Van Gogh – SUA PAIXÃO PELA ARTE

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Meu melhor quadro é aquele que imaginei deitado na cama, através da fumaça do cachimbo e que nunca cheguei a pintar. (Van Gogh)

Toda a obra de Van Gogh transmite uma mensagem forte e apaixonada: a carga expressiva da sua pintura revela os estados de ânimo do artista, a sua alegria ou a própria dor. (Maria Carla Prette)

O primeiro contato de Vincent van Gogh com a arte deu-se quando trabalhou como aprendiz na filial da galeria de arte francesa em Haia, especializada na venda de gravuras. Foi o despertar de sua grande paixão pelo mundo da pintura, ao qual devotou a sua mais profunda dedicação. Com a mesma devoção com que se empenhou em ajudar os pobres mineiros e camponeses, executou o seu trabalho de pintor, pois via nele o mesmo valor de uma missão religiosa.

Van Gogh gostava de retratar as pessoas do campo, as mulheres em seus afazeres diários e a natureza. Não lhe agradava a sociedade burguesa e o seu pedantismo. O artista devotava uma grande paixão aos camponeses e trabalhadores, principalmente pelos valores morais e religiosos que carregavam. Amava-lhes a nobreza da simplicidade, mesmo diante da vida difícil que levavam. E achava que o mundo rural em que viviam era menos corrupto do que o da cidade. Preferia a essência de tal realidade para pintar seus quadros. Tanto é que uma de suas obras-primas é a tela intitulada Os Comedores de Batata, na qual expõe com destreza e alma uma complexa composição de figuras. Nela, ele domina com maestria os tons escuros e claros.

Theo,  seu irmão solidário, enviava a Van Gogh figuras, principalmente do pintor Millet, por quem nutria grande admiração, para que ele as copiasse. Agradava-lhe sobretudo a pintura campesina, tema comum em sua extensa obra. O artista buscava encontrar a essência de tudo que pintava quer na forma exterior, quer no sentido interior. Chegou a recusar o trabalho com modelos em gesso, sob o argumento de que queria pintar a vida. No período em que deu aulas de pintura, levava seus alunos para o campo e os encorajava a pintar repentinamente, e pedia-lhes que não fizessem nenhum retoque. Porque assim pintava o mestre, sendo a rapidez uma de suas características. A paisagem foi sempre o seu tema predileto.

Ao conhecer as xilogravuras japonesas, Van Gogh caiu de amores por elas e passou a colecioná-las, principalmente as de Hiroshige.  Ele não apenas tinha as gravuras em sua coleção, como gostava de refazê-las, reforçando os efeitos que mais o encantavam. Das estampas japonesas o pintor retirou muitas lições. A influência da arte japonesa pode ser vista nas suas últimas obras.

A partir de sua permanência em Paris Van Gogh deixou de lado a temática sombria e obscura da época em que pintava os camponeses e deu às suas obras tons mais claros.Pintou muitos quadros nos arredores de Paris. Fez muitos quadros sobre flores, iniciando a temática dos seus famosos girassóis, quando passou a usar cores vivas. Por isso, necessitava retornar ao campo, onde encontraria a luminosidade tão desejada no contato com a natureza, de modo que a exuberância que dela jorrava entrasse viva em suas telas. Pois ali se encontrava a essência e a mais profunda beleza da criação, que ele desejava repartir com a humanidade na maestria de suas telas. Natureza e cor eram, sem dúvida, os baluartes de sua fé na arte que fazia. A veemência da cor encantava o artista cada vez mais. Para dar vazão à sua inquieta existência, mergulhava no êxtase das cores fortes em dilaceradas pincelagens.

O pintor holandês assinava seus quadros usando apenas o nome próprio: Vincent, com a intenção de botar uma distância entre si e as suas origens, numa família de carreiristas “piedosos” e de pequenos burgueses. Ele se via apenas como indivíduo, sendo necessário apenas o seu nome próprio. Apenas importava-lhe a opinião de Theo sobre a sua arte, pois ele era não apenas o seu público artístico, como parte dele nos seus quadros. Assim, escreveu ao irmão em agradecimento: Sinto que os meus quadros ainda não são suficientes para compensar os benefícios que tive atrás de ti. Mas acredita em mim, se um dia forem suficientemente bons, terás sido tão criador quanto eu, porque nós dois fizemo-los juntos.

Ao pintar os maravilhosos trigais de julho, o artista escreveu a seu irmão Theo: São vastas extensões de trigo sob céus tempestuosos e não tive dificuldades para expressar a tristeza e a extrema solidão.

A Vinha Vermelha foi o único quadro de Van Gogh a ser vendido num evento em Bruxelas. Embora precisasse de dinheiro para suprir suas necessidades mais prementes, ele não se importou com isso. Continuou pintando apaixonadamente e trabalhando com furor. Sobre a sua obra, assim se expressou o crítico de arte Albert Aurier: Trata-se do universal, louco e deslumbrante fulgor das coisas; trata-se da matéria, da natureza inteira retorcida freneticamente, exaltada ao extremo, elevada ao ponto mais alto da exacerbação; trata-se da forma que se converte em pesadelo, da cor que se converte em chamas, lava e pedras preciosas, da luz que se converte em incêndio, da vida, da febre alta…

É impossível não reconhecer Van Gogh em cada uma de suas obras, com seu estilo único, quer pelo seu temperamento inquieto quer pela originalidade. Suas criações – árvores, flores, céus, campos, pássaros, pessoas e tudo o mais – parecem ganhar vida própria sob o olhar hipnotizado do espectador maravilhado e, ao mesmo tempo, aterrorizado diante de tanta força de vida que dali brota. É como se a mão do artista tivesse sido levada pela impetuosidade de sua mente que seduzia a natureza, onde tudo parecia criar vida nova, contorcendo e tremulando sob o queimor das cores que saíam vivas de sua paleta. O seu estilo de pintura acompanhou a sua mudança psicológica, trocando o pontilhado por pequenas pinceladas.

Van Gogh era guiado por uma força espiritual sem limites, que lhe era totalmente incontrolável. Através dela ele expressava suas paixões e sentimentos, ao manejar seu pincel, mergulhado no mundo das cores e no contato íntimo com a natureza e seus camponeses, principalmente. Ele não era um mero observador daquilo que pintava. Ao contrário, em cada pintura sua é possível captar sua alma, pois tinha a capacidade de imprimir em suas obras todas as emoções que brotavam em seu coração, quase sempre atormentado.

O mais esdrúxulo é saber que seu estilo não só foi ignorado, como também desprezado pela maioria de seus contemporâneos, tendo ele permanecido solitário tanto na arte quanto na sua breve vida. Mas o tempo tratou de redimir, com justiça, a obra desse fantástico gênio, que hoje tem admiradores em todas as partes do mundo. Sua mensagem artística continua cada vez mais viva. Foi recebida com entusiasmo pelos novos pintores que o precederam no início do século XX.  Uma prova da admiração que mesmo os leigos em arte nutrem pelo pintor é o fato de que os livros sobre Van Gogh são os mais difíceis de serem encontrados, mal chegam às livrarias já são vendidos.

Nota: Campo de Trigo com Corvos (imagem à esquerda)é um dos últimos quadros pintados por Van Gogh. Foi interpretado como um presságio de sua morte. Ele se encontrava à época preocupado com as dificuldades de Theo. No quadro o artista expele a sua angústia e solidão pelas quais passava nos campos de trigais ermos e cheios de corvos. Mostra a sua impotência diante da vida. A Vinha Vermelha (imagem à direita) foi a única obra de Van Gogh a ser vendida, enquanto viveu.

Fontes de pesquisa:
Mestres da Pintura/ Editora Abril
Grandes Mestres da Pintura/ Coleção Folha
Para Entender a Arte/ Maria Carla Prette
Van Gogh/ Coleção Girassol

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Raízes da MPB – NELSON CAVAQUINHO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Lupicínio Rodrigues canta a dor de cotovelo (…) cornitude (…), algo bem concreto, identificável e estreitamente relacionado como uma situação definida. (…) Nelson Cavaquinho é cantor da melancolia e da angústia existenciais, ambas ligadas ao grande mistério da vida e seu corolário inevitável – a morte. (José Novaes, professor de psicologia da UFF)

Existencialista? Beatnik? Hippie? Punk? Ninguém pode chamar de carreira artística, no sentido formal, a trajetória errante do bardo carioca Nelson Antônio da Silva, o Nelson Cavaquinho. (Tárik de Souza, jornalista de música)

O compositor, cantor, violonista e cavaquinhista Nelson Antônio da Silva nasceu na cidade do Rio de Janeiro/RJ, em 1911. A lavadeira Maria Paula da Silva e Brás Antônio da Silva, tocador de tuba da Banda da Polícia Militar, eram seus pais.

A influência do pai e de um tio violinista logo se fez presente na vida do menino, mas como a família passava por dificuldades, ele teve que começar a trabalhar cedo. Chegou até mesmo a tentar ser jogador de futebol. Acabou conhecendo músicos como Juquinha, que o adestrou no cavaquinho chorão, Mazinho do Bandolim e Edgar Flauta da Gávea. Alguns dos músicos conhecidos formaram um conjunto e convidaram o garoto para tocarem juntos, de modo que aos 16 anos de idade, ele assinou a sua primeira composição, o choro Queda. Quando trabalhava como bombeiro hidráulico, passou a frequentar uma roda de choro e ali ficou conhecendo os irmãos Romualdo e Luperce Miranda.

Ao se casar com Alice Ferreira Neves, Nelson Antônio da Silva viu-se em dificuldades financeiras. O pai levou-o então para a Cavalaria da Polícia Militar, para que o filho malandro tivesse um emprego fixo. Mas o serviço levava-o ao mundo da música. Quando patrulhava o Morro da Mangueira, parava nos botequins para encontrar os sambistas Carlos Cachaça, Zé com Fome e Portela, dentre outros. Segundo contam, certa vez, sua montaria voltou sozinha para o quartel, enquanto o dono bebia todas. O soldado boêmio acabou recebendo baixa devido às suas inúmeras punições. Depois disso acabou trabalhando com curtume.

Dois profissionais gabaritados do mercado musical, Rubens Campos e Henricão, entraram como parceiros em Não Faça a Vontade Dela, mas o disco não obteve sucesso, pois, só saiu em edição particular, de modo que, sem dinheiro, Nelson foi obrigado a vender parcerias, coisa muito comum na época, muitas vezes para pessoas que não tinham nada a ver com música.

Nelson iniciou sua carreira musical com o choro, mas acabou se mudando para o samba, após o convívio com os sambistas do Morro da Mangueira, trocando o cavaquinho pelo violão.

O carioca Guilherme do Ponto foi um dos parceiros mais importantes de Nelson, que preferia um lugar no Cabaré dos Bandidos, ao efervescente meio musical carioca. Era tão avesso a horários, que sua mãe morreu e foi sepultada sem que disso ele tivesse conhecimento. Encontrava-se em uma de suas triplas noitadas. E, em razão de sua vida boêmia, separou-se da esposa, deixando três filhos, todos homens.

Nelson começou a sair do semi anonimato, quando participou de uma roda de música, proposta por Cartola e que acabou dando origem ao Zicartola (ver texto sobre Cartola), onde se reuniam antigos e jovens compositores, assim como intelectuais, jornalistas e artistas das mais diferentes áreas.

Nara Leão, musa da bossa-nova, foi a responsável por revelar Nelson Cavaquinho para a classe média, ao gravar no seu disco, em 1964, a canção Luz Negra, feita de parceria com Amâncio Cardoso. Daí para frente, não lhe faltavam intérpretes, sendo admirado, inclusive, por Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto) que produziu seu primeiro “Song book”.

Durvalina Maria de Jesus foi a última esposa de Nelson Cavaquinho que, além de beber, fumava compulsivamente. Morreu aos 75 anos de idade, em 1985, de enfisema pulmonar. Beth Carvalho é a principal intérprete do músico.

Nota
Acessem o link abaixo para ouvirem Folhas Secas
http://www.youtube.com/watch?v=kV8SyD2QF9w

Fonte de pesquisa:
Raízes da Música Popular Brasileira/Coleção Folha de São Paulo

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Vidas Secas – O GURI MAIS VELHO E O INFERNO (13)

Autoria de Lu Dias Carvalho

cap baleia

Ele nunca tinha ouvido falar em inferno.
Foi pedir informações à mãe que, distraída,
aludiu, vagamente, a certo lugar muito ruim.
Como o pixote requeresse mais explicações,
ela mexeu os ombros cansados, sem saída.

O pequeno saiu, foi à sala perguntar ao pai.
Primeiro, ficou o rodeando, meio acanhado,
até que criou coragem e arriscou a pergunta:
– Pai, o que é inferno? O que é inferno, pai?
Sem obter resposta, saiu murcho e cismado.

Voltou à cozinha, pendurou-se na saia da mãe.
– Como é o inferno, mãe? – inquiriu, sem atalho.
A mãe falou sobre espetos quentes e fogueiras.
Ficou mais esmiuçador coa instrução recebida.
– A senhora já viu? – quis saber o pirralho.

Sinha Vitória zangou-se com o filho insolente.
Deu-lhe um cocorote pra conter sua chateza.
O pixote saiu exaltado coa injustiça padecida,
sabia que aquilo não era motivo pra apanhar,
meteu-se enraivado debaixo das catingueiras.

Baleia, percebendo que as coisas não iam bem,
foi atrás de seu amigo e o encontrou chorando.
Fez tudo que podia pra diminuir-lhe o sofrimento:
pinoteou em volta, rodeou-o e balançou a cauda,
mostrando-lhe que era inútil seu procedimento.

O guri sentou-se, botou a cachorra nas pernas.
Pôs-se a lhe contar baixinho uma história, mas
seu bê-à-bá era minguado como o do papagaio.
Valia-se de brados e gestos para contar o caso.
Baleia respondia coa língua e o fino rabo.

Todos o tinham abandonado, menos a cadela,
o único ser vivente que lhe mostrava simpatia.
Ele queria só que aquela palavra virasse coisa.
E ficara vexado com o que a mãe lhe dissera.
Inferno – nome tão bonito tinha que ter valia.

Era verdade que não sabia como falar direito,
por isso, balbuciava expressões complicadas,
repetia sílabas, imitava as vozes dos animais,
som do vento, dos galhos chiando na caatinga,
mas não enxergava nisso nada de mais.

Ele tão somente tinha tido aquela boa ideia:
aprender e decorar uma palavra charmosa,
depois transmitiria ao irmão e à sua Baleia.
Sabia que por ser bicho, ficaria indiferente,
mas o irmão pasmaria e encheria de inveja.

Se a mãe tivesse ido ao inferno, tudo bem.
Só a arguiu porque ela estava bem disposta.
E ganhara um cocorote como convencimento.
Ele só queria saber o significado da palavra,
e não carecia de um coque como resposta.

Beijou o focinho úmido de Baleia e a embalou,
coa alma dando voltas ao redor da serra azul e
dos bancos rendados de espinhos da macambira.
Seu pai dizia que havia tocas de suçuaranas ali
e cabeças chatas de jararacas fazendo miras.

Esfregou as mãos, esgravatou as unhas sujas,
e pensou nas figurinhas largadas no barreiro,
mas veio junto a lembrança da palavra infeliz.
Queria afastar o espírito daquela  curiosidade,
e imaginou que nada tivesse acontecido.

Talvez Sinha Vitória dissesse a verdade, pensou.
O inferno devia ter muitas jararacas e suçuaranas,
as pessoas recebiam puxões de orelha, cocorotes
e pancadas com bainha de faca. Sentiu-se sozinho.
Pra que a mãe tinha lhe dito aquilo? Falta de sorte!

Examinou seus braços magruços e os dedos finos.
Pôs-se a fazer no chão seco desenhos misteriosos.
Continuou abraçando Baleia que pra não magoá-lo,
padecia, silenciosa, coo excesso de afago recebido
do menino mais velho, seu “mais grande” amigo.

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Van Gogh – SUA SEDE DE AMOR

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Não posso, não é possível viver sem amor. Sou um apaixonado. Tenho de encontrar uma mulher, caso contrário ficarei congelado e me converterei em pedra. (Van Gogh)

O pintor holandês Vincent van Gogh em se tratando de amor era um romântico absoluto, levando em conta o seu mundo emocional. Não sentia nenhuma inibição ao tentar e querer viver o amor em toda a sua plenitude, embora fosse muito inexperiente na relação com as mulheres. Uma relação finda, que em qualquer outro não deixaria nenhuma marca, provocava no artista um enorme dano emocional. De modo que suas relações mal sucedidas com mulheres iriam no futuro destruir sua vida emocional. De um homem aberto e liberal, Van Gogh transformou-se num excêntrico e taciturno no contato com os seus semelhantes. Nunca alguém teve tanta sede de amor e foi tão pouco correspondido.

A primeira paixão de Van Gogh aconteceu em Londres, quando ali foi trabalhar. Enamorou-se da filha de sua senhoria, no local onde se hospedava, nutrindo por ela um amor oculto durante seis meses. Quando resolveu externar seus sentimentos, a garota não aceitou a sua proposta de casamento, pois já se encontrava com outro. Rejeitado, o moço teve a sua primeira desilusão amorosa, o que o deixou profundamente depressivo. Aqui já podemos notar o perfil afervorado do futuro pintor que encarava tudo com extremada paixão.

Aquela alma atormentada e solitária, e ao mesmo tempo sedenta de carinho, sofreu mais ainda ao ser, mais uma vez, rejeitado por uma prima viúva, por quem se enamorou. Ela passava alguns dias na casa dos pais do pintor, acompanhada de seu filho de quatro anos, quando ele ali também se encontrava. Ele se apaixonou pela prima e por seu filho, não se sentindo inibido em declarar seu amor. Contudo, a sua família sentiu-se constrangida com as declarações amorosas do pintor, alegando a recente viuvez da mulher. Van Gogh tudo fez para ganhar o amor da prima, mas ela preferiu guardar a memória do marido morto, a  casar-se com ele. Quando se viu rejeitado, o artista abriu-se para qualquer tipo de mulher que quisesse suprir sua sede de amor. Sobre sua decepção e a inaceitação dos fatos acontecidos, escreveu a Theo: Que a tua profissão seja uma profissão moderna e que possas ajudar a tua mulher a alcançar uma alma moderna, libertá-la dos preconceitos horrorosos que a algemam.

Ainda perseguindo o desejo incontrolável de encontrar um amor, Van Gogh conheceu outra mulher, Sien. Ela era mais velha do que ele, tinha uma filha e encontrava-se grávida. Há muitos anos trabalhava como prostituta. Ele a acolheu, juntamente com a filha, levando-as para morarem em seu ateliê. A relação com Sien fez muito bem ao artista, mas o dinheiro para o sustento dos três era minguado. Sobre ela, escreveu a Theo: Não é a primeira vez que sou incapaz de resistir ao sentimento de atração e amor pra com essas mulheres em especial a quem os pastores condenam tão veemente, condenando-as e desprezando-as do alto dos púlpitos. Se acordamos cedo e não estamos sozinhos, e vemos um ser humano ao nosso lado, então isso torna o mundo inteiro um lugar melhor para viver. Muito melhor do que os livros de devoções e as paredes caiadas de branco das igrejas de que os pastores tanto gostam.

A solidariedade devotada a Sien, tão maltratada pela vida, era muito mais forte para o coração generoso de Vincent do que as convenções religiosas que proibiam o contato com as mulheres “caídas em desgraça”. Com o nascimento do bebê de Sien, Van Gogh necessitava alimentar quatro bocas. Nesse ínterim ele conseguiu convencê-la a deixar a prostituição, diminuindo ainda mais as finanças da casa. A mesada enviada por Theo era insuficiente. O pintor trabalhava “desde manhã cedo até alta noite”, sem conseguir vender nada. Escreveu ao irmão: Não posso viver mais frugalmente do que já estamos a fazer; cortamos em tudo o que podíamos, mas há sempre mais trabalho para fazer, especialmente nestas últimas semanas, e quase não consigo aguentar – isto é, os custos que tudo implica.

Diante da extrema pobreza, pois a família estava literalmente passando fome, Sien teve que voltar à sua antiga profissão. O pintor ficou inconsolável, sentindo-se responsável pelos seus entes amados. De modo que Theo, o único membro da família que ficou do lado de Vincent, cautelosamente levou o irmão a decidir pela separação, voltando-se a dedicar à sua arte, pois essa era a sua única saída. Van Gogh sofreu muito, sentindo-se impotente diante da vida, e com toda a intensidade entranhou-se na sua arte, como um animal ferido e solitário.

Em Nuenen, a filha de um vizinho apaixonou-se pelo pintor. Acompanhava-o sempre que saía para pintar. Ela acabou declarando a sua paixão, e ele, ainda que hesitante, acabou por aceitar. Havia uma diferença de dez anos entre eles. Decidiram se casar, mas os pais dos dois opuseram-se à união. A moça tentou se envenenar o que fez com que Van Gogh sofresse muito, sentido-se responsável.

Agostinha Segatori foi outra mulher com quem Van Gogh teve um curto e tumultuado relacionamento. Ela trabalhava no Café Du Tambourin e pousava como modelo para vários pintores. Ao se apaixonar por ela, o pintor holandês tornou-se um constante frequentador do local, onde a moça trabalhava. Embora o lugar fosse tido por alguns como de má fama, o certo é que Van Gogh, com sua presença, levou para lá grandes nomes do universo da arte parisiense. Chegou inclusive a expor no local parte de sua coleção de estampas japonesas, obras suas e de vários de seus amigos.

Outro relato envolvendo a vida amorosa de Van Gogh fala sobre uma vizinha quarentona e solteira que se apaixonou por ele, mas por quem ele não nutria nenhum interesse. E, por isso, acabou rejeitando a mulher que o queria de verdade, mas que seu coração não queria receber. Outro caso, supostamente afetivo, também envolveu a vida do artista. Uma jovem que servia de modelo para ele, apareceu grávida. O pintor foi acusado de ser o pai, mesmo não tendo absolutamente nada a ver com o caso. O pároco local chegou a proibir que seus fiéis pousassem para Van Gogh. Existem suposições de que tal moça seja aquela que se encontra de costas em seu quadro “Os Comedores de Batata”.

Van Gogh sempre foi um homem carente e extremamente apaixonado que não tinha pudores em confessar a grande falta que lhe fazia o amor de uma mulher. Todas as vezes em que começava um relacionamento, sua alma parecia encher-se de luz e seu corpo revigorava. Por ser extremamente frágil, sofria desesperadamente quando se sentia abandonado. Sua pintura era o escape para o desespero que carregava, e para a incompreensão das pessoas à sua volta. Suas tintas eram mais do que tudo, a mistura do grande amor contido em si, assim como a manifestação de sua paixão por tudo que o envolvia. Van Gogh falhou naquilo que mais desejava: constituir uma família. Contudo, suas obras são as sementes eternas de sua hereditariedade.

Ficha técnica
Agostina Segatori no Café du Tambourin (1987)
Data: 1987
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 55,6 x 45,6 cm
Localização: Van Gogh Museum, Amsterdam, Holanda

Fontes de pesquisa:
Mestres da Pintura/ Editora Abril
Grandes Mestres da Pintura/ Coleção Folha
Van Gogh/ Editora Taschen

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Raízes da MPB – JACOB DO BANDOLIM

Autoria de Lu Dias Carvalho chiquinha1

Selecionar faixas dentro da discografia construída ao longo de duas décadas por Jacob é um desafio, pois sempre ficarão de fora gravações espetaculares. Trata-se da melhor discografia de um solista brasileiro de todos os tempos: numerosa, homogênea em qualidade e muito coerente em termos de repertório. (Henrique Cazes, músico, produtor, arranjador e escritor)

O compositor e instrumentista Jacob Pick Bittencourt nasceu na cidade do Rio de Janeiro/RJ, em 1918,era filho do farmacêutico capixaba Francisco Gomes Bittencourt e da polonesa Rachel Pick.

Na parte de baixo do sobrado em que moravam Jacob e sua família, vivia um francês que tocava violino, e que ficara cego na Primeira Guerra Mundial. O menino solitário deliciava-se com suas músicas. Ganhou um violino, mas não se adaptou com o arco do instrumento, partindo inúmeras cordas. Resolveu então mudar para um bandolim, aprendendo a tocar sozinho. Era um autodidata. E, como quem gosta de música está sempre com o ouvido em alerta, certo dia, quando vinha de uma festa, ouviu um choro solado pela clarinete de Luiz Americano. Em casa, tentou reproduzir a melodia que ouvira. A partir daí nasceu a paixão de Jacob pelo choro.

Quando tinha 15 anos de idade, Jacob fez sua estreia na Rádio Guanabara. E, ao sair vencedor do concurso Programa dos Novos, com o conjunto Jacob e sua Gente (Valério Farias, Roxinho, Osmar Menezes, Carlos Gil, Manoel Gil e Natalino Gil), passou a se dedicar totalmente à carreira de solista. Seu conjunto tocava em rádios, ganhando pequenos cachês. E, quando Osmar Menezes morreu, um dos integrantes do conjunto Jacob e Sua Gente, Benedito César Ramos de Faria, pai de Paulinho da Viola, entrou em seu lugar como violonista.

Ao resolver se casar com Adylia Freitas, Jacob teve que prometer ao pai da futura mulher que não dependeria da música como sustento de sua futura família. De modo que, paralelamente à profissão de artista, Jacob sempre exerceu outras atividades como vendedor, agente de seguros e títulos, prático de farmácia, etc. Chegou a ser dono de um laboratório e duas farmácias. Logo vieram os filhos Sérgio e Elena.

Quando gravou com Ataulfo Alves, em 1940, alguns sambas, incluindo o clássico Ai, que saudades de Amélia, sua genialidade começou a ser notada. Mesmo assim, Jacob fez um concurso público para escrivão da justiça, no qual trabalhou até se aposentar, cumprindo a promessa feita ao sogro.

Foi a esposa Adylia quem insistiu para que Jacob voltasse para a vida artística. Ele formou um novo grupo, composto por César Fria, Fernando Ribeiro, Pinguim e Luna, passando a gravar discos na gravadora Continental. Depois, transferiu-se para a RCA Victor. Ao deixar a gravadora Continental, um novo artista assumiu seu lugar, Waldir Azevedo, que já estreava o clássico Brasileirinho, vindo depois o baião Delicado e Pedacinhos do Céu, o que acabou mexendo com o ânimo de Jacob. Mas, ele não deixava de dar o melhor de si, aperfeiçoando-se em tudo que fazia. Além de começar a escrever suas próprias composições, também tinha a preocupação de anotar música de autores antigos, para que essas não viessem a se perder com o tempo.

Jacob foi responsável por trazer Ernesto Nazareth, sofisticado compositor, para o choro, ao gravar oito músicas de sua autoria, adaptando-as para o bandolim e conjunto regional. Daí para frente, os chorões sentiram mais facilidade para tocar as músicas do erudito compositor. Jacob também se preocupou em trazer para cena os chorões da velha guarda como Álvaro Sandim e Juca Kalut, entre outros, deixando um rico acervo para a música popular brasileira. Foi o criador do instrumento chamado “violinha”, responsável por enriquecer as canções mais românticas.

Jacob passou a trabalhar com o regional do Canhoto. Como sempre, sua produção era regular e de elevado nível de qualidade. Seu maior sucesso foi o choro Cariocas. E, para atender os diretores da RCA, alegando que a vendagem de seus discos era baixa, Jacob aceitou solar músicas de sucesso com o acompanhamento de uma orquestra, nascendo o LP Época de Ouro, que também viria a ser o nome de seu conjunto. Ele adorou o disco, apontando-o como o seu melhor trabalho, mesmo não trazendo choro, mas apenas sambas e valsas. Gravou depois, com orquestra, Valsa Brasileiras de Antigamente.

Quando Canhoto trocou de gravadora, Jacob montou o seu grupo, o inesquecível Conjunto Época de Ouro, composto por competentíssimos instrumentistas: César Faria, Carlinhos Leite, Horondino Silva, o Dinu, Jonas e Gilberto D’ávila. Tudo como ele queria, sendo sempre muito exigente em relação à qualidade do que fazia, sendo possível ver em Assanhado, em A Ginga do Mané e no Voo da Mosca, a preciosidade do seu trabalho.

Em 1964, Jacob gravou aquilo que considerava seu grande sonho: a Suíte Retratos para bandolim, regional e orquestra de corda, dedicada a ele pelo maestro Radamés Gnattali, em 1956. Cada movimento trazia homenagem a um pioneiro da música brasileira: Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Anacleto Medeiros e Chiquinha Gonzaga. Embora não tivesse feito sucesso entre os chorões, Suíte Retratos iniciava as mudanças que o choro viveria muitos anos depois. Em 1967, gravou o disco Vibrações, tido pela crítica como o mais completo de sua carreira.

Jacob do Bandolim morreu em 1969, aos 51 anos, de seu segundo infarto, quando retornava da casa de seu amado Pixinguinha.

Nota
Cliquem no link abaixo para ouvirem a canção Assanhado:
http://www.youtube.com/watch?v=r_zmyeLgEG8

Fonte de pesquisa:
Raízes da Música Popular Brasileira/ Coleção Folha de São Paulo.

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Vidas Secas – O MENINO MAIS NOVO E O PAI (12)

Autoria de Lu Dias Carvalho

cap baleia

O guri mais novo, montado na porteira do curral,
torce as mãos com alegria e medo. Estica-se pra
ver as nuvens de poeira afumando as imburanas.
Ali vai seu herói domando o genioso animal.

O pai parece-lhe a figura mais distinta do mundo,
metido no couro, guarda peito, perneiras e gibão.
Atira-se na  sela, faz um redemoinho na caatinga.
Ele é seu ídolo e motivo de grande admiração.

Sinha Vitória marisca lêndeas no guri mais velho.
Baleia abre um olho, boceja e adormece outra vez.
O menino não se conforma com tanta indiferença,
depois daquela façanha que seu velho pai fez.

A querença pelo pai vai crescendo cada vez maior.
Até esquece os desentendimentos e suas rudezas.
Um prazimento efetivo enche-lhe a alma pequenina.
Ele é o mais valente dos vaqueiros da caatinga.

Apesar de temer seu pai, acerca-se dele devagar.
Esfrega-se nas  peneiras, tateia as asas do gibão.
Mas Fabiano, incauto, esquiva-se e anda pra sala,
onde se despoja de toda a sua riqueza de peão.

O menino mais novo sabe que carece de crescer,
tornar-se tão grande como seu guerreiro sertanejo.
Montar nos bichos e matar cabras a mão de pilão
e, na vasteza da caatinga, ser peão andejo.

Ficará taludo, usará uma faca de ponta na cintura,
deitará numa cama de vara como fazem seus pais,
calçará sapatos de couro, fumará cigarros de palha.
Aí sim, vai ser um vaqueiro bom até demais.

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