MARIA NO JARDIM

Autoria de Lu Dias Carvalho

virgo1234567                                                         (Clique na gravura para ampliá-la.)

Esta é uma pintura mundialmente famosa, conhecida como A Virgem em Hortus Conclusus com Santos e também  Maria no Jardim Cercado com os Santos. Foi feita por um pintor alemão conhecido apenas como Mestre do Jardim do Paraíso (ativo em c. 1410 – 1430 no Reno Superior). A pequena composição devocional é vista como uma variação da pintura “A Virgem no Jardim de Rosas”. Retrata um canto isolado de um jardim pertencente a um castelo, onde se encontram a Virgem Maria, seu filho Jesus e os santos. O lugar tranquilo está cercado por muralhas que separam os personagens do mundo violento que jaz lá fora. Tudo na pintura está ligado ao simbolismo mariano.

Na metade superior da composição, Maria destaca-se como a maior de todas as figuras, usando um majestoso manto azul. Carrega sobre a cabeça uma coroa de ouro incrustada de pedras preciosas e nas mãos traz um volumoso livro. Ela reclina a cabeça levemente em direção do livro. É possível ver a escrita em uma de suas páginas, tamanho é o perfeccionismo do pintor.

Todas as figuras femininas possuem o mesmo tipo de beleza: olhos pequenos e escuros, dedos longos e delgados, boca pequenina e sombreada embaixo, formando um delicado queixo. O que identifica os santos é a posse de determinados objetos ou as atividades executadas por eles. Santa Doroteia colhe cerejas e coloca-as num cesto. Santa Bárbara retira água da fonte com uma colher presa a uma corda. Santa Catarina brinca com o Menino Jesus, segurando o saltério (instrumento medieval).

O Menino Jesus — brincando com Santa Catarina — dedilha um instrumento musical (saltério). Muitos pintores da Idade Média pintaram Jesus tocando um instrumento, embora os Evangelhos nada digam sobre isso. Possivelmente — incapaz de demonstrar a bem-aventurança através da expressão facial — o pintor usa o instrumento musical para se referir à alegria celestial, pois, como vimos em outros textos, os sinais e símbolos eram usados para ensinar a fé cristã, uma vez que na Idade Média eram pouquíssimas as pessoas que sabiam ler.

O jardim, além de ser o lugar onde se encontram Maria, Jesus e os Santos, também simboliza o paraíso. A mesa próxima a Maria simboliza a sua humildade como serva do Senhor. O muro simboliza a sua virgindade, pois concebeu sem ter contato com um homem. Um pouco abaixo do Menino Jesus é possível observar uma árvore cortada, símbolo da humanidade pecadora. Nela brotam dois ramos, significando que mesmo de uma árvore velha é possível renascer uma vida nova, ou seja, há sempre uma oportunidade de o pecador se regenerar. Ao lado da árvore cortada está um demônio para reforçar a simbologia da humanidade pecadora.

Três personagens encontram-se à direita da composição. Embora tenham os mesmos olhos, a mesma boca e os mesmos dedos delgados das mulheres, a cor mais escura do rosto, assim como as calças justas, mostra que são do sexo masculino. São Jorge está sentado diante do anjo e, abaixo, no canto inferior da pintura, está o dragão. São Miguel com seu  diadema e asas coloridas é o anjo e tem a seus pés o diabo sentado humildemente. Santo Osvaldo — segundo a lenda teve um corvo como mensageiro celeste — está de pé, recostado à árvore e reclinado sobre os dois santos assentados na vegetação.

As flores constantes ali estão em toda a sua plenitude, embora muitas delas tenham a sua floração em estações diferentes. As inúmeras variedades de flores também são referências a Maria. As violetas simbolizam a sua humildade, os lírios brancos a pureza e as rosas  a virgindade. Juntas, elas compõem um buquê de suas virtudes. Os pássaros estão minuciosamente representados na composição e, pelo menos, 10 espécies foram reconhecidas, podendo ser citadas: melharuco, japu, tentilhão, pintarroxo-comum, pico, pintassilgo, pardal, etc. Dentre as inúmeras plantas é possível identificar 20 espécies diferentes, entre as quais estão: margarida, trevo, lírio-branco, lírio do vale, morango, malva, crisântemo, urtiga, violeta, plátano, etc.

A presença do diabo, do dragão morto e da árvore cortada nada tem a ver com o Paraíso representado pelo jardim, mas isso não importa, uma vez que as pinturas daquela época tinham o objetivo único de ensinar a fé cristã. A beleza da composição encontra-se na harmonia entre a visão religiosa e a realista, tão bem apresentadas pelo pintor.

Ficha técnica:
Data: entre 1410 e 1430
Dimensões: 26,3 x 33, 4 cm
Artista: desconhecido
Localização: Museu Städel, Frankfurter, Alemanha

Fontes de pesquisa:
Los secretos de las obras de arte/ Taschen
Gótico/ Taschen

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O ANO NOVO ATRAVÉS DOS TEMPOS

Autoria de Lu Dias Carvalho tac

Em quase todas as culturas, o primeiro dia do ano que se inicia é comemorado com variados tipos de festejos. Os gregos passaram tal tradição aos romanos, e o legado pagão das celebrações do Ano Novo chegou até os primeiros cristãos, perpetuando até nossos dias.

A festa de Ano Novo herdou das festas da primavera, quando se festejava a abundância das colheitas e se realizava a troca de presentes agrícolas entre as famílias, em meio a muitas danças, os presentes, as festas e as congratulações entre parentes e amigos, saudando o novo ano. Nos dias de hoje, os presentes estão inseridos no Natal, mas os cumprimentos continuam no Ano Novo.

Antigamente, fazia parte dos costumes, as pessoas que viviam na roça virem passar o Ano Novo com os parentes na cidade, já lhes deixando o convite para o São João, comemorado no meio rural. Normalmente, ali permaneciam até depois da festa de Reis. E, assim como no Natal, a ceia da meia-noite reunia toda a família em volta da mesa.

Muitas superstições ganhavam vida na passagem do ano velho para o novo ano. Uma delas rezava que não se podia dormir antes da meia-noite, pois quem o fizesse não veria o nascer do ano seguinte, assim, mesmo as crianças ficavam até tarde aguardando o novo visitante. O cumprimento mais comum, usado entre as pessoas era:

– Boas saídas e melhores entradas!

O primeiro dia do ano era uma festa contínua, com as visitas e trocas de presentes, quase sempre comestíveis, principalmente entre os menos endinheirados. Os mimos iam acompanhados de um cartão de visitas ou de uma carta que, segundo o escritor Mello Moraes Filho, normalmente se iniciava assim:

“… Boas saídas e melhores entradas eu lhe desejo. Incluso, encontrará vosmicê um peru (ou frango, ou pastelão, ou pão-de-ló…), para mais um prato de seu jantar.”

 A falta de parentes mais chegados à mesa da família, nesse dia, não era vista com bons olhos, pois se acreditava que “o que se fazia no primeiro dia do ano, seria feito o ano inteiro.” Também não podia faltar a roupa nova, feita especialmente para a data.

Após se regalar com as comilanças, os mais velhos empenhavam-se nos discursos de agradecimentos e felicitações pelo ano que se iniciava. Os rapazes, por sua vez, recitavam motes, enquanto as moças tímidas e envergonhadas, diante das palavras “amor” e “meu bem”, ficavam cabisbaixas.  A criançada espalhava-se pela casa em grande algazarra.

O primeiro dia do ano também era dedicado às visitações, aos passeios pelo paço e aos votos de “boas festas” e “boas entradas”. As bandas militares tocavam na porta das pessoas graduadas e ricas desejando-lhes um bom ano e, em retribuição, recebiam avultadas quantias.

E como os cumprimentos continuam:
Boas entradas para todos!

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O ANO NOVO E A ESCRAVIDÃO

Autoria de Lu Dias Carvalho tac1

Se o Ano Novo era um tempo de festa para seus senhores, era uma época de muito serviço para os escravos, pois a eles cabia todo o trabalho na arrumação da casa, no passar das roupas novas, na preparação da comilança e na entrega dos presentes. Enquanto os convivas regalavam-se na sala de jantar, na cozinha só se ouvia o barulho das panelas e o lavar das louças e cristais.

Os escravos eram os responsáveis por levar os presentes: leitões, galinhas, patos e marrecos, entre outras dádivas, aos presenteados. Também eram vistos carregando caixotes de vinho e caixas de açúcar. Quando o presenteado era de alta posição, assim como o doador, criados de libré iam à frente de escravos enviados com colchas da Índia, aparelhos de porcelana da China, baixelas de prata, cavalos de montaria e outras dádivas.  Quando se tratava de famílias menos ricas, seus escravos, normalmente mulheres ou garotos, transportavam, a mando de seus donos, pão de ló, bolo inglês, pastelão e outras guloseimas, dentro de salvas, cobertas com uma gaze colorida, encimada por um pequeno buquê de flores artificiais, dentro do qual se encontrava um cartão ou um escrito do presenteiro.

Além de todos os tipos de presentes mencionados, a Bahia tinha um hábito estranho e desumano para os dias de hoje: doava escravo como presente de Ano Bom. Normalmente era um meninote ou uma menina, ou ainda um casal de escravos novos. Assim escreve o escritor Mello Moraes Filho (1844-1919), em seu livro Festas e Tradições Populares do Brasil:

“…não causava espanto entrarem por uma casa dois negros de casaca de portinholas com vivos amarelos ou vermelhos, de chapéu oleado com galão, calça curta e um pau no ombro, acompanhando o portador de uma carta na qual se lia:

… Como uma lembrança de Ano Bom, ofereço-lhe essa parelha de negros de cadeia, pedindo desculpa de não ser cousa suficiente…

O Dia de Ano Bom era também a época em que os escravos mais suavam a camisa de algodão barato, carregando as cadeirinhas, meio de transporte da época, com seus senhores, familiares e visitantes, para cima e para baixo, já que tal dia era dedicado à visitação. A diversão era tão incomum aos escravos que o escritor, acima citado, escreveu:

“Os escravos, que nunca foram estranhos às alegrias e desgraças de nosso lar, ganhavam festas, tinha folga, divertiam-se também.”

Quão abominável era a escravidão!

Nota: Imagem copiada de http://educador.brasilescola.com

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Rembrandt – LIÇÃO DE ANATOMIA DO DR. TULP

Autoria de Lu Dias Carvalho

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A Lição de Anatomia do Doutor Tulp é uma das mais conhecidas obras-primas do pintor Rembrandt. Foi-lhe encomendada pela corporação dos cirurgiões de Amsterdã. Em sua composição o artista representa oito personagens e um cadáver. Existem suposições de que duas das figuras — a da esquerda e a que se situa num plano mais alto — foram acrescidas depois da obra pronta, assim como a lista, onde se encontram os nomes dos participantes, vista na mão de uma das figuras.

Durante uma aula de anatomia, o doutor Nicolaes Tulp — principal professor de anatomia da guilda —, responsável por convidar Rembrandt para pintar sua aula anual de anatomia, mostra a dissecação anatômica de um antebraço, mostrando os tendões da mão. O médico, enquanto pinça o músculo e os tendões com a mão direita, usa a esquerda para demonstrar a seus observadores a flexão e a pressão dos dedos.

A história revela que o cadáver era de um homem de nome Adriaan que, após agredir gravemente um guarda da penitenciária de Utrecht, fugiu para Amesterdã, onde golpeou um transeunte para roubá-lo. Uma vez preso foi morto por enforcamento, sendo seu corpo cedido para autópsia pública, oportunidade em que serviu de modelo para o pintor que parece também convidar o observador para assistir à aula.

Antes de pintar os modelos presentes na composição, Rembrandt convidou-os — individualmente — para serem retratados em seu ateliê, mas o braço dissecado do corpo foi pintado durante a autópsia, sendo, portanto, a obra uma montagem, já que foi feita em duas partes isoladas. Talvez, por isso, alguns olhares se mostrem desfocados do corpo em estudo.

A composição está centrada na ação, de modo que o ambiente em derredor não tem a menor importância, desaparecendo quase que totalmente. Rembrandt eliminou qualquer tipo de excesso, para deixar somente aquilo que era essencial à cena. As figuras estão de perfil e meio perfil, excetuando o médico que se encontra de frente para o observador.

Os sete espectadores vestem roupas escuras com volumosas golas brancas e possuem barba.  O doutor Tulp é o único a usar chapéu, pois o uso de tal apetrecho no interior de um estabelecimento naquela época era privilégio apenas das pessoas mais importantes. Suas vestes também diferem das demais. A posição mais afastada do médico, enquanto os demais personagens encontram-se amontoados, formando uma pirâmide, reforça a importância de sua presença.

O modo como o pintor representa o corpo morto — ocupando grande parte da tela —, quase numa diagonal, chama a atenção do observador. A sua nudez e posição rígida contrastam com o corpo dos demais. Os olhos estão parcialmente encobertos por uma sombra. Ele tem apenas a parte do baixo ventre coberta com um tecido branco. O corpo sem vida jaz sobre uma mesa de madeira. Próximo a seus pés está aberto o tratado de anatomia, cuja presença denota o caráter científico da aula. A maior parte da luz recai sobre o corpo — figura central da cena.

Embora no gênero dos retratos de grupo normalmente fosse usado o alinhamento dos retratados, ou seja, todos alinhados no mesmo plano, os personagens de Rembrandt estão aglomerados em torno da cabeça do morto numa composição piramidal. Os olhares de alguns não acompanham o doutor Tulp, enquanto dois deles — inclinados sobre o corpo — parecem acompanhar as explicações com interesse extremado. Como o pintor tivesse especial pendor para com as expressões fisionômicas, os olhos dos participantes foram trabalhados com perfeição.

Vinte e quatro anos depois, Rembrandt pintou A Lição de Anatomia do Dr. Joan Deyman (pintura danificada por um incêndio em 1723) em que se vê a cavidade abdominal aberta.

Curiosidades

  • Na composição a dissecação é feita sem observar o procedimento legal, pois deveria começar pela remoção do estômago e do intestino do cadáver.
  • O tipo de pintura acima é conhecido como “momento mori” que quer dizer “Lembre-se de que você morrerá”.
  • As aulas de anatomia eram tidas como eventos públicos, tendo as pessoas interessadas que pagar ingressos para entrar no anfiteatro, onde elas aconteciam.
  • O médico Dr. Nicholas Tulp, médico em Amsterdã, era treze anos mais velho do que Rembrandt.
  • O criminoso tinha o apelido de O Garoto.
  • Comumente dava-se início a uma aula de anatomia com a advertência: “Conhece-te a ti mesmo.” Acreditavam as pessoas da época na Holanda que ao estudar o homem e suas criações, melhor entendimento teriam de Deus.

Dados técnicos
Ano: 1632
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 169,5 x 216,5 cm
Localização: Mauritshuis, Haia, Holanda

Fontes de Pesquisa:
Rembrandt/ Coleção Folha
Rembrandt/ Coleção Girassol
Rembrandt/ Abril Coleções
Los secretos de las obras de arte/ Taschen
Rembrandt/ Cosac e Naify

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HITLER E A “ARTE DEGENERADA”

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Durante a Segunda Guerra Mundial Adolf Hitler aproveitou a invasão a outros países para botar a mão em suas obras de arte, ampliando as riquezas de seu império ou enriquecendo mais ainda sua suntuosa coleção artística. Para inserir o leitor no contexto das obras de “arte degenerada”, acrescento que o Führer era um medíocre estudante de artes, um pseudo artista, um recalcado.

As Joias do Sacro Império Romano-Germânico, compostas pela coroa (imagem acima), cetro, orbe e as espadas usadas nas cerimônias de coração dos imperadores foram surrupiadas pelos nazistas em 1938, após a anexação da Áustria ao império nazista. Também foi afanada a “Lança de Longino” (ver imagem acima) que, segundo a tradição da Igreja Católica, foi a arma usada pelo centurião romano Longinus para perfurar o tórax de Jesus Cristo durante a sua crucificação. A gravura à esquerda diz respeito à ponta da lança que é guardada em Viena/ Áustria.

É sabido que o ditador alemão nutria notória aversão pela arte moderna e dizia somente apreciar os quadros realistas e figurativos. Ele tinha todo o direito de fazer suas escolhas, só não tinha o de querer banir as obras modernistas do mundo. Sua onipotência começou a perseguir os artistas modernistas sob o argumento de que a arte moderna era uma “arte degenerada”, ainda que a Alemanha fosse um celeiro de vanguarda, berço de grandes nomes como Marx Ernest, Paul Klee, Otto Dix, dentre outros. Alguns dos artistas buscaram outros países, onde pudessem gozar de liberdade criativa, enquanto outros aposentaram seus pinceis e espátulas.

A Câmara de Cultura do Reich ordenou em 1939 que fossem queimados, diante da visão pública, quatro mil quadros tidos como modernistas. O mais indagativo, porém, era que esses não detinham nenhum valor comercial, mas onde se encontravam os demais que foram apreendidos? O fato é que os espertos nazistas separaram o joio do trigo. As obras censuradas, confiscadas dos países invadidos e das residências de judeus feito prisioneiros e mesmo dos museus alemães, consideradas “lixo” pelo regime nazista, deveriam ser vendidas, trazendo dinheiro para os cofres do regime.

O certo é que um grande número de obras de artistas renomados como Picasso, Renoir e Matisse, dentre outros, acabou desaparecendo. O responsável por transformá-las em dinheiro era o colecionador e mercador importante, Hildebrand Gurlitt. Mas ao término da Segunda Guerra Mundial ele alegou que as obras tinham sido queimadas no bombardeio feito pelos Aliados à cidade de Dresden em 1945. Mas passadas sete décadas após o bombardeio, a polícia alemã trouxe uma boa notícia para o mundo da arte: mais de 1400 obras confiscadas pelos nazistas foram encontradas num velho e sujo apartamento pertencente a Rolf Cornelius Gurlitt, filho de Hildebrand Gurlitt, funcionário nazista responsável pela venda de obras artísticas.

A descoberta desse conjunto de obras foi um tremendo golpe de sorte. O sujeito foi encontrado com 9 mil euros no bolso, ainda que não tivesse emprego e nem pagasse impostos. Para a polícia, ele deveria estar metido com falsificações ou tráfico de drogas. Foi grande a sua surpresa ao vasculhar o apartamento do meliante e deparar com um tesouro tão valioso para o bem da História da Arte.

Fontes de pesquisa
Aventura na História/ Editora Abril
As Relíquias Sagradas de Hitler/ Sidney D. Kirkpatrick

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Rembrandt – A FESTA DE BALTAZAR

Autoria de Lu Dias Carvalhoalba45

A composição A Festa de Baltazar foi pintada por Rembrandt, quando esse tinha 30 anos de idade. Mostra a grande influência que o artista recebeu dos pintores italianos. É uma composição do início de sua carreira, portanto, ainda um pouco inábil.

Rembrandt retrata a cena em que o rei Baltazar, na Babilônia, no século VI a.C., realiza um faustoso banquete para as figuras mais importantes do reino, onde também se encontram suas esposas e concubinas. Já excitado pelo vinho, exige que os vasos sagrados do templo de Jerusalém sejam trazidos, para que os convidados neles bebam, blasfemando contra o Deus dos judeus. Inesperadamente uma mão escreve uns sinais na parede próxima ao rei e seus convivas. Segundo a história, o rei mandou buscar os sábios de seu país para decifrar a escrita, mas nenhum conseguiu esclarecê-la. Baltazar mandou então trazer Daniel — prisioneiro trazido da Judeia — que a decifrou. Na mesma noite o rei foi morto.

Estão retratados na composição seis personagens:

  • o rei Baltazar;
  • a mulher que derrama o líquido de sua taça;
  • uma menina tocando flauta;
  • um homem barbudo;
  • uma mulher com um chapéu de plumas e outra com um colar nos cabelos.

A inscrição reproduzida em letras hebraicas, à esquerda, é a principal fonte de luz, chamando a atenção do observador. Baltazar domina a maior parte do espaço, ao se levantar bruscamente com o braço esquerdo erguido, na tentativa de se proteger. Seu corpo está apoiado na mão direita que esbarra numa grande baixela de ouro e prata, ao tentar se apoiar na mesa. Também derruba o copo de vinho à sua direita. A rotação de seu corpo e cabeça, virando-se repentinamente em direção à luz na parede atrás de si, indica que antes ele se encontrava de frente para os comensais.

Baltazar encontra-se ricamente vestido. Seu manto é trabalhado em ouro, prata e pedrarias. Seu turbante branco brilha contra o fundo escuro. Uns cachos de seus cabelos estão presos por um ornamento de ouro. Acima do turbante está a sua coroa. É impressionante notar a maestria com que o pintor retratou a área em volta do olho deste personagem.

A mulher que se encontra no canto inferior direito da tela, mostrada de cima — o que leva o observador a deslizar seu olhar pela nuca, colo e decote dela — aparenta-se cheia de surpresa e horror. Ela se inclina para trás, entornando o conteúdo de seu copo. Os demais personagens são vistos de perfil, impregnados pelo mesmo espanto.

Dois dos convidados do rei chamam a atenção pelos olhos arregalados e bocas entreabertas. Seus corpos recuam e mostram medo. Baltazar também tem os olhos esbugalhados, mas aperta os lábios. Talvez o pintor tenha o retratado assim, seguindo a antiga tradição de não mostrar governantes e heróis com a boca aberta, o que era permitido apenas a crianças e pessoas de classe baixa.

Uma das plumas do chapéu da mulher — assentada de frente para Baltazar — recebe um foco de luz que ilumina o rosto da garota tocando flauta. A mão que escreve a mensagem e a mão de Baltazar encontram-se bem próximas, assim como a da mulher que derrama sua taça de vinho. O artista encantava-se com as possibilidades expressivas das mãos.

Curiosidades:

  • Mensagens criptografadas desse tipo faziam parte da prática da Cabala, ciência oculta dos judeus, e a questão de saber por que alguns podiam ler o texto e outros não, ocupou intensamente muitas mentes brilhantes do século XVII.
  • Inscrição na parede: Mené, mené, tekel, upharspín
  • Tradução: Mené: contou Deus teu reino e o arrematou. Tekel: pesado foste em balança e foste considerado em falta. Upharspín: teu reino já foi destruído e será dado aos medes e aos persas.
  • A maioria das pinturas que trata o tema do banquete Baltazar omite a inscrição fatal. Parece que Rembrandt foi o único a reproduzir a inscrição com caracteres hebraicos. As letras estão ordenadas de cima para baixo e da direita para a esquerda. A mão que escreve encontra-se, logicamente, junto ao último sinal traçado.
  • Para fazer a inscrição corretamente, Rembrandt consultou Samuel Menasseh ben Israel, erudito judeu, sobre o tema.

Ficha técnica
Ano: c. 1635
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 167,6 x 209,2 cm
Localização: National Gallery, Londres, Grã Bretanha

Fontes de pesquisa
Rembrandt/ Coleção Folha
Arte em detalhes/ Publifolha
Los secretos de las obras de arte/ Taschen

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