Van Gogh – SUPOSTA LOUCURA E MORTE

 Autoria de Lu Dias Carvalho pand12

Após a experiência dos ataques repetidos, convém-me a humildade. Assim, pois, paciência. Sofrer sem se queixar é a única lição que se deve aprender nesta vida. (Van Gogh)

Ele nunca deu a impressão de que era um demente. Embora quase não comesse, bebia sempre em excesso. Quando terminava sua jornada diária, depois de passar o dia inteiro sob o sol abrasador e um calor tórrido, costumava se sentar na varanda de um café, já que não tinha um verdadeiro lar. E os absintos e brandies (bebidas) se sucediam rapidamente. Como seria possível resistir. Era o encanto personificado. Amava a vida de forma apaixonada. Era uma pessoa ardente e boa. (Paul Signac)

Existem teorias de que Van Gogh era vítima de demência sifilítica ou que sofria de esquizofrenia. Mas, ultimamente, tem sido reforçada a crença de que era vítima de psicose epileptoide de fundo hereditário, agravada por circunstâncias pessoais, como a possível sífilis, alcoolismo, desnutrição e esgotamento, o que o exime da loucura. Tanto Theo, quanto a irmã Wilhelmina foram vítimas da mesma doença. A saúde de Van Gogh era oscilante. Muitas vezes, ele se mostrava muito bem, vibrante de alegria e entusiasmado com o trabalho, embora tivesse uma alimentação escassa e pobre. Noutras, passava por profundas crises de depressão. Para alguns também era tido como bipolar.

A vida de Van Gogh encheu-se de entusiasmo durante a criação da famosa casa amarela. Pretendia criar um espaço dedicado a um grupo de artistas, onde pudesse discutir a arte, organizar um efetivo esquema de venda das obras produzidas, compartilhar bens materiais e praticar a espiritualidade. Para dar início à comunidade, contava entusiasmado com a chegada do pintor Gauguin, em quem depositava toda a sua crença. Mas a falta de sensibilidade do pintor francês começou a gerar uma enorme tensão entre ambos, principalmente pelas diferenças de personalidade. Gauguin era altivo, prático e mundano, e muito mais preocupado com a venda de suas obras de que com a comunidade. Van Gogh, por sua vez, cultivava hábitos simples, era sensível, apaixonado, terno e totalmente indefeso.

Com o tempo, a convivência entre Van Gogh e Gauguin foi se tornando insuportável. Mas, quando o pintor holandês percebeu que o amigo abandonaria aquele projeto, que lhe era tão caro, e ao qual dispensou gastos e energia, ficou totalmente fora de si. Tentou agredir Gauguin com uma lâmina de barbear e, naquela mesma noite, decepou o lóbulo de sua orelha esquerda, enrolou-o num lenço e o presenteou a uma amiga prostituta, pedindo-lhe que o guardasse com cuidado. Deitou-se como se nada tivesse acontecido, sendo encontrado ensanguentado e sem sentidos. Levado ao hospital, ali permaneceu 14 dias. Ao retornar, pintou o Autorretrato com a Orelha Cortada.

Com a confusão entre os dois pintores, sendo Gauguin francês, foi gerada uma grande polêmica entre os moradores de Arles, que se colocaram contra o pintor holandês. De modo que um grupo pediu a internação de Van Gogh num manicômio, alcunhando-o de “o doido ruivo”. A polícia fechou sua casa com todos os quadros dentro. Rejeitado por Gauguin, por quem nutria grande amizade e admiração, desprezado pelos moradores da cidade e com a certeza da derrocada de seus planos em relação à casa amarela, o estado do pintor tornou-se cada vez mais sério. O casamento do irmão Theo foi a gota d’água, pois ele passou a temer pelo afastamento da única pessoa com quem podia contar, e por quem sentia uma grande amizade. Passou por uma forte crise de insônias e alucinações,  dizendo-se perseguido por alguém que tentava envenená-lo. Mesmo assim, continuou trabalhando incessantemente.

Houve um ciclo na vida do artista holandês em que aconteceram crises, cansaços, recuperações, desânimos, esgotamentos, trabalho árduo e momentos de êxtase. Só que, após o incidente, a parte ruim do ciclo passou a ser uma constante em sua vida. Tanto é que Van Gogh sentiu necessidade de se internar num manicômio e, por conta própria, fê-lo. Ali permaneceu um ano, com altos e baixos. O que pode ser comprovado numa carta enviada a Theo:

Tanto na vida, como na pintura, posso muito bem ficar sem Deus; mas não posso, sem sofrer, ficar sem algo que é maior do que eu, que significa a minha vida inteira: a força de criar.

No manicômio, Van Gogh perdeu o medo da loucura, doença que ele mesmo admitia sofrer, demonstrando grande ternura pelos internos. E assim se expressou sobre eles:

Antes, esses seres me repugnavam e eram algo desolador para mim, pensar que tanta gente de nosso ofício tinha terminado assim (…). Agora, penso em tudo sem temor; isto é, não considero isso mais atroz do que se essas pessoas tivessem sucumbido por outras razões, como tuberculose ou sífilis.

Já no final de sua vida, Van Gogh aceitou a proposta de um amigo para ir morar em Auvers-sur-Oise, perto de Paris, para ser tratado pelo Dr. Paulo Gachet. Aceitou-a, e se instalou na hospedaria Ravoux. Mostrava-se animado e trabalhava intensamente, até que uma carta de Theo, descrevendo as dificuldades pelas quais passava, assim como a sua debilidade física e a da esposa, acabou com a sua tranquilidade. Mesmo depois de visitar o irmão querido, ele não conseguiu se acalmar. Rompeu relações com seu médico. Sozinho no campo, Van Gogh teve um novo surto de depressão e atirou contra seu estômago, vindo a falecer, dois dias depois, nos braços de Theo.

Após a morte do irmão, Theo ficou inconsolável. Acalentava muitos projetos para os dois. Passou a sofrer de depressão e ansiedade.  Com a saúde cada vez mais frágil, foi levado para a Holanda, onde veio a falecer de “demência paralítica” (neurossífilis), seis meses após o irmão. Willemina, irmã de Van Gogh, era esquizofrênica, e viveu durante 40 anos internada, e Cornelius, outro irmão, cometeu suicídio aos 33 anos de idade. Van Gogh e seu irmão Theo encontram-se enterrados lado a lado, como sempre estiveram em vida.

Ao acompanharmos a vida de Van Gogh, percebemos que a arte foi-lhe de muita valia, para dar vazão à sua vida emocionalmente turbulenta, que ia do arrebatamento à  depressão, da imobilidade aos ataques de loucura, inclusive, fez inúmeros autrorretratos com a finalidade de encontrar em si a razão do próprio desespero. Contudo, a arte não conseguiu impedir que, num ato de total desequilíbrio, ele desse fim à própria vida, aos 37 anos, privando o mundo de um homem terno e compassivo e de um dos maiores talentos da pintura.

Era um homem honesto e um grande artista, e, para ele, só havia duas coisas: a compaixão e a arte. A arte era para ele o mais importante de tudo e é nela que ele estará vivo. (Dr. Gachet – seu médico em Auvers)

Nota:  Autorretrato com a orelha cortada (1889)

Fontes de pesquisa:
Mestres da Pintura/ Editora Abril
Grandes Mestres da Pintura/ Coleção Folha
Van Gogh/ Editora Taschen
Para Entender a Arte/ Maria Carla Prette

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Raízes da MPB – HERIVELTON MARTINS

Autoria de Lu Dias Carvalho dac

Herivelto Martins pertence a um tempo na música brasileira em que existiam dois nichos bem marcados de artistas: o bloco dos grandes cantores e o dos grandes compositores, que se orgulhavam de ter suas músicas gravadas por essas belas vozes. Havia poucas exceções como Ataulfo Alves e Dorival Caymmi – que já eram notórios e expressivos cantores e compositores. Herivelto ficava no meio termo, nunca sendo visto exatamente como um “cantor”. (Rodrigo Faour, jornalista e pesquisador musical)

O compositor, cantor e violonista Herivelto de Oliveira Martins nasceu em Engenheiro Paulo de Frontin/RJ, em 1932. Era filho do ferroviário e artista amador, Célio Bueno Martins e de Carlota de Oliveira Martins, sendo o mais velho dos seis irmãos. Mesmo a profissão de artista não sendo bem vista naquela época, seu pai incentivava-o a seguir a carreira musical. Aos 3 anos de idade, ele já recebia uns trocados por recitar versinhos.

Quando Herivelto tinha 5 anos, a família foi morar em Barra do Piraí, onde o pai fundou uma espécie de clube e teatro onde, segundo o próprio Herivelto, os membros da família trabalhavam como ajudantes diretos, pois, toda ela tinha tendência artística. Era obrigado a tocar diversos instrumentos e a aprender se conduzir pelo palco. Aos 10 anos de idade, já fazia paródias, imitando alguns tipos comuns e ainda ajudava a família, vendendo doces que a mãe fazia. Não completou o curso primário. Quando tinha 15 anos de idade, sua família foi morar em São Paulo, mas ele não se adaptou ao novo ambiente e, ao completar 18 anos, foi sozinho para o Rio de Janeiro, morar com seu irmão. Passou a dividir um quarto com sete pessoas, levando uma vida dos diabos.

No Rio, Herivelto Martins compôs as primeiras marchas de rancho, que fez para um bloco carnavalesco. Depois foi cantar de graça na Rádio Educadora, enquanto fazia testes em rádios. Chegou a desmaiar de fome na rua. Não estava fácil ganhar dinheiro no mundo musical. Sentiu que era preciso arranjar um emprego fora da área buscada. Foi trabalhar numa barbearia, contratado por um português, mal sabendo segurar uma navalha. O dinheiro dava para pagar o feijão com arroz da semana.

Herivelto passou a ser corista no conjunto do cantor J.B. de Carvalho, gravando nos estúdios da Victor. Acabou tendo sua primeira música comercial gravada. Como era muito hábil na criação de arranjos de coral nas canções, terminou como diretor de coro da Victor. Depois disso, fez par com o baiano Francisco Sena, na dupla Preto e Branco, gravando pela primeira vez como artista.

As músicas de Herivelto Martins passaram a ser gravadas por grandes cantores. O flautista e arranjador Benedito Lacerda tornou-se seu parceiro. Compuseram muitas músicas. Foram gravados até por Carmem Miranda. Época em que compôs seu grande clássico, Ave Maria no Morro, que se tornou o mais gravado de sua obra e um dos clássicos da MPB, sendo gravado pelos mais diferentes intérpretes, em várias línguas, inclusive em russo e esperanto.

Quando Francisco Sena, seu parceiro na dupla Preto e Branco, morreu, Herivelto ficou conhecendo Nilo Chagas, que iria substituí-lo, e acabou conhecendo Dalva de Oliveira. Os três passaram a trabalhar juntos, nascendo o Trio de Ouro. Dalva e Herivelto acabaram se casando. O cantor Pery Ribeiro foi o primeiro filho do casal e Ubiratan o segundo. Mas, Herivelto tinha outros dois filhos, Hélcio e Hélio, com Maria Aparecida, com quem teve um relacionamento logo após chegar ao Rio.

A vida de Herivelto e Dalva foi de muitas dificuldades no início, embora parecessem sempre muito elegantes. Com o tempo, a situação financeira foi melhorando e a família passou a viver muito bem. A casa vivia sempre cheia de visitas.

Herivelto Martins era muito genioso. Não aceitava ser contrariado, tanto é que recebeu o apelido de “galo garnisé”. E, como tanto ele quanto Dalva eram geniosos, as brigas começaram a acontecer. Ele era, sobretudo, um grande mulherengo, o que mais aguçava a desavença que chegava, muitas vezes, à violência física. Depois que Herivelto passou a ficar com a aeromoça Lurdes Torlly, com quem teve três filhos, o casamento degringolou de uma vez. Os dois meninos, Pery e Ubiratan, foram parar um colégio interno.

Quando casados, Herivelto era quem administrava as finanças do casal, ou seja, Dalva não via o dinheiro. Com a separação, ela se tornou a maior cantora do país, ganhando muito dinheiro, o que mexeu com a macheza de Herivelto, que partiu para os insultos, transformando a separação num escândalo, com as pessoas e a mídia tomando partido de um lado ou de outro. Sem falar nas trocas de farpas feitas através das canções, num bate-rebate.

Dalva de Oliveira e Chico Alves eram os dois grandes intérpretes das músicas de Herivelton Martins. Com a separação da primeira e a morte do segundo, Nelson Gonçalves passou a ser seu principal intérprete. Depois Ângela Maria entrou em cena e gravou sucessos seus.

E, como a vida dá muitas voltas, Dalva de Oliveira gravou Fracassamos, em seu último compacto, samba-canção enviado-lhe por Herivelto, através do filho Pery, como presente. E Lurdes, a nova mulher do ex-marido, tornou-se sua amiga, ajudando-a nos seus últimos dias de vida. Herivelto Martins morreu aos 80 anos de idade, em 1992, de complicações pulmonares.

Nota
Ouçam Ave Maria no Morro, através dos links, abaixo, com Dalva de Oliveira, Scorpions e Andrea Bocelli, respectivamente:
http://www.youtube.com/watch?v=nHkdnNK3wcs
http://www.youtube.com/watch?v=NyrUzqhx2aM
http://www.youtube.com/watch?v=10sc8Vhgfio

Fonte de pesquisa:
Raízes da Música Popular Brasileira/ Coleção Folhas

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Raízes da MPB – ARY BARROSO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Em meados do século passado, mesmo com Pixinguinha e Dorival Caymmi em atividade e evidência, e Tom Jobim a caminho do reconhecimento geral, parecia haver um consenso, quase unanimidade: Ary Barroso era o maior compositor popular vivo e o primeiro a tornar-se de fato, amplamente conhecido e tocado no exterior. (Moacyr Andrade – jornalista e crítico de música popular)

O compositor, letrista, pianista, chefe de orquestra, locutor esportivo e radialista, mineiro, Ary Evangelista Barroso, nasceu em Ubá/MG, no ano de 1903.

Os pais de Ary Barroso, Angelina e João Evangelista, morreram de tuberculose, ainda na flor da idade, antes que ele completasse 8 anos de idade. Seu único irmão, Milton, morreu de crupe no dia em que completou um ano de idade. Por isso, o pequeno Ary foi viver com sua avó Gabriela e sua tia Ritinha, ambas viúvas, sendo que a última dava aulas de piano para sustentar a casa. E foi com a tia Ritinha que o menino aprendeu piano. Aos 12 anos já era partner da tia, nos cinemas da cidade, tocando o fundo musical propício para a película exibida, pois naquela época o cinema era mudo.

Aos 18 anos de idade, Ary Barroso mudou-se para a cidade do Rio de janeiro, onde faria o curso de Direito, usando a herança deixada por um tio, para custear as despesas, mas que não demorou muito a acabar, já que era muito boêmio. Teve que recorrer ao piano para completar a mesada enviada por outro tio.  Foi numa das muitas pensões pela qual passara que ficou conhecendo a menina Ivone, de apenas 13 anos de idade, filha da dona da pensão, com quem veio a se casar, tendo com ela os filhos Flávio Rubens e Mariúza.

Ao deixar as salas do cinema mudo, Ary Barroso passou a tocar nas orquestras. Ao viajar para a Bahia apaixonou-se pela riqueza cultural daquela gente: ritmos variados, candomblés, capoeiras, etc. Seu encantamento pode ser visto em várias canções em que ele canta a Bahia.

Um dos grandes amigos e parceiros de Ary foi Luiz Peixoto. Juntos, fizeram grandes sucessos com Maria, Na Batucada da Vida, Por Causa Dessa Cabocla, Quando Eu Penso na Bahia, etc…

Dentre todos os inumeráveis sucessos de Ary Barroso, é impossível esquecer Aquarela do Brasil, que o levou até aos EUA, sendo incluído no filme Alô Amigos, de Walt Disney, e também para o filme Você Já foi à Bahia?, onde incluiu Os Quindins de Iaiá e Na Baixa do Sapateiro. Chegou a ser convidado para assumir a direção musical dos estúdios de Walt Disney, mas recusou.

Ary Barroso tinha Carmem Miranda como sua intérprete preferida. Ela chegou a gravar 30 canções do compositor. Vários intérpretes gravaram canções do mineiro de Ubá: Dircinha Batista, Lúcio Alves, Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Luís Gonzaga, Jamelão, Elza Soares, dentre outros.

Ary Barroso morreu, em 1964, aos 61 anos de idade, vitimado por uma cirrose hepática, decorrente do alcoolismo, com a qual lutou durante vários anos.

Nota:
Acessem o link abaixo para ouvirem Aquarela do Brasil
http://www.youtube.com/watch?v=3RrDAI7tFzU

Fonte de pesquisa:

Raízes da Música Popular Brasileira/Coleção Folha de São Paulo

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PEDACINHOS DO CÉU – Waldir Azevedo

Autoria de Edward Chaddad rel1

Waldir Azevedo, ainda menino, aprendeu a tocar a flauta e na adolescência, o bandolim; depois brilhou intensamente com o violão elétrico e o cavaquinho. Todavia, embora tenha sido um extraordinário instrumentista, foi mesmo como compositor que se consagrou, compondo chorinhos, um mais lindo do que o outro.

Entre as composições mais belas e apaixonantes de Waldir Azevedo, podemos lembrar Pedacinhos do Céu, melodia que extravasa puro sentimento, transborda emoções, colhidas lá do fundo do coração, um devaneio de ternura. Divina!

Pedacinhos do Céu foi composta pelo músico para homenagear sua filha, Míriam, logo após o seu falecimento, com apenas 18 anos de idade, em um desastre automobilístico.

Vejam-na, interpretada por Altamiro Carrilho e seu grupo, com a participação das choronas: Gabriela Machado, na flauta, Ana Claudia César, no cavaquinho, Paola Picherzky, no violão de 7 e Roseli Câmara na percussão.

Ouçam:
ttp://youtu.be/U5M1_f7jybA

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Mestres da Pintura – VINCENT VAN GOGH

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Quero chegar tão longe em minhas obras a ponto de as pessoas afirmarem: ele sente de maneira profunda, terna. (Van Gogh)

Minha única preocupação é: como posso ser útil no mundo? (Van Gogh)

O genial pintor holandês Vincent van Gogh (1853–1890) é sem sombra de dúvidas um dos grandes nomes da pintura universal. Mas não é fácil falar sobre ele, pois suas paixões e sentimentos estão ligados à arte de tal forma que não é possível ater-se a seu trabalho sem mergulhar na nobreza de sua alma impregnada de nobres ideais, aos quais se entregou, a ponto de sacrificar a própria vida, pois nele tudo funcionava como um todo indivisível e exacerbante ao extremo. Contudo, a sua genialidade artística só foi reconhecida após sua morte. Mesmo tendo pintado 879 quadros em menos de uma década, só conseguiu vender um deles, A Vinha Vermelha, por um valor insignificante. Atualmente seus quadros estão entre os mais caros do mercado das grandes obras de arte. Em 1990 o retrato O Dr. Gachet foi vendido por 82 milhões de dólares.

Vicent van Gogh nasceu num povoado da região holandesa de Brabante. Seu pai era um pastor calvinista e sua mãe uma dona de casa. Era o primeiro de uma penca de seis irmãos vivos, pois, antes dele, seus pais perderam um filho, também batizado com o nome de Vincent. Dentre os irmãos estava Theodorus (Theo), quatro anos mais novo do que ele, que sempre foi o seu amparo e presença amiga durante a sua breve vida. Ajudava-o materialmente a sobreviver, aconselhava-o nas suas tomadas de decisão e nos momentos difíceis, e sempre se sacrificou para ajudá-lo. Uma grande amizade uniu os dois irmãos. Prova disso é a vasta correspondência travada entre eles.

Ao contrário de muitos outros gênios da pintura, Van Gogh não cresceu em meio a uma família de artistas. Era uma criança séria, quieta e introspectiva. Tampouco foi um gênio na vida estudantil, mas adorava ler, hábito que levou consigo durante a vida e que lhe proporcionou uma grande cultura. Seus romances preferidos eram aqueles que versavam sobre os camponeses e perseguidos, que suscitariam mais tarde o seu interesse pelos pobres e pelo sofrimento humano, tão presente em sua obra. O seu talento só foi descoberto bem mais tarde.

Após completar 16 anos de idade Van Gogh foi trabalhar como aprendiz numa galeria de arte francesa. O seu trabalho proporcionou-lhe a oportunidade de morar em Bruxelas, Londres e Paris, e conhecer um pouco sobre a arte. Na capital francesa foi despedido sob a alegação de que não nutria interesse pelo serviço. Contudo, levou consigo uma grande paixão pela arte.

Ao se mudar para Amsterdã, Van Gogh, dono de um exacerbado fervor religioso, buscou consolo espiritual na religião, tornando-se pregador leigo, optando por desenvolver uma missão de apostolado na Bélgica, num local onde viviam os mineiros. Morou ali num total espírito de sacrifício até ser enviado a outra região, onde viveu em uma cabana, dormindo na palha, ajudando os mais pobres. O seu comportamento piedoso acabou incomodando seus superiores protestantes que o recriminaram. Foi transferido para outro local, onde continuou na pobreza, vivendo de pão e água e identificando-se com os verdadeiros carentes. Insatisfeitos, seus superiores suspenderam-lhe a permissão para pregar. Seu espírito evangélico não fora compreendido, pois ele vivia com paixão tudo que se propunha a fazer. Sofreu uma crise de fé e buscou amparo na arte, à qual dedicaria sua vida solitária.

A conselho do irmão Theo, Van Gogh foi para Bruxelas a fim de frequentar a Escola de Belas-Artes, período em que desenhou com muita intensidade, levando em conta os estudos de anatomia. Mesmo ali o seu jeito de ser e a maneira como fazia as coisas não eram bem vistos por professores e colegas.  Retornou à casa paterna e se pôs a retratar as pessoas do campo, as mulheres em tarefas caseiras e a natureza.

Ao se mudar para Haia, o marido de sua prima, também pintor, motivou Van Gogh a pintar a óleo telas de natureza-morta que foram as suas primeiras pinturas. Até então, ele só trabalhava com desenhos. Foi a seguir para Drente, mas começou a sentir-se só e inquieto, regressando em menos de três meses para a companhia dos pais em Nuenen, embora o pai tivesse o expulsado de casa, cerca de dois anos atrás, pois era totalmente cético em relação ao talento do filho. Ali permaneceu durante dois anos, tempo em que se dedicou profundamente ao estudo da cor. Após a morte repentina de seu genitor, o pintor resolveu partir para conviver com outros artistas. A mãe e a irmã também deixaram o povoado.  Como não nutriam nenhum interesse pela obra de Van Gogh, foram perdidas centenas de desenhos e pinturas a óleo do artista durante a mudança.

Van Gogh foi para Antuérpia (Bélgica), onde permaneceu três meses. Ali conheceu e  apaixonou-se pelas xilogravuras japonesas que começou a colecionar e que acabaram por influir no traço, na composição e na cor de suas pinturas. Reencontrou grandes pintores, como Rembrandt, Frans Hals e Rubens.

Com sua vida nômade, a próxima parada de Van Gogh foi Paris, onde permaneceu durante dois anos. Travou amizade com Toulouse-Lutrec e Émile Bernard, com quem dividiu um ateliê. Conheceu Pissarro, Gauguin, Paul Signac, Anquetin, Seurat, Cézane, Suzanne Valadon, entre outros. Quando sentiu que o ambiente não tinha mais nada a oferecer-lhe, partiu para a província de Arles. Ali começou o seu projeto de A casa amarela, local em que queria formar uma comunidade de artistas. Debilitado foi para o manicômio Saint-Paul-de-Mausole em Saint-Rémy-de-Provence. Dali foi para Auvers-sur-Oise. Voltou a Paris, onde ficou três dias, e retornou a Auvers-sur-Oise, onde teve seu último surto de depressão.

Van Gogh era uma pessoa solidária que, embora vivesse totalmente imerso no mundo artístico de Paris, quando ali morou, sempre se manteve distante das badalações e dos eventos mundanos. Durante toda a sua vida dependeu material e moralmente de seu irmão Theo que sempre lhe deu apoio incondicional.

Nota:  Autorretrato – 1887

Fontes de pesquisa:
Mestres da Pintura/ Editora Abril
Grandes Mestres da Pintura/ Coleção Folha
Gênios da Arte/ Girassol

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Vidas Secas – A PRISÃO DO RETIRANTE (9)

Autoria de Lu Dias Carvalho

cap baleia

Entretido coo diabo do jogo, deixou o tempo correr.
Chegaria à fazenda noite alta, cheio de aguardente.
Não achava coragem pra sair de debaixo do jatobá.
Aprumou-se depois tentando viajar na noite quente.

Desequilibrou-se por um empurrão e depois outro.
O soldado desafiava-o, com sua cara enferrujada.
Na caatinga, troava de galo, na rua só se reprimia.
O moço vexava-o ao sair da bodega sem despedir.

Plantou o salto da bota na alpercata do vaqueiro.
“Mole e quente é pé de gente” – chiou o sertanejo.
O soldado socalcou o pé com mais maldade ainda.
O vaqueiro fadigou e injuriou a mãe do malfazejo.

O amarelo apitou e o grupo rodeou o pé de jatobá.
O sertanejo marchou zonzo e foi jogado na cadeia.
Caiu de joelhos sem acusação e sem se defender.
Uma lambada de facão caiu-lhe nas costas – preia.

Por que tinham feito aquilo, não conseguia saber.
Era pessoa de bons costumes, nunca fora preso.
Aturdido, ele nem acreditava naquele flagelo atro.
Caíram em cima dele, como se fora um condenado.

Estava moído, depois de preso e surrado na bruta.
Apesar das machucaduras, balançava sua cabeça,
duvidando daquelas vicissitudes sem motivo algum.
Soldado mofino, escarro de gente, filho da puta.

Por causa de uma peste daquela, sem valia alguma,
maltratava-se um trabalhador e bom pai de família.
Estirou as pernas, firmou no muro as carnes doídas.
Foi pego de surpresa e por isso não dera explicação.

O amarelo confundira-o com outro, ele tinha certeza.
Estava acostumado com  as violências e as injustiças.
Aos amigos que dormiam no tronco já deu consolação:
“Tenha paciência. Apanhar do governo não é desfeita.”

O governo, coisa distante e perfeita, não podia falhar.
O amarelo jogava com os matutos e provocava depois.
O governo não poderia consentir essa brutal safadeza.
O assucedido os outros podiam depois por aí espalhar.

Mas ele, um abrutado, emudecia, não ia contar nada.
Só queria ir pra junto de Sinha Vitória e dos meninos,
botar o corpo moído de facão na velha cama de varas.
Sua cabeça pesada e ignorante  descambava sem tino.

(*) Capa de Floriano Teixeira, para edição brasileira, sem data, Ed. Record

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