Autoria de Celina Telma Hohman
Feng Shui! Ainda que milenar, não prestamos a atenção devida aos ensinamentos da filosofia chinesa que nos ensina a viver melhor. Sou organizada, por vezes meio maníaca no local onde vivo, seja trabalho ou em minha casa, chego a extremos, o que sabemos não é sadio. Mas minha remissão chega quando me pego naquelas manias de guardar tudo: do canhoto do talão de cheques a documentos processuais que não têm mais utilidade alguma em minha vida.
Não consigo me desapegar de utensílios, roupas, souvenirs, cartinhas que a filhota escrevia quando era pequena, das lembranças que minha avó deixou, e que guardo com o maior carinho, ocupando espaços que poderiam servir para abrigar o que é necessário. Seria uma forma de tentar reter o passado? Resultado: desordem, claro! Desordem com os sentimentos, com a liberação do passado, quando deveria deixá-lo lá, onde ficou. Lembranças são boas. Há nelas a nossa trajetória, mas e daí? Lembranças podem ficar na mente, na alma, no coração e não enchendo gavetas, entulhando cantos, embaralhando-se com o presente e atrapalhando o futuro. Sei disso tudo. Sei que retenho o passado e, ao fazê-lo, pouco valorizo o presente. Tenho a meu favor o cuidado em manter uma casa limpa, em não poluir o visual do que me cerca com muitas peças que impedem a passagem de energia, mas estou aqui me lembrando de quantos envelopes, caixas e gavetas tenho guardados, coisas desnecessárias.
Num belo dia resolvi fazer a “faxina da vida”, com um furor típico de quem quer provar que consegue. Enchi inúmeras caixas. Nelas havia de tudo: cortinas velhas, roupas lindas, mas que não serviam mais, não as doei, nem as vendi, pois cada uma tinha uma história. Fiz a “geral”. Tive o prazer de colocar aquele montão de inutilidades para que o caminhão de coleta levasse para o devido lugar. Resultado? Chorei e muito. Obviamente o caminhão nem precisou levar, pois a vizinhança fez a festa, mas a tonta aqui, se pudesse, iria de casa em casa e pegaria tudo de volta. O papelzinho rosa da floricultura por onde um amor havia passado, o brinquedo, que já sem forma, ainda estava guardado. O bule lindo de minha avó, acompanhado daquela xícara sem asa e sem pires, mas que era charme puro e tinha o cheirinho da vovó nela (tinha nada, pois lavada, não manteve cheiro de ninguém, exceto de passado). Eu chamo a isso de desarmonia. Amor, carinho, doces lembranças são um bem. Guardar tranqueiras é maluquice! Tento ser organizada, mas ainda tropeço em inutilidades com uma frequência assustadora. Não é uma bagunça geral, é uma bagunça específica. Acredito que, mesmo não sendo acumuladora, o desfazer-me de coisas desnecessárias ainda é difícil. O tal do desapegar é minha intenção, mas a realidade é que meus apegos acabam atrapalhando.
Nota: a ilustração é uma pintura de Dante Gabriel Rossetti, denominada Pandora.
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