Arquivo da categoria: Ditos Populares

A sabedoria popular está presente em todas as línguas, sendo expressa através de várias maneiras: provérbios, adágios, sentenças, aforismos, parêmias, apotegmas, anexins, rifões, ditos e ditados populares.

CONVERSA MOLE PARA BOI DORMIR

Autoria de LuDiasBH lixo123

Meu avô Joaquim Valentim não era um homem letrado, pois pouco ou quase nada conhecia das letras, mas era extremamente sábio. Além disso, era incapaz de fazer mal a uma mosca. Era a ele que um bando de netos, curiosos e inquietos, recorria para entender melhor o mundo, já que os adultos achavam que pergunta de criança não devia ser levada em conta, sempre nos pedindo para sossegar o facho.

De uma feita, nós que só vivíamos a rodear nosso avô, captamos uma conversa sua com o seu compadre João Galocha. Ainda que estivéssemos envolvidos com nossas bolhinhas de sabão saindo dos talos de mamona e não déssemos qualquer importância à prosa dos dois, ao ouvirmos a expressão conversa mole para boi dormir, entremeada no bate-papo, a nossa bisbilhotice ganhou vida, criando as mais mirabolantes suposições. O que se deveria falar para que o boi dormisse? Será que tal fala também serviria para que cavalos, cachorros e gatos caíssem no sono?

Mal a visita saiu, pois não podíamos nos intrometer em conversa de gente grande, sob pena de ganhar um bom castigo, rodeamos apressados nosso avô em busca de uma explicação que matasse a nossa curiosidade. Queríamos saber que conversa era aquela que fazia boi dormir. Ele pegou sua caneca azul esmaltada com seu cafezinho cheiroso, assentou-se calmamente em sua cadeira de descanso, esperou que todos nós nos acomodássemos ao seu redor e pôs-se a explicar-nos, com uma paciência de Jó, como se fora ele o mais dedicado dos mestres:

– Meus filhos, sempre existiu e sempre existirá neste mundo de meu Deus gente que fala muito, mas que não se apura nada de sua prosa. Gosta de contar vantagem ou vem com desculpas esfarrapadas, ou com um lero-lero de fazer doer a cabeça, querendo engabelar as pessoas, levar vantagem em tudo. Gente assim não é verdadeira, ao contrário, é muito perigosa, pois é capaz de dar nó até em pingo d’água.

Meu primo Nandinho, querendo mais explicações, perguntou em sua candura:

Vô Valentim, por que não pode ser conversa mole para cachorro dormir?

Por que o boi, meu bom menino, foi sempre um animal muito importante na vida do homem. Por isso, ele se encontra presente em muitos expressões populares: boi de piranha; boi de presépio; boi manso, quando aperreado, remete; boi na linha; água que boi não bebe; um pé de boi – ele calmamente respondeu.

Neiva, uma das netas presentes no grupo, antes mesmo que nosso avô terminasse de dar sua resposta ao último indagador, atalhou apressada:

Por que se diz “dou um boi para entrar numa briga e uma boiada para não sair”?

Nosso avô pressentiu que aquela seria uma longa conversa em se tratando de criaturinhas tão curiosas, ávidas por conhecer os mistérios da língua popular. Respirou fundo, pediu para que alguém lhe trouxesse mais um café e continuou…

 

EM PAPOS DE ARANHA

Autoria de LuDiasBH

aran

Vivemos tempos de vacas magras. Não é recomendável abaixar a guarda, pois tudo pode acontecer num piscar de olhos. Deparamos com situações que nos fazem sentir na boca do leão ou em papos de aranha. Se correr o bicho pega e se ficar o bicho come. Parece que vivemos em guerra aberta contra o mundo, num mato sem cachorro. Somos obrigados a tomar decisões desafiadoras a todo o momento, a não ser que viremos caramujos ou ajamos como avestruzes.  Os acontecimentos ruins caem sobre nós como um rolo compressor. A bruxa parece estar solta. É realmente o fim da picada. Ainda assim, não podemos abandonar a luta, faz-se necessário aguentar o rojão, pois do contrário a vaca vai pro brejo. Botemos todos a boca no trombone!

Segundo alguns filólogos (estudiosos da língua), no que diz respeito à expressão que dá título a este texto,  o correto seria dizer “palpos” em vez de “papos”, pois as aranhas são possuidoras de palpos e não de papos. Contudo, o povo tem a sabedoria de simplificar ou mudar a língua, de modo que ela se adapte ao seu falar, optando sempre pela forma mais simples e mais fácil. Assim, o “L” foi suprimido, caiu fora do baralho. A maioria dos autores aceitam as duas expressões como corretas. Resta aos puristas ficar a ver navios, pois assim é e assim será. O fato é que o povo brasileiro encontra-se tanto em palpos de aranha quanto em papos de aranha, comendo o pão que o diabo amassou, a começar pela inflação que corrói seu bolso.

FARINHA POUCA, MEU PIRÃO PRIMEIRO

Autoria de LuDiasBH

farinha

Conta-se que antigamente os bandeirantes em suas andanças pelo interior do Brasil, costumavam levar farinha de mandioca para complementar a comida. Era usada principalmente com feijão e no pirão de peixe.  E toda vez que tão importante produto ameaçava acabar, havia sempre os espertos que pensavam com seus botões: Farinha pouca, meu pirão primeiro, ditado que põe às claras o egoísmo do ser humano, principalmente nos tempos de hoje. Primeiro se preocupa em encher o próprio bucho e, se sobrar, dividirá com os outros. Um outro ditado estimula o anterior: “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte”. Gente que pensa desse modo é certamente imbuída de extremo egoísmo, farinha do mesmo saco.

O ditado Farinha pouca, meu pirão primeiro  perpetuou-se e ainda hoje é falado e posto em prática em várias regiões de nosso país. Os vivaldinos, que existem aos montes nas terras brasileiras, principalmente no seio da política em quaisquer que seja os níveis, pensam primeiro em si mesmos.  Se o quinhão deles estiver garantido, tudo está resolvido, ainda que o Brasil esteja a desmoronar. O resto é que se exploda.

MANTEIGA DERRETIDA

Autoria de LuDiasBH

manre

Existe coisa mais chata do que criança excessivamente mimada, que chora por qualquer coisa? As lágrimas já ficam ali, escondidinhas nos cantos dos olhos, prestes a desabar por uma coisinha de nada. Nem que a vaca tussa aceitam a palavra “não” e pensam que tudo e todos estão ao seu dispor. Os responsáveis não movem uma palha para corrigi-las. Esses anjinhos chorões, parecidos com purgantes, vão amargar um futuro desastroso no contato com o mundo real, enchendo as burras dos terapeutas.

A minha priminha Juju é uma manteiga derretida hors concours. Se cisma que alguém olhou para ela de um jeito meio enviesado, corre para os braços da mãe ou do pai, fazendo o maior berreiro, quando não quebra tudo que encontra pela frente. Até os coleguinhas vêm se afastando dela, cansados de sua denguice, pois afinal ninguém é de ferro para aguentar tanto chilique de uma pirralha mal-educada. Tudo mundo diz que a tal será educada pela vida, levando muita pancada.

Dias desses estava a chatomilda brincando com uma amiguinha, quando começou um berreiro de dar medo. Corremos para o quarto da pequena rainha, pensando que algum armário tivesse desabado sobre ela. A cena era patética. A bruxinha estava deitada no chão, batendo pernas e braços, enquanto a amiguinha, encolhida num cantinho do quarto, trazia o rosto molhado por lágrimas silenciosas. A mãe, com cara de quem comeu e não gostou, tomou a birrenta no colo, querendo saber o que lhe acontecera. Entre berros ela se explicou:

– Eu não quero brincar com a minha boneca, quero a dela, e ela não quer me dar!

Imaginei que fosse uma boa hora para que a genitora ensinasse à filha alguns limites, de modo a respeitar as coisas dos outros. Mas não! Para agradar a chorona, disse-lhe:

– Não chore mais, filha, pois a mamãe vai lhe dar uma boneca igualzinha à dela.

A amiguinha foi embora envergonhada, sem receber uma palavra de atenção da mãe da pirracenta. Indignada, meti a colher no angu, ao abrir o bico:

– Cuidado prima, a gente cria filhos para o mundo e não para nós.

Ao que ela prontamente me respondeu:

– Ela é muito pequena ainda, vai chegar o seu tempo de aprender.

Dias desses fiquei sabendo que a manteiga derretida deu o maior show no aniversário de uma de suas coleguinhas. Queria desesperadamente um pedaço do bolo da aniversariante, antes da hora, sem esperar pelos parabéns. Não sendo atendida, puxou a toalha da mesa, espatifando tudo no chão. Envergonhados, os pais não sabiam onde enfiar a cara, com mil e um pedidos de desculpas. Bem feito! Quem planta urtiga jamais colherá miosótis, diz um dito popular, pois é de pequenino que se torce o pepino!

Já ia me esquecendo de falar sobre a expressão “manteiga derretida”, uai. Trata-se de uma alusão ao chiado da manteiga, quando é levada ao fogo.

A CASA DA MÃE JOANA

Autoria de LuDiasBHcajon

Joana I, rainha de Nápoles e condessa de Provença, era uma mulher bonita e muito inteligente, sendo sua residência aberta aos intelectuais e artistas da época. Segundo algumas fontes, enquanto reinava na cidade francesa de Avignon, a poderosa e permissiva mulher regulamentou os bordéis da cidade, ordenando que todos teriam uma porta através da qual os interessados adentrariam, ou seja, o local estava aberto a qualquer um que ali quisesse entrar em busca das paixões da carne. Talvez seja por isso que em seu reinado tenha havido tantas colisões com a Igreja Católica da época. Uma das normas de regulamentação dizia:

“O lugar terá uma porta por onde todos possam entrar.”

Quando a expressão de origem francesa ganhou as terras portuguesas, passou a significar “o paço da mãe Joana”, ou seja, “prostíbulo”. Ao atravessar o Atlântico, vindo para as bandas de cá, a palavra “paço”, pouco conhecida de nós brasileiros, foi imediatamente substituída por “casa”. Atualmente a expressão “a casa da mãe Joana” passou a significar “um lugar onde todo mundo entra e sai, local em que todos mandam e cada um faz o que quer”,  conhecida também como “casa da sogra”.

Fontes de pesquisa
Casa da Mãe Joana/ Reinaldo Pimenta
Dicionário de expressões populares/ João Gomes da Silva

A EMENDA FOI PIOR QUE O SONETO

Autoria de LuDiasBH

bocage

Nós humanos — excetuando os santos, se os há — já perdemos as rédeas do bom senso, ignorando a sabedoria popular que reza que “o melhor caminho é o do meio”, ou seja, o do equilíbrio. Muitas vezes acabamos falando mais do que devíamos, ou cometemos uma ação impensada, vindo depois aquele peso na consciência. Sentimos que é preciso consertar o malfeito. Contudo, é preciso muito cuidado no agir, pois uma emenda esfarrapada deixa-nos numa posição ainda pior, pois, como dizia Sá Jovena “a merda, quanto mais se mexe nela, mais fede”.

A expressão “A emenda saiu pior do que o soneto” nasceu, contam alguns, quando o poeta português Manuel Maria Barbosa de Bocage recebeu um soneto de um jovem que lhe pediu que marcasse seus erros com cruzes. Contudo, havia tantas incorreções na escrita do mancebo que o poeta, depois de ler o soneto, devolveu-o tal e qual o recebera, ou seja, sem nenhuma cruzinha a enfeitar-lhe a página. Incrédulo, imaginando-se o suprassumo da última flor do Lácio, o moço questionou o velho poeta sobre o porquê, pois queria ser incensado com suas palavras. Como não se deve cutucar a fera com vara curta,  não tardou  a receber a justificativa de que as cruzes seriam tantas, se ali postadas, que “a emenda ficaria pior do que o soneto”.

Manuel Maria Barbosa de Bocage era um exímio sonetista e fazia-os como ninguém, o que o tornou muito popular, principalmente quando usava sua veia satírica e espirituosa, daí a sua exigência para com o soneto do frustrado lusitano. O fato é que a expressão “a emenda ficaria pior do que o soneto” viajou no tempo, caiu na boca do mundo, chegando aos dias de hoje com força total. Chama-nos a atenção para o fato de que muitas vezes é preciso não tentar remediar certas situações, pois o remendo pode acabar ficando ainda pior, uma vez que a desculpa esfarrapada só faz piorar a situação. O melhor mesmo é tomar coragem e munir-se de um pedido sincero de desculpas.