito, falava absurdos inexistentes e batia nas coisas, quebrava celular (ele não consegue ter um celular por muito tempo, sempre quebra quando surta). Até chegamos a terminar uma ou duas vezes, porém logo após o surto, ficava extremamente arrependido e triste.

Uma vez, ainda nos primeiros meses de relacionamento, presenciei um surto dele com a mãe. Falou tanto coisa ruim para ela, xingamentos absurdos e ofensas que eu caí no choro na hora e pensei: “Como alguém normal pode falar assim com a própria mãe?” Não fazia sentido, aquela situação era muito pesada. Quando saímos da casa dela, falei chorando que não podia fazer aquilo, que estava muito errado. Ele começou a chorar e ficou muito triste por ter surtado, disse que seu procedimento era incontrolável, como se tornasse outra pessoa por um momento, que não parecia ser ele mesmo.

Depois desse episódio meu companheiro passou dias depressivo, para baixo, chorando e com vergonha da mãe.  Então percebi que a relação deles sempre foi estremecida. Ele surta com as pessoas ao seu redor, mas também se arrepende. Acabou perdendo muitos amigos e todos da família têm uma relação diferente consigo, têm medo de falar algo e ele surtar. Só que mudou muito desde o início de quando nos conhecemos até o presente momento. A relação com os familiares é outra agora, nunca mais surtou com ninguém da família. Todos atribuem isso a mim e à nossa relação.

Sua mudança de comportamento me fez pensar que talvez seu problema não seja bipolaridade, pois como pode ter mudado assim, só com minhas conversas sobre seu comportamento? Confesso que não sei! Ele ainda tem um período em que fica muito surtado, depois muito depressivo e depois muito alegre, mas isso é em questão de um dia para o outro. Não é como uma mania que vejo na bipolaridade que dura semanas e até meses. E com tudo isso, mesmo eu o amando muito, penso em me separar, pois me sinto mais mãe dele do que sua mulher.

Desde criança ele carregou problemas de concentração. Não consegue trabalhar, simplesmente não consegue seguir horários e trabalhar de 8 às 18. Possui um emprego em que viaja só de vez em quando, porém esse serviço não vai durar a vida toda. Eu sempre quis me casar com alguém trabalhador que pense como eu em querer crescer, etc., e com ele me vejo frustrada em relação a isso. Tenho tantos planos e não sei, se conseguirá me acompanhar. 

Agora na pandemia meu companheiro está em uma fase em que dorme muito, não faz muita coisa, ajuda-me em casa, mas não o suficiente. Estou ficando cansada e sem saber o que fazer. Amo-o muito, mas não sei até que ponto posso aceitar tudo isso. Além disso, tem dois filhos e durante uma fase de depressão profunda ficou afastado deles e sofreu bastante. Ajudei-o a restabelecer contato, mas ainda sente muita dificuldade em se sentir ligado a eles. Isso também me preocupa, pois quer ter um filho comigo e eu tenho medo do que possa acontecer no futuro. Será que se ele tiver mais uma fase de depressão profunda poderá se afastar do nosso filho também? E se ele surtar na frente dele? Certamente eu não seria capaz de aceitar isso.

Se alguém puder me relatar mais informações sobre como são esses surtos de quem é bipolar, pois os dele mudaram depois que eu falei que não aguentava mais, tiraria um peso de minha cabeça. Ele foi se controlando cada vez mais. Agora, quando surta, consegue se controlar mais rápido e muitas vezes nem quebra nada, porém ainda são aqueles surtos sem motivo ou por besteiras que não fazem sentido, problemas que ele cria na cabeça. 

MEU NAMORADO É BIPOLAR, AJUDE-ME!

Autoria de Fernanda Ricci

Sou enfermeira e namoro uma pessoa maravilhosa há um ano. Porém, há um mês meu namorado (ou ex) não parece mais a mesma pessoa que conheci e com quem me encantei.

Terminei o namoro com ele, pois não aguentava mais tanta grosseria e indiferença. Eu me machuquei demais, pois descobri uma traição (com a ex-namorada que inclusive me jogou várias coisas na cara). Ela me disse que ele tem uma doença da qual eu nunca tive conhecimento. E em uma das brigas (a última), ele me expulsou de casa às 3h da manhã de domingo pra segunda em plena pandemia… (pela segurança dos meus pais que são idosos eu estava dormindo na casa dele, pois sou enfermeira e encontro-me na frente da batalha).

Na semana em que terminamos, ele sempre dava um jeito de me encontrar na rua e até mesmo me provocar, dando “tchau” pela janela do carro. Uma semana após o término, começou a me procurar, falando coisas sem sentido (que era agente federal, que trabalhava com furtivos, ligando-me às 4h da manhã), enfatizava sempre que nunca me traiu e que fez o que fez só pra me proteger.

Nesses mesmos dias apareceu uma reportagem na TV, dizendo que ele estava coagindo pessoas, passando-se por policial militar, etc. Como eu não fazia ideia do que estava acontecendo, permaneci em contato com ele por medo que me fizesse algo. Fui conversando numa boa, dizendo para esquecermos tudo o que aconteceu e que cada um deveria seguir a sua vida. Só que ele não aceitava essa possibilidade, alegando que gosta muito de mim e não quer se separar.

No mesmo dia ele me mandou vários áudios da mãe em que ela diz que estava tentando interná-lo. Eu comecei questionar o porquê de ela querer interná-lo e ele dizia que era para ficar com o dinheiro dele (aqui eu já tinha certeza que se tratava de algum problema psiquiátrico, mesmo sabendo que o relacionamento dele com a mãe era bem conturbado).

Descobri pela mãe dele que o mesmo tem bipolaridade e que resolveu parar de tomar o medicamento por conta própria (segundo ela, seu filho toma lítio todo dia). E em meio a tantas coisas que ele fez, ela abriu um boletim de ocorrência por medo e um aviso para a polícia pegá-lo, pois se tratava de um paciente psiquiátrico (o SAMU só o levaria para algum lugar na presença da PM).

Ele permaneceu escondido, porém o encontraram horas depois e o levaram para a Upa, onde passou uma noite. No dia seguinte foi encaminhado pelo Samu para uma avaliação no CAPS, mas em uma distração da equipe, conseguiu fugir e veio aqui para minha casa. Chegou aqui não sei como, porque estava completamente dopado de tanta medicação.

A mãe dele queria eu o fizesse dormir e o deixasse trancado aqui. Meus pais não aceitaram por medo. Consegui convencê-lo a ir para sua casa, mas tive que ir junto. A mãe dele queria que eu o largasse lá, dormindo sozinho ou que eu dormisse com ele. Enquanto isso, meu pai implorava para eu não ficar lá e permaneceu comigo o tempo todo. Coitadinho, tremia de tão nervoso… Que cena mais triste e que medo de que algo acontecesse com o meu pai em razão de seu nervosismo.

Consegui fazer meu namorado dormir e chamei o SAMU, porém eles recusaram levá-lo. A mãe dele não podia chegar perto  dele que não podia imaginar que ela estava por ali, pois,  se soubesse, começava a entrar em surto. Eu não sabia o que fazer. Meu pai estava quase tendo um ataque dos nervos, implorando para eu ir embora com ele. Não tive escolha, por medo que algo acontecesse a meu pai, liguei para a mãe dele e acionamos a PM, pois como já disse, havia um aviso para pegá-lo.

Ele está detido no complexo médico, percebo que a mãe não faz questão nenhuma de tirá-lo de lá. Inclusive está viajando, como se nada estivesse acontecendo. Estou fazendo tudo que posso, conversando com o advogado para retirá-lo de lá e transferi-lo para um hospital psiquiátrico, porque não é bandido para estar preso. Só que estou perdida. Ele escondeu a doença por um ano e nesse último mês, eu sempre lhe falava que estava muito diferente, mas dizia-me que “era eu quem estava louca”.

Gosto muito dele… muito mesmo. Só que estou arrebentada de sofrimento por tudo que aconteceu. Não sei o que fazer e minha vida hoje é a pandemia mundial e tentar tirá-lo de lá. Se alguém puder conversar comigo a respeito ficaria muito grata.

AUTOESTIMA X BIPOLARIDADE

 Autoria de Cristina Santos

Estou vivendo uma fase extremamente ruim. Meu marido, há cerca de cinco meses, acabou o nosso casamento de 12 anos pelo “whatsapp”.

Só percebi que havia algo errado com ele depois que me vi fora da relação. Ele gasta rios de dinheiro com coisas inúteis, está sempre irritado ou deprimido. Durante anos, uma vez por ano ele saía do quarto e ia para outro cômodo da casa e ficava lá por cerca de quatro meses.  Todo ano vivenciava esse mesmo padrão. Todo fim de ano era um desespero. Ninguém tem ideia de quantos natais ele destruiu.

Há 10 anos ele deu seu primeiro grande surto. Saiu de casa, arrumou uma amante – pasmem, ele sempre se envolve com mulheres casadas – teve um filho fora do casamento, mas não assumiu a criança. Eu só descobri esse filho há cerca de um ano atrás. Há cinco meses ele me abandonou e a nossas filhas e entrou com o pedido de divórcio, dizendo que não estava nem aí, que não tinha mais sentimentos de vínculos familiares, arrumou outra mulher – também casada – e passou a me humilhar, pois criei uma enorme dependência em relação a ele.

Durante anos sofri abusos emocionais. Para suportar a convivência, eu passei 10 anos tomando antidepressivos, o que me levou a engordar 30 quilos. Destruí completamente minha autoestima. Ele ainda tenta me manipular e por meses eu caí na sua manobra. Precisei começar um tratamento diferente para ser forte e não ser manipulada.

Ele manda fotos dele em viagem para o celular das minhas meninas. Elas não conseguem entender, tenho que ficar explicando para elas que ele não é normal, que não devem se importar com isso. Eu sofri muito e ainda sofro, pois a minha dependência emocional me deixou no fundo do poço. Há dias em que ainda me vejo desejando voltar para ele.

Eu fui maltratada verbalmente por tanto tempo que não sabia mais como viver sem ter essa vida louca ao lado de um bipolar sem tratamento. Tudo isso é como um vírus letal para mim e para nossas filhas.  Hoje ele se encontra, faz cinco meses, vivendo sem nenhum compromisso com a família. Juro que não sei se vai haver arrependimento, mas sei com certeza que ele sofre de bipolaridade. Possui todos os sintomas. Quando por telefone ele me disse palavras horríveis, eu pedi a ele que procurasse um advogado e entrasse com o divórcio. E assim ele o fez e eu, de forma amigável, assinei os documentos para dar entrada no processo. Não vejo a hora do divórcio sair para efetivamente não ter mais nenhum vínculo com ele.

Sofri demais, conseguindo, com muita dificuldade, voltar a viver. Meu sofrimento foi terrível. Nem sei explicar com palavras como me senti todos esses anos. Cheguei a tentar me matar, porque acreditava que eu era a razão dos problemas, pois ele me acusava o tempo todo de ser uma pessoa horrível. E dessa vez não foi diferente. Disse-me coisas horríveis. Vocês não fazem ideia das barbaridades que tive que ouvir.

Deixo aqui o meu conselho de amiga: não aceitem o primeiro abuso emocional, pois depois do primeiro virão milhares e você perde a vontade de viver. Ainda estou aprendendo a gostar de mim novamente. Conto com o apoio de vocês.

Nota: Separação, obra de Evard Munch

EM BUSCA DA PESSOA DE ANTES

Autoria de Matheus Silva

Minha história é um pouquinho complicada.

Tenho 20 anos e sou estudante de medicina. Quando criança, na casa de meus parentes, tinha o apelido de “Geladeira”, pois não conseguia ficar parado, indo olhar a cozinha de cinco em cinco minutos. Eu cresci e com 11 anos comecei a me sentir triste e angustiado com o passar do dia, mesmo em períodos de férias. Descobri que tinha hipotireoidismo e em questão de alguns meses a depressão foi corrigida. Quando fui para o Ensino Médio, a fama de disciplina rígida da minha escola fez-me sofrer muito por antecipação nas primeiras semanas, perdendo noites a fio simplesmente por medo, mesmo tendo notas muito boas. Essas cessaram com o passar do curso.

Quando passei no vestibular, eu me mudei para outra cidade para fazer o curso com que sempre sonhei. Nas primeiras semanas sofri muito, mesmo já tendo ficado longe dos meus pais e lidado de certa forma bem com isso. Com o passar do tempo, eu me adaptei, porém, as manias de inquietação sempre permaneceram. Um litro de café na minha mão não durava mais que alguns minutos. Não conseguia comer como as outras pessoas, sempre muito rápido e compulsivamente (hoje já consegui manter meu peso e corpo em boa forma com academia e exercícios físicos). Além disso, qualquer prova em meu calendário já era motivo para virar a noite estudando, preocupado com o resultado, seguido de alguns dias de preocupação com a espera das notas.

Nos dias normais eu não me sentia triste, mas sentia que faltava aquele brilho e motivação que algumas pessoas trazem, já que tinha dificuldades para fazer amigos e falar em público, bem como motivação para ir a festas e interagir-me com pessoas (embora eu ficasse confortável nessa situação). Não demorou muito tempo e eu comecei a fumar maconha, o que me ajudou no sono, mas como um meu amigo disse, estava apenas colocando meus problemas debaixo do tapete, não estava a resolvê-los. Após cinco meses usando maconha todos os dias, resolvi dar um basta, parei e, quando retornei pra casa em um feriado, fui a um psiquiatra para tentar resolver isso.

O psiquiatra receitou-me escitalopram na primeira semana. Quando retornei para casa comecei a utilizar o genérico (a greve dos caminhoneiros zerou o estoque da marca que ele havia pedido). A primeira semana foi muito boa, lembro-me de que falei pro meu pai que “nunca estive tão bem na minha vida”, afinal, após sofrer muito, consegui passar em uma monitoria, ganhar bolsa da faculdade, além de ter pais maravilhosos que sempre me ajudaram. Na semana seguinte fui a uma festa em que bebi muito, coincidindo com o período em que aumentei a dosagem do antidepressivo, conforme prescrição do psiquiatra. Após três dias dessa mudança, caíram sobre mim efeitos colaterais terríveis que me fizeram perder pelo menos duas noites de sono seguidas. O psiquiatra acabou me receitando Alprazolam. Pensei: não quero isso pra minha vida, mais remédios e agora um tarja preta (tudo isso em meio a angústia, calafrios, inquietação, sudorese, turvidez na visão, taquicardia e palpitação). Parei com o escitalopram após mais ou menos 10 a 12 dias de uso.

Os sintomas melhoraram, porém nunca retornei a ser a pessoa de antes. Perdi motivação e sono. A angústia e a ansiedade continuaram e fiquei assim até o início dessa semana (fiquei um mês e meio nesse marasmo, sentindo em grau mais leve os mesmos efeitos do medicamento), quando resolvi retornar à medicação. Hoje é o terceiro dia. Durante o dia sinto-me um pouco melhor, mas à noite a angústia e o nó na garganta insistem em retornar de maneira mais severa. Ainda não sinto motivação para fazer as coisas. Amanhã vamos viajar para aproveitar um pouco as férias, tomara que isso me ajude a ocupar minha cabeça.

À vezes eu penso que entrei em uma enrascada, pois afinal eu não era tão triste assim, como minha mãe dizia eu era só “um pouco ansioso”. Isso me consome muito e me esgota. Passo boa parte do dia pensando, até o momento que chega a noite. Às vezes choro. No momento em que escrevo isto está de dia e sinto-me um pouco mais controlado, mas na certeza de que à noite vou sofrer, à medida que o sol vai embora (tomo Donarem, às vezes, para dormir melhor, mas ainda acordo muito cedo com o coração palpitando). Marquei com outro psiquiatra, desta vez na cidade em que estudo, para a qual vou retornar em três semanas. Espero ate lá estar me sentindo melhor.

Nota: O Enigma sem Fim, obra de Salvador Dalí

MEU EX-MARIDO É BIPOLAR

Autoria de Magdaline Santiago

Descobri que meu marido era bipolar quando ele teve um surto, após nossa primeira separação dentro do casamento, porque nos cinco anos de namoro foram inúmeras. Ele estava na fase de mania: andava irritado, falando coisas ao mesmo tempo, com o humor lá nas alturas, querendo curtir a vida loucamente, gastando exageradamente com coisas banais, bebendo muito e dirigindo alcoolizado. A busca por ajuda médica nem passava por nossa cabeça (minha e da família dele) que não sabíamos que se tratava de um transtorno mental. Além disso, ele tinha uma resistência muito grande para consultar médicos, imagine ter que ir a um médico PSIQUIATRA. Tínhamos também a falsa ideia de que a bipolaridade trazia mudanças repentinas de humor (do dia pra noite) e isso não acontecia com ele. Apesar de eu ter percebido que ele vivia em ciclos, nunca imaginei que teria Transtorno Bipolar, achava que suas mudanças eram relativas à sua personalidade e jeito de ser.

Certo dia, nós brigamos por ele ter saído na noite anterior para curtir. Ele me agrediu com palavras, extremamente nervoso, quebrando coisas à volta. Fui embora para a casa da minha mãe. No terceiro dia ligaram-me dizendo que ele estava mal, surtado, sem dormir, perdendo-se nos lugares e sem conseguir trabalhar. Queimou algumas roupas minhas, quebrou coisas dentro de nosso quarto e o levaram ao psiquiatra que lhe deu o diagnóstico de bipolaridade e 15 dias de atestado, além de prescrever medicamentos. Ele precisava fazer um exame de sangue para saber se prescreveria já o Lítio, mas ele não quis fazê-lo e nem continuar o tratamento. Tínhamos uns 10 anos juntos, entre namoro, noivado e casamento. Aquele diagnóstico fazia todo sentido.

Meu ex-marido sempre tinha uma desculpa para não fazer o tratamento. Dizia que não aceitava ser bipolar e que o médico estava enganado no seu diagnóstico. Tempos depois, por estar extremamente depressivo e irritado, aceitou ir a uma médica que lhe passou remédios para controlar o humor, a irritabilidade e o sono (ele tinha fases de muita insônia e pesadelos). Porém, alguns dos medicamentos, a princípio, pioraram os sintomas e ele quis parar, não quis voltar à médica, colocando vários defeitos nela. Possivelmente estava passando pelos efeitos adversos, além disso, os medicamentos são também testes, sendo que cada pessoa tem uma reação diferente que precisa ser comunicada ao médico para que ele faça mudanças, quando necessárias.

Os ciclos pelos quais passava meu ex-marido eram bem longos: meses com uma mania leve, meses ou semanas com uma mania mais forte e meses ou semanas com depressão que, curiosamente, era sempre nos últimos meses do ano para os primeiros do ano seguinte. Na época de festas, férias e verão, ele estava sempre triste, calado, sem querer ver ninguém. Havia começado terapia devido à depressão, mas sempre parava… Quando ainda não sabíamos do que se tratava, e ele se encontrava na fase de mania leve, ficávamos todos felizes, torcendo para que isso durasse. Nossa maior preocupação era com a depressão, porém, após o surto e o diagnóstico de bipolaridade, a mania mais severa começou a nos preocupar muito.

Tivemos cinco anos de namoro entre muitas idas e vindas. Por muitas vezes, ele pôs fim no nosso relacionamento por estar confuso, querendo curtir a vida, sem limites para nada; noutras porque estava triste e qualquer coisa a mais seria um peso, pois nascera para viver sozinho; noutras vezes eu terminei por infidelidade dele, o que curiosamente acontecia na fase da mania, porém, era sempre previsível ele se arrepender e pedir para voltar, chorar, sofrer, emagrecer. Muitas vezes voltei por eu estar sofrendo; noutras por pena dele; algumas vezes por acreditar que mudaria. Ele sabia ser convincente e, por fim, criei uma dependência emocional. Eu tenho TAG que leva ao pânico e num dos nossos términos tive crises muito fortes de ansiedade, o suficiente pra criar dependência emocional. Achava que se não estivesse com ele iria sofrer sempre de pânico, porque eu não tratava bem esse transtorno mental, pois confundia os conflitos da mente com os sentimentos.

Graças a Deus não tivemos filhos. Até tentamos, porém, é complicado, porque na fase depressiva a comunicação é péssima.  Ele não falava comigo, não tinha libido. A essa altura, eu era mais mãe do que esposa dele, tentando animá-lo, fazê-lo caminhar, tomar sol, abrir-se. Marcava médicos, tentava fazê-lo tomar a medicação, sempre buscando saber o porquê de alguém, que não tinha o costume de fumar e beber, consumir vários cigarros e beber muito. Além de me preocupar com meus problemas psicológicos, com os trabalhos de faculdade, com a organização da casa, etc., e ainda me preocupava o tempo todo com ele. Meu maior medo, na fase depressiva dele, era um dia chegar em casa e dar de cara com uma cena traumática para minha vida. Quando ele pediu para se separar de mim, tirou um peso das minhas costas. Eu já estava tratando minha TAG com psicóloga e medicação e consegui passar muito bem pela separação.

É difícil, hoje, um homem (ou mulher) bipolar não ser “ex-” de alguém, quando não faz o tratamento. Chega uma hora em que não se aguenta mais. Comigo foi assim na última vez em que nos separamos. Já saturada de tantas idas e vindas, eu não quis voltar mais. Estava cansada das indefinições, incertezas e sofrimento. Os problemas maiores são os conflitos e também o fato de você fazer parte de um ciclo vicioso que parece não ter fim. Conheci inúmeras ex-mulheres de portadores do Transtorno Bipolar. Elas me relataram parte de suas vidas com seus ex-maridos que não aceitaram o diagnóstico e tampouco o tratamento, ou não deram continuidade ao mesmo. Eles interrompem o tratamento porque não têm paciência com os efeitos ruins de sua fase inicial. As mulheres são bem mais fáceis de aceitar o transtorno e de se tratarem. Elas podem tomar medicação a vida inteira e viver muito bem em família e em sociedade.

Deixo aqui um alerta aos homens com este transtorno. Se quiserem ser felizes com a família, trabalho e amigos precisam aceitar o tratamento. Não adianta se arrepender depois de ter perdido a pessoa (namorada, noiva ou esposa) que amava. Quando aceitam o tratamento, a mulher compreende sua doença, tem mais paciência e passa a redobrar seus cuidados com ele. Caso contrário, o único caminho é a separação.

Nota: Amizade, obra de Pablo Picasso.