Arquivo da categoria: Depoimentos/Saúde Mental

Depoimentos de portadores de Transtornos Mentais.

BIPOLARIDADE X TDAH

Autoria de Guilherme Abrantes

Sou casado há 10 anos com uma mulher bipolar e eu tenho TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade). Ela teve o diagnóstico de bipolaridade bem cedo. Alguns anos antes de nos casarmos, teve um surto e foi diagnosticada. Eu já sabia desta sua condição e, por ela ter sido sempre parte do meu sonho, resolvi investir. Logo que ficamos juntos, ela parou a medicação, porque engordava, depois por causa das gravidezes e por fim não quis voltar a tomar, porque questionava o seu diagnóstico.

No início do relacionamento, descobri algumas traições virtuais e fiquei bem mal, mas aceitei. Perdoei e resolvi continuar. Nossa vida sempre foi de muitas brigas, gritarias, polícia em casa, momentos em que ela chegou até a me agredir. Eu a amava muito. Ela saiu de casa com as crianças por mais de 20 vezes. Sempre pedia para voltar ou eu ia atrás. Sou muito apaixonado por ela e talvez pelo meu diagnóstico de TDAH, por ter baixa autoestima, aceitei-a de volta.

Aconteceram coisas absurdas. Minha esposa foi embora de casa no dia em que tive alta de um infarto. Não consegui me despedir da minha mãe que faleceu por COVID, porque na hora em que minha mãe estava indo se internar, ela cismou que também estava com COVID e eu tinha que levar-lhe o oxímetro. Depois do nascimento do nosso segundo filho nossa vida sexual diminuiu drasticamente. Eu sempre procurava e quase nunca tinha sucesso. Conversávamos sempre sobre ela voltar ao tratamento e ela sempre negava.

Em novembro do último ano, fazia 6 meses que meus pais tinham morrido, eu ainda estava muito mal. Minha esposa, por um motivo bobo (limpeza da casa), começou a gritar comigo. Desta vez eu não me contive, segurei ela na cabeça e pedi: “Pelo amor de Deus, pare de ferrar minha cabeça”. Nesse momento senti que ela iria me bater. Peguei a mão dela, e no desespero com a mão dela me bati duas vezes dizendo: “Quer me bater, bata logo”. Mais uma vez ela saiu de casa e levou meus filhos. Meu mundo caiu. Tinha perdido meus pais com uma diferença de um mês, há seis meses, e vi minha família indo embora. Tomei uma série de calmantes para apagar e apaguei por quase três dias, não me lembro de nada desses dias.

Vi em uma mensagem que ela queria voltar e eu não deixei. Certo dia ela voltou para casa para deixar meu filho e me viu em um estado deplorável e começou a me filmar. Fui pegar a chave meio tonto ainda dos remédios. Disse-lhe que se ela saiu, não tinha por que ter a chave. Ela partiu para cima de mim, e disputamos a chave, e ela filmando tudo… Os vizinhos chamaram a polícia e ela foi embora. Dois dias descobri que minha mulher tinha me denunciado e havia uma medida restritiva. Eu estava sendo processado criminalmente… Meu mundo caiu…. Fiquei muito mal, desesperado e fui atrás mais uma vez.

Depois de dois meses nós voltamos a nos falar e reatamos nosso casamento, pois eu sou muito apaixonado. Passados quase dois meses da nossa volta, descobri que neste período de separação ela se interessou por diversos caras (garçom de bar, colega de trabalho, etc). Reservou hotel para levá-los, colocando até sua segurança em risco e sem critério nenhum. Voltou a procurar ex namorados, pessoas do passado.

Questionei muito sobre tudo isso. Como ela queria o pai dos filhos dela preso e ainda tinha vontade de se relacionar com outros, se comigo não tinha nenhuma? Mais uma vez meu mundo caiu. Eu me senti e me sinto o pior homem do mundo. Hoje em dia não tenho mais confiança, pois a cada hora descubro uma mentira, e ela ameaça ir embora. Tenho que me humilhar para ela ficar. Não sei mais o que fazer. Hoje fazemos terapia de casal, eu trato meu TDAH com psiquiatra e terapias, e ela voltou ao tratamento, mas vivemos no limite.

Ilustração: O Sonho da Razão Produz Monstros, 1799, Goya

BIPOLARIDADE – S.O.S. ESTOU QUASE DESISTINDO!

Autoria de Nath Braga

Eu tenho 32 anos e estou com meu marido desde os 17. O nosso relacionamento beirava à perfeição! Era tanta parceria, tanto carinho, cuidado e amor que eu sempre ficava imaginando como isso seria possível e o quão grata eu era por ter algo tão especial! As nossas famílias eram extremamente desestruturadas e nós dois, juntos, arrumávamos forças para lidar com tudo. Assim foi por vários anos. Era sempre nós dois juntos. Realmente tínhamos algo especial.

Após aproximadamente 6 anos de relacionamento, meu marido teve que lidar com o encerramento da empresa em que ele trabalhava, e isso foi o suficiente para vê-lo se tornar outra pessoa. A empresa era da tia dele (até então sócia majoritária), encontrando-se muito bem financeiramente. O setor ia encerrar, pois atuavam na área social, pois o governo cortou o orçamento para isso, mas não estava falindo, pois a empresa já tinha feito muito dinheiro no decorrer de outros anos, com o meu marido sempre diversificando os negócios.

O meu esposo começou a apresentar falas exageradas de que ia parar debaixo da ponte, passar fome e que a vida havia acabado. Em algum momento essas falas começaram a serem redirecionadas a mim. Dizia que eu era uma parasita, que se eu tivesse dinheiro e a minha família não fosse “fodida” não haveria preocupação, que todos nós éramos uns encostados, que eu vivia fora da realidade. Eu tentava acalmá-lo, dizendo-lhe que ele não iria parar debaixo da ponte, que a gente daria um jeito. Dizia que ele era super inteligente, com várias especializações e tudo se resolveria. Estava claro para mim que ele não estava normal.

Aquilo foi tão surreal, pois namoramos durante 7 anos antes disso e nunca brigávamos, nem nos tratávamos assim, e do nada ele passou a ser cada vez mais agressivo. No começo eu só conseguia sentir que ele estava doente, mas depois de um tempo passei a internalizar tudo o que falava e realmente isso me afetou.

Várias coisas aconteceram, começando por sua tia manipuladora que fechou a empresa e não lhe pagou o que era justo. Sua família sempre exerceu controle sobre ele, através do dinheiro, e não queria fazer um acerto, mas, sim, mantê-lo como seu dependente. Ele tinha muita dificuldade em se posicionar e não saiu com nada que lhe favorecesse. Mas parecia que ele descontava tudo em mim, pois era a única pessoa com quem tinha liberdade para falar, porque fazia tudo que a família queria nas situações mais absurdas.

Acabamos fazendo um mau negócio ao iniciarmos uma operação industrial na área alimentícia, e as coisas só pioraram. Com uma operação que já era ruim e caótica, meu marido entrou numa segunda indústria e arrastou-me para essa loucura com ele. Ninguém em sã consciência faria o que fez. Saiu para almoçar num sábado e voltou com essa empresa comprada. Ela foi nos passada com números forjados (estava falida), os funcionários eram praticamente uma quadrilha, eu tinha medo até de ficar lá só, a operação funcionava 24h e todos os dias do ano, sendo a madrugada a parte mais puxada. Meu marido cuidava do operacional. Passava noites sem dormir. Não havia rotina, virava dias e mais dias sob extremo estresse, além de estarmos dormindo e alguém ligar na madrugada e termos que sair correndo para a fábrica, já caindo no olho do furacão. Isso piorou a situação dele.

Ele sempre fez terapia, mas eu cheguei a brigar com a psicóloga dele por puro desespero, pois sabia que ele tinha alguma condição grave emocional, e ela continuava tratando-o sem qualquer indicação de acompanhamento psiquiátrico ou de diagnóstico de qualquer doença. Em uma das crises dele e de extrema confusão, entrei em contato com ela aos berros e choro, chamando-a de incompetente. Ela o tratou durante anos e eu nunca fui ouvida, agora desabava tudo, e ele ainda saía de lá com a validação de que eu era quem estava errada. Esse foi a data em que eu tentei suicídio.

Eu não sabia se ele mentia na terapia ou se não tinha noção da gravidade das coisas que fazia, mas tinha a certeza de que algo não estava bem. Afinal, eu namorei com ele durante 7 anos, antes de começar com essas crises e o conhecia bem. Fui até em algumas consultas com ele, quando a nossa situação quase estava saindo do controle. Ele também ia à minha terapia (além da terapia de casal que fizemos). Eu tinha a impressão de que lá ele conseguia o respaldo de que eu era infantil e ele o certo. Na sua cabeça, nas distorções horrorosas, eu sempre estava fazendo cagadas, quando na verdade era puro surto dele. Em algum momento meu emocional ficou muito frágil.

Após uma situação grave que passamos, ele foi ao psiquiatra e foi medicado apenas como ansioso. Ele não era só ansioso, era bipolar! Eu sei dizer se ele está em crise só pelo seu olhar. Eu sofria noite e dia na mão dele. Qualquer coisa virava brigas homéricas com uma baixaria sem fim. Eu virava a puta, vagabunda, parasita, a que tinha caso com seu melhor amigo e daí para pior. Paranoia pura! Ele passava a me odiar naquele momento. Tudo virava ódio do nada. Há mensagens no meu celular em que ele manda “eu te amo” em cima e do nada, embaixo, ele me xinga por alguma situação inventada.

Quando está em mania, meu marido parece que quer ver o meu fim. Numa dessas nossas brigas eu tomei uma quantidade grande de remédios e tentei suicídio. Quando ele chegou no banheiro e me viu mal, só falou que nem pra morrer eu prestava. Perdi a consciência, mas tenho certeza que demorou muito para me socorrer. Que pessoa que vê a outra assim e não recua?  Do nada ele voltava a ser aquela mesma pessoa que eu amava e com quem tinha tanto alinhamento, mas bastava uma situação de estresse para que buscasse motivo para brigar comigo: um papel deixado na mesa ou resgatando algo do passado, tudo distorcido.

Fechamos a empresa e recentemente, após novas brigas (até vizinhos chamarem a polícia com medo de algo nos acontecer), ele voltou ao psiquiatra. Pediu para que eu entrasse junto e a partir daí foi diagnosticado com bipolaridade, finalmente. Tenho a impressão que, no seu caso, vive mais em períodos de mania, com o ego elevadíssimo. Tudo sabe fazer e eu nada sei. Sua confiança fica absurda e me reduz a merda. O objetivo dele é claro: destruir o meu emocional. Até mesmo o abuso sexual infantil que eu sofri na mão de um primo, ele usa para me atingir. Seu objetivo é unicamente me machucar. Quando está no seu estado normal é o meu melhor amigo e sua companhia é a melhor do mundo. Ele me assusta, pois vive distorcendo minhas falas, criando situações horrorosas que são pura insanidade. Parece que só fica feliz quando briga e se esforça bastante para isso.

Faz uns 3 meses que ele iniciou o tratamento com estabilizador de humor e tudo parecia estar indo tão bem, mas agora precisou lidar novamente com a tia para sanar a questão financeira, pois ela não lhe pagou como deveria e isso está nitidamente o desestruturando. Eu sentia que estava para entrar em crise, há dias! Agora criou uma nova briga entre nós, passou a me acusar de ladra (eu sempre cuidei das finanças da família) e está realmente muito agressivo, a ponto de ameaçar partir para a agressão física.

Eu não sei mais o que eu faço.  Já fui ao fundo do poço várias vezes por causa dele que acabou com a minha autoestima. Já tentei me suicidar, já briguei com psicóloga, fui a chata todas as vezes em que fomos em algum psiquiatra e ele voltava com remédio para ansiedade ou depressão… Já batalhei muito por ele e por nós, mas me vejo extremamente frustrada. Sua fisionomia fechando é um gatilho pra mim.  Já começo a ter crise de ansiedade, esperando pela próxima briga. Passei a ter convulsões por conta do emocional.

Ele passou a “jurar-me”, falar que vai me bater, que vai me arrebentar, que vai isso e aquilo, que vai se separar e me deixar na merda, porque sempre foi quem proveu dinheiro e eu nada fiz. Sei que isso é parte da doença, mas me machuca. Eu não consigo lidar com o problema. E nem ele me permite! Se estou tentando não entrar na briga, fica me perseguindo. Passa o dia digitando absurdos para mim, é algo lunático mesmo…  Estou quase desistindo, não sei se dele ou de mim. Essa doença arrancou o que eu tinha de maior felicidade.

Ilustração: Cinzas, Edvar Munch, 1894

BIPOLARIDADE – RELAÇÕES ROMPIDAS

 

Autoria de Hélio Fonseca

Estamos todos aqui desabafando, porque nada que for escrito vai mudar a nossa realidade, mas poderá mudar a nossa maneira de compreender os fatos. No nosso luto cultivamos a fantasia de que a crise vai passar, a pessoa vai voltar ao relacionamento, vai se tratar e as coisas vão se acomodar. Mas se trata apenas de uma fantasia, muitas vezes bem distante do real.

A realidade é que estamos nos relacionando com alguém emocionalmente instável. Isso quer dizer que as escolhas e os sentimentos dessa pessoa mudam. Pessoas, assim, de certo modo enjoam da gente… Então… Como esperar uma vida emocional estável com alguém assim? Outra crise e mais outras virão com certeza. São altos e baixos e à medida que o tempo passa e a gente se envolve, cria expectativas, faz planos, os descartes causam feridas emocionais cada vez mais profundas e até levam ao nosso adoecimento.

Eu sei que nosso coração fica pesado e sofrido, deixando muito pouco espaço para a razão. É preciso imaginar o que esse tipo de problema, esse tipo de relação poderá vir a nos causar daqui a alguns anos. Ou se deve acreditar cegamente que a pessoa irá melhorar? Precisamos entender que o mesmo que ocorreu agora poderá ocorrer mais à frente. Aliás, ouvi esse testemunho de um médico que estava se divorciando depois de 50 anos de casamento. A esposa dele se recusava a se tratar. Dizia sempre que o doente era ele e não ela.

Passei mais de 8 anos com uma mulher bipolar/borderline. São pessoas apaixonantes. Senti amor à primeira vista. Sei da intensidade do seu sofrimento. Imagino que seja idêntico ao meu. Por ignorância ou tragédia só soube do problema dela depois. Ela me descartou no ano passado e isso me causou um sério adoecimento. Se sobrevivo há meses é com o auxílio de medicação, tão sofrido é o estado em que me encontro.

A minha ex-companheira ainda não aceita que é doente. Parte do sintoma dela é achar que eu sou o culpado de tudo que deu errado, inclusive dos seus surtos. Ficamos três anos casados. Ao longo do namoro ela tinha episódios de raiva/violência ou terminava e se distanciava. Algumas vezes eu conseguia contê-la até que se acalmasse. Não fosse isso, tenho certeza, teria terminado bem antes. Ela queria a formalização da relação. Eu hesitei por conta dessas questões e fomos morar juntos para ver como seria a convivência. Acertei ao pensar que tudo pioraria, mas com a separação passei a me sentir muito culpado, como se eu não tivesse tentado tudo, como se a tivesse magoado de alguma forma.

Ao ler outros depoimentos aqui no site, eu percebi que isso não a impediria de fazer o que fez comigo. Mesmo casada, ela poderia ter ido embora. No ano passado ela rompeu completamente o contato comigo. Não responde a nenhuma tentativa de contato. Continuo à espera de uma explicação racional para um ato irracional, que me paralisou no tempo. Estou com muita dificuldade de seguir com a minha vida adiante. É provável que a resposta que espero dela nunca venha. Tenho muito medo do abismo que está se abrindo em minha vida por conta de tudo isso.

Eu me tornei codependente dela, com o tempo, e fraco demais para terminar. Por isso adoeci. Só entendi o problema quando vi um caso mais radical que o dela. Uma mulher descartou o pai de seu filho definitivamente, apenas por conta de um comentário dele sobre abaixar o volume da televisão. Decisão tomada, não voltou atrás. Também testemunhei outro descarte brutal por parte uma segunda pessoa que tinha um relacionamento de muito tempo e que foi descartado sem explicação alguma. A pessoa abandonada entrou em choque no momento em que a companheira terminou a relação. Percebi que essas pessoas quando se sentem que saturadas jogam tudo para cima.

Será que vale à pena esperar por alguém emocionalmente instável? Infelizmente, essas pessoas confundem nosso amor e tolerância aos seus excessos com fraquezas e deixam de nos respeitar, de nos admirar. No meu caso, nesse tempo de distanciamento eu percebi que o sofrimento de estar sem ela é ainda mais doloroso do que o que eu sentia quando estava com ela. O que sentia antes era ressentimento, raiva e humilhação. O que eu sinto hoje é puro desespero…  

 Ilustração: Cinzas, 1894, Edvard Munch

BIPOLARIDADE – O SOFRIMENTO É INEVITÁVEL

Autoria de José Antônio

Até pouco tempo atrás o Transtorno Afetivo Bipolar (TAB), também conhecido como Transtorno Bipolar do Humor (TBH), era chamado Psicose Maníaco Depressiva (PMD). Caracteriza-se pela variação extrema do humor entre uma fase maníaca ou hipomaníaca e uma fase de depressão.

Lendo os comentários neste site, vejo o quanto a relação dentro de um diagnóstico de TAB é sofrida. Sofre quem tem o diagnóstico, por não aceitar a condição que não escolheu, mas esse irá acompanhar sua história e será utilizado como motivos para isso e para aquilo nas relações, nas decisões, nas atitudes. Sofre quem está por perto, num relacionamento, ao ver essa autofagia que escolhe o silêncio, que distancia quem quer ajudar e que, por vezes, descarta o outro (ainda que inconscientemente).

Eu me relacionei com uma pessoa com TAB por alguns anos. Ouvi diagnósticos, ouvi cenários, ouvi resistências de usar medicamento e senti, por muitas vezes, o efeito dessas decisões. Em um momento eu estava inserido na realidade de sonhos e em outro afastado pelo silêncio ensurdecedor do afastamento que despreza, que anula, que deixa você baratinado e perdido entre tentar ajudar e respeitar as decisões daquele que se tranca.

Passei a fazer cálculos dos dias bons e dos dias ruins. Os meses e anos mostraram coisas sinistras. Meses de afastamento, meses de brigas, meses de indiferença. Alguns momentos de normalidade. Planos? Futuro? Sem chances! Tudo muda num estalo de dedos. A viagem discutida, a curtição desejada, o dia X ou Y, as datas vão sendo manchadas pelas crises, pela indiferença e pelo distanciamento. Em cada queda um vazio, em cada vazio a vontade de ver diferença, e quando essa proximidade ocorria, o medo do próximo dia, do próximo descarte, da forma intensa e descartável que a crise define quem está ao lado de um(a) bipolar é algo que você terá que conviver. O fim parece o natural. Quem está perto sofre também, e se não houver essa clareza, irá sofrer bem mais.

É preciso cuidar de si primeiro, para depois cuidar de quem precisa de ajuda. Não subestime que o risco é alto, que o sentimento é confrontado e que as desilusões sentimentais são inevitáveis nessa relação. Se tem algo que me marcou muito nessa relação, foi tomar conhecimento da falta de responsabilidade afetiva de quem é bipolar. Se isso é sano ou insano, nem os médicos e psicólogos convergem nas hipóteses. A certeza é que o sofrimento é inevitável. E sofrer amando, afastar-se gostando e ver o descarte flertando com você a cada dia é um desafio imenso.

Minha solidariedade aos que a vida rotulou como bipolares. Se desafiem, conversem, expliquem aos seus parceiros que irão se afastar, irão se calar, irão viver a fase necessária da patologia, mas tentem, nesses gatilhos, enxergar aqueles que estão com vocês, e entendam que eles sofrem com vocês, e se você não tiver esse tato, sofrerão ainda mais.

Minha solidariedade aos que estão perto de alguém bipolar. Ame, se importe, entenda, mas cuide de si primeiro, para ter estrutura e ajudar o outro. Se reinventem e incentivem o maior ponto de equilíbrio que for possível. A vida é um sopro, a intensidade de momentos felizes normalmente é muito mais breve que a recuperação das feridas abertas nos relacionamentos.

Luz e paz!

Ilustração: Amor e Dor, 1895, obra de Edvard Munch

BIPOLARIDADE – AFASTAR-SE NÃO É COVARDIA

Autoria de Fiona Lemos

Amigos e amigas

 Eu estive oito meses com alguém e, através de amigos psicólogos e outros que foram diagnosticados com algo parecido, consegui reconhecer que meu então companheiro tem transtorno bipolar. Antes dele eu namorei e cheguei a me casar com uma pessoa que tem a síndrome de Asperger. Não é fácil conviver com quem tem bipolaridade e não tem conhecimento sobre o assunto, negando a existência do transtorno. O meu ex-companheiro pelo menos assume indiretamente a sua condição de bipolar. Num dia ele me tratava bem, noutro não. Eu só queria que aceitasse ir ao psiquiatra. Mas nem teste de Covid para entrar num restaurante ele aceita fazer. Só tomou a vacina porque queria viajar. Caso contrário não teria tomado. Como veem, nem toda guerra é nossa. A gente precisa compreender isto e seguir em frente. Antes desses relacionamentos, namorei por cinco meses um sociopata.

Imagino a vontade que muitas pessoas têm de proteger o companheiro ou companheira, principalmente quando sabe que a família não se importa tanto quanto deveria, ou ao aprofundar mais na infância da pessoa e ficar com o coração despedaçado, pois vê falta de amor, de princípios e de cuidados. Eu não consegui salvar nenhum dos meus companheiros. Todos me fizeram muito mal. E a negação por parte deles foi maior que as minhas forças positivas. Eu tive que escolher: ou me afundava tentando salvá-los, ou vivia e deixava a minha mãe idosa viver em paz, sem chorar e sofrer, vendo sua filha desmoronar todos os dias.

Minha melhor amiga foi diagnosticada com bipolaridade e esquizofrenia. Ela sempre teve o controle de tudo. Porém, houve um gatilho depressivo que a levou à lona. Depois de semanas se excluindo de tudo e de todos, do nada ela teve um surto. Tentou se suicidar, jogando-se de uma janela, mas os bombeiros salvaram-na e levaram-na para a psiquiatria. Hoje, dois anos após o surto, ela se encontra melhor, mas não pode ficar um único dia sem medicação.

Muitas pessoas tomam medicamentos durante anos e depois tentam nos fazer acreditar que já não mais precisam deles. Querem aliados para fazer a coisa errada. Basta alguém dizer “É verdade, você já está bem, pare mesmo de tomar!”, que as inconsequentes param. E o transtorno acaba piorando ainda mais. Eu tenho uma amiga que tem TOC. Desenvolveu tal transtorno por fuga, em razão de um trauma ocasionado por um acidente de carro.

É difícil conviver com todos aqueles que não levam o tratamento a sério. Quando saí de perto daquelas pessoas às quais me referi acima, eu me senti meio covarde. Achei que as estava abandonando. Mas eu não aguentava mais conviver com elas. Estava sofrendo muito. Abdiquei da minha felicidade e engoli muito sapo. O tempo passou e não alcancei muito dos meus objetivos, por não ter aberto mão de namoros e amizades problemáticos. Uma coisa é certa, essas pessoas não se preocupam conosco nem 10% do que nós nos preocupamos com elas. É impossível conviver com alguém que não reconhece que está doente e busca tratar a sua bipolaridade.

Hoje eu moro em uma casa com duas pessoas. E meu colega de quarto é hipocondríaco e sofre de ansiedade. É extremamente perturbador. Como eu já detectei seu problema, não vou perder meu tempo tentando conviver com ele. Vou morar em um outro lugar. Simples assim! E assim eu vou tentando controlar as coisas. Existirão outras lutas, amigos e amigas, mas essas nem sempre serão as nossas.

O narcisismo, as manipulações e a inconstância por parte de quem não aceita tratamento estão a nos matar todos os dias. O sofrimento é amigo de tumores malignos. Há muitas formas de amar. Podemos torcer pelo bem da pessoa, e ainda assim nos afastar dela pelo nosso próprio bem e pelo bem dela própria. Isto é uma forma de amor. E se ela nos ama, vai querer que estejamos bem e irá entender o nosso afastamento. Cuidem-se todos vocês. Uma hora ou outra a gente vai ser feliz. Sejamos gratos por sairmos vivos desse tipo de relacionamentos.

Ilustração: Mulher Jovem na Praia, 1896, Edvard Munch

BIPOLARIDADE – NOIVADO DESFEITO

Autoria de Rebeca Mendes

Eu me relacionei com uma pessoa bipolar durante um ano e três meses. Era um romance dos tempos de faculdade e do qual acabei me reaproximando durante a pandemia. Moramos em cidades diferentes e distantes, então nos vemos a cada mês. Eu não sabia que ele tinha qualquer problema de saúde mental, até presenciar o primeiro episódio de mania (até então não sabíamos que era assim que chamava) logo após o seu aniversário de 32 anos.

Foi tudo difícil. Eu estava muito assustada, sem saber como lidar com o problema. Ele se encontrava extremamente diferente do comportamento habitual. Normalmente é uma pessoa muito tranquila e amorosa, mas durante a fase de mania ficou super agitado, não dormia, inconsequente com as palavras e atitudes e passou a me contar coisas que havia feito sem o meu conhecimento, como conversas com outras mulheres. Aquilo me fez desabar em tristeza e frustração, mas não me sentia no direito de sofrer enquanto ele estava naquele estado lamentável. Passados os dias, ele me pediu perdão e prosseguimos com o nosso relacionamento.

Sete meses depois outro episódio de mania aconteceu. Ele havia parado a medicação por conta própria e sem o conhecimento de ninguém. Durante a crise ouvi mais confissões de traição, mas me senti culpada mais uma vez. Achava egoísmo sofrer e terminar com ele naquela situação. Não me sentia com o direito de abandoná-lo. Passados alguns dias, e com ele já menos instável, recebemos o diagnóstico de transtorno afetivo bipolar. Na hora eu cheguei a sentir até um alívio por saber do que se tratava e ele também. Prometeu-me se comprometer com o tratamento, parou de beber e parecia que tudo daria certo.

Mesmo com o problema de confiança por conta das traições confessadas por ele, o relacionamento seguiu tranquilo. Eu evitava situações de estresse ou gatilhos que pudessem despertar nele outras crises. No entanto, mesmo tomando a medicação e estando bem, ele entrou em mais um episódio de mania. Estávamos muito bem, viajamos no réveillon, fizemos planos para esse ano e, inesperadamente, ele terminou comigo. Este último episódio de mania começou de forma muito sutil e ele logo foi ao psiquiatra para rever a medicação, mas ainda assim o episódio progrediu, tendo dias de altos e baixos.

No último domingo saímos por insistência dele, pois eu não gosto de sair quando ele se encontra nessa situação, para evitar a exposição e o que pode gerar uma experiência desagradável, mas também é difícil negar todos os convites pelo medo de chateá-lo. Encontramos uns três amigos dele num barzinho que já é bem conhecido. Ele tomou um refrigerante, conversou bastante, falou de seus planos para a festa de aniversário. Depois de cerca de duas horas ele me chamou para voltarmos para casa.

Ao chegar em casa, ele se irritou porque eu ainda não tinha lavado a louça e terminou o relacionamento comigo. Entregou-me a aliança e pediu-me para tirar as minhas coisas do quarto. Eu moro a quase 400 km de distância da cidade dele, e tive que pegar o primeiro ônibus para voltar pra casa. Agora eu não sei o que fazer. Não sei se espero a mania passar. Não sei se sigo a minha vida. Estou devastada. Abri mão de muitas coisas pelo relacionamento, até mesmo de sofrer, quando tive motivos ruins e agora nem mesmo sei por que ele terminou o namoro.

Tenho tentado falar com ele, mas está tão frio que é como se nossa relação nunca tivesse existido para ele. Escrevo aqui como um desabafo e como um pedido de ajuda. Minha família e meus amigos não entendem essa relação e me dói muito pensar que eu me doei tanto para não ter o direito de um término digno, com um pouco de carinho e respeito. É possível que ele volte atrás? Hoje o meu pensamento não é na reconciliação e sim que possamos conversar, quando ele estiver lúcido. Recuso-me a aceitar uma separação sem nem mesmo saber a causa.

Ilustração: Ciúmes, 1930, Edvard Munch.