PEDRO PEDREIRO

Autoria de Lu Dias Carvalho

chicob

Quando fiz “Pedro Pedreiro” tive a sensação de que pela primeira vez estava compondo uma música realmente minha, que não era mais imitação da Bossa Nova. (Chico Buarque)

Segundo Chico Buarque, esta canção, Pedro Pedreiro, feita em 1965, fazia parte do movimento de oposição à ditadura instalada pelo Golpe Militar de 1964. Naquela época, ainda era possível contestar através do cinema, do teatro e da música, enquanto fora de tais espaços tudo estava proibido. O mundo das artes ainda conseguia furar o esquema repressivo.

É interessante notar que Chico, a exemplo de Guimarães Rosa, a quem sempre admirou, criou uma palavra nova, inexistente no dicionário da língua portuguesa. Reservo ao leitor alguns minutos para que a encontre. A música Pedro Pedreiro foi lançada no disco Chico Buarque de Hollanda, sendo também gravada em italiano.

A canção Pedro Pedreiro possui 60 versos e a palavra “esperando” aparece 36 vezes. E, como já naquela época, os meios de comunicação estivessem mais preocupados com os ganhos financeiros de que com a qualidade da mercadoria, um dos produtores do programa de Abelardo Barbosa (Chacrinha) dirigiu-se abruptamente ao cantor e compositor, referindo-se ao tamanho de sua canção, dizendo:

– Não dá para esse trem chegar mais cedo, não?

Chateado com o desrespeito do moço, Chico simplesmente apanhou seu violão e deixou a TV Excelsior, pois jamais estropiaria sua música para agradar a mídia. Não sabia o atrevido produtor  da besteira que acabara de cometer, pois o sucesso de Pedro Pedreiro foi tão grande que Chico Buarque foi convidado por Roberto Freire para musicar o auto de Natal do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina (1955). Chico tinha apenas 21 anos de idade à época.

A peça Morte e Vida Severina viria a ganhar o primeiro prêmio no IV Festival Internacional de Teatro Universitário de Nancy – França, sendo aplaudida pela plateia por mais de 10 minutos. (A palavra criada pelo compositor é “penseiro”)

Pedro Pedreiro
Autoria: Chico Buarque
Intérprete: Chico Buarque

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro pedreiro fica assim pensando
Assim pensando o tempo passa
E a gente vai ficando prá trás
Esperando, esperando, esperando
Esperando o sol,
Esperando o trem
Esperando aumento
Desde o ano passado
Para o mês que vem
Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro pedreiro espera o carnaval
E a sorte grande do bilhete pela federal
Todo mês
Esperando, esperando, esperando,
esperando o sol
Esperando o trem,
Esperando aumento
Para o mês que vem
Esperando a festa
Esperando a sorte
E a mulher de Pedro,
Está esperando um filho
Pra esperar também
Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Pedro pedreiro está esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro Norte
Pedro não sabe, mas talvez no fundo
Espere alguma coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar,
Mas pra que sonhar
se dá o desespero de esperar demais
Pedro pedreiro quer voltar atrás
Quer ser pedreiro pobre e nada mais
Sem ficar esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando aumento para o mês que vem
Esperando um filho pra esperar também
Esperando a festa,
Esperando a sorte
Esperando a morte,
Esperando o Norte
Esperando o dia de esperar ninguém
Esperando enfim nada mais além
Da esperança aflita, bendita, infinita
Do apito de um trem
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem
Que já vem, que já vem, que já vem (etc)

Nota: ouçam a gravação em:https://www.google.com.br/#q=Chico+-+PEDRO+PEDREIRO

Fontes de pesquisa
Chico Buarque/ Wagner Homem/ Editora LeYa
Coleção Chico Buarque/ Editora Abril

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Dalí – A ÚLTIMA CEIA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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O pintor espanhol Salvador Dalí buscou na composição homônima de Leonardo da Vinci inspiração para compor a sua tela A Última Ceia. Fez uso também da “divina proporção”, usada pelo pintor italiano.  Sua cena está contida num retângulo. Uma imensa janela ao fundo, representada por um dodecaedro (figura geométrica de 12 lados, que sua vez são pentágonos, ou seja, possuem cinco ângulos cada um) domina toda a composição.

Jesus Cristo e seus 12 apóstolos estão reunidos numa sala moderna, envidraçada. Ele ocupa o centro da mesa de pedra, o centro da tela e o centro do pentágono frontal do dodecaedro. Cristo está de frente para o observador, contudo, seu corpo translúcido permite ver o mar e um barco, o que indica que ele não mais é humano, mas divino. A sensação que temos é de que seu corpo emerge de dentro do mar. Diante de Cristo, sobre a mesa, estão: um copo com vinho e as duas bandas do pão já repartido, o que nos permite concluir que Dalí pintou o momento da Eucaristia. A presença dos barcos no mar remete aos “pescadores de homens”.

A mesa é formada por um bloco retangular. Doze apóstolos debruçam-se sobre ela, sendo três à esquerda de Cristo e três à direita. Nas suas extremidades estão quatro apóstolos, sendo dois de cada lado. De costa para o observador estão mais dois deles. Todos estão com as cabeças baixas. Um dos apóstolos diverge dos demais, ao usar uma toga amarela. O pintor queria, com certeza, diferenciá-lo. Portanto, tanto pode ser Pedro, o fundador da Igreja, ou Judas, o traidor.

No alto, com a cabeça invisível e com parte do tronco visível e os braços abertos, Deus Pai humanizado, abraça toda a cena, como se aguardasse a chegada do Filho, que se encontra entre os homens. Ao fundo, um mar tranquilo com rochas espalhadas e um céu cheio de nuvens compõem o segundo plano da tela.

Não poderia ser um quadro de Salvador Dalí, se não provocasse polêmica. O fato é que muitos críticos atribuem o rosto de Cristo como sendo o de Gala. Ao contrário dos apóstolos, que somente possuem cabeça e mãos à vista, um fino manto cobre apenas a parte direita do tronco do Mestre.

Ficha técnica
Ano: 1955
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 166,7 x 267 cm
Localização: National Art Gallery, Washington, EUA

Fontes de pesquisa
Dalí/ Coleção Folha
Dalí/ Abril Coleções

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Johannes Sotter – A MULHER QUE VIROU ARARA

Autoria de Lu Dias Carvalho

arara   sapo

Hoje recebi uma postagem com esta maravilhosa arara que engana a nossa visão, pois, ao olharmos com mais argúcia, veremos que se trata de uma mulher. Trabalho feito pelo artista e músico italiano Johannes Sotter. Segundo seu site, todas as suas obras estão voltadas para o espiritual e para o relacionamento com a natureza. Seu trabalho hoje, já muito vasto, está sendo apreciado em todo o mundo.

A arara de que falo acima é, na realidade, uma mulher assentada sobre um tronco de madeira. Para uma melhor visualização por parte dos leitores, vou mostrar alguns detalhes que ajudam na identificação:

1. A perna esquerda da modelo forma a cauda da ave.
2. A perna direita, dobrada e apoiada no tronco, forma uma das asas.
3. Seu braço esquerdo, levantado e postado em torno da cabeça, forma a cabeça e o bico do animal.
4. O braço direito, apoiado no tronco da árvore, ajuda a compor o resto do corpo da ave.

Vejam também a beleza desta rã. Perfeita, não? Mas ela também tem os seus mistérios e cabem a vocês os encontrar.

Conheçam mais obras deste artista fantástico, acessando o Google: Imagens de johannes stötter

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Dalí – SONHO CAUSADO PELO VOO DE …

Autoria de Lu Dias Carvalho

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O ruído da abelha provoca aqui a picada do dardo que desperta Gala. Toda biologia criativa surge da romã reinventada. No fundo, o elefante de Bernini leva um obelisco com os atributos papais. (Dalí)

Esta obra possui um pomposo nome, do tamanho do ego do pintor espanhol Salvador Dalí: Sonho causado pelo voo de uma abelha em torno de uma romã um segundo antes de acordar. Foi inspirada num sonho de Gala.

Gala, nua e com os cabelos molhados, é a figura central da composição. Encontra-se levitando sobre uma estrutura rochosa plana, que também levita acima de um mar azul e tranquilo. À sua esquerda, levitam uma romã e duas gotas de água, conforme comprova a sombra das mesmas. É o zumbido da abelha, que provoca o delirante sonho, com imagens que parecem querer agredi-la.

À direita de Gala está uma enorme romã madura, símbolo do erotismo e da paixão, da qual nasce um enorme peixe que, por sua vez, lança para fora dois grandes tigres enfurecidos, símbolo de paixão e violência vital da natureza. À esquerda de tais figuras, um elefante com enormes pernas, desloca-se carregando um obelisco nas costas, que se trata de uma alusão fálica. Para o pintor, esse animal representa a força, a longevidade e a sabedoria. Quase tocando o braço de Gala encontra-se uma baioneta, também simbolizando a abelha que está prestes a picá-la e despertá-la.

Em primeiro plano está uma pequena romã levitando. Sua sombra forma um coração, simbolizando o amor do pintor por sua mulher. Uma abelha voa em torno da romã. Duas sementes da grande romã, à direita de Gala, estão caindo em direção ao mar. Como a romã é o símbolo da Virgem Maria e está relacionada com a fertilidade, Dalí disse se tratar de “biologia criativa”.

Curiosidade
Declaração de Adolf Hitler, 1937, sobre os surrealistas:
“Pintam assim, porque veem as coisas assim, então esses desgraçados deveriam morrer em um departamento do Ministério do Interior, ou ser recolhidos ali para esterilizá-los, a fim de evitar que se propague sua desgraçada herança.”

Ficha técnica
Ano: 1944
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 51 x 41 cm
Localização: Museu Thyssen-Bornemisza, Madri, Espanha

Fontes de pesquisa
Dalí/ Coleção Folha
Dalí/ Abril Coleções
Dalí/ Coleção Girassol

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Dalí – O ANGELUS DE GALA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Dalí parecia ver repressão sexual em tudo. O quadro O Angelus, 1859, do pintor francês Millet, fascinava-o, tendo realizado inúmeras interpretações da obra, no seu modo paranoico de ver as coisas. Para ele, no cansaço, os camponeses erotizavam seus instrumentos de trabalho. Segundo o pintor, o quadro de Millet foi responsável por despertar o instinto sexual nele e na esposa Gala.

Na composição O Angelus de Gala, ele representa sua esposa duplamente: Gala de frente para Gala. Sendo que a que se encontra de costas para o observador está em tamanho maior, bem superior à de frente. Segundo Dalí, são os dois lados de sua mulher confrontando-se “cara a cara”.

A Gala de frente para o observador está sentada sobre um carrinho de mão, instrumento de trabalho dos camponeses e, portanto, segundo a visão do pintor, um instrumento erotizado. Ela demonstra uma atitude hostil, como mostram seus olhos apertados, o corpo ereto, as mãos contidas no colo e o olhar inflexível direcionado à outra Gala. Talvez seja essa a que amedronta o pintor, que chegou a registrar que, quando adolescente, tinha horror ao ato sexual.

A Gala a de costas está sobre o que se parece com uma caixa. Ambas estão de saia, blusa interna e jaqueta de brocados. São fantásticos os bordados das jaquetas, podendo ser vistos em minúcias, o que demonstra a capacidade do artista em trabalhar com detalhes.

Ao fundo, detrás da cabeça de Gala, está uma variação do quadro de Millet. Observe o leitor que o homem tem a postura encolhida, enquanto mantém o chapéu entre as pernas. A mulher, por sua vez, tem as mãos juntas, em postura de prece, como no quadro de Millet, contudo, é bem maior do que o homem. Possivelmente Dalí via a figura feminina como grande e amedrontadora, ou seja, como a fêmea do louva-a-deus antes da cópula.

Ficha técnica
Ano: 1935
Técnica: óleo sobre madeira
Dimensões: 32,4 x 26,7
Localização: Museum of Modern Art, Nova York, EUA

Fontes de pesquisa
Dalí/ Coleção Folha
Dalí/ Abril Coleções

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Dalí – REMINISCÊNCIAS ARQUEOLÓGICAS…

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Salvador Dalí nutria grande paixão pelas rochas do Cabo de Creus (promontório abrupto e rochoso de 672 metros de altitude, que se ergue sobre o mar Mediterrâneo, no nordeste da Espanha). Sentia-se extasiado diante daquela maravilha, que considerava “um autêntico delírio arqueológico”, tanto é que o local faz-se presente em muitas de suas obras.

Para compor Reminiscência Arqueológica d’O Ângelus, de Millet, o pintor imaginou ver entalhadas nas rochas as duas figuras de O Ângelus, de Millet, composição que o fascinava desde a sua infância, quando viu uma reprodução no escritório de seu pai, embora os dois camponeses parados ali, um de frente para o outro, provocassem-lhe certo mal-estar. Estava sempre sonhando com a tela, além de esbarrar com ela várias vezes, inclusive num jogo de café.

Segundo Dalí, com o tempo, sua obsessão só fez aumentar em relação à pintura de Millet. Ficava se indagando sobre o que estaria o casal fazendo ali, naquela posição. Começou a pensar que estivesse enterrando um filho. Intrigado, pediu ao Louvre que radiografasse a obra, cujo resultado mostrou uma forma geométrica aos pés da mulher. Dalí então concluiu que realmente tratava-se de um ataúde, imaginando que Millet não o pintou para não dar ares dramáticos à cena, dedução do pintor com seu método “paranoico-crítico”.

O casal, em tamanho colossal, foi arranjado na composição em meio às ruínas clássicas e aos ciprestes. Em volta deles está a vegetação, também gigantesca. De frente para o casal está o pai com seu filho seguro pela mão (Dalí e seu pai). Ele traz o braço estendido, como se mostrasse ao garoto as estátuas gigantescas.

Ficha técnica
Ano: 1933
Técnica: óleo sobre painel
Dimensões: 32 x 39 cm
Localização: Museu Salvador Dalí, São Petersburgo, Flórida, EUA

Fontes de pesquisa
Dalí/ Abril Coleções
Dalí/ Coleção Folha

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