Arquivo da categoria: Crônicas

Abrangem os mais diversos assuntos.

O GOLPE DO “PARMITO”

Autoria de Reinaldo Azevedo*

Quanto mais o presidente Jair Bolsonaro grita, mais revela a sua incapacidade de realizar aquilo com que nos ameaça: desfechar um golpe de estado. É claro que seu comportamento nesta quinta (27/05/2020) foi execrável. Em que democracia do mundo o chefe do Poder Executivo, seja exercido por um presidente, seja por um primeiro-ministro, se refere ao Poder Judiciário naqueles termos? Não existe. Faz mal ao país. Cria tensões internas e prejudica sua imagem no mundo, o que afasta investimentos. Golpe? Não! Não haverá.

Mas especulemos sobre tal cenário para dar relevo à sandice. Então vamos lá: os senhores oficiais-generais botam seus tanques na rua, seus aviões nos ares e decretam um bloqueio marítimo. Soldados invadem emissoras de televisão e rádio e as redações de jornais e portais. Blindados cercam o Congresso Nacional e o Supremo, e ordens de prisão são expedidas para os 11 ministros do tribunal e os presidentes das respectivas Casas Legislativas (Câmara e Senado).

Nos Estados, suponho, os respectivos comandantes das Polícias Militares, aderindo ao golpe com suas tropas, teriam de dar voz de prisão, numa primeira conta, a pelo menos 18 governadores. Enquanto isso, o general Eduardo Pazuello, ministro da Saúde, num esforço de guerra — ou de golpe — converteria o setor metalúrgico à produção de contêineres frigoríficos para juntar os cadáveres da Covid-19 com os da resistência à quartelada. O Zero Um, o Zero Dois e Zero Três se dedicariam a redigir os atos institucionais.

O que diria o mundo? Bem, de imediato, o Brasil seria expulso do Mercosul, com a Argentina fechando as suas fronteiras, cessaria todo o comércio com a União Europeia, e Donald Trump pouco poderia fazer pelo “Capitão” porque teria de enfrentar o Congresso dos EUA. O Brasil seria uma ilha de coronavírus cercada de generais por todos os lados, a bater continência para um capitão golpista. O dólar escalaria o Everest, as empresas com ação em Bolsa iriam para o vinagre e as elites empresarial e financeira que hoje toleram Bolsonaro lhe dariam um pé no traseiro. Quantos dias — não meses — duraria a aventura? Poucos. Terminariam todos na cadeia.

Sem contar que o Exército, na hipótese de topar a quartelada, teria de dar um golpe também na Aeronáutica e na Marinha, que estão voando e navegando para Bolsonaro. Há, sim, radicais e porras-loucas entre os militares, como há entre civis, mas essa é uma conversa de insanos. Quando o general Fernando Azevedo e Silva, ministro da Defesa, simula a ordem unida com os desvarios do capitão, dá a ele a ilusão de que um golpe seria possível, o que o leva a radicalizar o discurso.

Digo, e muitos não gostarão de ler, que o golpe seria o caminho mais curto para Bolsonaro ser espirrado do poder. Só não é desejável porque pessoas morreriam, ficaríamos ainda mais pobres e levaríamos algumas décadas para nos levantar do opróbrio internacional. Agora vamos ao Bolsonaro às portas do Alvorada:

“Acabou, porra! Me desculpem o desabafo. Acabou! Não dá para admitir mais atitudes de certas pessoas individuais, tomando de forma quase que pessoal certas ações.”

Estava se referindo, claro, ao Poder Judiciário, como se, a partir de agora, o Supremo não mais tivesse autonomia para tomar decisões.

Qual é a verdade? Todas as vezes em que ele tentou ultrapassar a linha da legalidade, é bom que fique claro, foi, sim, tolhido pelo tribunal. Daí o seu rancor. Quanto vale o seu “acabou, porra”? Uma nota de R$ 3. Os ministros podem, se quiserem, endurecer ainda mais o jogo? Podem. Por que não o fazem? Porque gera tensão interna que reflete nos indicadores da economia e podem tornar ainda mais ineficiente um governo já sofrível, o que faz ainda mais difícil a vida dos pobres.

O faniquito de Bolsonaro é o faniquito da impotência.

*Colunista do UOL

COVID-19 E O JEITO DE SER MINEIRO

Autoria de Dr. Carlos Starling*

Onde estamos na epidemia? Esta é a pergunta que amigos, familiares e jornalistas me fazem todos os dias. Num misto de exaustão pelo isolamento social e esperança pela volta da “normalidade”, todos sem exceção, se sentem gratos pelos resultados até aqui alcançados. Nossos indicadores mostram estabilidade em níveis que ainda não pressionam os limites dos serviços públicos e privados. O número de mortes está abaixo do inicialmente projetado pelos cenários mais otimistas. Entretanto, vivemos um frágil equilíbrio entre a racionalidade e o desespero.

O sucesso das medidas em curso coloca em xeque as próprias medidas. Se temos tudo controlado, por que não liberamos geral e voltamos para nossas vidas como se nada tivesse acontecido? Como se tivéssemos vivido um grande equívoco, mas valeram as férias forçadas. Não é bem assim!

A epidemia de COVID-19 terá ondas recorrentes em nosso país. Não somos a França, Itália ou Alemanha. Somos quase um continente. A epidemia por aqui, como dissemos em colunas anteriores, ocorrerá em distintas fases com ondas de idas e vindas em classes sociais e regiões. Se não tivermos uma vacina eficaz, segundo estudos de pesquisadores da Universidade de Harvard, a epidemia persistirá em surtos até 2024.

Se hoje temos sucesso, não podemos contar vitória antes da hora. O vírus circula em níveis contidos pela disciplina e pelo jeito mineiro de ser. Nós, mineiros, temos em nosso gene mineral a sabedoria de quem sabe esperar. Escutar mais e falar menos. Como dizia Benedito Valadares “estou rouco de tanto ouvir”. Assim somos, prudentes e amantes da nossa essência que preserva o que há de mais valioso: nossas vidas e as de quem amamos. Minas é saborosamente mágica, como catalogou Frei Betto, em suas inúmeras definições do que é ser mineiro.

Na epidemia de 1918 não foi diferente. A nossa disciplina e prudência impediu que a doença por aqui tivesse os catastróficos números do Rio e São Paulo. O cumprimento das medidas de isolamento social foram a chave naquela época e no presente. Porém, a pressão para que haja uma liberação a qualquer custo das medidas que preservaram a vida de milhares aumenta dia após dia. Por vezes, querem saber quando será o pico! Mas, quem disse que teremos que ter um pico além do Itacolomi?!

Percebo que há uma angústia por chegarmos ao pico da epidemia, como se, assim, a normalidade estivesse logo ali na esquina. Lembra-me a dor de tirar um esparadrapo, pois quanto mais rápido o puxamos menor o tempo do sofrimento. O pico de uma epidemia é também o momento de muita dor para milhares de famílias.

Somos gente que não nasceu destinada à tristeza e ao sofrimento. Nossa obrigação é buscar a felicidade e a alegria. Desta forma, nosso desafio é não termos pico algum. Lutaremos para que a curva se mantenha a mais achatada possível. Assim, estaremos cada vez mais próximos de um tratamento efetivo, de uma vacina e da circulação de vírus menos agressivo. Isso porque a sábia natureza configurou os parasitas com a sabedoria de não destruir todos os seus hospedeiros. Se assim ocorresse, seria a morte do próprio parasita e sua extinção.

Na epidemia atual existem coronas vírus distintos em circulação. Os mais agressivos, felizmente, são a minoria. Com o tempo, circularão as cepas menos agressivas, que permanecerão por tempo indefinido. Não queremos picos e nem encher covas, apesar de as termos aberto por prudência mineira. Como diz o ditado, “o bom mineiro não laça boi com embira, não dá rasteira em pé de vento, não pisa no escuro, não anda no molhado, só acredita em fumaça quando vê fogo, não estica conversas com estranhos, só arrisca quando tem certeza, e não troca um pássaro na mão por dois voando”.

Assim, vamos seguindo vivos e com a esperança de que vai passar. Porque vai passar, mas enquanto isto, fiquemos em casa com a paciência e prudência que Deus nos deu.

*médico infectologista, coordenador do combate ao Covid-19 no estado mineiro e colunista do Jornal Estado de Minas.

Fonte da matéria: Jornal Estado de Minas
Ilustração: Interior de Pobres II, autoria de Laser Segall

COVID-19: EM TEMPOS DE ISOLAMENTO SOCIAL

Hernando D. Martins

Help Brazil, please! (Tedros Adhanom, diretor da OMS)

Nada tem significado que não seja uma defesa intransigente da vida, do SUS e da ciência. Fiquem nos três pilares. Esses pilares alimentam a verdade. A ciência é a luz. Através dela é que nós vamos sair”.(Luiz Henrique Mandetta)

Como cidadão responsável pela própria vida e pela das pessoas próximas, atendi ao apelo do Ministério da Saúde que, seguindo as orientações da OMS (Organização Mundial de Saúde), pediu que a população cumprisse o isolamento social, a fim de coibir a proliferação do Covid-19. Como dentista autônomo, tinha a certeza de que iria zerar meus ganhos, mas a vida é um bem muito maior do qualquer outra coisa. Sem ela não há economia que sobreviva. Por isso, limitei-me apenas a atender somente casos emergenciais e urgentes, seguindo rigorosamente a orientação do Conselho Regional de Odontologia de meu Estado, antes de efetuar o tratamento.

Vivendo o isolamento, aproveito para cuidar da minha casa, de minhas coisas e do meu pequeno quintal, onde plantei coentro, cebolinha, repolho e outras folhagens, aliadas a algumas árvores frutíferas já existentes e plantas como camarão, alimento muito apreciado pelos beija-flores. Tenho aprendido a fazer pratos simples, mas deliciosos e entrado em contato, via celular ou e-mails, com amigos dos quais há muitos anos não tenho notícias. Também estou pintando e arrumando meu velho porão, onde estão guardados pedaços de minha vida em família, artefatos deixados por meus pais e família. Além de tudo isto, tenho posto a leitura de livros parados num canto da minha estante em dia

Posso afirmar que há muito tempo não sabia o que era tomar um banho de sol de manhã em razão do meu trabalho. Deitado na minha rede com Dolly, a minha dócil cadela aos pés, assisto ao revoar gracioso de pássaros, sobretudo beija-flores, pelas plantas. À noite dedico a mesma atenção às estrelas e à lua. Até mesmo recuperei uma velha luneta dos meus tempos de estudante, quando acampava na Serra do Curral. Como um astrônomo, viajo horas a fio pelo céu estrelado, mas sempre com muito cuidado, evitando os meteoros e os buracos negros. Quando a noite é chuvosa, ela não se torna menos bela. Assento-me na varanda de onde acompanho os pingos grossos batendo no vidro das janelas e o barulho que lhes é peculiar. É o instante que aproveito para me lembrar de meus entes queridos que aqui estiveram junto comigo, mas que já se foram. Lembro-me também dos muitos animaizinhos de estimação que cumpriram sua temporada na Terra e que enriqueceram minha vida.

Dias desses, quando uma chuvinha insistente tomou conta do dia, resvalando-se para a noite inteira, embalei-me num sono profundo, propício ao desenrolar dos bons sonhos. Ela limpou todas as preocupações da minha mente, abrindo espaço para que somente coisas boas aflorassem. Eu, então, sonhei que me encontrava num mundo como o cantado por John Lennon em “Imagine”. Não era necessário falar em paraíso ou inferno, tamanha era a bondade a circular pelos quatro cantos da Terra. Todas as pessoas viviam apenas o agora, cheias de benignidade e banhadas pela alegria. Não havia países, pois todas as fronteiras caíram por terra. Não havia raças, pois toda a humanidade era igual. Não se falava em morte e tampouco em religião. Tudo era bom e pacífico. A fome havia se evacuado da Terra, pois todos os bens eram repartidos, uma vez que a ganância não mais imperava. O que havia era uma irmandade. Tudo era único. Tudo era uno.

Ao acordar e tomar ciência das primeiras notícias, vi que tudo não passava de um sonho. Eu era só um sonhador. Apenas isso!

Vi que a Covid-19 continuava ceifando vidas, enquanto jornais em todo o mundo dizem que Jair Bolsonaro, presidente brasileiro, encontra-se entre os “piores negacionistas do planeta” no que diz respeito ao vírus fatal. Vi esse mesmo presidente, por mera vaidade pessoal, demitir o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, tido por 76% da população como excelente no combate à doença, passando o cargo para Nelson Teich que diz: “Na Saúde, o dinheiro é limitado e escolhas são inevitáveis”, ou seja, será preciso escolher os idosos para morrer e salvar os jovens. Vi o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, assegurar que “Mais importante é que a indústria continue produzindo e vendendo. Ainda que isso cause o colapso de hospitais e do sistema de saúde pública, forçando médicos e escolher quem atender e quem deixar morrer, é um preço razoável a pagar em nome do lucro”. Vi o ministro da Educação, Abraham Weintraub, ironizar, dizendo “Não tá (sic) aparecendo a pilha de mortos que tinham falado que iria aparecer”, mesmo após centenas de vidas serem dissipadas pelo Covid-19. Vi Jair Bolsanaro deixar patente para todo o Brasil que a economia é mais importante do que salvar vidas durante a pandemia. Vi muitos outros horrores…

BOMBA VIRÓTICA – ISOLAMENTO SOCIAL: RELAXAR OU NÃO

Autoria de Tereza Cruvinel

A politização deste assunto joga a favor do vírus. Se não aprendermos com o que aconteceu em outros países, vamos repetir a tragédia da Itália. (Dimas Covas – Instituto Butantã)

Se aqui não comprometemos ainda 50% da capacidade hospitalar foi exatamente porque tomamos medidas preventivas. Não vou jogar fora todo o esforço que já fizemos. Quem quiser que produza o aumento de mortes. Aqui no Distrito Federal eu quero os meus vivos. (Ibaneis Rocha Barros Júnior)

Nós temos um problema na infraestrutura do sistema de saúde. Na maioria dos municípios, temos uma sobrecarga nas enfermarias e UTIs. A média histórica de ocupação dos leitos de UTIs do Sistema Único de Saúde (SUS) é de 95%, e isso era antes do coronavírus. Agora, se nós temos esse cenário, como vamos afrouxar o isolamento social? Vamos evoluir rapidamente no contágio da Covid-19.  Os países que mantinham regras mais frouxas, como Japão e Suécia, estão radicalizando para conter a doença. Nós estamos indo na contramão. (epidemiologista Walter Ramalho)

É lamentável, é condenável, é perigosa a concessão de Mandetta a Bolsonaro no momento em que, segundo ele mesmo, podemos entrar na fase do momento da circulação descontrolada do vírus. (Tereza Cruvinel)

Com relação aos mais velhos, que cada família cuide dos seus idosos, não pode transferir isso para o Estado. (Jair Bolsonaro)

Na segunda-feira, dia em que o ministro Henrique Mandetta balançou, mas não caiu, o Ministério da Saúde divulgou boletim epidemiológico com parâmetros para o relaxamento do isolamento social: governadores de estados que não estivessem com 50% da capacidade hospitalar comprometida poderiam flexibilizar as medidas restritivas a partir do dia 13. Ontem o ministro e seus auxiliares voltaram a explicar a orientação, dizendo tratar-se apenas de “parâmetros”. Bolsonaro e Mandetta, por sinal, tiveram hoje uma conversa definida como “tranquila”. O incentivo ao relaxamento certamente agradou a Bolsonaro, mas autoridades sanitárias e governadores acharam a recomendação arriscadíssima, capaz de levar à explosão da bomba virótica.

O governador do Distrito Federal, por exemplo, disse que não vai adotar flexibilização nenhuma: “Se aqui não comprometemos ainda 50% da capacidade hospitalar foi exatamente porque tomamos medidas preventivas. Não vou jogar fora todo o esforço que já fizemos. Quem quiser que produza o aumento de mortes. Aqui no Distrito Federal eu quero os meus é vivos”.

Ibaneis diz que se os governadores forem esperar o estouro da capacidade hospitalar para impor restrições, haverá situações incontroláveis como a da Itália. No Brasil, Manaus é a capital que mais rapidamente está se aproximando do colapso do sistema. Logo lá, onde tudo tem que chegar por avião ou barca.

O Ministério criou agora duas categorias de quarentena: o Distancialmento Social Ampliado (DSA) e o Distancialmento Social Seletivo (DSS). No primeiro caso estariam as medidas que incluem fechamento de comércio e suspensão de todas as atividades não essenciais, com recomendação de que as pessoas fiquem em casa. O segundo, na prática, seria o tal “isolamento vertical” defendido por Bolsonaro, com outro nome: deveriam ficar isolados apenas os idosos com mais de 60 anos e as pessoas com doenças pré-existentes.

Por isso a inflexão do Ministério da Saúde não deixa de ser um aceno de Mandetta a Bolsonaro, mesmo mantendo o mantra “ciência, disciplina, planejamento e foco”. Mas exatamente da ciência estão vindo manifestações que reprovam qualquer forma de afrouxamento das restrições, num país onde, segundo a pesquisa do Datafolha, apenas 18% das pessoas dizem estar absolutamente isoladas, contra 54% que admitem estar circulando quando é necessário, e 24% que estão tocando a vida normalmente, tomando os devidos cuidados. Para 4%, nada mudou.  Ou seja, existem brechas largas para a circulação do vírus no Brasil.

O professor de epidemiologia da UnB, Walter Ramalho, diz que se houver afrouxamento vamos caminhar para a explosão da Covid19. Ele diz que em muitos Estados o sistema não ultrapassou 50% da capacidade hospitalar porque a doença não chegou completamente, não se aproximou do pico, mas que isso vai acontecer. “Nós temos um problema na infraestrutura do sistema de saúde. Na maioria dos municípios, temos uma sobrecarga nas enfermarias e UTIs. A média histórica de ocupação dos leitos de UTIs do Sistema Único de Saúde (SUS) é de 95%, e isso era antes do coronavírus. Agora, se nós temos esse cenário, como vamos afrouxar o isolamento social? Vamos evoluir rapidamente no contágio da Covid-19.  Os países que mantinham regras mais frouxas, como Japão e Suécia, estão radicalizando para conter a doença. Nós estamos indo na contramão”, alerta ele.

Dimas Covas, o diretor do Instituto Butantã que coordena o esforço pela maior oferta de testes em São Paulo, diz que a orientação do ministério não tem fundamento científico e é altamente arriscada. “A politização deste assunto joga a favor do vírus. Se não aprendermos com o que aconteceu em outros países, vamos repetir a tragédia da Itália.” Já a testagem em massa, como recomenda a OMS, não está sendo feito pela absoluta falta de testes até para pessoas com sintomas. Testes, e não afrouxamento, são necessários neste momento.

Ninguém pode deixar de enxergar um viés político nesta nova orientação do ministério da Saúde que busca dissimuladamente conciliar com a ojeriza de Bolsonaro ao isolamento. Em conversa na semana passada, o ministro ouviu do presidente: “Você quer matar as pessoas de fome”. Contra a fome, o governo também tem que agir, e não apenas com os R$ 600 em 3 parcelas.

Hoje, certamente, o ministro lhe falou das categorias novas de isolamento que sua pasta inventou, o DSA e o DSS, e isso deve ter contribuído para melhorar o clima da conversa. É lamentável, é condenável, é perigosa a concessão de Mandetta a Bolsonaro no momento em que, segundo ele mesmo, podemos entrar na fase do momento da circulação descontrolada do vírus. A bomba pode explodir, aumentando o número de brasileiros que vão morrer. Nesta quarta-feira já se foram 699 e estamos com 14 mil casos.

Outro sinal estranho do ministério foi dado na coletiva de ontem. Os auxiliares do ministro voltaram a dizer que a pasta não endossa o uso indiscriminado da cloroquina, como quer Bolsonaro, mas disseram que em março foi expedido um boletim dizendo que os médicos podem assumir a responsabilidade de aplicar o medicamento em casos muito graves. Isso não havia sido dito antes.

O COVID-19 NO BRASIL

Miguel Nicolelis

Para nós, aqui no Brasil, certamente vai ser um dos maiores desafios sanitários da história. A sociedade brasileira não se deu conta do que está vindo. O que nós vamos passar nos próximos meses aqui no Brasil vai entrar nos livros de história, e as pessoas ainda não se deram conta (Nicolelis)

Estamos vivendo erros idênticos aos que aconteceram em 1918 (gripe espanhola) no mundo, é impressionante como a história se repete como farsa. A pandemia de 18 só se transformou na loucura que foi porque os governos, principalmente o dos Estados Unidos, censuraram a existência da pandemia entre os soldados, e barcos e barcos lotados de soldados levaram uma cepa para a Europa, onde ela se misturou e surgiu uma cepa muito mais letal. (Nicolelis)

O médico neurocientista Miguel Nicolelis expôs à TV 247 os reais riscos do coronavírus-19 no Brasil. Para ele, a sociedade brasileira ainda não se deu conta do perigo da pandemia e do que está por vir e alertou que esta é uma crise sanitária sem precedentes.

“Para nós, aqui no Brasil, certamente vai ser um dos maiores desafios sanitários da história. A sociedade brasileira não se deu conta do que está vindo. O que nós vamos passar nos próximos meses aqui no Brasil vai entrar nos livros de história, e as pessoas ainda não se deram conta”, disse.

Nicolelis contou que um amigo cientista norte-americano afirmou que não há adjetivos exagerados para descrever a força do surto de Covid-19. O cientista criticou também a falta de uma posição clara do governo federal, chefiado por Jair Bolsonaro. 

“Quando você vê falta de uma mensagem coerente, objetiva e direta, a falta de um comando central, de uma comissão nacional que fale diretamente ao povo brasileiro e dê claras diretrizes da situação, com transparência, autoridade, confiança, credibilidade, então você claramente vê que nós somos o próximo capítulo desta tragédia. O choque que vamos receber é algo que nunca experimentamos, em termos de demanda do sistema de saúde, em termos dos profissionais de saúde sendo expostos e começarem a ficar doentes porque não existe material de proteção suficiente. Também temo profundamente que nós não estejamos preparados para dar contas das fatalidades”.

Miguel Nicolelis lembrou que todos os países que subestimaram a capacidade do coronavírus-19 estão hoje em uma situação muito difícil. “Todos os governos que não deram bola estão pagando um preço altíssimo neste momento. Primeiro na Europa: a Itália, onde o governo totalmente ignorou os riscos; a Inglaterra, onde o número de óbitos está explodindo nesse momento e a seguir os Estados Unidos, onde o presidente Trump ignorou claramente e expôs os Estados Unidos talvez à maior tragédia sanitária da história do país. O Brasil talvez seja o último país do mundo nesse momento que não se deu conta disso”.

“Estamos no meio de uma tempestade perfeita, que foi criada por uma visão econômica que não tem base nenhuma na realidade, é uma economia de modelos matemáticos que exclui o ser humano”, alertou.

Traçando um recorte histórico, o médico ressaltou que os erros que foram cometidos durante a pandemia de gripe espanhola, em 1918, estão sendo repetidos. “Estamos vivendo erros idênticos aos que aconteceram em 1918 no mundo, é impressionante como a história se repete como farsa. A pandemia de 18 só se transformou na loucura que foi porque os governos, principalmente o dos Estados Unidos, censuraram a existência da pandemia entre os soldados, e barcos e barcos lotados de soldados levaram uma cepa para a Europa, onde ela se misturou e surgiu uma cepa muito mais letal”.

Nicolelis previu que este ciclo de surgimento de casos de coronavírus-19 no Brasil terá uma segunda onda no inverno, quando as temperaturas são mais baixas e a elas serão somados os casos de endemias como chikungunya e dengue. 

O MUNDO NÃO VOLTARÁ A SER… (I)

 Átila Iamarino

Temos duas ferramentas que estavam em descrédito. É bom renovar a confiança. A imprensa, que vem sendo atacada, é de extrema importância, é confiável ter gente competente que apura informação. A outra é a ciência. Seja histórica, para reconstruir e construir cenários, ou para prever, como a biologia. (Átila Iamarino)

Em entrevista ao programa Roda Viva, o biólogo Átila Iamarino diz que a pandemia de covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus, deve mudar, para sempre, ciência, imprensa, política, trabalho e relacionamentos.

Gabriel Valery, RBA O atual cenário de pandemia de covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus restabelece a importância da ciência e da informação responsável como principais ferramentas para reduzir ao máximo os danos sociais e econômicos que ela causará. A conclusão é do biólogo e pós-doutor em microbiologia Átila Iamarino.

“O mundo não vai voltar a ser o que era (…) É uma situação preocupante. Existem pessoas querendo voltar ao que tinham antes. Temos um histórico mais recente de negação da ciência, dos fatos”, disse. Para o cientista, o cenário pede atenção absoluta da sociedade. Recentemente, Átila, que já trabalhava com divulgação científica, ganhou mais popularidade ao projetar 1 milhão de mortes no Brasil, caso nada fosse feito.

Tal número não veio de estudos do próprio especialista. A projeção foi feita pelo Imperial College London, instituição britânica que faz consultoria para desde a Organização Mundial da Saúde (OMS) a governos de todo o mundo. Tal estudo foi motivo, por exemplo, para uma mudança drástica de postura do primeiro-ministro da Inglaterra, Boris Johnson que inicialmente defendia que quarentenas em massa não seriam necessárias. O estudo, que se mostrou real após poucas semanas, fê-lo fechar seu país.

Em meio a um cenário distópico em que as maiores metrópoles do mundo estão com seus cidadãos confinados, Átila defendeu a reflexão sobre os erros do mundo antes da pandemia. E disse ser otimista sobre as mudanças que virão após tamanha crise. “Temos duas ferramentas que estavam em descrédito. É bom renovar a confiança. A imprensa, que vem sendo atacada, é de extrema importância, é confiável gente competente que apura informação. A outra é a ciência. Seja histórica, para reconstruir e construir cenários, ou para prever, como a biologia”, afirmou.