Autoria de Fátima Andrade
Sou casada há 6 anos e cheguei a perder minha personalidade e ainda procurar erros em mim, já que em tudo que acontece meu marido se refere a mim como culpada. Ele é bipolar tipo 1, a forma mais agressiva dessa doença que machuca muito quem está por perto de seu portador.
Ele faz uso de álcool, porém parou por um tempo. Agora, por qualquer motivo banal ou alheio, ele julga alguém culpado por ter voltado a beber. Passou por várias internações, inclusive numa delas nem a clínica o suportou, pois era uma instituição de reabilitação do álcool e das drogas. Alegaram não ter estrutura para ele, após um mês de internação. Claro que isso aconteceu em razão de sua arrogância, grosseria, etc.
Ele é um bom homem quando longe das crises, as quais têm se tornado cada vez mais frequentes. Não me traía, até mesmo porque pouca oportunidade eu lhe dava. Agressivo física e psicologicamente, quebrava as coisas e até mesmo me deu duas facadas na região da orelha. Nunca imaginei passar por isso. Fiz uma plástica e ele foi preso em flagrante, mas saiu em 5 dias através do advogado que eu mesma paguei para ele. Incrível, não é?
Ninguém acredita, mas na cadeia ele não sabia o porquê de estar lá. Nunca sabe nada sobre os atos que pratica após beber. Apaga tudo da mente. Apaga mesmo! E nesse período ele pode estar alegre, mas também pode ter comportamento infantil ou ficar agressivo verbalmente, o que acontece na maioria das vezes.
Nós passamos por várias separações e voltas, e a cada dia eu me sinto mais machucada e esgotada. O sentimento de culpa que eu carregava antes pelas ações dele, hoje não tenho mais. Aprendi a enxergar que é ele quem está doente e quer transpor as culpas de seus atos para mim, pois assim se mantém na zona de conforto da doença. Até chegar a esse entendimento eu me martirizei muito.
Eu o amo muito, sou grata a tudo de bom que me fez, mas atualmente suas qualidades são muito inferiores (ou se tornaram inferiores) aos seus defeitos. Deixei minha vida social por ele ser uma bomba relógio, porque implica com tudo e julga pessoas, principalmente as de minha família. Preferi me manter afastada para evitar comentários tão ofensivos. Até mesmo meus pais já falecidos, que nem conheceu, já chegou a xingar.
Ele é alguém que nem para quando come, ou seja, nem se senta. Fala alto quando em períodos de crise e não dorme durante dias. E eu fico com ele sempre acordada. Já tentou suicídio várias vezes e possui várias marcas no corpo que provocou a si mesmo. O pior é que sempre credita a culpa a mim ou a alguém próximo. Já sofri muito e ainda sofro. Nesse último final de semana, depois de beber e começar uma briga referindo-se ao passado — ele traz o passado sempre para o presente e usa a vida das pessoas como comparativos para a dele — mais uma vez foi embora.
Minha alma está tão doída, infeliz e maltratada e minha razão falando tão forte que eu me questiono a onde vou parar assim, deixando a razão de lado e agindo apenas com o coração e as emoções, sempre. Preciso muito de ajuda.
Estou sentindo que desta vez agirei com a razão somente na esperança de que minha vida mude. A esperança de um relacionamento de paz acabou. Tentei de todas as formas. Dei mais do que eu podia dar a ele que ainda diz que eu nunca fiz nada em seu benefício e que sou assim como todos que desejam prejudicá-lo. Esses “todos” que querem prejudicá-lo só existem na sua cabeça, dentro da ideia de perseguição que carrega, na sua paranoia.
Tomar remédios, sim, ele toma, mas do que adianta se mistura com álcool nas suas fases de oscilação? Ou toma doses indiscriminadas, conforme acha ser melhor, isso quando não altera as medicações prescritas. Ele é um ser sem controle, um avião sem piloto – sendo eu seu piloto automático, quando está estável. Desestabilizado, exclui e segue dono do percurso da rota por “saber” de tudo e ser “soberano” em tudo.
Tudo isso é muito difícil, minhas amigas. Pensem bem, se não forem casadas, ao se unir a alguém. Não é fácil, eu pensei que conseguiria modificar meu marido devido ao nosso amor e por eu ser da área da saúde, mas foi tudo uma grande ilusão.
Se você está iniciando uma jornada com alguém com essa doença crônica e progressiva (bipolaridade), pense bem antes da âncora puxá-la, pois para sair desse poço fundo é muito doloroso. Se eu soubesse o quanto seria traumático para mim, teria fugido e me escondido, não me deixando envolver, muito menos me permitido amar. Hoje realmente sei o quanto não tenho estrutura, ou a perdi nessa caminhada. Precisei perder o meu “eu” para acordar em relação a tudo isso.
Nota: a ilustração do texto, Garota na Janela (1893), é uma obra de Edvard Munch.
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