Arquivo da categoria: Mestres da Pintura

Estudo dos grandes mestres mundiais da pintura, assim como de algumas obras dos mesmos.

Veronese – BANQUETE NA CASA DE LEVI

Autoria de LuDiasBH

banacale                                                  (Clique na gravura para ampliá-la)

A composição Banquete na Casa de Levi ou Cristo na Casa de Levi é uma obra do pintor maneirista italiano Paolo Veronese. Foi feita com a finalidade de ornamentar o refeitório do mosteiro dominicano dos santos João e Paulo na cidade de Veneza. Inicialmente foi intitulada como “Última Ceia”, designação que acabou por levar o artista aos tribunais da Inquisição, sob a alegação de irreverência e heresia.

Quando houve um incêndio no convento dominicano, o quadro “O Cenáculo”, feito por Ticiano, foi destruído. Os monges pediram, então, a Veronese que fizesse outro para colocar no lugar. A colossal tela levou dois anos para ficar pronta.  A temática era sobre a Última Ceia, e esse foi o título recebido. Mas o artista, criativo como era, colocou a cena relativa à passagem bíblica, com Cristo e seus apóstolos, no centro da composição e agregou nas laterais uma festa tipicamente veneziana. Em volta da cena principal os personagens comunicam entre si, mostrando uma variedade de posições e riqueza cromática.

A pintura mostra um imenso e rico cenário, com um grande número de personagens, embora poucos deles interajam com a cena principal. Ali se encontram nobres, bufões, soldados, anões, escravos, etc. Cristo está ladeado pelos apóstolos Pedro e João. Meio distante, vestido de vermelho e com um turbante da mesma cor, Judas encontra-se de costas para o observador, mas com o rosto de perfil. Grandes pilares, três imensos arcos e duas escadarias — uma à esquerda e outra à direita — fazem parte do cenário. Através dos arcos pode-se ver uma bela vista com suntuosos edifícios.

O Tribunal de Inquisição levantou a questão de que a presença de certos pormenores na pintura dessacralizavam o tema da Última Ceia, dentre os quais: um homem sangrando pelo nariz, soldados vestidos de alemães bêbados, um bobo com um papagaio, anões, vestimentas extravagantes, etc. Embora não se convencesse com as explicações de Veronese, o Tribunal deu ao artista três meses para efetuar modificações na pintura ou então mudar o título do quadro. Bobo que não era, o artista fez a opção pela mudança do título, passando a obra a chamar-se Banquete na Casa de Levi (Lucas: 5;27-32)

Ficha técnica
Ano: c. 1573
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 555 x 1280
Localização: Galleria dell’Accademia, Veneza, Itália

Fontes de pesquisa
Veronese/ Abril Cultural
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann

Lichtenstein – MOÇA AFOGANDO-SE

 Autoria de LuDiasBH

                                       

À época eu estava muito empolgado e muito interessado no conteúdo altamente emocional, mas destacava o manejo impessoal do amor, do ódio, da guerra, etc., nessas imagens de desenho animado. (Lichtenstein)

O pintor estadunidense Roy Lichtenstein (1923–1997) nasceu numa família de classe média alta. Seu contato informal com a pintura teve início em sua adolescência — em casa —, época em que também passou a demonstrar interesse pelo jazz, como mostram os muitos retratos, pintados por ele, de músicos tocando seus instrumentos. Seu contato formal com arte deu-se quando tinha 16 anos de idade, ao frequentar as aulas da Liga dos Estudantes de Arte, sob a direção de Reginald Marsh. Seu objetivo era ser um artista. Foi depois para a School of Fine Arts da Ohio State University — uma das poucas instituições do país que possibilitavam a licenciatura em belas-artes. Ali recebeu influência de seu mestre Hoyt L. Sherman, dando início aos trabalhos expressionistas.

A composição intitulada Moça Afogando-se é uma obra de Roy Lichtenstein e uma das pinturas mais representativas do movimento da Pop Art, sendo vista como um dos trabalhos mais importantes do artista estadunidense. Tem sido descrita como uma obra-prima do melodrama. Trata-se de uma das primeiras imagens do artista retratando mulheres em perigo.

A pintura apresenta uma garota com os olhos fechados, de onde escorrem grossas lágrimas. Ela já chorou tanto que um rio de lágrimas formou-se ao seu redor. A pungente tristeza de seu rosto mostra que está tomada por fortes emoções, sem forças para reagir às suas forças destrutivas. Através da frase contida no balão — Eu não me importo! Eu prefiro afundar a pedir socorro a Bred — é possível conhecer o que se passa no pensamento da jovem mulher, portanto, Bred Brad (nome encontrado em vários trabalhos do artista) é o causador de tamanho sofrimento. Ela prefere ser tragada pelo mar a pedir-lhe ajuda.

Roy Lichtenstein inspirou-se, para compor sua obra, numa história publicada em quadrinhos, intitulada “Run for Love”, na revista “Secret Love” em 1962. Ele eliminou o namorado da moça que aparece afogando-se ao fundo, agarrado a um barco. Deixou apenas a parte que se refere à garota (cabeça, ombro e a mão, vistos acima da água) e o mar. O pensamento da garota, contido no balão, também foi reduzido. Ela se encontra sozinha, centralizada na composição, e em meio a uma onda feroz parecida com um redemoinho. O artista jogou no sofrimento da moça toda a força da composição. O observador, na ausência de outros elementos, é incapaz de construir uma narrativa correta em torno de Bred, ficando a interpretação ao prazer de cada um.

Segundo alguns críticos, as representações de mulheres com os olhos lacrimejantes por parte de Lichtenstein, até meados da década de 1960, podem ter sido influenciadas pelas mulheres chorosas de Picasso e também pelo desmoronamento de seu casamento na com Isabel Wilson de quem se separou em 1963.

Nota: Lichtenstein reconhece que a onda presente na composição é uma adaptação da famosa gravura de Hokusai  conhecida como A Grande Onda de Kanagawa, cujo estudo se encontra presente neste blogue.

Ficha técnica
Ano: 1963
Técnica: óleo e magna sobre tela
Dimensões: 171,8 x 169,5 cm
Localização: Museu de Arte Moderna, Nova Iorque, EUA

Fontes de pesquisa
Lichtenstein/ Editora Taschen
https://en.m.wikipedia.org/wiki/Drowning_Girl
https://www.moma.org/learn/moma_learning/lichtenstein-drowning-girl-1963/

Giovanni Bellini – A MADONA GREGA

Autoria de LuDiasBH

A composição denominada A Madona Grega — também conhecida como A Madona e o Menino —  é uma obra do pintor italiano Giovanni Bellini. Trata-se de uma obra arcaizante que segue a tradição do ícone. O artista deixou trabalhos apaixonantes relativos a Cristo e a Madona que em sua arte são, sobretudo, humanos.

A Virgem Mãe, de pé, envolta na beleza de seu manto azul-escuro, usado sobre seu vestido vermelho, segura nos braços seu Menino, cujos pezinhos apoiam-se no que parece ser o peitoril de uma janela. O corpo da criança mostra-se inclinado para a esquerda.

A Virgem e o pequeno Jesus têm o rosto voltado para a esquerda. Ambos exprimem uma profunda tristeza. O Menino traz uma pera na mão esquerda. Tal fruta simboliza a Paixão e a Redenção de Jesus Cristo. Mãe e Filho trazem a cabeça cingida por um halo fino dourado que caracteriza a divindade de cada um.

Esta obra recebeu o nome de A Madona Grega em razão da inscrição abreviada, em grego, escrita na parte esquerda da composição. Ali está escrito: “Mãe de Deus”, acima, e “Jesus Cristo”, ao lado. Em razão de tal inscrição presume-se que esta obra foi feita para uma igreja bizantina.

Ficha técnica
Ano: c. 1470
Técnica: painel
Dimensões: 62 x 82 cm
Localização: Museu de Brera, Milão, Itália

 Fontes de pesquisa
1000 obras-primas da pintura europeia
Enciclopédia dos Museus/ Mirador

Albrecht Dürer – AUTORRETRATO COM…

Autoria de LuDiasBH

O pintor alemão Albrecht Dürer é responsável por um dos mais belos autorretratos da história da pintura — sua obra Autorretrato com Casaco de Pele. Presume-se que tenha sido pintada nos primeiros meses do início do ano de 1500, alguns meses antes de seu aniversário que aconteceria no dia 21 de maio. De acordo com a inscrição ao fundo, ele estaria com 28 anos, próximos aos 29 que faria em maio do mesmo ano.

Dürer encontra-se entre os artistas do Ocidente que mais produziram autorretratos que foram de suma importância para mostrar o seu crescimento como pintor, assim como as transformações sofridas pela pintura de sua época, tendo caminhado de simples arte para o ofício e depois para as belas-artes, sendo ele um dos responsáveis por essa caminhada. É importante saber que, naquela época, uma pose frontal só era comum aos retratos religiosos, sobretudo para os de Cristo, sendo Dürer um inovador. A ausência de fundo no autorretrato torna-o atemporal, enquanto as inscrições parecem flutuar no espaço escuro.

O artista encontra-se no auge de sua beleza. Seu autorretrato de busto repassa ao observador a força de seus traços, demonstrando solenidade e dignidade. Com seus cabelos grandes, volumosos e cacheados e a mão direita erguida no meio do peito em postura de bênção, fixando o observador, Dürer parece ter tomado para si o modelo iconográfico do Cristo Redentor, representado nas pinturas medievais. Existem também outras semelhanças com as convenções da pintura religiosa de então, como a simetria e os tons escuros. Ele veste um luxuoso casaco com guarnição em pele. À sua direita a inscrição refere-se ao ano em que a pintura foi feita e ao seu monograma, e  à sua esquerda, uma inscrição em latim diz que o artista pintou seu autorretrato aos 28 anos de idade.  É tido como o autorretrato mais pessoal e icônico que fez.

O retrato de Dürer, ao lembra algumas representações medievais de Cristo, remete à sua quase divindade como pintor — um dos mais criativos de seu tempo —, concepção essa que coadunava com o conceito renascentista do ser humano. Presume-se que esta pintura tenha sido profundamente retocada pelo pintor em princípio de 1520, após sua visita aos Países Baixos. Tal constatação deve-se ao fato de que foi após essa época que sua obra ganhou grandeza e força, havendo inclusive maior intensidade no colorido. E apesar da simetria mostrar-se aparentemente rígida, é possível observar que alguns elementos fogem desta regra: a cabeça do artista — ocupando o centro da composição — está ligeiramente voltada para a direita; os cachos dos cabelos, caem diferentemente em ambos os lados, enquanto seu olhar inclina-se ligeiramente para a esquerda.

Ficha técnica
Ano: 1500
Técnica: óleo sobre madeira
Dimensões: 67 x 49 cm
Localização: Pinacoteca de Munique, Alemanha

Fontes de pesquisa
Enciclopédia dos Museus/ Mirador
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann
https://en.wikipedia.org/wiki/Self-Portrait_(D%C3%BCrer,_Munich)

Rubens – PAISAGEM TEMPESTUOSA

Autoria de LuDiasBH

                                                   (Clique na imagem para ampliá-la.)

O pintor barroco Peter Paul Rubens (1577–1640) teve os primeiros onze anos de sua vida passados em Colônia, na Renânia, pois sua família teve que fugir da Antuérpia, para escapar da guerra entre católicos e calvinistas. Após a morte do pai, a mãe retornou com os filhos para Antuérpia, onde Rubens — católico devoto — estudou latim e tornou-se pajem na família real. Aos vinte e um anos foi inscrito como pintor na corporação de São Lucas, vindo a  tornar-se mestre. Quando estava prestes a completar trinta anos, partiu para a Itália, onde ficou a serviço de Vicenzo I Gonzaga, Duque de Mântua, de quem recebeu um missão diplomática na Espanha. Na Itália, ele aproveitou para conhecer várias cidades, ficando mais tempo em Gênova e Roma.

A composição intitulada Paisagem Tempestuosa ou também A Tempestade – Paisagem com Filemon e Baucis é uma obra do artista. Embora não fosse especializado no gênero, Rubens criou uma das mais belas e realísticas pinturas de paisagem que retrata uma tempestade caindo sobre uma enorme e turbulenta paisagem, transtornada pelo temporal que desaba. Ele mostra as árvores sendo chicoteadas pelo vento e as águas a despencarem por entre as rochas.

Algumas figuras humanas encontram-se no local. À esquerda, na base da pintura, uma mulher e uma criança mostram-se caídos, vencidos pela fúria das águas. Um pouco acima deles está um homem abraçado a uma árvore, tentando desesperadamente se salvar. Atrás do homem vê-se também uma ovelha morta, presa a um tronco de árvore.

À direita encontram-se as figuras mitológicas de Júpiter e Mercúrio com Filemon e Baucis — dois idosos que foram hospitaleiros com os deuses, quando esses os procuraram sob a aparência de peregrinos, segundo o mito contado nas “Metamorfoses” de Ovídio. O tal casal foi recompensado com a proteção dos deuses que mantiveram sua cabana intacta durante a tempestade, sendo transformada depois num templo em sua memória, vivendo os dois ali como sacerdotes. As figuras mitológicas têm a finalidade apenas de trazer mais um elemento à obra.

Logo abaixo do grupo vê-se outro animal morto, possivelmente mais uma ovelha, presa a um emaranhado de galhos. No centro da composição, próximo à cachoeira formada pelas águas impetuosas, um homem segura-se numa rocha.  A presença das cores do arco-íris sob as nuvens mostra que a tempestade já se amainou, embora o ambiente ainda se apresente turbulento.

Ficha técnica
Ano: c.1624
Técnica: óleo sobre madeira
Dimensões: 146,5 x 209 cm
Localização: Museu de História da Arte, Viena, Áustria

Fonte de pesquisa
Enciclopédia dos Museus/ Mirador

Ticiano – O JUÍZO FINAL

Autoria de LuDiasBH

O pintor Ticiano Vecellio (1490–1576), também conhecido como Tiziano, Titian ou ainda como Titien, encontra-se entre os grandes nomes da pintura italiana. Ainda pequeno, retirava suco de flores para desenhar toalhas e lençóis. O pai — Capitão Conte Vecellio — reconhecendo o pendor artístico do filho, envia-o para Veneza, acompanhado do irmão mais velho. Ali é apresentado por um tio aos mais importantes pintores venezianos da época.  Passa pelas mãos de Gentile Bellini e depois nas de Giorgione que o acolhe com entusiasmo. Sorve com tanto interesse os ensinamentos de Giorgione que, com 20 anos incompletos, tem uma de suas pinturas confundida com a obra do mestre. Oportunidade em que o aluno percebe que não existe mais nada a ser aprendido com ele e passa a caminhar por conta própria.

A composição intitulada O Juízo Final — também conhecida por A Glória ou A Trindade ou O Julgamento Final e ainda Paraíso — é uma obra do artista, encomendada pelo imperador Carlos V que nutria por ela grande admiração. Trata-se de uma das sete telas do artista que o imperador levou consigo, quando se recolheu em 1556, ao mosteiro de Yuste e para a qual voltou seu olhar ao morrer. Nela estão representados o imperador e sua família clamando a Jesus Cristo pela salvação.

No alto da composição está a Santíssima Trindade — Deus Pai e Jesus Cristo (ambos estão sentado, trazendo um globo e um cetro nas mãos) e o Espírito Santo em forma de pomba e cujos raios atravessam as nuvens. Ali também se encontram à esquerda a Virgem Maria (olhando para o lado) e São João Batista — teologicamente os dois principais intercessores. À direita estão Carlos V (ao lado da coroa imperial), sua esposa Isabella de Portugal (o casal está amparado por anjos com asas azuis), seu filho Filipe II da Espanha e as filhas Joana da Áustria, Maria da Hungria e Eleonor da Áustria — todos vestidos com mortalhas e descalços.

Na composição também estão presentes inúmeras figuras do Antigo Testamento, como Adão e Eva, o rei Davi (recostado sobre uma ave de rapina que olha para ele), Moisés (com as Tábuas da Lei) e Noé (com a Arca sobre a qual está uma pomba branca com um ramo de oliveira no bico). A figura com a roupa verde tem sido identificada como Maria Madalena, a Sibila Eritreia, Judite, Raquel ou a própria Igreja Católica. Dois homens idosos e barbados colocados mais abaixo são identificados como Pietro Aretino e o próprio Ticiano (visto de perfil). É provável que a figura barbada logo abaixo da Virgem seja Francisco de Vargas — embaixador da Espanha em Veneza.

O uso da cor azul (a mesma usada no manto de Deus Pai e de Deus Filho) e a postura da Virgem Maria na composição — ela é a única a caminhar em direção à Santíssima Trindade — indicam a sua importância em relação às demais figuras presentes. À esquerda da Trindade ( e à direita do espectador) inúmeros anjos segurando palmas põem-se ao lado da família suplicante de Carlos V. A pintura apresenta um movimento ascendente — do reino terreno para o céu. Uma paisagem bucólica é vista na parte inferior da tela, na qual são vistos peregrinos — testemunhas da visão divinal. O fundo da composição, na parte divina, é todo pintado com o rostinho de querubins.

Em razão dos muitos nomes recebidos, é possível concluir que esta composição possua várias leituras e que o título Juízo Final deve-se ao fato de ter sido contemplada pelo imperador, quando ele se encontrava morrendo, pois, na verdade, não tem relação com o tema apresentado. O artista assinou seu nome no manuscrito que se encontra na mão do rei Davi.

Obs.: A fonte textual da obra é uma passagem do último livro do “De Civitate Dei” de Santo Agostinho que narra a visão celestial do abençoado.

Ficha técnica
Ano: 1551/1554
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 346 x 240 cm
Localização: Museu do Prado, Madri, Espanha

Fontes de pesquisa
Pintura na Espanha/ Cosac e Naify Edições
https://translate.google.com/translate?hl=pt-BR&sl=en&u=https://en.wikipedia.org/wiki/La_Gloria_(Titian)&prev=search
https://www.museodelprado.es/en/the-collection/art-work/the-glory/66149817-6f88-4e5f-a09a-81f63a84d145