MEDITAÇÃO: MENTE, CORPO E ALMA

Autoria de Lu Dias Carvalhomedi

A meditação não é apenas uma técnica de relaxamento. Mais que isso, ela é uma verdadeira ferramenta para a realização integral de nosso ser. (…) Florescimento humano, para mim, significa a realização do nosso potencial inato para alcançar uma felicidade duradoura, um estado geral de bem-estar, uma consciência sempre em expansão e uma serenidade obtida sem esforço. (Dr. Elliot Dacher)

A meditação, tida por alguns como relaxamento e por outros como uma busca espiritual, trata-se de uma técnica milenar de autoconhecimento, praticada nas mais variadas culturas, desde a Antiguidade. Muitos a consideram como a maneira mais eficaz de harmonizar o tripé: corpo, mente e alma, levando o indivíduo a ter contato com a sua essência interior. Mesmo a observação profunda de uma obra de arte pode levar a pessoa a um tipo de meditação.

O biofísico Stefan Klein explica que “Quando a mente se aquieta, os músculos se distendem e a atividade elétrica do cérebro entra no ritmo bem mais tranquilo das chamadas ondas alfa. Ao mesmo tempo, a frequência das pulsações, o consumo de oxigênio e a pressão sanguínea baixam. Além disso, menos hormônios do estresse circulam no sangue. Todo o organismo alcança um estado de maior equilíbrio, o que o cérebro interpreta como ausência de angústia e um relaxamento agradável”.

O objetivo maior da meditação é eliminar hábitos mentais disfuncionais, adquiridos ao longo da vida, responsáveis por gerar emoções aflitivas, estresse e angústia, frutos de uma mente hiperativa, que escondem a essência de nosso Ser interior em profundas camadas de sofrimento. A meditação permite-nos penetrar nas camadas das aparências, ou seja, da superficialidade, até atingir a essência, fazendo brotar as nossas boas qualidades, despertando a mente para que ela obtenha o seu pleno potencial, até então obscurecido.

É fato que a meditação acalma a mente e diminui o nível de estresse e a angústia no ser humano. Para isso, basta concentrar a mente em um “objeto” que pode ser uma palavra, um quadro, uma luz, um som ou mesmo a própria respiração. Como isso acontece? Ao direcionar a atenção para o “objeto”, a pessoa diminui sua distração mental e acalma a mente inquieta, hiperativa. Mas tal resultado é momentâneo, age apenas por algum tempo. As causas que levaram ao sofrimento continuam ali, quase que intocáveis. Faz-se necessário procurar a origem dos problemas, atingir a fonte geradora de estresse e angústia, dar fim à aflição emocional e à mente hiperativa. Fora disso, seria como tomar um remédio que alivia a dor temporariamente, sem buscar a causa.

A meditação deve ser um mecanismo de questionamento, de busca, bem mais que uma técnica de relaxamento temporária. É preciso descobrir as causas que levam ao sofrimento do corpo, da mente e da alma. É preciso penetrar fundo na própria consciência para corrigir os hábitos mentais imperfeitos e viciosos. Passos a seguir para alcançar tal objetivo:

  1. Dominar o falatório mental contínuo.
  2. Disciplinar a mente a fim de que se mantenha o maior tempo possível num estado de tranquilidade.
  3. Permitir que a mente descanse fácil e naturalmente, quando o Ser interior assumir um estado de expansão da consciência.

Pondo em prática essa técnica de meditação, a vida começará a mudar, de dentro para fora, pois, toda mudança permanente precisa nascer do âmago de cada um de nós.

 Fonte de pesquisa:
http://www.brasil247.com/ Revista Oásis

Views: 19

Vidas Secas – SINHA VITÓRIA E A CAMA NOVA (11)

Autoria de Lu Dias Carvalho

cap baleia

Acocorada junto às pedras que serviam de fogão,
com a saia de ramagens embutida entre as coxas,
soprava o fogo, com fumaça enfogando os olhos,
e limpava as lágrimas com as costas da mão.

Labaredas lambiam  achas de angico, amainavam.
Erguiam-se de novo, espalhando-se pelas pedras.
Sinha Vitória arribou o espinhaço, ajeitou o abano.
Havia amanhecido nos azeites, naquele sertão.

A cachorra cochilava sentindo o cheiro de comida.
Foi despertada por um banho lumioso de fagulhas.
Abandonou o lugar, temerosa de sapecar seu pelo.
Espiava faíscas se apagando sem tocar o chão.

À porta, olhou as folhas amarelas das catingueiras.
Deus não havia de deixar outra desgraça. Tinha fé.
Não queria pensar. No quintal molhou os craveiros.
Precisava agitar a cabeça, arranjar ocupação.

Comiam, engordavam, mas não tinham nada seus.
Viviam na graça de Deus. O patrão confiava neles.
Eram quase felizes. Queriam só uma cama, o catre
tinha um calombo grosso na ripa,  sem solução.

Queria era dormir numa cama de lastro de couro.
Fazia mais de um ano que falava nisso coo marido.
Ele até matutara com os cálculos, mas tudo errado,
tanto os feitos pro couro, quanto pra armação.

Fabiano amunhecara. Deitado na rede roncava alto.
Mulher é mesmo bicho difícil de entender, pensava.
E andava pra baixo e pra cima, querendo desabafar.
Queria  cama nova pra dormir como um cristão.

Ele disse pra economizar na roupa e no querosene.
Como? Se não acendiam nem candeeiros na casa?
Eles dois vestiam mal e as crianças andavam nuas.
Ele não tinha pela peça era mesmo estimação.

Sinha Vitória tinha certeza de um pensamento seu:
Não queria passar a vida toda dormindo em varas.
Ela se encolhendo num canto e o marido no outro,
e no meio um calombo machucando o coração.

(*) Capa de Floriano Teixeira, para edição brasileira, sem data, Ed. Record

Views: 13

BANDEIRA VERMELHA SOBRE O REICHESTAG

Autoria de Lu Dias Carvalho

  Mojica12   Mojica123

Yevgeny Khaldei (1917-1987), fotógrafo ucraniano, é responsável por uma das mais famosas fotos da Segunda Guerra Mundial, sendo consagrado como o mais importante fotógrafo de combate da União Soviética: a fotografia dos soldados soviéticos hasteando a bandeira do país no alto de um prédio destruído em Berlim, que era usado pelo Terceiro Reich para fins militares, tendo sido usado anteriormente como sede do Parlamento alemão.

O prédio, que havia pegado foto em 1933, tornou-se o principal alvo das forças soviéticas, pois, a sua captura teria um sentido altamente simbólico para os Aliados e abalaria a confiança dos nazistas e seus companheiros.

O Exército Vermelho capturou o prédio de Reichestag em 30 de abril de 1945, esmagando as forças do Eixo, compostas por Alemanha, Japão e Itália. A fotografia acima foi publicada em todo o mundo, simbolizando a vitória dos Aliados. Contudo, a imagem não se trata de um flagrante. Yevgeny Khaldei reconstituiu a tomada do prédio treze dias depois, já que o acontecimento anterior não fora fotografado, mostrando o hasteamento da bandeira soviética.

Para ilustrar a vitória dos soviéticos sobre os nazistas, o fotógrafo fez a encenação com alguns colegas. Como não havia uma bandeira soviética, Khaldei voou até Moscou, onde encontrou três toalhas vermelhas usadas oficialmente. Lá mesmo, ele costurou a foice e o martelo durante a noite e retornou a Berlim no dia seguinte para fazer a foto.

Ao fundo da imagem veem-se duas colunas de fumaça, o que configura que a sanguinolenta Batalha de Berlim ainda estava em andamento.

A foto acima se tornou imensamente popular, espalhando-se por todo o mundo, tornando-se uma das imagens mais conhecidas da Segunda Guerra Mundial. Infelizmente não levava a autoria de Khaldei, só sendo identificada após a dissolução da União Soviética.

Curiosidades:

  • Na foto original (imagem menor), o soldado que segura aquele que hasteia a bandeira, parece carregar um relógio em cada pulso. Para que não se pensasse que se tratava de saque, o relógio foi eliminado, usando-se uma agulha. Mas, na verdade, tratava-se de uma bússola, que vista na foto, tirada de certa distância, parecia-se com um relógio.
  • Khaldei também copiou a fumaça do fundo da foto de outra fotografia, com o objetivo de dar mais dramaticidade à cena.

Fontes de pesquisa:
Tudo sobre fotografia/ Editora Sextante
Wikipédia

Views: 6

Raízes da MPB – DORIVAL CAYMMI

Autoria de Lu Dias Carvalho rel12

Só quero que me deixem ficar no meu ritmo. Num dia bonito qualquer, sair com a chave no bolso, caminhar em direção à praia, conviver e conversar com desconhecidos. A pessoa é o enfeite da vida (Dorival Caymmi)

A chamada “batida” de violão de Dorival é dele e de mais ninguém. Muito mais tarde, um músico como Baden Powell vai se aproximar desse balanço baiano, mas a cadência de “Vestido de Bolero”, de “Vatapá”, “Requebre Que Eu Dou Um Doce” ou de “Samba da Minha Terra”, não é a mesma do samba carioca da época, inventado nos morros do Rio de Janeiro e seguido por um Noel Rosa ou um Cartola. (Aluísio Didier, compositor e documentarista)

O compositor, cantor e violonista Dorival Caymmi nasceu em Salvador/BA, em1914. Filho do funcionário público Durval Henrique Caymmi e de Aurelina Cândido Sores, foi, desde menino, calmo e otimista, apesar de ter nascido em tempos difíceis, poucos meses antes de desencadear a Primeira Guerra Mundial.

Foi o pai de Durval quem lhe ensinou as posições básicas do violão. O tio Cici, irmão de sua mãe, era boêmio e violonista, gostava de tocar chorinhos alegres, e assim contribui para ampliar o horizonte musical do sobrinho, que cresceu num ouvindo música tanto em casa quanto na vizinhança. Além disso, tinha aulas de canto com a professora Amanda e também participava do coro paroquial. Os pais de Dorival, ao descobrirem a inclinação do filho para a música, fizeram tudo para ajudá-lo.

Aos 16 anos de idade, o garoto Dorival começou a compor. Ao conhecer Itapoã, encantou-se com as pessoas simples do lugar e caiu de amores por tudo que ali existia, principalmente pelo mar. No lugar, reunia-se com os amigos, tocava violão, cantava e curtia seus amores.

Dorival Caymmi e seu amigo Zezinho ganharam um emprego na Rádio Clube, formando, com mais dois amigos, o grupo Três e Meio, devido à pequena estatura de seus integrantes. No ano seguinte, recebeu um convite profissional da Rádio Sociedade.

Aos 38 anos de idade, Dorival Caymmi, resolveu deixar sua cidade de Salvador, em direção ao Rio de Janeiro, levando na bagagem algumas das Canções Praieiras, sendo Noite de Temporal a primeira delas. Da viagem nasceu a canção Peguei um Ita no Norte.

A vida de Dorival Caymmi no Rio de Janeiro não foi fácil no início. Muitas vezes pensou em abandonar seus sonhos e voltar para casa, mas os amigos não deixavam. Fez um teste na Rádio Tupi, onde tocou violão e cantou, ganhando a simpatia de Theóphilo de Barros Filho e Assis Chateaubriand. Ali, passou a cantar duas vezes por semana. Depois foi para a Rádio Nacional, levado por Braguinha e Almirante, que lhe apresentaram Carmem Miranda, a mais importante cantora da música popular brasileira, na época, que viria a gravar O Que É Que a Baiana Tem?, e outras de suas canções.

Dorival Caymmi, após dois anos no Rio de Janeiro, casou-se com Stela Tostes, uma cantora principiante. O escritor Jorge Amado, parceiro de três músicas, pelo menos, foi o padrinho do casal. A primeira filha foi Nana. Depois vieram Dori e Danilo, todos ligados à música.

Nota
Acessem o link abaixo para ouvirem Dora
http://www.youtube.com/watch?v=X9CZawyrTgI

Fonte de Pesquisa:
Raízes da Música Popular Brasileira/Coleção Folha de São Paulo

Views: 8

Raízes da MPB – DOLORES DURAN

Autoria de Lu Dias Carvalho

duran

As letras de Dolores Duran eram muito femininas, bem escritas, num tom coloquial que faz com que nenhuma palavra fique ultrapassada, mesmo já tendo se passado mais de 50 anos. (Rodrigo Faour, jornalista e pesquisador musical)

Dolores Duran falou de sentimentos como ninguém, em todas as línguas. Seu idioma era o amor! (Antônio Maria, cantor)

Eu não tenho inimigos, tenho amigos que se extraviaram, mas voltam qualquer dias desses. (Dolores Duran)

Não me acorde, estou cansada. Quero dormir até morrer. (Dolores Duran – frase dita no dia em que morreu)

Dolores Duran, compositora, cantora e instrumentista, nasceu em 1930, na cidade do Rio de Janeiro/RJ, com o nome de Adileia Silva da Rocha. O sargento da Marinha Armindo José da Rocha e Josefa tinha uma prole de quatro filhos, sendo ela a terceira deles. A vida não era fácil para a família. Adileia nem chegou a completar o ginásio, pois tinha que trabalhar para ajudar em casa, mas, como menina prodígio, aprendia tudo por conta própria. Desde garotinha que ela sonhava em ser uma cantora famosa. Já fazia parte de festas de reisado e procissões, nas quais soltava sua bela voz infantil.

Adileia teve que passar pelos inúmeros testes exigidos dos cantores da época, contrariamente aos dias de hoje, em que qualquer um pode ser chamado de “cantor”, resultando num mercado cheio de mediocridades. De modo que a menininha talentosa ganhou seu primeiro troféu, num concurso de calouros, aos seis anos de idade. E ainda era atriz de teatro. Quando mais crescida, ganhou a nota máxima no programa Calouros em Desfile, na Rádio Tupi, sendo julgada por ninguém menos que o exigente Ary Barroso.

A pequena artista cantava tão bem, que passou a integrar a caravana de cantores no programa de calouros, conhecido como Escada de Jacó, participando de shows de bairro, cinema, teatros e circo. Também atuou como radioatriz na Rádio Tupi, participando de encenação de histórias infantis.

A artista adolescente tinha um ouvido afinado para línguas estrangeiras, aprendendo-as com muita facilidade. Por isso, foi incentivada a participar de um concurso que buscava uma cantora mexicana. Foi quando, por sugestão de um casal amigo, Adileia virou Dolores Duran. Ela foi contratada como crooner de uma boate, onde cantava em várias línguas, ao lado de Aracy de Almeida, Linda Batista, Jorge Goulart e Sílvio Caldas, estrelas dos shows principais. Também foi contratada pela Rádio Nacional para cantar músicas estrangeiras.

Dolores Duran, cantora romântica, gravou seu primeiro disco cantando dois sambas para o carnaval de 1952: Que Bom Será e Já Não Interessa. Não fez sucesso. Mas em 1954, gravou o samba Tradição, de Ismael Silva e o samba-canção Canção da Volta, que fez um grande sucesso, tornando-se um clássico da MPB.

Como tinha facilidade para cantar em várias línguas, os anos 50 vieram a calhar para Dolores Duran, que cantava todo gênero de canções internacionais: boleros, fados, tangos, músicas italianas, norte-americanas, francesas, rocks, calypsos, etc. Chegou até a gravar um fado, Coimbra, em esperanto.

Seu primeiro long-play, em 1955, denominado Dolores Viaja, trazia oito faixas, cada uma numa língua diferente. Época em que se casou com Macedo Neto que era radioator e compositor. O casamento durou cerca de dois anos.

A primeira letra de Dolores Duran foi Se é Por Falta de Adeus, musicada em ritmo de samba-canção por Tom Jobim, quando iniciava sua carreira musical, e cantada por Doris Monteiro.

A artista foi, em todos os sentidos, uma mulher à frente do seu tempo. Na música, foi uma das primeiras compositora e letristas brasileiras. Gravou também ritmos nordestinos no álbum Esse Norte É Minha Sorte, que continha baiões, toadas e xotes de vertentes românticas. Compôs letras e músicas belíssimas. É dona de uma das obras mais belas da MPB, embora carregasse na maioria de suas canções uma boa dose de tristeza, pois, apesar da fama, a cantora tinha que conviver com a depressão e com o sentimento constante de solidão.

Dolores Duran faleceu em 1959, aos 29 anos, de problemas cardíacos. Desde os oito anos de idade, havia sido diagnosticada com uma febre reumática. Deveria levar uma vida regrada, coisa que nunca fez: bebia, fumava três maços de cigarros por dia e só retornava para casa ao amanhecer.  Deixou uma filha adotiva, Maria Fernanda Virgínia da Rocha Macedo, que ficou com três anos de idade.

Nota:
Acessem o link abaixo para ouvirem A Noite do Meu Bem
http://www.youtube.com/watch?v=BgGZspMGwBQ

Fonte de pesquisa:
Raízes da Música Popular Brasileira/Coleção Folha de São Paulo

Views: 11

Vidas Secas – O SERTANEJO E O DESEJO DE VINGAR (10)

Autoria de Lu Dias Carvalho

cap baleia

Por que eles buliam com um homem trabalhador?
Era um bruto, sabia, nunca havia aprendido nada.
Não sabia como dizer as coisas, por isso foi preso.
Mete-se gente na cadeia por uma coisa de nada?

Era por que ele não teve prumo pra  falar direito?
Que maldade fazia a rudeza dele pras pessoas?
Que culpa tinha de nascer, viver como um bruto,
se vivia como escravo, sem fazer mal nenhum?

A ideia cresceu em sua cabeça e partiu sem tino.
Assuntava. Existia somente agarrado aos bichos.
Nunca teve escolha. Nem conseguia se defender.
Pouco sabia da vida, pois nunca  recebeu ensino.

Devia ser assim mesmo. Cada um como Deus fez.
E ele, Fabiano, um bruto, não tinha saber no falar.
Às vezes dizia palavras bobas, só por embromação.
Mas nem conseguia saber o que levava no pensar.

Se pudesse, espancaria os marrentos dos soldados,
que maltratam as criaturas só pra seu aprazimento.
Só a família segurava-o pra não cometer um desar.
Por ela levaria até ferro quente igual boi no mourão.

O tira amarelo era um infeliz. Nem valia um tabefe.
Se pudesse, entraria num bando de cangaceiro, e
faria estrago nos que dirigiam o soldado descorado.
Não ficaria só um na face da Terra – no sementeiro.

Essa ideia apoquentava-lhe a cabeça a toda hora.
Mas havia sua mulher, os meninos e a cachorrinha.
Eram uns cambões pendidos no seu rude pescoço.
Deveria continuar a levá-los até o fim de seus dias.

Views: 7