SÚPLICA DO SERTANEJO ANTE A SECA

Autoria de Lu Dias Carvalho rat1

Que vergonheira, meu bom Deus,
tanto pra mim e para vossa mercê,
tô mendigando ua cuia de comida,
pra poder matar a chibateira fome
neste meu agourento e cruel viver.

Eu, moço, com as mãos calejadas
de tanto trabalhar naquele roçado,
agora, forçado, estou cá na cidade,
lembrando que já fui bom homem,
dono de muita força e de muita fé.

Perto de mim, meus companheiros
de tão cainha e miseranda fortuna
erguendo cuia, tigela e lata na mão,
afilhados da mesmíssima desgraça,
camaradas do mesmíssimo sertão.

Meu pai, ao lado, velho e cansado,
estende vergonhoso sua lata, e coa
outra mão, tapa o rosto descarnado,
abastado de vergonha e desalento,
nesta vida ignara de tanta vexação.

Peço ao Deus, Pai dos miseráveis,
que tudo sabe, que tudo sente e vê,
que olhe pra nossos pés chagados,
pela terra urente tisnados, imolados,
na falta de uma alpercata, sequer.

De tudo que tinha sobrou a enxada,
a boa companheira de cada dia, meu
puído chapéu e a vestidura rasgada.
Todo o resto queimou-se na fogueira
do descaso dos donos deste Estado.

Deus, senhor de tudo, tende piedade!
será que nossa indigência é tamanha
que vossa mercê nem mesmo nos vê?
Se delongar muito inda fica mais difícil
de ter fé e de acreditar em Vosmicê.

Ficha técnica
Foto: Pierre Verger
Ano: 1950
Localização: Fundação Pierre Verger

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Dalí – APARIÇÃO DO ROSTO E FRUTEIRA NUMA PRAIA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Na composição acima, Dalí apresenta diversos elementos que, ordenados, formam uma paisagem, um cão e o rosto de uma mulher. Para ficar mais fácil para o leitor, vamos identificar primeiro o cão:

1- Observe da esquerda para a direita da pintura, o cão tomando toda a tela. A parte traseira do animal começa à esquerda, o meio de seu corpo é feito pela fruteira com peras, e sua cabeça encontra-se à direita, olhando para fora da tela. Ele paira em pleno ar.

2- No canto superior direito encontra-se uma onírica paisagem, onde aparece uma baía com suas ondas, e uma montanha com um túnel, mas que também é a cabeça do cão, sendo que sua coleira forma um viaduto ferroviário sobre o mar.

3- A fruteira com peras, que forma a parte central do cão, forma também o rosto de uma mulher, fronte e nariz, cujos olhos são feitos de conchas marinhas.

Nesta intrigante paisagem, muitos elementos são reconhecíveis, outros não. Havendo inúmeros significados. Mas a tela é tão surpreendente que o observador não se preocupa com o seu significado. Será que você foi capaz de enxergar o grande cão? Observe agora o segundo quadro.

Ficha técnica
Ano:1938
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 114,2 x 143,7 cm
Localização: Wadsworth Atheneum, Hartfork, Connecticut, EUA

Fonte de pesquisa
A História da Art/ E.H. Gombrich

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Dalí – LEDA ATÔMICA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Para fazer sua conhecida composição Leda Atômica, Dalí foi buscar inspiração na mitologia grega, tomando por base a lenda em que Zeus, o pai dos deuses, ao se encantar pela mortal Leda, casada com Tíndaro, da Espanha, transforma-se num cisne para dela se aproximar.

Dalí, que morou nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, tendo tomando conhecimento das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, passou a se interessar pela física atômica, que demonstrava que as partículas não se tocam fisicamente. Para ele, a descontinuidade da matéria passou a ser uma das descobertas mais fascinantes. E foi aliando a lenda grega ao novo conhecimento que ele pintou Leda Atômica, servindo sua mulher Gala, sua eterna musa, de modelo.

Na composição, Leda levita sobre um pedestal, que por sua vez também flutua, como mostra sua sombra na areia. O cisne, os ovos (uma referência à lenda), o livro, o esquadro e, inclusive as águas do mar, como podemos ver pela sombra na areia, também flutuam. O esquadro mostra duas sombras, uma na água e outra na areia. Observe o leitor que o cisne é o único elemento que não produz sombra, o que demonstra a sua divindade. Conforme a física atômica, nenhum objeto é capaz de se tocar. A própria Leda tenta tocar na cabeça do cisne, sem conseguir finalizar sua ação.

Ao contrário de pintores como Michelangelo, Rubens e Poussin, que pintaram o mito de Leda e o Cisne, dando-lhe uma conotação sexual, Dalí preferiu sublimar o sentimento, transformando o desejo numa sexualidade espiritualizada, ou seja, sem contato o amor torna-se espiritual, ao contrário do carnal que exige o toque.

Foi utilizada na composição a chamada “divina proporção” do renascentista Luca Pacioli, praticada por Leonardo da Vinci. De modo que Leda e o cisne situam-se no centro de um pentágono (figura de cinco ângulos), onde também se encontra uma estrela de cinco pontas. Leda tem sua perna direita dentro da ponta inferior esquerda da estrela. Por sua vez, as pontas laterais do alto da estrela demarcam a linha do horizonte. A cabeça de Leda encontra-se dentro da ponta superior da estrela.

Ao contrário de muitos pintores que viam na matemática um empecilho à criatividade, Dalí fazia parte daqueles, que acreditavam, que toda obra devia se basear em composição e cálculos matemáticos. Ao fundo, estão as rochas da Catalunha tão presentes nas obras do pintor.

Ficha técnica:
Ano: 1949
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 61,1 x 45,3 cm
Localização: Fundação Gala-Salvador Dalí, Figueras, Espanha

Fontes de pesquisa
Dalí/ Coleção Folha
Dalí/ Abril Coleções
Aventuras na História/ Editora Abril

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Dalí – AUTORRETRATO COM L’ HUMANITÉ

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Como Dalí fosse um artista extremamente narcisista, não é de se espantar que estivesse presente em muitas de suas obras. Esta sua composição, Autorretrato com L’Humanité, já apresenta traços do cubismo e dos metafísicos italianos. O preto está fortemente presente no seu trabalho.

A obra apresentada trata-se de um autorretrato do pintor, em pose frontal, em que ele une seus traços com os objetos da tela. Essa sua linha de composição pode ser dividida em três tipos:

• de gênero – feitos na sua juventude;
• os surrealistas – em que agregava seus traços aos objetos apresentados;
• os duplos – apresentava-se ao lado de sua esposa Gala. Esses feitos ao final de sua próspera carreira.

A figura central e, que toma a maior parte da tela, tem atrás de si uma série de quadros retangulares, numa alusão à obra do pintor, feitos em aquarela e colagem de papeis.

O retrato do pintor é parecido com uma figura geométrica: o rosto longo e ovalado não possui boca, e o nariz está incompleto; os cabelos negros são compridos e simétricos; longas e curvas sobrancelhas negras parecem tocar os cabelos; os olhos escuros, amendoados, parecem orientais; o corpo, coberto por um uniforme azul que lembra um operário, tem a forma de um retângulo invertido.

À esquerda da figura é possível ver o cabeçalho do periódico comunista L’Humanité, fundado em 1904, que o pintor assinava, talvez por isso, ele tenha se pintado como um operário. O artista engajou-se politicamente durante o primeiro ano de seus estudos em Madri.

Ficha técnica:
Ano: 1923
Técnica: aquarela, óleo e colagem sobre cartão
Dimensões: 105 x 74 cm
Localização: Fundação Gala-Salvador Dalí, Figueras, Espanha

Fontes de pesquisa
Dalí/ Coleção Folha
Dalí/ Abril Coleções

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Dalí – A MADONA DE PORT LLIGAT

Autoria de Lu Dias Carvalho

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A sua mostra de catolicismo parece aos olhos de todos uma verdadeira brincadeira. Ninguém crê, ninguém pode crer que haja um grão de sinceridade religiosa nas suas abordagens à Santa Igreja Romana. (Edward James em carta a Dalí)

É como se um caixeiro viajante que oferece sempre ‘nus artísticos’ tenha, improvisadamente, mudado a sua mercadoria para santinhos em miniatura. (Osbert Lancaster)

Após regressarem dos Estados Unidos, em 1948, Dalí e Gala foram morar em Port Lligat, no litoral da Catalunha, onde o casal encontrou-se pela primeira vez. Foi nessa época que, levando em conta a invenção da fotografia instantânea, o pintor concluiu que a pintura moderna estava antiquada, só havendo uma maneira de ela continua existindo: a volta ao uso da técnica usada pelos grandes mestres do Renascimento.

Na sua composição A Madona de Port Lligat, cujo estilo foi denominado de “místico-nuclear”, Dalí, impressionado com as descobertas científicas, principalmente no campo da física nuclear e da energia atômica, tentou recriar a fissão nuclear desmaterializando figuras e objetos, que vagueiam no espaço, demonstrando a inexistência de gravidade e a divisão da matéria.

A Madona de Port Lligat é um quadro gigantesco em que Gala, figura central, serve de modelo para a Virgem Maria, sob um arco. Com as mãos em posição de prece, ela observa o Menino Jesus levitando em seu colo, com a cabecinha baixa e os braços abertos. Tanto o tronco da Virgem Maria quanto o de Jesus estão ocos, sendo possível enxergar a linha do horizonte através deles. No tronco do Menino também flutua o pão da Eucaristia. De uma enorme concha, acima da cabeça da Virgem, desce um fio que segura um ovo, e divide o quadro em duas partes iguais, de modo que o Menino e o pão situam-se exatamente no centro da composição.

Na cena, quase todas as coisas são flutuantes, como comprovam as sombras abaixo delas, como se tudo acontecesse em outro plano. Dalí funde religião, ciência e arte. O altar, feito de um pesado móvel que também flutua, tem sobre si elementos terrenos, que permanecem imóveis: banda de um ouriço-do-mar, flor de amendoeira, pano, oliva, peixe e cesto de pão. Como nos quadros renascentistas, Dalí apresenta em sua composição vários símbolos religiosos: o peixe, que simboliza o cristianismo; o fruto de oliveira que simboliza a perseverança; o meio ouriço que é uma alusão à concha do peregrino.

A grande concha acima da cabeça da Virgem tanto pode estar ligada à pia batismal como pode aludir à fertilidade feminina. O ovo simboliza a origem da vida, o mundo e a perfeição. Pode representar, também, o renascimento de Dalí como pintor. Duas noivas levitantes também possuem o rosto de Gala. Três sépias (uma espécie de molusco) também têm a forma de Gala, como anjos. O rinoceronte tanto pode ser uma alusão ao unicórnio, que simboliza a pureza e a força, só podendo ser tocado por uma virgem, como a seu chifre, elemento fálico. Outros detalhes são elementos constantes na pintura de Dalí. A paisagem refere-se à baía de Por Lligat. Gala, ao representar o papel da Virgem Maria, simboliza a esposa, companheira, musa e salvadora do pintor.

O quadro menor trata-se da primeira versão do quadro em que a Madona de Por Lligat (1949) encontra-se dentro de um espaço renascentista. Tudo se encontra em estado de desintegração por falta de gravidade. A concha e o ovo simbolizam a origem da vida. Na tela estão reunidos elementos clássicos, místicos e atômicos.

Ficha técnica
Ano: 1950
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 366 x 244 cm
Localização: Fukuoka Art Museum, Fukuoka, Japão

Fontes de pesquisa
Dalí/ Coleção Folha
Dalí/ Abril Coleções
Dalí/ Coleção Girassol

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A POBREZA E A REVOLTA CIVIL

Autoria de Lu Dias Carvalho rat123

A miséria quase sempre está no comando das revoltas civis que acontecem em todo o mundo. E não foi diferente no Brasil, embora nosso país tenha passado por poucas guerras civis, a exemplo da Guerra de Canudos, Guerra do Contestado, Revolta da Armada, Revolução Constitucionalistas, Revolução Federalista, Revolução de 1930, etc.

Dentre as guerras civis no Brasil, capitaneadas pela miséria, está a Guerra de Canudos, que aconteceu numa das regiões mais pobres do país, em que tudo faltava à gente do lugar e onde poucos tinham um mínimo de escolaridade, deixando-se levar pelo discurso religioso e social do peregrino Antônio Conselheiro. O conflito na comunidade de Canudos, no interior do estado baiano, durou um ano. Na região imperava os grandes latifúndios improdutivos e, quando a seca chegava, os sertanejos e ex-escravos nada tinham para beber e comer, ao contrário dos graúdos que tinham suas casas em lugares distantes do flagelo.

O que aquela gente queria era ser salva das garras da seca e da humilhação que ela trazia às suas famílias. Queria participar da vida econômica e social de seu país. Portanto, ao encontrar alguém que lhes trazia esperança, não hesitaram a ele se juntar.

A foto acima, tirada pelo fotógrafo Flávio de Barros, que documentou a Guerra de Canudos, mostra um ex-escravo, com suas vestes de ir à igreja, diante da choça onde vive, edificada com barro e palha. Ao fundo, podemos observar outras moradias semelhantes, sendo possível captarmos a extrema miséria em que vivia aquela gente.

Ficha técnica
Ano:1896
Autor: Flávio Barros
Localização: Arquivo Histórico do Museu República

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