Arquivo da categoria: História da Arte

O mundo da arte é incomum e fascinante. Pode-se viajar através dele em todas as épocas da história da humanidade — desde o alvorecer dos povos pré-históricos até os nossos dias —, pois a arte é incessante.

SIMBOLISMO E ALEGORIA NA ARTE (Aula nº 36)

Autoria de LuDiasBH

                         

Todos os povos — em quaisquer que sejam os tempos — possuem uma simbologia específica, própria de sua cultura. Os símbolos não possuem significados inerentes, ou seja, em si mesmos. Eles precisam fazer parte da identidade social e cultural de um povo, num determinado tempo, pois seu significado também se modifica. A arte é um campo riquíssimo em simbologia. Tanto a Idade Média quanto o Renascimento contaram com um simbolismo bastante organizado, sendo que alguns de seus símbolos ainda fazem parte da cultura de nossos dias, a exemplo da abelha, vista como extremamente laboriosa, sendo usada para simbolizar o trabalho produtivo.

O simbolismo teve uma função muito importante numa época em que a grande maioria da população era analfabeta. A palavra “símbolo” deriva-se do grego antigo “symballein”, cujo significado é “unir, agregar, associar”, etc. Em tempos idos era costume, após o término de um contrato ou acordo, a quebra de um bloco de argila de modo que cada um dos participantes ficasse com um pedaço (symbola), sendo que a união de suas frações comporia a unidade. Assim teve início seu uso figurado que tanto pode representar algo, como ser indicativo de que alguma coisa está faltando para levar à conclusão ou à totalidade.

O símbolo na arte tem a função de repassar informações sobre uma ideia específica. Muitas vezes um mesmo símbolo pode ter vários significados. Uma árvore, por exemplo, dentro da simbologia cristã tanto pode ser uma referência à cruz onde Cristo foi imolado, como pode representar a “árvore da vida” que relaciona o mundo terreno com o espiritual. O relacionamento entre religião e simbolismo tem sido expresso em todos os tempos, a começar pela Pré-História com a “Vênus de Willendorf”. A arte funerária do antigo Egito tinha uma rica simbologia que retratava a preocupação com a vida após a morte. Na Idade Média a simbologia era usada sobretudo com a finalidade de repassar ensinamentos. E nos tempos de hoje, quando o homem traz consigo um olhar mais crítico sobre a visão simbólica das muitas vertentes de nosso mundo,  novas eras científicas ganham vida com uma simbologia própria.

Na arte cristã existia uma variada simbologia correlacionada com o espiritual e o terreno. Sua função didática permitiu que as tradições religiosas e espirituais fizessem uso do simbolismo para levar às pessoas o entendimento do divino. Os símbolos eram muitas vezes combinados de maneira a formar uma alegoria (expressão do pensamento ou da emoção, muito usada em literatura, pintura e escultura, através da qual se representa simbolicamente um objeto para significar outro), quando a ideia a ser exposta era mais complexa, como na representação da batalha entre o bem e o mal. A Bíblia traz muitos exemplos de alegoria usados para explicar verdades espirituais, como as parábolas de Jesus em que os personagens e os eventos representam uma verdade sobre o Reino de Deus ou sobre a vida cristã.

Como podemos perceber, ainda que fossem direcionados a uma população analfabeta, o simbolismo e a alegoria são meios que exigem a participação intelectual do observador, pois ele precisa ter conhecimento sobre o que se referem, não bastando apenas olhar para compreender seu verdadeiro sentido. É por isso que nos passam despercebidas muitas coisas nas pinturas dos mestres do passado, uma vez que não tempos a compreensão de toda a sua simbologia, como veremos no estudo de obras.

A Bíblia — livro sagrado dos cristãos — está repleta de simbolismo e de parábolas (narrativa alegórica que evoca, por meio de comparação, valores de ordem superior, encerra lições de vida e pode conter preceitos morais ou religiosos) religiosas. Cristo é representado como pelicano, cordeiro, pastor, etc. A obra pictórica conhecida como “Os Esponsais dos Arnolfini” — criada por Jan van Eyck em 1434 (século XV) — é riquíssima em simbolismo e alegoria, sendo essa pintura uma das mais famosas no que diz respeito à arte simbólica e alegórica cristã. Seu simbolismo religioso é tão complexo que até hoje não foi totalmente decifrado. Vejamos alguns exemplos de símbolos.

  • A primeira figura ilustrativa do texto (sempre olhando da esquerda para a direita) é conhecida como “triquetra” (ou triqueta), uma forma geométrica usada para expressar a Santíssima Trindade. Observem que se trata-se de três arcos entrelaçados. O símbolo inteiro é uma referência à unidade e à eternidade.
  • A segunda figura é conhecida como “lábaro” ou “cruz de Chi-Rho”, monograma composto por duas letras iniciais gregas da palavra Cristo: X (chi) e P (rho).
  • A terceira imagem trata-se de um dos símbolos secretos mais antigos de Cristo, encontrado nas catacumbas romanas. Tem por base um acróstico: as letras iniciais das palavras gregas para Jesus Cristo, o Filho de Deus e Salvador formam a palavra grega “ichthus” que significa “peixe”.
  • A quarta imagem representa uma pomba a emanar sete raios numa referência ao Espírito Santo com seus sete dons.
  • A última figura é um basilisco, símbolo medieval que representava o diabo, a luxúria e as doenças.

A Virgem Maria também é possuidora de uma vasta simbologia: o lírio, a rosa branca, a rosa vermelha, o sol, a lua e uma coroa com 12 estrelas, um jardim cercado, um portão fechado, um espelho, um manto azul, etc. O cão é um animal muito presente na pintura antiga, símbolo da fidelidade e da vigilância. A cereja na iconografia cristã possui a mesma simbologia da maçã, como fruta do paraíso.

Exercício
Para o enriquecimento deste texto/aula os participantes deverão responder as questões abaixo:
1. Como teve início o uso figurado do símbolo?
2. Qual é a função do símbolo na arte? Exemplifique.
3. Qual foi a origem do peixe na simbologia cristã?

Fontes de pesquisa

A História da Arte / Prof. E. H. Gombrich
Renascimento/ Nicholas Mann
Signos e Símbolos/ Editora Escala

PAGANISMO, CRISTIANISMO E HUMANISMO (Aula nº 35)

Autoria de LuDiasBH

O distanciamento dos fatos faz com que imaginemos que a harmonização entre o paganismo e o cristianismo ocorreu pacificamente. Não foi bem assim, principalmente nos séculos XII e XV, quando houve a necessidade de conciliar a civilização clássica com a cristã. Lembremo-nos de que os escritores gregos e romanos da Idade Antiga eram pagãos (nome dado à época a todos os romanos que se mantinham fiéis às suas antigas crenças, não se convertendo ao cristianismo), enquanto a Idade Média primou pela religiosidade, sendo que qualquer fenômeno recebia uma interpretação cristã. Era normal, portanto, que muitos relatos desses escritores clássicos acabassem colidindo com os ensinamentos da Igreja.

Só para termos uma ideia desse embate ideológico, o poeta italiano Dante Alighieri (1265-1321), na segunda metade do século XIV, condenou todos os escritores clássicos a padecer no Inferno em sua famosa obra intitulada “Divina Comédia”, simplesmente por não terem sido batizados no cristianismo, mesmo que esses indivíduos tenham vivido “antes do tempo da cristandade”, o que nos parece uma posição bizarra por partir de um intelectual.

A colisão “cristianismo” versus “paganismo” chegou a aflorar tanto que, durante certo tempo, até mesmo a filosofia aristotélica foi banida da Universidade de Paris em razão das associações pagãs do filósofo que viveu na Antiguidade — antes de o cristianismo existir. E o mais paradoxal nessa trama é que o imortal Aristóteles só passou para a posteridade, chegando até nossos dias, em razão do auxílio que deram às suas obras os frades dominicanos Alberto Magno (c. 1206-1280) e São Tomás de Aquino (1225-1274) — um dos doutores da Igreja Cristã — que deram às suas ideias uma roupagem cristã.

Durante o Renascimento italiano a grande maioria de eruditos e artistas fizeram uso da civilização clássica, mas sob o prisma da fé cristã, o que nos mostra a capacidade que o ser humano possui de adequar os fatos de acordo com a sua vontade ou visão de mundo, o que torna a nossa compreensão do passado — ou até mesmo do presente — quase sempre comprometida. Ainda que o Renascimento italiano carregasse o comprometimento de cristianizar as tradições clássicas, alguns poucos eruditos ficaram tão tocados pela literatura pagã a ponto de recusar o cristianismo. Apenas para efeito de citação, podemos ver a mesclagem entre os temas e as técnicas clássicas com a iconografia cristã em obras como “Os Esponsais dos Arnolfini” (1434), obra de Jan van Eyck e “A Primavera” (c. 1418), obra de Sandro Botticelli (Iremos estudá-las.)

É na literatura “humanista” (palavra que apareceu pela primeira vez no século XVI) que a união entre as crenças do Renascimento e as cristãs tornam-se mais nítidas. Ainda que o termo “humanismo” seja fruto de finais do século XVIII ou do XIX, é importante empregá-lo para estudarmos certas características do pensamento e do saber do Renascimento. À época, aquele que fazia um curso em humanidade (studia humanitis) era chamado de “humanista”. De seus estudos faziam parte: gramática e retórica, mas dentro dessa grade estavam inseridas: literatura, poesia, história e a habilidade de comunicar-se com a mais absoluta clareza e persuasão. Apesar do título, não havia um programa “humanista” no sentido estrito da palavra, mas o estudo da grade citada teve grande importância ao romper com o currículo tradicional das universidades que até então se resumia ao estudo de lógica e de métodos repetitivos, a fim de que os alunos apreendessem as fórmulas intelectuais de memória, ou seja, na decoreba.

Outro ponto importante do estudo das “humanidades” foi o de destacar mais os valores seculares do que os transcendentais, dando maior ênfase ao concreto do que ao abstrato. Ao invés do estudo de metafísica e da teologia, o humanista buscava compreender a si mesmo e a melhorar como indivíduo. Contudo, era crença comum na Idade Média que o homem encontrava-se totalmente sob a influência da graça de Deus — conforme ensinava a Igreja Cristã — e sem essa bondade não passaria de um bicho. O “humanista” por sua vez, cria que homem era capaz de melhorar a si mesmo graças a uma educação e a uma preparação eficazes. Em razão desse pensamento, a Igreja sentiu-se em perigo pelo fato de não se fazer uma referência aos seus ensinamentos.

O humanismo, que historicamente falando tratou-se de um movimento intelectual da Europa renascentista, com base na cultura greco-romana e em sua valorização do conhecimento do homem e suas perspectivas, também teve um papel importante ao buscar fazer versões corretas dos textos clássicos. Grande parte do trabalho dos humanistas dizia respeito a uma bem elaborada edição das obras latinas e gregas.

 Exercício
Para o enriquecimento deste texto/aula os participantes deverão responder as questões abaixo:

1. Por que houve um embate entre o classicismo e o cristianismo?
2. Quem foi Dante Alighieri e o que fez em relação ao paganismo?
3. Em que ponto a visão humanista diferia da cristã?

Ilustração: Santo Agostinho Ensinando em Roma, (1464), obra de Benozzo Gozzoli.

Fontes de pesquisa
A História da Arte / Prof. E. H. Gombrich
Renascimento/ Nicholas Mann

ITÁLIA – FAMÍLIAS GOVERNANTES (Aula nº 34)

Autoria de LuDiasBH

   

Importantes famílias partilhavam o domínio das terras italianas, uma vez que a Itália do Renascimento era composta por um grupo de cidades-estados independentes e belicosos entre si, dominados por ricas e poderosas famílias como os Mentefeltro em Urbino, os Gonzaga em Mântua, os Sforza (em substituição aos Visconti) em Milão e os Medici em Florença (onde havia uma grande fonte de mecenato, inclusive os mercadores financeiros que, para garantir sua salvação, investiam em obras devocionais).  A corte papal governava Roma e diversas famílias principescas reinavam sobre territórios controlados pelo sacro imperador romano e pelo papa. A Itália, portanto, no limiar do Renascimento era uma colcha de retalhos, composta por pequenas cidades/estados independentes.

Muitas dessas famílias granjearam riquezas e ascendência política através do comércio e do sistema bancário, da indústria, do aluguel de seus exércitos e por ter um papa como patriarca (caso dos Bórgias ou Borjas em Roma). Os chefes dessas famílias buscavam alianças estratégicas, usando dois artifícios: o compartilhamento dos exércitos e os casamentos arranjados. Não espanta, portanto, que no final do século XV grande parte dessas prestigiosas famílias estivessem unidas por parentescos e dependências políticas e econômicas, pois é assim que funcionava o mundo da riqueza, do poder e da política. Vejamos algumas dessas famílias:

Frederico de Montefeltro — duque de Urbino — recebeu uma educação clássica, tendo desenvolvido um grande amor pelas artes. Tinha fama de justo e diplomático. Fez uso de seu próprio dinheiro para baixar impostos, socorrer os pobres, criar escolas e hospitais e armazenar reservas de trigo para os tempos difíceis. Possuía grande paixão pelos livros, tendo criado a biblioteca mais completa conhecida até então. Empregou copistas e miniaturistas. Possuía obras clássicas em grego, latim e hebraico, uma belíssima edição da “Divina Comédia” e uma Bíblia encadernada em brocado de ouro. Seu legado cultural foi assumido por seu filho Guidobaldo de Montefeltro e sua esposa Elisabetta Gonzaga — pertencente à família Gonzaga de Mântua. O casal reuniu em tornou de si um grande círculo de intelectuais e artistas.

Os Bórgia (ou Borja) foram uma família nobre hispano-italiana que gozava das graças do papa. Rodrigo Bórgia era tido como “um homem com uma inteligência capaz de tudo”. Era sobrinho do papa Calisto III que fez com que ele se ordenasse aos 25 anos, sendo eleito papa aos 36 anos. Era um exímio homem de Estado, mas sem levar em conta os princípios cristãos que lhe serviram apenas de trampolim para a fama. Durante seu papado reconstruiu a Universidade de Roma. Chegou a nomear mais de 30 parentes para cargos públicos no Vaticano. De uma feita colocou sua filha Lucrécia Bórgia no seu lugar, quando de uma visita a Roma. Ao fazer uso dos engenhos militares projetados por Leonardo da Vinci, acabou apoderando-se de uma parte significativa da Itália central.  Seu filho César Bórgia, líder impiedoso, colocou-se à frente das tropas do pai, tendo executado aqueles que resistiam a ele, muitas vezes recorrendo à traição. Foi capaz de ocupar Urbino, depois de Guidobaldo de Montefeltro — duque da cidade — ter lhe emprestado a artilharia. Foi uma pessoa insensata e odiada. Serviu inclusive de inspiração para a obra de Nicolau Maquiavel intitulada “O Príncipe”. 

A família Este ou Casa d’Este era o ramo italiano de uma importante dinastia europeia de príncipes. Governava a cidade-estado de Ferrara, sendo uma das cortes mais agradáveis e prósperas do Renascimento. Nicolau III foi responsável por seu maior crescimento. Ele abaixou os impostos, facilitou o comércio e fundou uma escola respeitadíssima. Em 1438 (século XV) foi o anfitrião de um concílio de eruditos e prelados que tinha por finalidade aproximar as alas oriental e ocidental da Igreja Católica. Teve 30 filhos, sendo que desses, três sucederam-no no trono. Leonello era o mais velho e o mais culto. Dominava o grego, o latim, a filosofia e o direito e era intensamente dedicado ao humanismo e às artes. Criou bibliotecas públicas e designou fundos à universidade que era visitada por estudiosos de toda a Europa. Desprezava a riqueza em si mesma e amava a cultura.

Leonello foi sucedido por seu irmão Borso que era totalmente o oposto dele. Prezava a fama e a vulgaridade. Ercole I de Ferrara foi o último dos filhos de Nicolau III a subir no trono. Tratava-se de um homem devoto, amante da música sacra. Foi um mecenas das artes. Triplicou o tamanho da cidade de Ferrara, transformando-a na cidade mais moderna da Europa. Foi casado com Leonora Aragão, uma mulher bem preparada e admirada por seus súditos, tendo sido considerada por muitos como uma administradora mais talentosa do que o marido.

A família Gonzaga governou Mântua durante 400 anos. Possuía uma corte harmoniosa e grande astúcia militar. Tornou-se famosa por possuir um relicário que se acreditava conter gotas do sangue de Jesus Cristo. Fundou uma escola que foi dirigida por Vittorino de Feltre (um humanista, religioso, pedagogo e professor da Universidade de Pádua). O currículo dessa escola estava voltado para as famílias nobres, ali constando desde a educação artística e artes militares até matemática, passando pela pintura, música e religião. A chamada “escola dos príncipes” recebia inúmeros pedidos para o ingresso de jovens de outras cidades e de outras partes da Europa.

Ludovico Gonzaga — filho mais velho do marquês de Mântua — foi um grande mecenas. Encomendou ao arquiteto Léon Battista Alberti o projeto e construção das igrejas de San Sebastiano e Sant’Andrea. Foi responsável por trazer para Mântua o famoso pintor Andrea Mantegna. A esposa de seu neto Francisco II Gonzaga — Isabel do Leste — também compartilhava grande paixão pelas artes, tendo colecionado livros raros. Ela se inclui entre os primeiros mecenas das artes que compraram obras levando em conta o autor e não a obra em si. Embora não fosse da linhagem dos Gonzaga, ela talvez tenha sido a mais importante figura dessa família no século XV, usando sua inteligência na defesa de seu lar adotivo.

O duque Filippo Maria Visconti — governante de Milão — morreu sem deixar herdeiro, extinguindo, portanto, sua linhagem. O jovem general mercenário Francisco Sforza, casado com uma filha ilegítima do duque, tomou o poder e passou a governar Milão. Tratava-se de um homem muito inteligente. Além de ampliar a atividade industrial e comercial, escavou uma rede de canais com o objetivo de aguar extensas zonas de terras cultiváveis. Foi responsável pela construção do Grande Hospital e por acabar as obras da Catedral de Milão. Fez com que a cidade se transformasse na primeira potência militar do norte da Itália.

O filho mais velho de Francisco Sforza — Galeazzo Sforza — sucedeu-o, mas em razão de sua crueldade e tirania acabou sendo assassinado. Como o herdeiro era ainda muito criança, Ludovico Sforza, o outro filho, assumiu o poder. Foi apelidado de “o Mouro” em razão de sua pele escura. Ele deu mais prosperidade a Milão. Casou-se aos 39 anos com Beatriz do Leste e teve inúmeras amantes. Sua esposa era extremamente vaidosa e perdulária. Encomendou, após casar-se, 84 vestidos de cetim bordados a ouro e incrustações de pedras preciosas. Também encomendou a Leonardo da Vinci a construção de brinquedos mecânicos e quebra-cabeças matemáticos para divertir a corte. Aos 22 anos de idade deu à luz um menino que nasceu morto e ela faleceu logo depois. Ludovico, sentindo-se corroído pela culpa e responsável pela fatalidade, caiu em depressão, jamais se recuperando. A França, pouco tempo depois, invadiu a Itália e apossou-se de Milão. O Mouro morreu numa masmorra francesa em 1508.

A pintura que ilustra o texto mostra Ludovico Sforza e sua esposa Beatriz — ajoelhados um de frente para o outro — apresentando seus dois filhos jovens diante do altar da Virgem e seu Menino. A mulher na ilustração à direita, com um arminho, é Cecília Galeranni — poeta, mecenas das artes e uma das amantes do duque (ver link abaixo).

Exercício:
Para o enriquecimento deste texto/aula os participantes deverão responder as duas questões abaixo e acessar o link:

1. Cite o nome de famílias que governaram cidades italianas durante o Renascimento.
2. Qual dessas famílias você considera a mais importante e por quê?
3. Da Vinci – DAMA COM ARMINHO

Ilustração: 1. Sforzesca, obra de Master of Pala Sforzesca, Itália (ativo em 1490-1520 in Lombardy) /  2. A Dama com Arminho, obra de Da Vinci.

Fonte de pesquisa
A História da Arte / Prof. E. H. Gombrich
Arte e vida na Itália Renascentista / Coleção Folio

RENASCIMENTO – ITÁLIA DO NORTE (Aula nº 33)

Autoria de LuDiasBH

                                                                          (Clique no mapa para ampliá-lo.)

Antes de entrarmos na história da arte renascentista propriamente dita, faz-se necessário conhecermos um pouco mais sobre como se encontrava a Itália nos séculos XIV e XV (os chamados séculos da anarquia feudal), politicamente dividida entre várias famílias. Do século XIII em diante, as cidades do norte da Itália encontravam-se constantemente envolvidas em conflitos entre si (revoluções populares, briga de facções, golpes de Estado e até mesmo invasão de governantes estrangeiros), o que gerava grande instabilidade. O que acontecia no resto da Europa não era diferente do que vigorava na Itália, a exemplo da Guerra dos Cem anos entre Inglaterra e França.

Apesar de tanta turbulência, a Itália do Norte diferenciava do restante da Europa em três pontos importantes: 1. as ruínas romanas  durante os séculos XIV e XV foram responsáveis pelo estudo da Antiguidade; 2. era uma das regiões mais ricas da Itália, onde se situavam as cidades de Gênova e Veneza (controlavam a maior parte do comércio do Mediterrâneo), enquanto Florença (a cidade mais rica do norte italiano) e Milão foram importantes centros de fabricação e de distribuição, possuindo uma significante classe média e um nível de educação maior; 3. essa parte da Itália estava dividida em cidades-estados — diferindo do restante da Europa —, sendo que seus habitantes comungavam os mesmos elementos de orgulho cívico e de identidade — características fundamentais para o surgimento do Renascimento na península italiana.

As inovações no limiar do Renascimento passaram a ser compreendidas pela sociedade. Os eruditos e os artistas da Itália do Norte eram cada vez mais prestigiados, trabalhando para as pessoas mais importantes das cidades que cresciam velozmente com a saída da nobreza do campo. A temática sobre arte e literatura abrangia um público cada vez maior, sendo usada para louvar as dinastias e as façanhas militares.

A máxima de Aristóteles de que “quem não é um cidadão não é um homem, uma vez que o homem é por natureza um ser cívico”, propagou com força entre as cidades italianas. Mais uma vez podemos notar como o desenvolvimento de uma cultura cívica com consciência própria é benéfica a um povo em qualquer que seja o tempo, a exemplo da Itália do Norte, responsável por infundir a concepção de renovação clássica — uma das partes mais interessantes e ricas da história da humanidade, conhecida como Renascimento. Tal estímulo deve ser, sem dúvida alguma,  um dever de todo político que preza o crescimento cultural, econômico e social de seu país.

Enquanto isso acontecia na Itália, a Europa ao norte dos Alpes encontrava-se sob a tutela de governantes territoriais e de uma nobreza rural inculta, envolvida apenas com a “caça, mulheres e banquetes”, desprovida dos valores cívicos que alçavam a Itália a um novo patamar. Entretanto, tornava-se mais fácil para que as ideias renascentistas alcançassem os reinados principescos e aristocráticos da França, da Inglaterra e do norte da Europa, tanto pela passagem de invasores estrangeiros usando a Itália quer pelo desenvolvimento das técnicas de impressão que apressaram a propagação do Renascimento no norte dos Alpes.  O Renascimento italiano, ao atravessar os Alpes, fundiu-se com tendências culturais mais antigas da pintura francesa e da flamenga.

A história do Renascimento fora da Itália está mesclada por grandes mudanças no campo político e religioso da Europa no século XVI. Enquanto na Idade Média a religião católica era responsável pela unificação da Europa, a Reforma de Martinho Lutero (1483-1546), iniciada no século XVI na Alemanha, foi responsável por dividi-la, jogando por terra o ideal de uma república cristã unida. E, como a arte é consequência dos acontecimentos de um determinado tempo, o Renascimento não ficou imune às mudanças. Embora se tratasse de um movimento cultural europeu, tomando o continente como um todo, o Renascimento foi moldado de acordo com as circunstâncias e condições particulares de cada um dos países por onde se irradiou. Assim, não existiu uma uniformidade cultural, mas uma diversidade de movimentos.

Exercício:
Para o enriquecimento deste texto/aula os participantes deverão responder às questões abaixo:

1. Como era a Itália no limiar do Renascimento?
2. Qual foi a importância da Itália do Norte?
3. Como foi o Renascimento na Europa ao norte dos Alpes?

Fonte de pesquisa
A História da Arte / Prof. E. H. Gombrich
Renascimento/ Nicholas Mann
Arte e vida na Itália Renascentista / Coleção Folio

O LIMIAR DO RENASCIMENTO (Aula nº 32)

Autoria de LuDiasBH

  

                                                      (Clique nas gravuras para ampliá-las.)

Deixamos para trás a Idade Média e entramos na Idade Moderna que abrange um período conhecido como “Renascença”, palavra que significa “nascer de novo” ou “ressurgir”. Teremos mais aulas relativas a esta fase em razão de seus muitos acontecimentos e transformações políticas, econômicas, religiosas, sociais e culturais. Esse foi um período marcado pelo fim do feudalismo e pelo o início do capitalismo. Foi assinalado sobretudo pelo desejo de revisitar o ideal artístico greco-romano, desejo esse que se iniciou na Itália e depois se expandiu pelo resto da Europa.

Voltando no tempo, lembremo-nos de que o artista italiano Giotto di Bondone — um gênio da arte — foi o responsável por dar uma nova visão à pintura, ao romper com o conservadorismo da arte bizantina, buscando reportar para a pintura as figuras realistas da escultura gótica, inaugurando, assim, uma nova fase na arte pictórica. Ele havia redescoberto a arte de dar vida à ilusão de profundidade numa superfície plana. Foi a partir daí que a ideia do “Renascimento” passou a ganhar vida na Itália. Nessa época, quando as pessoas queriam exaltar o trabalho de um artista, diziam que “a sua obra era tão boa quanto a dos antigos”. As obras de Giotto, portanto, eram comparadas com as dos melhores mestres da Grécia e da Roma antigas.

A ideia de que a arte antiga de gregos e romanos era admirável foi ganhando terreno na Itália, tornando-se cada vez mais popular. Os italianos estavam cônscios de que, num passado distante, a Itália que teve Roma como capital, chegara a ser o centro principal do mundo civilizado, até que tudo teve fim com a invasão das tribos germânicas (os godos) que destruíram o grandioso império. Os romanos ainda sonhavam com o poder e a glória da Roma de outrora, mostrando-se sempre comprometidos com a ressurreição de sua grandeza. Traziam os olhos voltados para a idade clássica e para uma esperançosa nova renascença.

Os sonhos dos italianos, contudo, careciam de uma avaliação mais real sobre como acontece o nascimento de um estilo. Nada se faz ou surge de uma hora para outra. As transformações vão se maturando aos poucos, acontecendo paulatinamente. Só para se ter uma ideia, os godos — acusados de serem os responsáveis pela queda do Império Romano — estavam distantes cerca de 700 anos da arte gótica (chamada de “bárbara” pelos italianos). Também não se pode negar que o “ressurgimento” da arte, após as inúmeras turbulências vividas na Idade Média (também conhecida como a Idade das Trevas, ainda que muitas vezes injustamente), aconteceu gradualmente, tendo o período gótico presenciado o alvorecer dessa ressurgência. Nada apareceu num piscar de olhos como desejavam os adeptos do Renascimento.

Os italianos mostravam-se menos conscientes desse processo gradual que acontece com a arte do que os povos que viviam mais para o norte da Europa. Qual a razão de tal comportamento? Em aulas anteriores nós vimos que a Itália demorou a aceitar o estilo gótico, ao contrário da Alemanha, da Inglaterra e da criativa França onde tal estilo teve origem. E mesmo as realizações Giotto só foram aceitas por algumas cidades italianas que as consideraram uma grande inovação, vendo nelas o que havia de mais nobre e grandioso na arte. Outros centros italianos persistiram com o estilo bizantino, acrescentando-lhes algumas mudanças, só vindo a abraçar as inovações do celebrado Giotto di Bandone muito tempo depois.

Os italianos do século XIV mostravam-se inconformados com a falência de Roma como centro cultural do mundo. Acreditavam que tudo aquilo (arte, ciência e  saber em geral) que havia florescido no período clássico — tendo sido destruído e erradicado pelos povos bárbaros do Norte (povos que não faziam parte do Império Romano) em especial os godos — haveria de voltar. Imaginavam que lhes cabia a incumbência de ressuscitar esse glorioso passado, reintroduzindo, assim, um novo tempo.

O sentimento de esperança e de certeza na possibilidade da criação de uma nova era foi mais forte especialmente em Florença — berço de Dante Alighieri (tido como o maior poeta da língua italiana, autor de “A Divina Comédia”) e de Giotto. E foi exatamente nessa cidade, nas primeiras décadas do século XV que um grupo de artistas se propôs, deliberadamente, a tentar cortar os laços com as ideias do passado e a criar uma arte nova, comprometida com a cultura clássica — o Renascimento.

Exercício
Responda as duas questões e acesse o link abaixo:

1. O que levou os italianos a desejarem o Renascimento?
2. Em que parte da Itália teve início o Renascimento?
3. Giotto – APRESENTAÇÃO NO TEMPLO   

Ilustração: 1. Apresentação no Templo, Giotto di Bondone ()/2. Obra de Dante Alighieri/ 3. Mapa da Itália.

Fontes de pesquisa
A História da Arte / Prof. E. H. Gombrich
Renascimento/ Nicholas Mann

 

IDADE MÉDIA E RENASCIMENTO (Aula nº 31)

Autoria de LuDiasBH

Durante muito tempo se pensou que o Renascimento tivesse surgido na Itália durante o século XIV com as descobertas de Giotto (c.1266-1337) ou Cimabue (c.1240-1302?), tendo como término o final do século XVI. Contudo, na arte as coisas não acontecem com uma cronologia tão apurada, sendo muito comum dois ou mais estilos coexistirem num mesmo período, como já vimos anteriormente suceder com os estilos românico e gótico. Poucos sabem que muitas das ideias identificadas com o Renascimento já eram encontradas no século XII, sendo possível, portanto, encontrar na Renascença (ou Renascimento)  muitos pontos ligados ao período medieval.

Muitos estudiosos acreditavam que a Idade Média não tivesse passado de um milênio de grande decadência, responsável por deixar para trás — através do esquecimento ou do descuido — o êxito da época anterior (a Antiguidade). Hoje, porém, a idade medieval vem sendo olhada sob um novo prisma. Está provado que a cultura clássica (greco-romana) jamais desapareceu totalmente da Europa durante a Idade Média, tendo havido diversas tentativas com o objetivo de  revivê-la nos séculos que antecederam o Renascimento. Vejamos dois exemplos abaixo.

A primeira tentativa aconteceu no tempo de Carlos Magno, no final do século VIII e início do século IX. O desejo do imperador era restaurar o Império Romano na Europa Ocidental, fazendo renascer a arquitetura e a literatura romanas. Chegou a autorizar a cópia e a propagação dos textos clássicos e juntou um grupo de eruditos com o objetivo de dedicar-se ao estudo da literatura romana. Carlos Magno, mesmo sendo analfabeto, participou dessa realização com grande empenho. Essa tentativa do Renascimento carolíngio teve uma importância muito significativa ao manter viva as ideias clássicas e seus modelos, impedindo que fossem esquecidos. Os copistas da corte contribuíram para conservar os textos dos manuscritos latinos, tanto é que o tipo de letra “romana”, usada em nossos tempos, é carolíngia na origem.

Um segundo Renascimento aconteceu no século XII, quando houve um grande interesse pela civilização romana, havendo um crescimento e difusão de bibliotecas e a procura pela pureza da expressão literária. Buscavam imitar a escultura e a arquitetura clássicas. O contato com o mundo árabe e com as civilizações islâmicas através das Cruzadas permitiu o acesso às traduções de alguns trabalhos científicos e filosóficos da Grécia Antiga, permitindo acesso ao saber de Aristóteles sobre filosofia, física, astronomia, lógica, política e ética — assuntos até então desconhecidos dos eruditos do século XII. A criação das universidades, sobretudo em Bolonha, Pádua, Paris e Oxford, incluiu o estudo da lógica aristotélica, mas acabou por excluir todo o resto da grade de estudos, o que causou uma grande reação nos séculos XVI e XV.

O Renascimento foi muito mais do que um período. Foi principalmente um movimento cultural responsável por sinalizar um ponto crucial que se deu na transição da Idade Média para a Idade Moderna. Segundo o artista italiano e historiador de arte Giorgio Vasari (1511-1574), as artes estavam em busca da perfeição, o que levava “a uma recuperação da civilização antiga da Grécia e Roma”. O erudito humanista Marsilio Ficino (1433-1499) referiu-se a uma nova idade dourada em Florença que “tinha restaurado a vida das artes liberais que estavam quase extintas: a gramática, a poesia, a retórica, a pintura, a escultura, a música e o antigo cantar de canções na lira órfica”. Para o poeta e humanista Petrarca (1304-1374), o novo período fez com que “os homens saíssem da obscuridade”.

Ao Renascimento, portanto, não coube o papel de ocupar um vazio cultural absoluto, pois os “Renascimentos” anteriores foram responsáveis em vários sentidos por pavimentar o caminho para o ápice que viria a acontecer nos séculos XV e XVI. O Renascimento italiano foi a culminância de uma diversidade de tendências anteriores e não uma ruptura total com o passado, como se imaginava. Sabemos que a palavra “renascimento” significa “voltar a nascer” e foi com esse sentido que os eruditos e artistas dos séculos XV e XVI viram os acontecimentos no meio cultural do qual faziam parte — o renascer da civilização clássica após um imenso período de definhamento. O movimento renascentista teve um grande impacto em todos os aspectos da cultura, da literatura e da arquitetura, ao tentar, conscientemente, reabilitar e reviver o brilhantismo da Antiguidade Clássica. É fascinante estudar esse período!

Exercício

  1. Pode-se dizer que na Idade Média inexistiu a cultura clássica? Por quê?
  2. Por que o Renascimento carolíngio foi importante?
  3. O que foi o Renascimento italiano?

Obs.: Quem quiser rever alguma aula, basta buscar no ÍNDICE GERAL por ÍNDICE – HISTÓRIA DA ARTE   onde se encontram todas as que já foram dadas.

Fontes de Pesquisa
A História da Arte/ E. H. Gombrich
Renascimento/ Nicholas Mann