Arquivo da categoria: História da Arte

O mundo da arte é incomum e fascinante. Pode-se viajar através dele em todas as épocas da história da humanidade — desde o alvorecer dos povos pré-históricos até os nossos dias —, pois a arte é incessante.

A ARTE NA MESOPOTÂMIA (Aula nº 11)

Autoria de LuDiasBH

                     
                                  (Clique nas imagens para ampliá-las)

A denominação Oriente Próximo (ou Antigo Oriente) diz respeito à região onde surgiram as civilizações anteriores às clássicas, ou seja, as relativas ao mundo greco-romano. Ali existiam grandes e poderosos impérios, sendo o Egito apenas um deles. A própria Bíblia — livro sagrado dos cristãos — relata muitos fatos acontecidos nessa parte da Terra, inclusive ao referir-se à Palestina, situada entre o reino egípcio do Nilo e os impérios babilônio e assírio, situados no vale dos rios Tigre e Eufrates — região conhecida como Mesopotâmia, cujo nome corresponde em grego a “terra entre rios” e que hoje constitui a maior parte do Iraque.

A Mesopotâmia é tida como um dos berços da civilização por ter abrigado parte das primeiras civilizações da humanidade. Inúmeros povos habitaram essa região durante a Antiguidade, dentre eles podemos destacar os sumérios, acádios, amoritas (ou babilônios), assírios e caldeus. Ali tiveram origem a roda, a agricultura, as cidades, a escrita, o direito, a medicina, a filosofia, a matemática e a astronomia. A Mesopotâmia e regiões vizinhas, mesmo tendo acolhido diferentes povos e culturas, deu origem a formas de arte bem parecidas. O corpo humano era representado de forma rígida, sem expressão de movimento e sem detalhes anatômicos pelos artistas mesopotâmicos. Pés, mãos e braços ficavam ligados ao corpo coberto com mantos, enquanto os olhos eram complementados com esmalte brilhante.

A arte mesopotâmica era voltada para os deuses, sendo alguns deles ligados aos astros, o que leva a crer que o movimento planetário fosse muito importante para esse povo, dando, assim, origem à astronomia e, em consequência, à matemática. Sua arte não gozava da mesma posição que a egípcia, sendo bem menos conhecida. Uma das causas desse desconhecimento diz respeito à falta de pedreiras no vale, sendo as construções feitas com tijolos cozidos que, com o tempo, acabavam se desintegrando, impedindo a permanência dos monumentos para a posteridade, o que não aconteceu com os egípcios.  Além disso — provavelmente a principal causa —, está no fato de que os povos que habitavam essa região não comungavam da mesma crença religiosa dos egípcios no que diz respeito à conservação e à representação do corpo humano, relativas à sobrevivência da alma, embora os sumérios — habitantes da Baixa Mesopotâmia — durante um período longínquo em sua história, quando governaram a cidade de Ur, tivessem um comportamento parecido. Seus reis, ao morrerem, eram sepultados com todos os residentes da casa real — incluindo os servos —, levando muitas riquezas, sob a alegação de que precisavam de um séquito no além, como mostram descobertas feitas no cemitério real da referida cidade.

Aos artistas mesopotâmicos não era impingida a obrigação de ornamentar as tumbas mortuárias, como acontecia com os egípcios. Cabia-lhes o dever de manter os poderosos vivos, mas através da memória de seu povo. Os reis encomendavam aos artistas monumentos que festejassem suas vitórias nas caçadas e nas guerras, mostrando os inimigos capturados e os despojos obtidos, como mostra a ilustração de um monumento, acima, à esquerda, feito em pedra em que o soberano pisa sobre o corpo de um inimigo derrotado, enquanto outros, atemorizados, rogam por piedade. Obras como essa são verdadeiras crônicas ilustrativas das batalhas travadas. A mais bem conservada delas diz respeito ao reinado de Assurnasipal II da Assíria que viveu um pouco depois do bíblico rei Salomão, no século IX a. C. Na obra ilustrativa, à direita, é possível acompanhar os pormenores de um ataque a uma fortaleza, onde são vistas as armas de sítio em ação, seus defensores tombando e até mesmo uma mulher gritando do alto de uma torre, localizada à esquerda.

A arquitetura mesopotâmica era bem desenvolvida, tendo nos palácios e templos suas principais manifestações, embora houvesse falta de pedras na região. As construções das paredes eram bem grossas, feitas com tijolos. Uma característica da arquitetura desse povo eram os zigurates — templos com vários andares — que tinham função religiosa, pois os mesopotâmicos acreditavam que serviam de morada para os deuses (terceira ilustração à direita). Tais construções eram feitas com tijolos queimados, usando a sobreposição de plataformas, circundadas por uma escadaria. Ao contrário das pirâmides egípcias, elas não possuíam câmaras internas, servindo apenas como templos religiosos, cujo objetivo era servir de moradia para os deuses, sem nenhuma destinação mortuária. Em geral, o zigurate eram a construção mais alta da cidade e seu símbolo principal.

Presume-se que o zigurate (templo) da Babilônia possa ter sido a Torre de Babel bíblica. É uma pena o fato de poucos zigurates tenham resistido ao tempo. A escultura e a pintura na Mesopotâmia objetivavam decorar os espaços arquitetônicos. Dentre os materiais usados na fabricação artística estavam: argila, terracota, adobe, cerâmica, junco, marfim, ouro, etc.

Exercícios
Para o enriquecimento deste texto/aula os participantes deverão responder as questões abaixo:

1. Qual a importância da Mesopotâmia para a humanidade?
2. Por que a arte dos mesopotâmicos foi menos influente que a dos egípcios?
3. Como os reis buscavam se perpetuar através da arte?

Ilustração: 1. Estela da Vitória do Rei Naram-Sin, c. 2270 a.C/ 2. Exército Assírio Sitiando uma Fortaleza, c. 883 – 859 a. C. / 3. Reconstrução em 3D da aparência que teria tido o Zigurate da cidade da Babilônia.

Fontes de pesquisa:
A História da Arte/ E. H. Gombrich
Arte/ Publifolha

A ARTE DO EGITO ANTIGO (Aula nº 10)

Autoria de LuDiasBH

A mais duradoura e uma das principais civilizações surgidas na Antiguidade  desenvolveu-se no Egito, tendo durado cerca de 30 séculos, sendo bastante complexa em sua organização social e muito rica culturalmente. Já vimos que os mestres do Egito Antigo foram também os mestres dos gregos e esses, por sua vez, foram os professores de todos nós. Apesar das mudanças que vêm se processando na arte através dos tempos, pois a arte é dinâmica, ainda ficamos perplexos diante de muitas criações daquele povo, principalmente no que diz respeito à arte pictórica (da ou referente à pintura), uma vez que os pintores egípcios representavam a vida de um jeito diferente do nós. O que lhes importava era a totalidade da obra, ou seja, apresentar todos os seus aspectos com a maior precisão e constância possível. Suas obras de arte — desenhadas de memória — seguiam regras preestabelecidas  que tinham por finalidade retratar fatos religiosos — uma vez que a religião estava presente em toda a vida do povo egípcio.

Os artistas egípcios deviam apresentar os elementos de sua composição com perfeita clareza, não deixando ao observador a tarefa de ter que estudá-la, uma vez que toda a sua simbologia já era conhecida, sendo que grande parte das obras de arte produzidas no Egito Antigo era direcionada aos mortos. É possível que ao seguirem as regras que exigiam a inclusão de todas as características que considerassem essencial ao corpo humano, os artistas egípcios estivessem atendendo a um objetivo mágico da representação pictórica. Para eles a composição da figura humana tinha que ser completa no que dizia respeito ao método prescrito, pois se lhe faltasse um braço, por exemplo, não seria possível levar ou receber as oferendas dedicadas aos mortos — conforme rezava a religião. A literatura, as ciências médicas e a matemática estiveram presentes na vida do povo egípcio.

Os artistas egípcios tinham um perfeito sentido de ordem, dando o máximo de veracidade às figuras, tanto é que suas pinturas de animais servem de fonte de pesquisa para zoólogos. Embora tivessem que obedecer a regras severas que lhes cabia apreendê-las já nas suas primeiras aulas — o estudo somente seria concluído após dominá-las — suas obras apresentavam equilíbrio, estabilidade e harmonia ainda que severa. Possivelmente os melhores mestres deveriam ser aqueles que seguiam com maior rigidez os ensinamentos preestabelecidos. Isto explica o fato de a arte egípcia, durante um período de três mil anos ou mais, não ter mudado quase nada. Embora novos temas fossem exigidos dos artistas, o modo como representavam o homem e a natureza era essencialmente o mesmo.

O rei Amenófis IV, pertencente à 18ª dinastia (Novo Reino), foi o único soberano a mexer no até então imutável estilo egípcio. Por acreditar num único deus supremo — Aton —, exigiu que ele fosse representado com a forma de um disco solar, emitindo seus raios e cada raio contendo uma mão (ver ilustração acima). Também mudou seu nome para Akhnaton em homenagem ao deus. No seu reinado as pinturas encomendadas não traziam a imponente e rígida postura dos faraós anteriores. Existe a hipótese de que a reforma promovida por ele tenha a ver com a sua observação de obras estrangeiras, menos rigorosas e circunspectas do que as egípcias. O soberano Akhnaton foi sucedido por Tutankhamon que restaurou as antigas crenças religiosas e estéticas, fechando o contato com o mundo exterior, ou seja, voltando aos modelos de antes. A arte egípcia retomou seu estilo anterior, durando outros mil anos ou talvez mais, sem nenhum acréscimo à realização artística.

E por falar em simbologia, as cores eram muito importantes para a arte egípcia, sendo repletas de simbolismo. O fato de não vermos hoje as cores originais nas obras que eles nos deixaram, deve-se ao fator tempo que tudo destrói. Vejamos as principais: a preta tinha ligação com a noite e a morte, mas também dizia respeito à fertilidade e à regeneração; a branca simbolizava a pureza e a verdade; a vermelha representava a energia e o poder, assim como era a representação do deus do mal “Seti”; a cor amarela simbolizava a eternidade;  a verde representava a regeneração da vida; e a cor azul era a representação do rio Nilo e do céu.

O povo egípcio não usava letras para escrever, mas desenhos. Possuía três formas de escrita: hieróglifos (tida como escrita sagrada), hierática (mais simples, usada pela nobreza e sacerdotes) e demótica (usada popularmente). Na pintura a hierarquia das pessoas era representada com o uso do tamanho. As  mais importantes eram sempre mais altas, como o faraó e os deuses. As figuras masculinas recebiam a cor vermelha e as femininas o ocre. A cor era usada uniformemente (sem claros e escuros).  A “lei da frontalidade” determinava que o tronco da pessoa fosse mostrado de frente, enquanto a cabeça, pernas e  pés deviam ser retratados de perfil.  Não havia a representação das três dimensões, havendo a ausência de profundidade.

O estudo da arte egípcia mostra-nos como é necessário o conhecimento da cultura de um povo, a fim de entendermos a linguagem de suas obras de arte. Fica também claro que o saber liberta-nos dos preconceitos e, como consequência, apresenta-nos, com maior abrangência, aspectos da vida de cada povo em sua passagem pela Terra num determinado período da história da humanidade.

Exercícios:
Para o enriquecimento deste texto/aula os participantes deverão responder às questões abaixo:

  1. Por que os artistas egípcios preocupavam-se apenas com a totalidade da obra?
  2. O que levou o rei Amenófis IV a mexer no imutável estilo egípcio?
  3. Cite algumas características da pintura egípcia de então.

Ilustração: Akhnaton e Nefertiti com seus Filhos, c. 1345 a. C

Fonte de pesquisa:
A História da Arte/ E. H. Gombrich
Manual Compacto da Arte/ Editora Rideel

ARTE EGÍPCIA – PIRÂMIDES (Aula nº 9)

Autoria de LuDiasBH

                                

Estamos cientes de que todas as regiões habitáveis do planeta possuem (ou possuíram) uma forma de arte, mas existe aquele tipo de arte que é visto como um empenho contínuo, sendo repassado de mestre a discípulo e de discípulo a observador até chegar à arte de nossos dias, como aconteceu no vale do rio Nilo (Egito) cerca de cinco mil anos atrás, o que nos leva à compreensão de que os mestres egípcios foram os mentores dos gregos e esses foram mestres de todos nós. A arte do Egito Antigo, portanto, possui uma dimensão imensurável para todas as outras que vieram depois dela. É impossível, ao estudar a História da Arte, deixar esse povo de lado.

Falar sobre a arte egípcia é remeter-se à terra das pirâmides e de faraós grandiosos e imponentes que escravizaram milhares e milhares de pessoas, a fim de que essas preparassem seus gigantescos túmulos — as pirâmides. O que muitos se perguntam é como aqueles escravos desgastaram seus corpos ao longo de quase toda a sua vida, sem se rebelar contra o esforço físico extremo? A resposta encontra-se na suposta deidade dos monarcas egípcios, apregoada à época. Havia a crença de que os faraós eram divindades que, ao deixarem para trás o mundo terreno, voltavam a unir-se aos deuses dos quais vieram, cabendo, portanto, a seus súditos o dever de ajudá-los em seu retorno. Assim, tanto para os reis quanto para sua gente, as pirâmides tinham uma função divina, não havendo qualquer motivo para se revoltar.

A construção das pirâmides era extremamente penosa. Era necessário cortar pedras, arrastá-las por grandes distâncias através de meios primitivos em que a força física humana era o que mais contava. Eram levantadas em direção ao céu, a fim de ajudar o faraó em sua ascensão, além de preservar seu corpo contra a decomposição. Ainda que a viagem a outro mundo não fosse comprovada, é fato que o corpo era conservado durante muito tempo. Os egípcios antigos carregavam a crença de que o corpo físico necessitava ser poupado, a fim de ser usado pela alma no além, pois sem ele não haveria a tão buscada ascensão. Eles detinham um complexo conhecimento sobre a conservação do corpo físico, embalsamando-o e enfaixando-o para impedir sua decomposição. O corpo do rei, após passar pelos cuidados devidos, era depositado no centro da pirâmide, num esquife de pedra.

Fórmulas mágicas e encantamentos adornavam as paredes em volta da câmara mortuária com o objetivo de encaminhar o faraó em sua longa viagem para o outro mundo. Fazia-se também necessário conservar uma imagem fiel do monarca para que se tivesse absoluta certeza de que ele viveria para sempre. Habilidosos artistas esculpiam a cabeça do faraó em granito — pedra não perecível — e ocultavam-na na tumba para que pudesse cumprir a missão de ajudar a alma a permanecer viva. Com o passar dos tempos, os ritos que antes eram primazia dos reis passaram também a ser direcionados aos nobres da casa real. Seus túmulos — bem menores — agrupavam-se em filas em torno do túmulo do faraó. Posteriormente quaisquer pessoas de posses podiam tomar as medidas necessárias para sua vida no além.

Toda essa preparação acabou se transformando em relíquias antiquíssimas para a arte, sendo que alguns desses primeiros retratos, pertencentes à era das pirâmides, encontram-se entre as mais belas obras de arte egípcia. Aos escultores responsáveis por tais obras importavam apenas os aspectos principais do retratado, como mostra a ilustração acima. Tais obras não tinham por finalidade enfeitar, pois apenas a alma do morto cabia vê-las. É sabido que num passado muito distante, fazia parte dos costumes sacrificar os servos para servir o poderoso morto no outro mundo, mas essa crueldade acabou caindo em desuso, vindo a arte a oferecer imagens de servos simbólicos (shabatis) em substituição aos coitados que deveriam ser sacrificados, como mostram as pinturas e esculturas encontradas nos túmulos egípcios, também vistas em outras culturas antigas. Os textos vistos nos links abaixo são interessantíssimos. Leiam-nos!

Exercícios
Para o enriquecimento deste texto/aula os participantes deverão acessar:

  1. A ARTE ANTIGA DOS EGÍPCIOS
  2. O LIVRO DOS MORTOS
  3. O LIVRO DOS MORTOS DO ESCRIBA ANI

Ilustração: 1. Necrópole de Gizé; 2. Cabeça c. 2551- 2528 a. C.

Fonte de pesquisa:
A História da Arte/ E. H. Gombrich

POVOS PRIMITIVOS E SUA ARTE (Aula nº 8)

Autoria de LuDiasBH

                                     

Como já vimos anteriormente e não custa nada repetir, pois se trata de uma visão equivocada que muitas pessoas ainda carregam consigo e que precisam modificar, a denominação povos “primitivos” não significa que eles sejam desprovidos de inteligência, inferiores a quaisquer outros. Nada disso! A alcunha de “primitivos” relacionada a eles diz respeito apenas ao fato de que se encontram mais próximos do estado em que, num determinado momento da história, a humanidade surgiu. Mesmo nos dias de hoje ainda encontramos muitos povos cuja arte é bem primitiva, a exemplo dos maoris da Nova Zelândia.

Ainda que a arte primitiva obedeça certas convenções de modo a atender as expectativas desse ou daquele povo, ao artista é permitido mostrar sua criatividade e domínio técnico, sendo ele capaz de criar uma arte fascinante em obras de talha e cestaria, assim como no trabalho com couro ou metais. Desse modo não cabe a avaliação de que um artista tribal tenha apenas um conhecimento tosco. Basta ver, por exemplo, as obras de talha dos maoris. Devemos ter sempre em mente que não é a habilidade artística desses povos que se diferenciam das nossas, mas tão somente suas ideias, ou seja, a maneira como compreendem o mundo.

O Prof. E. H. Gombrich afirma em seu livro “A História da Arte” algo que jamais poderá ser esquecido por um amante da arte: “A história da arte em seu todo não é uma história de progresso na competência técnica, mas uma história de ideias, conceitos e necessidades em permanente evolução”. Um artista tribal, por exemplo, pode criar uma obra que represente tão bem a natureza, quanto um exímio mestre ocidental. A descoberta de uma série de cabeças de bronze (primeira ilustração à esquerda)  na Nigéria mostra o quão são bem feitas e persuasivas, considerando-se a época e os meios disponíveis ao artista (ou artistas) no que diz respeito à época em que foram feitas.

Ao compreendermos que são as ideias, os conceitos e as necessidades em constante evolução que impulsionam a arte, estaremos livres de quaisquer formas de preconceito direcionado a ela. Artistas nativos da América do Norte, por exemplo, ainda que possuam um conhecimento aprimorado das formas naturais, não se atêm àquilo que achamos ser a aparência natural disso ou daquilo. Muitas vezes apenas uma das características de um animal já é o suficiente para que  possam demonstrá-lo, ou seja, apenas isso lhes basta. Eles podem achar, por exemplo, que ao criar uma máscara apenas com o bico de uma águia estarão representando toda a ave, o que não quer dizer que não saibam representá-la por inteiro. Podemos ver isso principalmente nos mastros totêmicos de tribos ou clãs, lembrando que o totem pode ser um animal, planta ou objeto que serve como símbolo sagrado de um grupo social e é considerado como seus ancestrais ou divindade protetora (terceira ilustração à direita).

Ao analisarmos a ilustração central, representando uma estátua originária do México, possivelmente pertencente ao período asteca — o último antes de esse povo ser derrotado pelos espanhóis —, conhecida como Tlaloc, temos a prova de que a arte primitiva respondia a uma finalidade. Para os estudiosos do assunto, Tlaloc representava o todo poderoso deus da chuva para aquele povo, uma vez que essa era fundamental para a vida daquela gente, ao garantir-lhe as colheitas que a impedia de morrer de fome. E, se esse deus tão enérgico e eficiente era capaz de dominar chuvas e trovoadas, não poderia ser um fracote qualquer, daí sua forma de demônio.

O deus Tlaloc tem a boca formada por duas cabeças de cascavel, uma de frente para a outra. De suas mandíbulas saem seis venenosas presas. Tanto o nariz quanto os olhos assemelham-se a corpos retorcidos de répteis. Está claro o porquê de terem formado a cabeça de Tlaloc, tomando por base o corpo das serpentes sagradas, capazes de unirem-se à força do raio. Na imaginação daquele povo o raio era uma gigantesca e perigosa serpente. Como podemos perceber, a criação de imagens nessas remotas civilizações tinha como finalidade servir à magia e à religião, assim como era também a primeira forma de escrita. E, para finalizar, não nos esqueçamos de que “imagens e letras são parentes consanguíneos”, como ensinava o Prof. E. H. Gombrich.

Exercício:
Para o enriquecimento deste texto/aula os participantes deverão responder às questões abaixo:

  1. O que significa “povos primitivos”?
  2. O que é um totem?
  3. O que o Prof. E. H. quis dizer com “imagens e letras são parentes consanguíneos”?

Ilustração: 1. Oni, Nigéria (bronze), séc. XII-XIV / 2. Tlaloc, o Deus da Chuva (pedra), séc. XIV-XV/ 3. Exemplos de totem.

Fonte de pesquisa:
A História da Arte/ E. H. Gombrich

PINTURAS RUPESTRES E ESCULTURA (Aula nº 7)

Autoria de LuDiasBH

                  

Antes mesmo da invenção da escrita, acontecida por volta de 4.000 a. C., o homem já produzia arte. Até agora as pinturas e desenhos mais antigos encontrados datam do Período Paleolítico, também conhecido como Idade da Pedra Lascada, quando os instrumentos usados eram de pedra lascada, osso e madeira. As pinturas “rupestres” — termo que intitula as representações artísticas pré-históricas criadas em paredes, tetos e outras superfícies de cavernas e abrigos rochosos ou mesmo sobre superfícies rochosas ao ar livre —, portanto, são o exemplo do vestígio humano mais antigo, tendo varado muitas eras até chegar aos nossos dias. A pintura rupestre mais antiga do mundo, com cerca de 73 mil anos de idade, descoberta até agora, foi encontrada na caverna Blombos, na África do Sul.

A arte rupestre pode ser dividida em dois tipos: pintura rupestre — composta por pinturas feitas com pigmentos nas paredes e em outros espaços; gravura rupestre — imagens feitas com incisões na própria pedra. É possível encontrar registros dessa arte espalhados por todo o planeta. Algumas pinturas e gravuras mais bem preservadas estão localizadas em Portugal, Itália, França, Alemanha, Sibéria, Balcãs (norte mediterrâneo da África), Espanha e Austrália. No Brasil, o Parque Nacional da Serra da Capivara no Piauí (Nordeste) abriga o maior e mais antigo acervo rupestre da América e o Parque Nacional do Catimbau em Pernambuco (Nordeste) também possui registros de pinturas rupestres, sendo ao todo 27 sítios arqueológicos só nessa região. Esse parque é considerado o segundo maior do Brasil. Além dos sítios mencionados, existem muitos locais no Brasil e no mundo com registros de arte rupestre e, sem dúvida, muitos outros ainda não descobertos (ilustração à direita).

Mesmo os arqueólogos, ao depararem-se com as pinturas rupestres, tiveram dificuldades para acreditar que muitas daquelas representações (imagens de bisões, mamutes ou renas) criadas com tanto realismo, imitando a natureza, pudessem remeter à última Era Glacial. Contudo, ao encontrarem objetos rudimentares feitos de ossos nesses locais, concluíram que as pinturas tinham sido gravadas ou pintadas por homens que, por serem caçadores, conheciam bem aqueles animais. Usavam cores vibrantes para pintá-las, feitas a partir de gordura e sangue de animais, vegetais, argila e carvão das fogueiras. Eram pintadas com pincéis toscos feitos de pelos de animais, soprando com a boca ou fazendo uso dos próprios dedos. O homem do Período Paleolítico também criou esculturas em pedra, cuja maioria trazia a figura feminina estilizada.

Muitas pessoas especulam sobre qual é o real motivo de alguém ter se arrastado até as escuras entranhas da terra — em muitos casos — e ali deixar sua obra. O certo é que ninguém empreenderia uma viagem tão perigosa apenas para ornamentar esse local. Segundo a compreensão do Prof. E. H. Gombrich em seu livro “A História da Arte”, “A explicação mais provável para essas pinturas rupestres ainda é a de que se trata das mais antigas relíquias da crença universal no poder produzido pelas imagens: dito em outras palavras, parece que esses caçadores primitivos imaginavam que, se fizessem uma imagem de sua presa — e até a espicaçassem com suas lanças e machados de pedra — os animais verdadeiros também sucumbiriam ao seu poder”. Sua análise baseia-se no uso da arte entre os povos primitivos do nosso tempo que ainda vivem em conformidade com seus antigos costumes, ou seja, que vinculam à maior parte de sua produção artística a ideias semelhantes sobre o poder das imagens. Há também aqueles que dizem ser elas o resultado de ervas alucinógenas.

Exercício:
Para o enriquecimento deste texto/aula os participantes deverão responde às questões abaixo:

  1. O que são pinturas rupestres e como se subdividem?
  2. Quais são os dois principais parques de arte rupestre no Brasil?
  3. Suponhamos que você seja um daqueles que deixaram sua pintura na caverna de Blombos, na África do Sul. O que o levou a fazer isso?

Ilustração: 1. Pinturas rupestres no Parque Nacional da Serra da Capivara; 2. Vênus de Willendorf ou Mulher de Willendorf encontrada na Áustria.

Fonte de pesquisa:
A História da Arte/ E. H. Gombrich
Manual Compacto da Arte / Editora Rideel
https://www.educamaisbrasil.com.br/enem/artes/arte-rupestre

TUDO TINHA FINALIDADE (Aula nº 6)

Autoria de LuDiasBH

                                                    (Clique nas imagens para visualizá-las melhor)

Não se sabe como a arte teve origem. O que se tem como certo é que nenhum povo jamais se privou de ter a sua própria arte. Sabe-se também que a visão que se tem hoje sobre arte (artigo de museus, objeto de exposições ou decorações, etc.) diz respeito a um desenvolvimento relativamente recente na história da humanidade, uma vez que no passado a arte era meramente utilitária. As pinturas e as estátuas, por exemplo, não eram vistas como meras obras de arte, mas, sim, como objetos com uma função utilitária específica. Quanto mais a humanidade retroceder em sua história, mais evidentes (e muitas vezes bizarras) serão as provas das funções definidas encontradas nas obras de arte de tempos atrás.

Em muitas partes do nosso planeta é possível encontrar povos cujo modus vivendi ainda é muito semelhante ao de nossos ancestrais bem distantes, conhecidos como povos “primitivos”. Contudo, a palavra “primitivo” não significa que sejam inferiores ao homem atual, mas, sim, que se aproximam mais do estado em que, num determinado momento, a humanidade teve origem. Para os povos primitivos todas as coisas criadas possuíam uma utilidade, uma serventia. As imagens (estatuetas), por exemplo, tinham por objetivo protegê-los contra os poderes da magia que consideravam tão real quanto as forças da natureza, as quais reverenciavam. Assim, tanto as pinturas quanto as estátuas estavam ligadas à magia. Aos povos primitivos não importava a beleza de sua criação, mas apenas que ela cumprisse uma determinada finalidade.

Algo que parece inverossímil para muitos de nós é a crença que possuíam os povos primitivos de que aquilo que se impingia à representação de uma pessoa era também transmitido ao indivíduo representado. É impossível dizer que não haja culturas — mesmo nos dias de hoje — na quais não exista a presença de feiticeiros, videntes, pajés e bruxos, Algumas delas usaram (ou ainda usam) pequenas imagens do inimigo para dele se vingar, como faziam nossos remotos antepassados.  O Vodu — crença surgida no século 4 a.C —, por exemplo, usa os famosos bonecos espetados tanto como amuletos para atraírem a sorte, saúde, dinheiro e amor, como também para afastar alguém, só que o fato de espetar as agulhas no suposto inimigo não o faz sentir dor, como apregoa o cinema de terror. Não seria a “Queima de Judas” também um remanescente de tais superstições a prevalecer em nossos dias?

O Prof. E. H. Gombrich em seu livro “A História da Arte” conta que de uma feita um artista europeu, ao visitar uma aldeia africana, ali fez desenhos de animais domésticos em suas anotações, o que deixou seus habitantes confusos e nervosos. Eles achavam que o artista, ao levar os desenhos consigo na volta para seu país,  também estaria levando os animais da aldeia, ou seja, a mera representação desses já era capaz de transportá-los para um lugar diferente. Ao tomarmos conhecimento de fatos como este, a nossa compreensão sobre as pinturas antigas e estatuetas de nossos antepassados que resistiram bravamente ao tempo, ficam imbuídas de um maior significado e também nos faz mais compreensivos em relação à arte daquele tempo.

Exercícios
Para o enriquecimento deste texto/aula os participantes deverão responde às questões abaixo:

1. Qual a diferença entre a arte primitiva e a arte de nossos dias?
2. Como você explica o uso da palavra “primitivo” na arte?
3. Que objetivo possuíam os povos primitivos em relação às suas criações?

Ilustração: Arte no Paleolítico e Neolítico.

Fonte de pesquisa:
A História da Arte/ E. H. Gombrich