SIRIGAITA ESCALAFOBÉTICA

Autoria de Alfredo Domingos

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– Que sirigaita escalafobética, esta Juju!

A frase motivou risada da turma, na esquina das ruas Bartolomeu de Gusmão e Indaiá. Juju é conhecida no pedaço. Inclusive, já namorou alguns dos rapazes da roda de conversa. Ela mora no nº 38 da Bartolomeu. Seu caminho, então, é por ali.

Sem dúvida, é espevitada, sempre tramando espertezas. Fica à frente das novas ideias. Lidera as iniciativas. Promoveu comemorações durante os jogos da Copa do Mundo de Futebol; agitou festas juninas e julinas também; arrecadou fundos para vizinho que perdeu tudo em incêndio na residência; e daí em diante. Para completar, não leva desaforo para casa. Responde na lata, em cima da bucha. É um tanto extravagante, estrambótica! A excentricidade inicia pelo cabelo vermelho, curto, e pelos piercings espalhados pelo corpo e termina na extensa tatuagem sobre a pele alva. De pernas longas e finas, vai de passo largo, traçando rumo, embora sem régua e compasso. Mas segue firme, não há o que lhe segura.

Pronto! Nos parágrafos acima, foi explicada, bem no feitio do “Aurélio” e na linguagem da rapaziada, a expressão sirigaita escalafobética. Legal, eu mesmo gostei! Fiquem à vontade para criar coisas do gênero, recomendo.

Nota: imagem copiada de www.elo7.com.br

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IGREJA DE N. SRA. DO PILAR / TIRADENTES

Autoria de Luiz Cruz

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A igreja de N. Sra. do Pilar é um monumento tombado pelo município de Tiradentes, através da Lei Orgânica, de 1990. Trata-se de uma edificação da primeira metade do século XVIII, construída pelo padre Gaspar da Silva Pimenta. Segundo a lenda, três padres irmãos percorreram a região para edificar igrejas. O primeiro construiu a Igreja de N. Sra. do Livramento; o segundo a de N. Sra. do Pilar e o terceiro a da Santíssima Trindade. Sendo que de uma se avista a outra, formando um triângulo.

A edificação é característica de área rural, com fachada simples em oitão e telhado em duas águas. No interior, o altar-mor é em estilo barroco, com detalhes dourados e com acréscimos do final dos setecentos. O forro da capela-mor é pintado, destacando-se ao centro uma cena com a Assunção de N. Sra. que, pelas características e materiais pictóricos, deve ser do século XIX e de autoria desconhecida. Há um altar lateral de madeira recortada e pintada, que era dedicado a N. Sra. do Rosário, instalado onde agora se encontra uma curiosa imagem de São Sebastião. Ainda uma balaustrada torneada em jacarandá, com dois confessionários, um púlpito com pinturas marmoreadas e uma pia batismal em pedra arenítica são peças que se destacam no conjunto. Os materiais construtivos são: taipa, madeira, pedra seca, xistos e arenitos.

Na lateral da igreja de N. Sra. do Pilar existe um túmulo, com uma bela escultura de anjo alado em mármore branco. Nos fundos, encontra-se o cemitério, com destaque para um túmulo com uma escultura de anjo-menino e cruzes em ferro batido. E do alto dela podemos contemplar uma das mais belas paisagens da região, com a várzea do rio Elvas, a Serra de São José e a Serra do Lenheiro, em São João del Rei. Do lado oposto da igreja, no meio de uma colina, foi instalado um cruzeiro, com os símbolos da crucificação de Cristo.

O templo passou por reformas, algumas bastante comprometedoras. Na reforma de 1936/39, padre José Bernardino abriu arcos plenos nas paredes de taipa da capela-mor e encomendou uma repintura, de gosto bem popular e padronizada, realizada por Francisco Cesário Coelho (intervenção muito próxima à executada na Igreja de São Francisco de Paula). Trocou as telhas de calha por telhas francesas, retirou o piso de madeira e colou um de ladrilho hidráulico. Depois, construiu a torre lateral com volumetria acentuada, desproporcional ao tamanho da igreja. Na década de 1970, o padre Lourival de Salvo Rios substituiu o piso de ladrilho hidráulico por piso de marmorite rosa. No final da década de 1990, quando a igreja estava em processo de tombamento municipal, a prefeitura de Tiradentes fez a reforma do telhado. O adro foi pavimentado com pedras da Serra de São José. Embora as intervenções tenham comprometido a estrutura do monumento, foram elementares para sua existência. Provavelmente, sem elas, a igreja teria se transformado em ruínas.

Em 1964, a igreja foi saqueada. Levaram várias peças, inclusive a imagem da padroeira, que foi recuperada em um antiquário no Rio de Janeiro, pelo padre Jair Rodrigues Vale e o zelador José Elpídio do Nascimento. Infelizmente, as outras peças não tiveram a mesma sorte. O artista popular Antônio Gomes esculpiu duas peças para os nichos do altar-mor: N. Sra. dos Remédios e São João Batista.

A obra de restauro da igreja só foi possível através de apoio do BNDES. O monumento estava bastante comprometido por ataques de cupins, goteiras, umidade e rachaduras. A restauração foi coordenado pela Oficina de Teatro Entre & Vistas, com o processo iniciado em 2009 e custo em torno de R$700 mil. O restauro estrutural ficou a cargo da Tempus Empreendimentos e o artístico realizado por Ânima Conservação e Restauração, com acompanhamento da Paróquia de Santo Antônio, da Prefeitura e do IPHAN. Durante o processo de restauração foram realizadas “visitas guiadas” ao monumento, sob a coordenação do projeto Educação Patrimonial, também apoiado pelo BNDES, fundamentais para despertar o senso de pertencimento e responsabilidade pela preservação e conservação da edificação, que além de monumento de devoção e fé, tem inestimável valor para a identidade, história e cultura locais.

A igreja de N. Sra. do Pilar, de Tiradentes, foi entregue devidamente restaurada à comunidade do Elvas, no dia 2 de agosto de 2014, com uma singela solenidade e bênção. Foi apresentado um documentário sobre o restauro e a necessidade de fazer sua manutenção.

Sua localização
Região de Padre Gaspar
Área do distrito do Elvas e Caixa D’Água da Esperança,
Tiradentes/ Minas Gerais

Sobre a devoção a N. Sra. do Pilar
A devoção a N. Sra. do Pilar é muito antiga, surgiu quando o apóstolo São Tiago recebeu a incumbência de levar o nome de Cristo às províncias romanas da Espanha. Segundo a tradição, N. Sra. teria lhe pedido para ir, converter o maior número de almas e edificar um templo naquela região. Foi na cidade de Saragoza, às margens do rio Ebro, que seu trabalho teve mais êxito. Certa noite, ele ouviu vozes angelicais e se ajoelhou sobre um fragmento de uma coluna de mármore. Então, N. Sra. aproximou-se e lhe indicou o lugar para construir uma igreja, pedindo-lhe que colocasse o fragmento da coluna no altar. Tiago agradeceu a Maria pela ubiquidade, pois ela ainda estava viva. Essa foi considerada a primeira aparição de N. Sra. Ajudado por oito rapazes, Tiago iniciou a obra da igreja, colocando o fragmento da coluna no altar. Tempos depois, surgiu a devoção a N. Sra. do Pilar, que é venerada como padroeira da Espanha. No Brasil, seu culto é tradicional, especialmente nas vilas setecentistas. Ela é padroeira de muitas cidades como São João del Rei, Ouro Preto, Olinda, Recife, Curitiba e outras localidades.

Nota: imagens da fachada e altar-mor da Igreja de Nossa Senhora do Pilar, feitas pelo autor do texto.

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SÃO, SÃO PAULO MEU AMOR

Autoria de Lu Dias Carvalho

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O IV Festival da TV Record aconteceu em 1968. Das mais de mil músicas inscritas, 36 seriam escolhidas como semifinalistas. Além do júri oficial foi criado também um júri popular, a pedido dos compositores, portanto, haveria duas premiações.

Amedrontados com as vaias, muitos intérpretes antigos como Hebe Camargo, Agnaldo Rayol e Roni Von recusaram-se a participar. O que deu oportunidade a uma nova leva de cantores, dentre os quais se destacava Gal Costa. Outro problema a ser contornado era a censura às letras das canções, imposta pela ditadura militar, obrigando os compositores a negociar “palavras”.

As 36 músicas, divididas em duas apresentações de 18+18, transcorreram sem incidentes e vaias, quando apresentadas ao público, mas ainda não se encontravam em julgamento. Os organizadores estavam achando o clima tão chocho que sentiram saudades das vaias de outros festivais. Mas ainda não eram as eliminatórias. Eles não perderiam por esperar.

A primeira eliminatória trouxe 12 concorrentes. Tudo transcorreu na maior calmaria. Até demais! Mas na 2ª eliminatória o clima mudou. Elza Soares levantou a plateia com Sei Lá Mangueira (Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho). Divino, Maravilhoso (Gilberto Gil e Caetano Veloso) interpretada por Gal Costa também foi muito aplaudida. Na terceira eliminatória o clima pegou fogo, com direito a sopapo e xingamento entre os que defendiam a concorrente tradicional, representada pelo samba, e os que eram a favor da revolucionária, representada pelo tropicalismo. Martinho da Vila conquistou a plateia com o samba partido-alto Casa de Bamba. Por sua vez, Tom Zé foi aplaudido de pé ao apresentar São, São Paulo Meu Amor. Não houve euforia por parte da plateia quando Chico Buarque cantou Benvinda. E assim foram escolhidas as 18 músicas que iriam para a final.

Tom Zé e Gal Costa eram os cantores mais aplaudidos daquele festival. O prêmio seria dividido entre os seis primeiros classificados, por cada um dos júris. Se o compositor tivesse a sorte de estar presente na lista dos dois júris, ganharia em dobro. Haveria também outros prêmios.

Na grande final, São, São Paulo Meu Amor foi a sétima a ser apresentada. Por ali passaram Chico Buarque, cantando Benvinda, Milton Nascimento defendendo Sentinela, Taiguara interpretando A Grande Ausente, Os Mutantes cantando 2001, Gal Costa defendendo Divino, Maravilhoso, entre outros.

Assim ficou o resultado, levando em conta os dois júris, em que três canções foram duplamente premiadas.

Júri Oficial
6 – Benvinda (Chico Buarque)
5 – Dia da Graça (Sérgio Ricardo)
4 – 2001 (Tom Zé e Rita Lee)
3 – Divino, Maravilhoso (Gil e Caetano)
2 – Marta Saré (Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri)
1 – São, São Paulo Meu Amor (Tom Zé)

Júri Popular
6 – A Grande Ausente (Francis Hime e Paulo César Pinheiro)
5 – São, São Paulo Meu Amor (Tom Zé)
4 – Bonita (Geraldo Vandré e Hilton Acioly)
3 – A Família (Ary Toledo e Chico Anísio)
2 – Marta Saré (Edu Lobo e Guarnieri)
1 – Benvinda (Chico Buarque)

A plateia ficou satisfeita com a colocação do Júri Oficial, o que realmente foi levado em conta pela mídia.

Sei Lá Mangueira, de Hermínio e Paulinho da Viola, não se classificou entre as seis de nenhum dos júris, mas se transformou num grande sucesso. Anos depois, Paulinho cantou sua amada Portela em Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida. E Martinho da Vila iniciou aí sua carreira de sucesso com Casa de Bamba, mesmo sem ter sido classificada.

Conheçam agora a letra e ouçam a música finalista do IV Festival da Record:

São, São Paulo
Autor: Tom Zé
Intérprete: Tom Zé

São, São Paulo meu amor
São, São Paulo quanta dor
São oito milhões de habitantes
De todo canto em ação
Que se agridem cortesmente
Morrendo a todo vapor
E amando com todo ódio
Se odeiam com todo amor
São oito milhões de habitantes
Aglomerada solidão
Por mil chaminés e carros
Caseados à prestação
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São, São Paulo
Meu amor
São, São Paulo
Quanta dor
Salvai-nos por caridade
Pecadoras invadiram
Todo centro da cidade
Armadas de rouge e batom
Dando vivas ao bom humor
Num atentado contra o pudor
A família protegida
Um palavrão reprimido
Um pregador que condena
Uma bomba por quinzena
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São, São Paulo
Meu amor
São, São Paulo
Quanta dor
Santo Antonio foi demitido
Dos Ministros de cupido
Armados da eletrônica
Casam pela TV
Crescem flores de concreto
Céu aberto ninguém vê
Em Brasília é veraneio
No Rio é banho de mar
O país todo de férias
E aqui é só trabalhar
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São, São Paulo
Meu amor
São, São Paulo

Fontes de pesquisa
A era dos festivais/ Zuza Homem de Mello
Uma noite em 67/ Renato Terra e Ricardo Calil
Chico Buarque/ Wagner Homem

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Courbet – O ATELIÊ DO ARTISTA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Eu estou no centro, a pintar, à direita estão todos os participantes, isto é, os meus amigos artistas boêmios. À esquerda está o outro lado da vida quotidiana, o povo, a miséria, a riqueza, a pobreza, os explorados e os exploradores, pessoas que vivem dos mortos” (Courbet)

Na composição O Ateliê do Artista, Gustave Courbet mantém o tamanho grandioso das pinturas históricas, mas, por outro lado, pinta o seu estúdio em Paris, tal e qual o vê, sem usar nenhum tipo de idealização. O quadro foi elaborado durante dez meses, para ser exposto na Exposição Universal em 1855, em Paris, mas foi rejeitado pela comissão responsável pela seleção das obras, apesar de ser considerado uma obra-prima do pintor. Aqui estão presentes 30 figuras, mostradas em tamanho natural, ganhando mais destaque a mulher nua, que chama para si o olhar do observador. A composição pode ser dividida em três grupos, levando em conta a posição do observador:

• os amigos (à direita)
• o artista pintando (central)
• as pessoas do “mundo comum” (à esquerda)

No centro da composição, cercado pela rotina diária, o pintor, tendo em mãos sua paleta de tintas e pincel, complementa sua enorme tela. Em torno dele encontra-se um grande número de pessoas das mais diferentes classes sociais. Não há um porquê definido de elas se encontrarem ali reunidas. Segundo o próprio pintor, as que se encontram do lado esquerdo representam “o mundo comum, onde se encontram as massas, a miséria, a pobreza, a riqueza, os explorados, os exploradores, aqueles que prosperam com a morte”, normalmente rejeitados pela arte. E à direita estão “meus amigos, colegas de trabalho, amantes da arte – aqueles que prosperaram com a vida”.

Vamos aos detalhes:

1. Na mesa situada à esquerda do pintor, sobre um jornal, está um crânio, lembrando a presença da morte.
2. No grupo em que se encontram os explorados é possível destacar a presença de um chinês, um judeu, um revolucionário, um operário, um irlandês, um padre, um comerciante de tecidos oferecendo sua mercadoria e um caçador com seus cães.
3. Aos pés do caçador está um chapéu com uma pluma, uma capa, um violão e uma adaga.
4. Atrás do cavalete de Courbet vê-se um boneco articulado, na pose de crucificação, usado pelos artistas tradicionais, simbolizando a arte acadêmica rejeitada pelo pintor. Ele se parece com um santo martirizado e está fora do campo de visão do artista.
5. Courbet pinta uma paisagem de sua terra natal, embora naquela época este tipo de pintura não fosse bem vista pelo academicismo.
6. Ao lado do pintor um garotinho ingênuo e pobre mostra-se extasiado diante da pintura.
7. Atrás de Courbet uma modelo despida representa a verdade nua que guia seu trabalho. Ela e a criança representam o verdadeiro ideal da arte.
8. À direita no grupo dos amigos o poeta Charles Baudelaire lê um livro, recostado a uma mesa de madeira.
9. O escritor Champfleury está assentado no meio do grupo de amigos do pintor.
10. Dois quadros são vistos ao fundo.
11. Na época causou escândalo junto aos puritanos da época a presença de uma criança junto a uma mulher nua.

O Ateliê do Artista não é somente uma das obras-primas do século XIX, mas um documento político, um testemunho da luta travada por Courbert e muitos de seus contemporâneos contra as ideias e as forças dominantes da época.

Ficha técnica:
Ano: 1855
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 361 x 598 cm
Localização: Musée d’Órsay, Paris, França

Fontes de pesquisa:
Arte em detalhes/ Publifolha
Grandes Pinturas/ Publifolha
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann

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FRANS KRAJCBERG – A BRUTEZA DO HOMEM…

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Com minha obra, exprimo a consciência revoltada do planeta. Desde então, o que faço é denunciar a violência contra a vida. Esta casca de árvore queimada sou eu. (Frans Krajcberg)

Frans Krajcberg faz parte desta raça de homens que são raros, automarginalizados, muito individualistas, mas também muito generosos na sua solidão. A vida foi rude para ele e as provas da última guerra marcaram-no para sempre. A floresta brasileira foi ao mesmo tempo o meio, o teatro e o agente de uma verdadeira renovação humana – a redenção de Frans Krajcberg pela arte. (Pierre Restaney)

Cresci neste mundo chamado natureza, mas foi no Brasil que ela me provocou um grande impacto. Eu a compreendi e tomei consciência de que sou parte dela. (Frans Krajcberg)

O pintor, escultor, gravador, artista plástico e fotógrafo polonês Frans Krajcberg, naturalizado brasileiro, possui uma forma diferente de denunciar os estragos feitos pelas queimadas em nosso país: transforma troncos ressequidos e pedaços de árvores queimadas em esculturas.

O trabalho de Frans Krajcberg é um grito pungente de dor e de alerta, diante da destruição sem limites da natureza pelo homem. São epitáfios de protesto. São as cruzes que anunciam a presença da morte, onde só havia vida, em toda a sua plenitude. Quantas espécies de animais não morreram ou tiveram que migrar para o entorno das cidades, quando tiveram suas árvores arrancadas ou queimadas?

O artista, por ser judeu, foi perseguido pelos nazistas. Sua família foi dizimada pelo Holocausto. Chegou ao Brasil em 1948, aos 27 anos, incentivado pelo amigo e artista plástico Marc Chagall. Nos anos de 1950, morou no Pico da Cata Branca, numa caverna, na região de Itabirito, e no interior mineiro, onde era conhecido como o Barbudo das Pedras, pois além de viver sozinho e totalmente desprovido de conforto, tomava banho no rio, enquanto criava seus trabalhos em pedra (gravuras e esculturas). Em 1956 retornou ao Rio de Janeiro.

Atualmente Frans Krajcberg mora no Sítio Natureza, município de Nova Viçosa, Bahia, onde trabalha em seu ateliê, numa casa situada a sete metros do chão, no tronco de um pé de pequi, com 2,60 metros de diâmetro, construída com a ajuda de seu amigo Zanine Caldas, arquiteto. O artista plantou milhares de mudas de espécies nativas ali. Dois pavilhões abrigam suas obras artísticas. Futuramente, o local abrigará um museu com o seu nome.

As primeiras esculturas com madeiras mortas começaram a ser executadas pelo artista a partir de 1964, em cedros. Esteve diversas vezes no Pantanal mato-grossense e na Amazônia, onde, além de documentar os estragos feitos pelo desmatamento, também recolheu raízes e troncos queimados, material para seu trabalho. Suas esculturas de madeira trouxeram-lhe fama internacional.

Frans Krajcberg é um genuíno defensor da natureza, um atuante ativista ambiental, tendo abraçado várias causas para protegê-la, como por exemplo, denunciou queimadas no estado do Paraná, o desmatamento da Amazônia brasileira e a exploração de minérios no estado de Minas Gerais; atuou em defesa das tartarugas marinhas que buscam o litoral do município de Nova Viçosa para a desova, e se colocou na frente de um trator para evitar a abertura de uma avenida na cidade de Nova Viçosa.

Ele explica o porquê de usar material morto em sua obra:

Como posso gritar? Se grito na rua, vão me levar ao hospital como doido. Eu gostaria de mostrar uma fotografia com as três montanhas de corpos dos campos de concentração, mas não tenho essa foto, ou botar a imagem da árvore com os índios nessa exposição que fiz em São Paulo. Mas isso eu não consigo. Então, eu trouxe comigo pedaços de árvore, que o fogo deixou, unidos em escultura. É o único grito que posso dar, para mostrar minha revolta contra uma sociedade que só sabe exibir a brutalidade do homem com a vida. Está na hora de parar com isso.

A causa de ter sido tão solitário:

Detestava os homens. Fugia deles. Levei anos para entrar em casa de alguma pessoa. Isolava-me completamente. A natureza deu-me a força, devolveu-me o prazer de sentir, de pensar e de trabalhar. De sobreviver. Quando estou na natureza, eu penso a verdade, eu falo a verdade, eu me exijo verdadeiro.

Fontes de pesquisa:
Pancron News
Blog Mercado Arte

Conheça mais sobre o artista visitando
http://www.mercadoarte.com.br/artigos/artistas/frans-krajcberg/frans-krajcberg/

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SABIÁ

Autoria de Lu Dias Carvalho

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,O III FIC (Festival Internacional da Canção) promovido pela TV Globo, em 1968, acontecia em meio à revolta geral dos jovens contra a voracidade do sistema capitalista. No Brasil, o inimigo mais voraz era a ditadura militar. Em todo o mundo surgiam líderes estudantis como Vladimir Pereira, Luís Travessos, José Dirceu e José Arantes, no Brasil; e Daniel Cohn-Bendit, na França. A Passeata dos Cem Mil, contando com a participação de Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Milton Nascimento, foi realizada com estrondoso sucesso. Apesar de tudo isso, um grupo tentava organizar o III FIC, procurando selecionar 24 músicas entre as 1.008 inscritas, na fase paulista.

Nas duas fases paulistas foram selecionadas 12 músicas. Dessas, foram classificadas seis para as vagas atribuídas a S. Paulo, que concorreriam à grande finalista nacional.

Nesta primeira fase, o que chamou a atenção foi o modo esdrúxulo com que Caetano Veloso apresentou-se, num exotismo para lá de louco. Ao reapresentar sua música É Proibido Proibir, classificada, recebeu vaias e tomates. Nem era possível ouvi-lo.

A novidade da segunda fase foi a desclassificação de Questão de Ordem, de Gilberto Gil, mostrando que plateia e júri não viam com bons olhos o tropicalismo, apresentado pelos gurus da Tropicália (Gil e Caetano).

Havia também uma preocupação com a música de Geraldo Vandré, Caminhando, em razão da ditadura militar. Imaginava a organização do Festival que ela não iria longe, mas não era o que parecia, pois seu refrão logo se tornou cantado pela plateia (Vem, vamos embora/que esperar não é saber/quem sabe faz a hora/não espera acontecer).

No final da fase paulista, quando seriam escolhidas as seis finalistas para o festival nacional, o clima pegou fogo. Os Mutantes foram os primeiros a serem vaiados. Ao cantar Caminhando, Vandré viu a plateia atritar-se, os grupos brigando entre si, sendo necessária a intervenção policial. Por sua vez, os estudantes mais politizados criticavam a postura de Caetano e Gil, que não se opunham à ditadura, e ainda apareciam como se estivessem participando de um folguedo, sem nenhuma postura política, ao contrário de Geraldo Vandré (mas o futuro traria outra mensagem).

Quando Caetano Veloso foi apresentar É Proibido Proibir, além de sua vestimenta bizarra, rebolava e imitava o ato sexual, provocando a plateia, onde muitos lhe viraram as costas. Em vez de cantar, ele passou a fazer um discurso inflamado, criticando a juventude, mas ninguém conseguia ouvir nada. E vieram ovos, tomates, bananas, papel… e até um pedaço de madeira voou e atingiu Gil, abraçado a Caetano, no palco.

As seis classificadas paulistas para o festival nacional foram:
• Caminhando – Geraldo Vandré
• Oxalá – Teo de Barros
• América, América – Cesar Roldão Vieira
• Dança da Rosa – Chico Maranhão
• Canção do Amor Amado – Sérgio Ricardo
• É Proibido Proibir – Caetano Veloso

A final seria no Maracanãzinho. Dentre as canções cariocas que iam fazer parte da final, Salmo, Andança, Sabiá, Maré Morta, Meu Sonho Antigo e Dia de Vitória, eram as mais faladas pela imprensa. Caetano resolveu não participar. Os artistas estrangeiros estavam temerosos de participar do FIC, com medo de vaias, mesmo assim grandes nomes internacionais vieram ao país.

A primeira eliminatória nacional apresentou 23 canções. Saíram bem cotadas: Dia da Vitória (Marcos Valle), Andança (Danilo Caimmi, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós), Na Boca da Noite (Toquinho e Paulo Vanzolini) e Caminhante Noturno (Os Mutantes).

Na segunda eliminatória nacional, Cynara e Cybele apresentaram Sabiá (Tom Jobim e Chico Buarque), sendo muito aplaudida. Caminhando (Geraldo Vandré) foi tão aplaudida, que Vandré ficou muito emocionado, chegando a passar mal fora do palco. Rainha do Sobrado (Eduardo Sousa Neto) foi também muito aplaudida, assim como Sonho (Egberto Gismonti) e América, América (Cesar Roldão Vieira).

A direção do Festival recebeu um comunicado, vindo dos mandantes da ditadura, que as canções Caminhando e América, América não poderiam ganhar o festival. Mas os notificados resolveram deixar as coisas acontecerem.

Na finalíssima, a plateia cantou junto a letra de Caminhando (ou Para Não Dizer Que Não Falei de Flores), Andança (Paulinho Tapajós) e Sabiá (Tom Jobim). E assim ficou a classificação final:

1ª Sabiá (Tom Jobim/ Chico Buarque)
2ª Caminhando (Vandré)
3ª Andança (Danilo Caimmi, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós)
4ª Pascalha (Quarteto 004)
5ª Dia de Vitória (Marcos Valle)
6ª Caminhante Noturno (Os Mutantes)

A maior parte do público contestou o resultado numa grande vaia, não aceitando Caminhando em segundo lugar. Era impossível ouvir Cynara e Cybele cantando Sabiá, após seu anúncio como finalista. (Vejam o vídeo abaixo). Conheçam agora sua letra e ouçam a belíssima canção:

Sabiá
Autores: música de Tom Jobim e letra de Chico Buarque
Intérpretes: Cynara e Cybele

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De uma palmeira que já não há
Colher a flor que já não dá
E algum amor talvez
Possa espantar as noites
Que eu não queria
E anunciar o dia

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos
De me enganar
Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecer

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
E é pra ficar
Sei que o amor existe
Eu não sou mais triste
E que a nova vida
Já vai chegar
E que a solidão
Vai se acabar

https://www.youtube.com/watch?v=Zhxcu55PRHI/

Fontes de pesquisa
A era dos festivais/ Zuza Homem de Mello
Uma noite em 67/ Renato Terra e Ricardo Calil
Chico Buarque/ Wagner Homem

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