Domenico Ghirlandaio – ADORAÇÃO DOS MAGOS

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Autoria de LuDiasBH

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A pintura Adoração dos Magos é obra do pintor italiano Domenico Ghirlandaio (1449-1494), o principal pintor de afrescos do Renascimento, em Florença, sua cidade natal. Depois de estudar a arte da ourivesaria, ele se tornou aluno do pintor Alessio Baldovinetti. Seu trabalho recebeu influência da arte da Antiguidade e da holandesa, em especial da obra de Andrea de Castagno, Fra Lippi e Andrea del Verochio. Uma tridimensionalidade forte e contornos definidos fazem parte de seu estilo. Suas cenas, normalmente, possuem muitas figuras. O pintor Michelangelo foi aluno de sua oficina.

Muitos artistas tentaram inserir a temática sobre os Reis Magos em um formato redondo (tondo), como Fra Angélico, Domenico Veneziano e Botticelli. A tentativa de Dominico aconteceu no final de sua carreira. Em sua obra, as caracterizações de suas figuras são bem mais nítidas, podendo o observador acompanhar melhor a cena (ou cenas).

A Virgem Maria, entronizada numa espécie de pedestal clássico, com seu Menino no colo, recebe a visita dos Reis Magos e de uma comitiva que os acompanha. Ela traz na cabeça um véu translúcido e um halo. Sua cabeça está inclinada para frente, com os olhos voltados para o Menino. José, postado à sua direita, usa um manto azul e demonstra júbilo. Sua cabeça descansa na mão direita e o cajado na esquerda. Atrás de Maria há um grande espaço circular vazio. O Menino Jesus, envolto por um tecido transparente, na altura dos quadris, observa o Mago mais velho à sua frente, com a mãozinha direita em pose de bênção.

Em primeiro plano estão as coroas dos reis visitantes, assim como uma pedra branca, com a data da obra, sobre um relvado florido. Ao lado encontram-se um saco de aniagem e um frasco com água, lembrando a jornada de Maria e José, antes de o Menino Jesus nascer. Embora se encontre aqui a presença de um mouro negro, com vestes listradas e coloridas, colocando a coroa em um dos reis, não há a presença de um Mago negro. Os Magos são quase sempre representados como as fases da vida: juventude, maturidade e velhice.

O grupo da Virgem possui a forma piramidal, cujas bordas inferiores são compostas pelos dois magos ajoelhados. Um deles está voltado para o observador, como se o chamasse para ajuntar-se ao grupo. O próprio pintor retratou-se no grupo à direita, ajoelhado, próximo a uma figura de amarelo. Ele aponta para trás com o dedo, possivelmente para o doador da obra. Alguns personagens da classe média de Florença também estão aqui representados, usando, como disfarce, alguns detalhes orientais. Além dos visitantes ajoelhados, vê-se também um grupo de pé. Soldados, usando armaduras com capacetes e lanças, são vistos à direita e à esquerda, assim como inúmeros cavalos, inclusive no centro, onde também se encontram um boi, um jumento e duas ovelhas deitadas.

O pintor dividiu a história, em segundo plano, em episódios: os pastores nas rochas, à esquerda, em meio às suas ovelhas, recebem as boas novas através de um anjo, numa nuvem próxima; os cavaleiros na colina, à direita, cavalgando; o ancoradouro da baía, ao centro, lembrando Veneza. Ao fundo estão as ruínas de um edifício clássico, com sua arquitetura em arcos, sustentados por magníficas colunas. Uma cabana lembra a gruta onde se abrigou a Sagrada Família, acompanhada de um boi e um burro.

 Ficha técnica
Ano: 1487

Técnica: têmpera sobre madeira
Dimensões: 172 cm de diâmetro
Localização: Galleria deglu Uffizi, Florença, Itália

Fontes de pesquisa
A Enciclopédia dos Museus/ Mirador

1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann
http://www.wga.hu/html_m/g/ghirland/domenico/7panel/06tondo.html
https://it.wikipedia.org/wiki/Adorazione_dei_Magi_Tornabuoni

CASOS FAMOSOS DOS ANOS TRINTA

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Autoria do Prof. Rodolpho Caniato

O fato de morarmos num hotel frequentado por gente que vinha de outras regiões do Brasil e de outros países da Europa, além dos EEUU, fazia de nossa casa uma caixa de ressonância de fatos e histórias que circulavam pelo mundo. Meu pai, como gerente e intérprete, era quem recebia os principais clientes do hotel. O nosso principal hóspede, Mister Joseph, uma vez por ano passava alguns dias nos EEUU, mas preferia morar no Rio de Janeiro, no “nosso” Atalaia. O casal dinamarquês Fösker também voltava sempre da Europa. Meu pai, além de ler os jornais, estava sempre em contato com pessoas que traziam novidades do mundo. Era inevitável que conversasse em casa sobre os assuntos palpitantes.

Sacco e Vanzetti haviam sido executados na cadeira elétrica em 1927, depois de um longo, complicado e polêmico julgamento que ficaria na história. Tratava-se de dois imigrantes italianos que eram, como muitos outros que vieram para o Brasil, anarquistas. Além de tomados como subversivos, foram acusados de um assalto com uma morte em que foi roubado todo o dinheiro do pagamento dos funcionários de uma fábrica de calçados em Massachussets. Depois de muitos anos de julgamento e apelações, ambos foram executados na cadeira elétrica. Como não havia tido flagrante do assassinato, sempre permaneceu a dúvida sobre sua culpabilidade de morte, ou, se o processo não havia sido “contaminado” por um sentimento contra imigrantes “subversivos”, que tomavam o lugar dos operários americanos, e por uma espécie de “caça às bruxas” contra anarquistas.

Outro rumoroso caso discutido em todo o mundo nos anos trinta foi o Lindbergh-Hauptman.   Charles Lindbergh era um herói nacional nos EEUU. Havia feito sozinho a primeira travessia solitária do Atlântico, dos EEUU para Paris, num avião monomotor, o “Spirit of St. Louis”. Era o maior herói americano da época, uma figura de prestígio mundial. Em 1932, um filho seu de menos de dois anos foi raptado e morto. Não houve testemunhas oculares nem provas cabais. Havia, no entanto, fortes indícios ou provas indiretas que recaíram sobre um carpinteiro alemão imigrante: Bruno Richard Hauptman.  Durante quatro anos o processo contra Hauptman foi discutido não só na justiça americana como no mundo todo. Por fim, o veredicto foi de pena capital na cadeira elétrica. Em abril de 1936 Hauptman foi executado, protestando inocência até o fim. A repercussão se estendeu a todo o mundo. Também no Rio ela se fez sentir pela difusão do medo e restrições das mães em deixar as crianças livres para brincar pelas ruas.

Em meados de 1935 faleceu Alfred Dreyfus, um ex-oficial de artilharia do exército francês. Talvez nenhum outro caso na história moderna do mundo tenha agitado tanto a opinião pública quanto esse. Foi esse o tema que celebrizou Émile Zola com seu “J´accuse” (Eu acuso) e a provável causa de sua morte trágica e misteriosa. Embora o caso tenha tido seu início nos últimos anos do século XIX, as questões que ele levantou com as marchas e contramarchas de um processo complicado, provocaram movimentos apaixonados e consequências graves em várias partes do mundo. Um manuscrito encontrado numa cesta de papéis, e levado às autoridades do exército francês, indicava a existência de um oficial de alta patente e traidor. As suspeitas caíram sobre Dreyfus, o único alto oficial de origem judia.   Instalou-se uma corte marcial e Dreyfus foi condenado à prisão perpétua na Ilha do Diabo, na Guiana Francesa, bem perto do Brasil.

Dreyfus foi submetido à cerimônia de degradação, sendo-lhe arrancadas as insígnias de oficial e quebrada sua espada. O fato de ele ser judeu e a inconsistência da acusação levantaram as suspeitas de uma perseguição contra os judeus na França que, junto com boa parte da Europa, ainda vivia a tensão entre monarquistas e republicanos. A França estava dividida entre opositores e favoráveis a Dreyfus. Muitas empresas de judeus foram depredadas. Foi nesse clima de grande polarização política que Émile Zola publicou seu artigo “J´accuse”, pondo em evidência que se tratava de uma farsa montada e destinada a incriminar Dreyfus, pelo fato de ser judeu.

Zola, condenado à prisão e pagamento de multa, teve que se refugiar na Inglaterra. Outra vez a polarização levantou protestos e graves episódios em várias partes do mundo. Por fim descobriu-se que um oficial francês havia escrito o papel incriminador, visando eliminar da alta oficialidade francesa um judeu. Quando faleceu, em 1935, Dreyfus havia sido reabilitado, sem que nunca tivesse reivindicado reparos pelos grandes danos que havia sofrido.  Seu caso havia contribuído para que se compreenda até onde podem ir a xenofobia e o racismo. Foi uma das coisas de que muito ouvi em minha infância. Meu pai era especialmente interessado em questões envolvendo os grandes processos jurídicos.

Nos anos trinta, outro assunto de que muito ouvi falar foi das greves de fome do grande líder indiano Ghandi. Falava-se de um homem franzino, coberto apenas com uns panos brancos e que estava pondo em cheque a autoridade Real Britânica sobre a Índia. Esse líder tão frágil e desarmado estava mobilizando seu país para a independência e sem o uso de armas, sem nenhuma violência, mesmo verbal.  Sua pregação contava, segundo ele mesmo dizia, com a força da Verdade. Ele se tornara internacionalmente conhecido pela sua militância na defesa de seus compatriotas indianos, na África do Sul, também vítimas do  “apartheid”.  Esse meu ouvir falar de Ghandi, desde minha infância, deixou um germe de curiosidade e fez que, muitos anos mais tarde, eu voltasse a procurar saber mais  sobre  a  vida  de um dos grandes homens do século XX.

Renoir – MENINA COM REGADOR

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Autoria de LuDiasBH

A extraordinária composição intitulada Menina com Regador é uma obra-prima do pintor impressionista francês Pierre Auguste Renoir, que pintou inúmeros e maravilhosos retratos de crianças. Este é um dos primeiros retratos do artista. Trata-se de um trabalho modesto em seu objetivo, sem falar na singeleza do cenário e da composição, se levarmos em conta outras de suas obras, mas que encantou e continua maravilhando pessoas em todo o mundo.

Uma doce menininha de cabelos dourados e enfeitados com um laço de fita vermelho está parada no caminho de um jardim. Seus olhos azuis parecem emitir faíscas. Suas bochechas são rosadas e a boca carmesim mostra um delicado sorriso. Ela usa um vestido azul, que parece aveludado, todo enfeitado com rendas brancas, fechado com enormes botões. Calça botinhas pretas, adornadas com metais, e meias rendadas. Na mão direita traz um regador verde, preso pela alça, e na esquerda um galho de flores brancas e amarelas.

A garotinha, que ocupa a parte central da tela, tem à sua direita um canteiro de flores e às costas um segundo canteiro, ambos separados por um gramado verde. As flores vermelhas às suas costas têm o mesmo tom de seu laço de fita.

A pintura emana pureza e alegria. As cores cintilantes, que refletem a beleza da paleta impressionista, são banhadas por uma luz morna que parece filtrada por uma suave névoa. O uso das cores nas composições figurativas do artista apresenta mais regularidade nas pinceladas do que em suas paisagens. Esta menininha, por exemplo, é pintada com pinceladas delicadas, principalmente em seu delicado rosto.

Ficha técnica
Ano: c. 1876

Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 100 x 73 cm
Localização: Galeria Nacional de Art, Washington, EUA

Fontes de pesquisa:
Enciclopédia dos Museus/ Mirador

https://www.nga.gov/content/ngaweb/Collection/art-object-page.46681.html
http://www.aaronartprints.org/renoir-agirlwithawateringcan.php

CONHEÇA A SÍNDROME DO BOLSO VAZIO

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Autoria do Dr. Telmo Diniz

Em tempos de alta inadimplência, crise por todo o país e grande dificuldade das pessoas em honrar suas finanças, é importante esclarecer que nossa saúde financeira está diretamente ligada com nossa saúde física e mental. Em outras palavras, caso você esteja com dívidas e nome negativado, sua saúde certamente estará pior do que a de alguém com as finanças em dia. O que podemos fazer para acertar os ponteiros da saúde com os ponteiros das contas a pagar, e não ser infectado pela Síndrome do Bolso Vazio (SBV)?

O número de pessoas inadimplentes apresentou um crescimento expressivo no primeiro trimestre deste ano. No final de março, já chegava a 60 milhões de consumidores brasileiros nas listas de devedores. Os dados são do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL)  mostram que, em termos percentuais, 40% da população adulta, entre 18 e 95 anos, está com o nome sujo.

Uma pesquisa publicada no periódico “Social Science and Medicine” mostra o impacto na saúde das pessoas endividadas. São vários os problemas clínicos decorrentes da SBV. O primeiro da lista tem o estresse como principal culpado. Para exemplificar: o telefone toca e trata-se de um credor questionando sobre o pagamento de uma dívida. Oh! De repente, você se lembra que está devendo alguém. Essa lembrança gera ansiedade, que é interpretada pelo cérebro como uma ameaça, e que aciona as glândulas suprarrenais que, por sua vez, produzem cortisol e adrenalina, hormônios associados ao estresse. Esses hormônios despejados na corrente sanguínea desencadeiam diversas alterações importantes no organismo, processo que, se repetido com frequência, passa a provocar graves problemas de saúde, como úlceras gástricas, compulsão alimentar com ganho de peso, insônia, elevação da pressão arterial, etc.

A persistência do estresse pode levar à depressão. Não é difícil compreender o efeito que as dívidas podem ter no indivíduo depressivo. A angústia das cobranças, a ansiedade de não achar uma saída para o problema associada ao desarranjo financeiro, afetam o humor, tiram a motivação, geram medo, insegurança e aumentam o pessimismo. Tais mudanças são um convite para a depressão. Dando prosseguimento aos sintomas da SBV, vem o pior. São os problemas de relacionamento. Retirar da esposa e filhos o que já estão acostumados a ter é uma aflição. Começam a ocorrer ofensas mútuas. Um passa a culpar o outro pela situação. A cumplicidade fica fragmentada e caminha para o “fundo do poço”.

Para agravar a situação, a queda na produtividade e concentração no trabalho vira uma rotina. Funcionários que enfrentam problemas financeiros utilizam tempo de trabalho para cuidar de questões pessoais. Segundo pesquisa feita nos EUA pela PricewaterhouseCoopers em 2012, 97% dos funcionários utilizam horas de trabalho para cuidar de questões financeiras pessoais, sendo que 22% despendem pelo menos cinco horas por semana. Para tratar a síndrome do bolso vazio, só tem dois remédios no mercado: ou saber fazer economia ou ganhar mais.

Chardin – O CASTELO DE CARTAS

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Autoria de LuDiasBH

A composição intutulada O Castelo de Cartas, também conhecida como A Casa de Cartas, é uma obra do pintor francês Jean-Baptiste-Siméon Chardin que, usando temas realistas da vida cotidiana, tão a gosto do estilo rococó, apresentava coisas simples, mas graciosas, sem apelar para os assuntos galantes e frívolos. Antes de introduzir a figura humana em seu trabalho, o artista era conhecido por suas naturezas-mortas. Ele pintou quatro versões com tal temática, sendo esta a última delas. A caracterização física e psicológica do menino lembra-nos as conhecidas pinturas de Paul Cézanne, intituladas “Jogadores de Cartas”.

A cena em questão, uma pintura de gênero, é tranquila e de grande intensidade poética. Um garoto de bochechas rosadas, sentado de perfil, encontra-se diante de uma mesa de madeira, com os olhos voltados para baixo, colocando cartas de baralho em pé, depois de dobrá-las ao meio. Ele se mostra absorto e calmo. Apesar de próximo, não tem nenhum contato com o observador, como se não quisesse ser interrompido em seu jogo ou brincadeira. Já colocou nove cartas de pé, trazendo na mão esquerda outas três já dobradas. Está vestido de acordo com sua época.

A mesa de fundo verde traz uma gaveta semiaberta, com puxador em formato de bola na ponta, onde se vê um valete de copas e outra carta desconhecida, pois se encontra de costas para o observador. Sobre a mesa são vistas três moedas e dois outros objetos indecifráveis. A assinatura caprichosa do pintor encontra-se no corpo da mesa, à esquerda.

Ficha técnica
Ano: c.1735

Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 82 x 66 cm
Localização: Galeria Nacional de Art, Washington, EUA

Fontes de pesquisa:
Enciclopédia dos Museus/ Mirador

1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann
http://www.wga.hu/html_m/c/chardin/1/09h_card.html

VIDEIRAS E A GUERRA CIVIL ESPANHOLA

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Autoria do Prof. Rodolpho Caniato

Nossas quadras de videiras, como em quase toda a região, eram das variedades “barbera” e “izabel”, que produziam uvas de menor valor no mercado. A quadra de uvas “niagara” branca, a mais valorizada era de videiras muito velhas e pouco produtivas.  Era preciso renovar e ampliar nossa produção. Os “cavalos” ou porta-enxertos já haviam sido plantados. Agora, um ano depois, era preciso fazer a enxertia de todo o talhão.

O “cavalo” ou porta-enxerto é feito de uma videira selvagem que não produz frutos, mas que tem um sistema radicular mais forte e eficiente como também é mais resistente a pragas. Depois de um ano, quando atinge aproximadamente a espessura de um dedo adulto, essa videira “brava” é cortada dez centímetros acima do solo, e aplica-lhe uma ou duas cunhas feitas com galhos ou “bacelos” da uva que se deseja produzir. Embora a ideia seja simples, há alguns aspectos que são delicados e podem comprometer o êxito do enxerto. As duas cunhas devem ter uma perfeita concordância ou ajuste no tronco cortado e rachado.

Nessa época, fim da década de trinta, estava ocorrendo uma mutação genética da uva “niagara” branca. Apareceram, espontaneamente em alguns lugares, galhos que produziam uma uva semelhante em todas as propriedades da niagara branca, mas diferente na cor: aparecia a uva  “niagara”   rosada.  Já no ano seguinte se dispunha de muitos “bacelos” (fragmentos de ramos produtivos) para serem enxertados da nova variedade. Eu e meu pai fizemos uma longa viagem de carroça para trazer galhos para a enxertia da nova variedade em nossas videiras. Agora era preciso enxertá-los sem perda de tempo. Era preciso enxertar milhares de videiras em poucos dias.

Meu pai contratou vários enxertadores entre os vizinhos e mais um espanhol que andava pela região a procura desse tipo de serviço. Esse senhor, que todos chamavam de “Paco”, havia fugido da Espanha ao final da guerra civil daquele país, que havia culminado com a vitória de Francisco Franco e a derrota de todas as forças da esquerda republicana. Seu “Paco” não morava na região e por isso teve que ficar por uns dias hospedado em nossa casa. Durante todo o dia, enquanto enxertava videiras, ele ia contando episódios em que tomara parte naquele sangrento conflito da guerra civil espanhola.

Eu o acompanhava em cada enxerto. Cada videira, logo depois de feita a enxertia tinha que ter um pequeno acabamento especial. O primeiro era amarrar firmemente o enxerto com uma fibra natural, a embira que colhíamos em nosso mato. Isto ainda era feito pelo enxertador profissional. Depois era preciso isolar o enxerto com barro, uma argila (barro) bem amassada, macia e úmida, bem lisa para se tornar impermeável. Isso se fazia para evitar a exposição e desidratação no corte da videira. Depois disso, a fase final era a cobertura completa com terra: um cone de uns trinta centímetros de altura. Essas duas últimas fases estavam por minha conta junto ao seu “Paco”.

As histórias que ele contava eram do horror da guerra civil espanhola. A matança entre as facções civis e o refúgio, às vezes inútil, mesmo nas igrejas, que eram saqueadas. Esse conflito acabou por tornar-se internacional, com republicanos vindos de outros países e a primeira grande aplicação da aviação de guerra de Hitler a favor de Franco: o bombardeio e a destruição do povoado de Guernica, inspiração para Picasso. Mas nosso “Paco” contava especialmente os detalhes em que seu grupo de guerrilheiros conseguiu vencer uma batalha de rua. Todo um grupo de franquistas foi cercado e morto a tiros, contava ele. Mesmo estando do lado derrotado na guerra, em vários dos relatos que nos fez sobre o episódio em que seu grupo esteve envolvido, arrematava com orgulho: “El comandante lo matê Yo!”. (O comandante, eu o matei!)

Nota: Extraído do livro “Corrupira”, ainda inédito, do autor.

Imagem: Guernica, obra de Pablo Picasso