OPINIÕES X CRENÇAS

Autoria de Lu Dias Carvalho ed1234

O ser humano lida no dia a dia com uma infinidade de opiniões, onde quer que se encontre. Acompanhar o nascimento dessas ditas, às vezes debaixo do mesmo teto, é mais difícil do que se pode imaginar, pois, nessa balbúrdia expressa, entram elementos diversos, principalmente afetivos e místicos. O melhor que se faz é aprender a conviver com elas da maneira mais pacífica possível, sem deixar que o estresse salgue o molho.

Cada indivíduo tem sua forma específica de reagir a um determinado acontecimento, levando em conta o meio, o interesse, a forma de educação recebida, o caráter e tantos outros elementos que modelam o seu jeito de ver o mundo. Mas isto não é o bastante para decifrarmos o porquê de pessoas, que carregam a mesma bagagem, terem opiniões divergentes. Por que tantas variações? De onde derivam tais maneiras de pensar?

Gustave Le Bon, fundador da Psicologia Social apresenta-nos uma resposta que talvez não agrade a gregos e troianos. Segundo ele, um povo não é somente formado por indivíduos diferenciados pela educação, pelo caráter, etc., mas, sobretudo, por heranças ancestrais dissemelhantes. Trocando em miúdos, ele diz que, no início, uma sociedade é composta por seres que pouco se diferenciam entre si, como se fosse uma tribo com mentalidade única. Mas, com o tempo, em função dos fatores de evolução e seleção, tais indivíduos vão gradualmente se separando do grupo. Uns progridem mais rapidamente, outros são mais lentos, o que vai aumentando as diferenças. Assim sendo, a sociedade acaba agregando todos os tipos de pensamento. Até porque é necessário que haja transformações, para que as pessoas adaptem-se a novos tempos. A civilização não aperfeiçoa os homens igualmente e ao mesmo tempo.

Ainda podemos encontrar, com muita facilidade, homens das cavernas, senhores feudais, artistas do Renascimento, déspotas do temido Império Romano, sábios gregos, etc., no mundo contemporâneo. Mesmo que falando a mesma língua, as pessoas de uma mesma sociedade compreendem de maneira diferente as opiniões, que por sua vez despertam ideias inteiramente contrárias. Cabe aos governantes tornar uma sociedade heterogênea de mentalidades e recursos, o mais homogênea possível. Esta é a obrigação deles junto ao povo.

Le Bon é capaz de nos fazer rir, quando diz que numerosos políticos ou universitários entupidos de diplomas têm a mesma mentalidade dos bárbaros.  Assim como um lavrador pode ter a postura de um sábio.  O que é uma verdade incontestável. Mas, graças a Deus, as opiniões não possuem as mesmas raízes da crença. E, por isso, elas podem ser mutáveis, contribuindo para a transformação humana. Enquanto a crença é destituída de razão, a experiência pode modificar a opinião.

Ao contrário do que pensam alguns, mudar de opinião é uma forma de mostrar que se é independente para pensar e agir, capaz de entender as mudanças que vão chegando. Tenhamos medo de quem diz que nasceu assim e vai morrer do mesmo jeito, pois não passa de uma pedra no meio do caminho.

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Raízes da MPB – ISMAEL SILVA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Ao ter composições suas gravadas entre 1928 e 1935 por Francisco Alves e Mário Reis, os cantores mais populares da época, Ismael criou as condições para que o ritmo do Estácio se tornasse sinônimo de samba em todo o país; abriu caminho para que outros “sambistas do morro”, como Cartola, despertassem interesse nos intérpretes; e deixou registradas músicas primorosas como “Se Você Jurar”, “Nem É Bom Falar”, “O Que Será de Mim?” e “Para Me Livrar do Mal”. (Luiz Fernando Vianna, jornalista e escritor)

O compositor, cantor e percussionista Ismael da Silva nasceu na cidade de Niterói/RJ, em 1905. Era filho de Bejamim da Silva, cozinheiro, e de Emília Correia Chaves. Era o quarto filho da família. Quando tinha três anos de idade, perdeu o pai, ficando a família numa situação de miséria. Até para o enterro foi preciso receber ajuda.

Emília, a mãe, para resolver sua precária situação, deixou os quatro filhos mais velhos com os parentes e foi morar no bairro do Estácio, na cidade do Rio de Janeiro, com Ismael Silva, o caçula. Para sustentá-lo, lavava roupa para fora, de modo a não deixar o filho passar fome. Só não o incentivava a estudar, alegando que sabedoria era coisa de branco”. Mas, segundo depoimento do próprio Ismael, ele mesmo procurou um grupo escolar, onde era o primeiro aluno da sala. Aos 18 anos, completou o curso ginasial. Na época, já se encontrava metido com o samba, sonhando em ser compositor.

Ismael Silva, desde muito novo, envolvia-se com jogos e mulheres. Tanto é que aos 14 anos de idade, compôs um samba que dizia:

Já desisti de mulher/Já desisti do trabalho/Agora só me falta/Desistir do baralho.

Começou cedo a tocar pandeiro e tamborim, vindo a tocar violão, anos mais tarde. Nada o seduzia mais do que se vê em meio a uma roda de homens bem vestidos, jogos, mulheres e música, nos bares ou nas ruas. E esse seria o objetivo de vida de Ismael.

Naquela época, era muito comum a compra de músicas, sendo que Mário Reis e Francisco Alves eram tidos como exploradores de compositores pobres. E foi assim que o último chegou até Ismael Silva – comprando o seu samba Me Faz Carinhos, sem que seu nome constasse como autor. O samba foi um sucesso, o que levou Francisco Alves a propor ao compositor gravar suas canções, como se tratassem de parceria dos dois. Como Ismael Silva já tinha parceria com Nilton Bastos, propôs que fizessem um trio de autores. Embora relutante, Chico Alves acabou aceitando, entrando em cena os Bambas do Estácio. A canção Se Você Jurar obteve muito sucesso no carnaval. Mas há uma polêmica entre ser ela apenas do Nilton Bastos ou feita em parceria com Ismael. Depois veio Nem é Bom Falar.

O parceiro Nilton Bastos morreu aos 32 anos, vitimado pela tuberculose, deixando Ismael profundamente abalado. Em homenagem ao amigo fez o samba Ri Pra Não Chorar:

Mesmo sem prazer/Agindo sem querer/Nós devemos disfarçar/Pra não chorar.

Mas foi a música Adeus que remetia à lembrança de Nilton, apesar do machismo da época, deixando interrogações sobre a vida de Ismael:

Por ti, tudo chora!/Sem ti amor, essa vida não tem valor.

No lugar de Nilton Bastos, no trio dos Bambas do Estácio, entrou Noel Rosa que compôs 18 músicas com Ismael Silva, sendo 12 delas também assinadas pro Francisco Alves.

Ismael Silva esteve hospitalizado com sífilis. Quase morreu. Também esteve preso durante cinco anos, quando atirou nas nádegas de um valentão que mexeu com sua irmã Orestina. Ao sair da prisão passou por dificuldades, sem conseguir emprego. Mesmo sendo gravado por alguns cantores, não fez o sucesso de antes. Compôs o samba-canção Antonico, gravado por Alcides Gerardi, que para muitos se tratava de uma música autobiográfica, o que ele negava. Foi gravado por grandes intérpretes: Elza Soares, Gal Costa, Jards Macalé, Martinho da Vila, dentre outros, e por ele próprio, motivando uma virada em sua vida. Passou a se apresentar em vários shows, além de receber muitas homenagens.

Francisco Alves tornou-se um dos desafetos de Ismael. Ele creditava sua mágoa, não ao fato de ter sofrido exploração financeira e humilhação nas ditas parcerias, mas pelo acontecido posteriormente. Conta ele que durante um show, o cantor Francisco Alves chamou-o ao palco, ergueu seu braço e disse para a plateia:

– Este é Ismael Silva, o preto de alma branca!

Ismael teve uma única filha, Marlene, fruto de seu rápido relacionamento com Diva Lopes Nascimento. Mas ele não registrou e nem conviveu com a filha. Embora recebesse muitas homenagens nos seus últimos anos de vida, além de ter a saúde piorada, ainda passava por dificuldades financeiras, sofrendo ameaças de ser despejado por atraso de pagamento do aluguel do lugar onde morava. Via isso como humilhação. Ismael Silva morreu em 1978, aos 73 anos de idade, vitimado por um infarto.

Nota
Cliquem no link abaixo para ouvirem Antonico:
http://www.youtube.com/watch?v=kLH-RctNok8

Fonte de pesquisa:
Raízes da Música Popular Brasileira/Coleção Folha de São Paulo

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A FESTA DO CÍRIO E OS PERIQUITOS

Autoria de Antônio Messias Costa papagaio

O Círio de Nazaré é, sem dúvida, uma festa religiosa contagiante e comovente, atraindo multidões de turistas brasileiros e de todo o mundo, o que torna Belém a capital da fé em um período de quinze dias do mês de outubro. Chama a atenção a procissão da corda, a procissão dos navios e as diferentes formas de pagamento de promessas. Também é um período de banquetes festivos, onde a exótica culinária paraense apresenta a maniçoba e o pato no tucupi, partes integrantes da gastronomia comemorativa.  No decorrer dos dias, os estampidos sinalizam as comemorações, cuja intensidade é maior no encerramento, em frente à igreja de Nossa Senhora de Nazaré, onde os foguetes são utilizados de forma prolongada e intensa.

A cidade de Belém, com seus 400 anos de existência, está localizada em uma área outrora da mais rica biodiversidade Amazônica, com elevado grau de endemismo, ou seja, com muitas espécies de animais que só aqui existiam. Ainda nos dias de hoje, foi descoberta uma nova espécie de aranha, no Bosque Rodrigues Alves, uma mata primária ainda mantida, graças a Deus, que contribui para amenizar o rigor do clima na região. Também o gavião-real, a maior ave de rapina, hoje ameaçada de extinção, existia na região da cidade. Belém, com suas mangueiras e áreas verdes, ainda é local de uma riquíssima avifauna. Até mesmo poraquês e sucuris, nas “águas altas”, visitam locais da cidade, onde os canais podem leva-los. No entanto, a festividade do Círio de Nazaré vem trazendo conflitos, que a cada ano tornam-se maiores, envolvendo diferentes entidades: religiosa, de proteção animal e órgãos de fiscalização animal e de direito. Trata-se de uma situação complexa, em que a tomada de decisão deve ser bastante analisada e justa, tanto para os homens quanto para os animais aqui citados.

O ponto do conflito é o foguetório do encerramento da festividade, em frente à Basílica de Nossa Senhora de Nazaré, situada em frente à Praça do CAM, onde centenas de periquitos-de-mangueira escolheram as antigas sumaumeiras como dormitório e abrigo, principalmente na época das festividades do Círio de Nazaré, aproveitando as mangueiras, para se banquetearem na época de sua frutificação.

Numa rápida enquete com vendedores ambulantes, lojista, devotos e moradores dos arredores da Praça, posso afirmar com segurança que 90% deles, embora enfatizem a importância da tradição, anseiam por uma solução, para que os periquitos-de-mangueira não sejam molestados pelo barulho do foguetório. Para melhor entender a complexidade do problema é importante conhecer o significado do estresse para a vida desses animais, com riscos de morte, sendo, portanto, necessário levar em conta os princípios humanitários.

Primeiramente é preciso compreender que existem dois tipos de estresse. O bom, que é aquele que nos mantém vivos e atentos à nossa segurança, e o ruim que, ao contrário, provocado por fatores externos, hostis aos nossos sentidos auditivos, visuais e olfativos, interfere negativamente na vida do indivíduo.

Temos conhecimento de que animais da floresta são atletas, aptos a fugir ou lutar sob ameaças, ao contrário dos que vivem em cativeiro, que não mais reconhecem as ameaças externas, são portadores de obesidade e hipofunção da adrenal, uma glândula localizada próxima a cada rim, responsável pela produção de hormônios que elevam a taxa cardiorrespiratória, oxigenando mais o cérebro, requerendo mais glicose que é o combustível vital ao bom funcionamento da máquina corporal. O cortisol é o hormônio ruim resultante do estresse negativo, que diminui a imunidade do organismo, e o predispõe a fratura.

Alguns podem questionar: já que os periquitos são atletas e são livres por que não se mudam para uma área mais segura, fugindo dos fatores de estresse, ou seja, do foguetório? Acontece que no mundo natural funcional, custo x benefício é balanceado. Os periquitos têm abrigos, são pouco hostilizados na maioria do tempo, dispõem de fontes de alimento (mangueiras, sumaumeiras) de fácil localização e baixa competição, daí se manterem nas sumaumeiras da CAN, apesar do estresse ruim que os acomete. E a situação dos urubus? E os cães comidos em países asiáticos? E o cavalo que tem sua carne oferecida em restaurantes franceses? E as touradas na Espanha? Como visualizar neste contexto a proteção dos periquitos, em uma festa, cujo ponto alto do encerramento é o foguetório?

Em primeiro lugar é importante compreender que pertencemos à classe dos mamíferos, à qual pertencem inúmeras outras espécies. Diferenciamo-nos por ter consciência, pois, se assim não fosse, não compartilharíamos todas as benesses científicas (medicamentos, tecidos, vacinas) que tiveram os animais, principalmente os primatas, como cobaias de pesquisa biomédica. Assim é ético e moral que tenhamos um compromisso com esses nossos companheiros de planeta.

Voltando às indagações anteriormente feitas, os urubus são verdadeiros “cidadãos” urbanos, resistentes às infecções e bem adaptados às mais diversas agressões do meio urbano. Possuem um papel ecológico muito importante por agirem como lixeiros. As questões que envolvem o uso de animais domésticos como alimento requerem o entendimento de que o homem faz um investimento na alimentação, saúde e criação desses, dando-lhes qualidade de vida. Estes seriam os princípios éticos que, infelizmente, o mundo desenvolvimentista eliminou. É importante que o abate desses animais atenda a princípios éticos e humanitários, de modo que a morte seja rápida e com quase ausência de dor. O escritor Desmond Moris, no seu livro “O Contrato Animal”, retrata com clareza tais princípios.

O cavalo e o cão são espécies que contribuíram para o desenvolvimento da humanidade, principalmente o cavalo, utilizado em guerras, correios, explorações e ainda hoje, juntamente com o cão, torna a nossa vida mais alegre e mais viável. O consumo desses animais “afetivos” e vinculados à nossa existência sinaliza o grau evolutivo de quem os consome, e se torna mais grave no aspecto humanístico, se alternativas alimentares existirem. Assim é fácil compreender que a miséria e a fome, que imperam nas baixas castas na Índia, não se justificam com tanta abundância de vacas. A tradição, neste caso, cria uma situação injusta em razão da ignorância.

Outro ângulo da questão é a relação presa x predador. Neste caso há uma oportunidade de fuga e luta, sendo que algumas espécies, como a dos roedores, existem em grande número para serem consumidas por outras. Diferentemente do que acontece com o homem, os mecanismos reguladores nas outras espécies animais existem para mantê-las, enquanto nós proliferamos, tomamos e invadimos espaços dos animais, desertificamos e contaminamos o planeta com agrotóxicos.

Mas o que tem a ver tudo isto com a questão dos periquitos? É simples. A necessidade de se buscar uma solução em respeito a esses animais não reside em “se morreram apenas 3, 5, ou 100”, mas no simbolismo que o respeito à vida representa, em um mudo de taxas de violência alarmantes, insegurança e competição desenfreada. Se religião é o modo como interagimos entre nós, humanos, e entre as outras formas de vida, comecemos por respeitar a vida, por menor que ela possa parecer. Assim, a comunhão entre homem e natureza merecerá verdadeiramente as bênçãos da Virgem de Nazaré.

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EDUCAÇÃO E LIBERDADE

Autoria de Edward Chaddad

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Mesmo que seja um sentimento inserido na essência do ser humano, a liberdade é uma busca, uma conquista interminável e incessante. Mas qual é o caminho que teremos que trilhar para conseguirmos e conservarmos tão importante condição? É evidente que é a educação.

Não somos livres por sermos livres. Temos que ter a conscientização de que todos os seres humanos nascem livres perante a lei, ou pelo menos assim deveria ser. Todavia, é importante o amadurecimento que nos possibilita ter noção e conscientização de nossas ações. E aí, neste caminho, está a educação. É ela que nos norteia e nos faz participantes e responsáveis, juntos com os outros, na direção tomada pela nossa humanidade.

É a educação que nos permite avaliarmos o nosso modo de agir no meio em que vivemos. Através dela nos aperfeiçoamos. Ela nos transforma, permitindo-nos a condição de melhor decidirmos. Através dela não só conseguimos absorver conhecimentos, mas, principalmente, valores. Com ela percebemos que a liberdade é essencial na vida humana e que nosso espaço não pertence somente a alguns. A natureza do ser humano anseia por liberdade, mas somente aquele que se utiliza da educação pode se qualificar para atuar no mundo e, simultaneamente, ter a noção correta de como agir, para nele sobreviver e se sentir livre.

A liberdade tem como fundamento a educação. São indissociáveis. Faltando uma, a outra não subsiste.  Ninguém recebe gratuitamente a liberdade. Ela é obtida à custa de esforços e de luta no amadurecer do ser humano, quando ele toma consciência de que é livre na sua essência. É a educação que lhe proporciona esta percepção. Não pode haver qualquer importância na educação, se ela não for a chave, a porta de entrada para a liberdade, e vice-versa.

Devemos nos educar para sermos livres. Não podemos nos deixar doutrinar, aceitando como verdades fatos que nos são oferecidos como dogmas indiscutíveis. O ser educado tem condições de discernir, obtendo habilidades para encontrar o rumo mais correto de sua vida e melhor participação no mundo. A educação é o pressuposto indispensável, portanto, para a liberdade. Sem aquela, esta não existe. Através dela, o homem chega ao seu apogeu, ao clímax de todo o seu potencial, pois, com os valores que conseguimos através dela teremos condições para enfrentar a vida.

Onde há opressão, a educação é usada como doutrinação. Aí reside o perigo, pois nos induz ao julgamento precipitado e equivocado. Mas, cedo ou tarde, a educação, como ato de coragem, desmascara o poder tirânico, enfrenta-o e o destrói, como já ocorreu em várias passagens de nossa história, levando-nos à liberdade, pois, um povo educado não transige com nada que dê espaço ou suporte para o autoritarismo e a arbitrariedade, graves empecilhos para a liberdade plena.

A educação é o preço da liberdade!

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Van Gogh – NOITE ESTRELADA SOBRE O RÓDANO

Autoria de Lu Dias Carvalho vg1234567

Estou terrivelmente fascinado pelo problema de pintar cenas ou efeitos noturnos no local, ou melhor, à noite. (Van Gogh)

No azul profundo as estrelas eram cintilantemente esverdeadas, amarelas, brancas, cor-de-rosa, de um brilhante mais vítreo do que em casa – mesmo em Paris: chame-se-lhes opalas, esmeraldas, lápis lazuli, rubis, safiras. Certas estrelas são amarelo-limão, outras têm um rubor rosa, ou um verde ou azul ou um brilho que não se esquece. E, sem querer alargar-me neste assunto, torna-se suficientemente claro que colocar pequenos pontos brancos numa superfície azul-preta não basta. (Carta de Van Gogh a Theo em 19 de junho de 1888)

Nos últimos anos de sua vida, o pintor holandês demonstrou um grande interesse pelos céus noturnos. Dizem que nutria grande interesse pela astronomia, sendo um leitor assíduo de uma revista com tal tema. Em uma de suas cartas ao irmão Theo, ele fala com grande entusiasmo sobre as cores e cintilações das estrelas e outros corpos celestes. E, segundo algumas fontes, quanto mais ele questionava a relação entre o homem e o Cosmo, mais se interessava por tal ciência.

A tela Noite Estrelada sobre Ródano foi pintada em Arles, sul da França, para onde Van Gogh mudou-se em busca de luz e cor, nove meses antes de se internar. Apesar da exuberância das cores azul e amarela, vistas na pintura acima, tudo se mostra calmo e esplendoroso com as luzes naturais, vindas das estrelas, e a luz dourada das casas refletindo-se no rio. As ondulações da água trazem um clima romântico. O impacto visual causado é imediato, estabelecendo uma magia entre a pintura e o observador.

Esta cena noturna baseou-se, segundo os pesquisadores, numa experiência comovente da escuridão sem fim, que Van Gogh descreve numa carta ao irmão:

Uma vez fui dar um passeio pela praia deserta, à noite. Não foi alegre, nem triste – foi belo.

O Ródano (francês Rhône) é um importante rio europeu que tem sua nascente na Suíça e acaba seu curso na França, onde desagua no mar Mediterrâneo. É o rio francês mais caudaloso e o mais importante rio europeu a desaguar no Mediterrâneo.

Curiosidades:
Àqueles que se sentiram emocionados com a história de Vincent van Gogh, sugiro as seguintes obras:

  • Sede de Viver – filme de Vincent Minelli
  • Sonhos – filme de Akira Kurosawa
  • Vincent e Theo – filme de Robert Altman
  • Van Gogh – filme de Maurice Pialat
  • Van Gogh/ Vida e Obra – Editora Taschen

Ficha técnica:
Data: 1888
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 72,5 x 92 cm
Localização: Museu d`Orsay, Paris, França

Fonte de Pesquisa:
Van Gogh/ Editora Taschen

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Raízes da MPB – CHIQUINHA GONZAGA

Autoria de Lu Dias Carvalho chiquinha

Antes de vermos Chiquinha Gonzaga mergulhar no ambiente musical carioca, na década de 1870, vamos conhecer um pouco desse ambiente. Os primeiros gêneros populares da música brasileira foram a modinha e o lundu e atendiam assim a demanda básica da sociedade. A modinha se encarregava do aspecto romântico e o lundu traduzia o humor e a sensualidade. No lundu soa claramente a influência rítmica da presença negra no Brasil. Até a chegada da polca em 1845 era essa a nossa música popular. (Henrique Cazes – músico, produtor, arranjador e escritor)

A compositora, pianista, arranjadora e regente Francisca Edwiges Neves Gonzaga nasceu no Rio de Janeiro/RJ, em 1935. Seu pai, José Basileu Neves Gonzaga, oficial de uma família de tradição militar, era amásio de sua mãe, Rosa Lima Maria que, ao contrário do pai, era filha de escrava, tendo sido alforriada ao ser batizada. Os dois filhos naturais,  Mamede e Joana, tiveram a paternidade reconhecida depois. Francisca Edwiges foi a terceira a nascer, depois de sua mãe passar por uma complicação durante o parto, inclusive, seu nome foi uma homenagem à santa do dia.

O pai de Francisca contratou o cônego Trindade para ensinar a filha as partes de leitura, escrita, cálculo e catecismo. As aulas de piano foram dadas pelo Maestro Lobo. Ao dar à filha uma primorosa educação, seu pai tinha como objetivo encontrar para ela um bom marido. Antes, o então major legalizou a situação dos sete filhos, casando-se com a mãe de seus rebentos.

Antônio Eliseu, tio de Francisca pelo lado paterno, tocava flauta e animava festas de famílias. Foi ele o responsável pela estreia da sobrinha numa noite de Natal, quando ela tinha onze anos de idade, apresentando sua primeira composição denominada Canção dos Pastores, com versos também de seu irmão Juca, dois anos mais novo que ela.

Chiquinha era uma garota irrequieta, namoradeira, dona de uma personalidade forte, de modo que, na visão daquele tempo, quando tivesse marido e filhos seus modos mudariam totalmente ou, caso contrário, poderia ir para o convento. O fato é que a menina, ainda nos seus 16 anos, casou-se com Jacinto Ribeiro do Amaral, então com 24 anos, filho de uma família importante. E assim, o filho do casal, João Gualberto, nasceu antes que seus pais completassem um ano de casados.

A dedicação de Chiquinha ao piano e à música passou a incomodar Jacinto Ribeiro. Ele precisava viajar ao sul do país, mas deixar Chiquinha sozinha na cidade do Rio de Janeiro preocupava-o, mesmo ela tendo mais uma menina para cuidar: Maria do Patrocínio. Optou então o marido por levá-la consigo. Ela se desesperou por ver a Guerra do Paraguai de perto e por se encontrar longe da música, embora ele lhe arranjasse um violão. E, quando seu marido exigiu que ela escolhesse entre ele e a música, Chiquinha preferiu a segunda. Mas, ao descobrir que estava grávida do terceiro filho, reatou com o cônjuge, contudo, acabou não aguentando dar continuidade ao relacionamento. Após o nascimento do filho Hilário, separou-se dele. Sua família ficou tão revoltada com seu procedimento, que proibiu até mesmo que seu nome fosse pronunciado, considerando-a como morta. E, como o último filho fosse moreno como ela, ao contrário dos outros dois, as más línguas suspeitaram de que não fosse fruto de Jacinto Ribeiro.

A modinha e o lundu foram os primeiros gêneros populares de nossa música. A polca chegou em 1845. E, como não poderia deixar de acontecer, ela acabou ganhando influência da música portuguesa e africana, nascendo daí o choro, sendo o flautista e compositor Antônio da Silva Callado o primeiro líder entre os chorões. Foi ele o responsável por organizar os primeiros conjuntos de choro. E foi através dele que Chiquinha Gonzaga aproximou-se do choro e dos chorões.

Quando estava com 23 anos, Chiquinha apaixonou-se pelo engenheiro João Batista Carvalho, a quem acompanhou nos acampamentos da estrada de ferro Mogiana, no interior mineiro. Quando assumiram o romance, e estando Chiquinha prestes a ter um filho do companheiro, Jacinto, de quem ela havia se separado, mas não legalmente, entrou com um processo de divórcio no Tribunal Eclesiástico, acusando-a de abandonar o lar e de adultério.

Decepcionada com seu novo relacionamento, que acabou em separação, Chiquinha voltou-se totalmente para a música, publicando a polca Atraente, primeira composição a se tornar de conhecimento público. E, ao fazer parte do grupo de Silva Callado, passou a ser considerada a primeira chorona. Ela compunha choro, valsa, polca, tango… Também dava aulas de piano, canto, francês, geografia, história e português, para complementar sua renda. Fazia parte dos encontros de boêmios e intelectuais, engajando-se na causa abolicionista. Mas, após a morte de seu amigo Callado, dedicou-se ao piano, sob o comando de Arthur Napoleão, que veio a se tornar seu editor. Daí entrou no teatro de variedades, recém-chegado ao Brasil, bem diferente das óperas e do teatro, e que vinha atraindo o público.

Em 1884, ao compor a opereta a Corte na Roça, bem aceita pela crítica, Chiquinha foi reconhecida como maestrina, tornando seu nome sinônimo de sucesso. Acabou tendo muito êxito com o teatro musicado. Mas continuou tendo problemas com a família. Não convivia com os filhos, o pai morreu sem lhe conceder o perdão e sua mãe só se aproximou dela após perder o marido. Ela se tornou amiga do grande compositor Carlos Gomes, responsável por acabar com o preconceito que os eruditos do Conservatório dirigiam à sua música. Ela criou sucessos como Corta Jaca e a primeira música de Carnaval, a marcha-rancho Ó Abre Alas.

Chiquinha fez parceria com o farmacêutico e teatrólogo Ernesto Souza. Ele comprou um galpão, onde promovia saraus dos quais participavam ela, já perto de seus 50 anos, tocando piano, e músicos amadores e estudantes. E foi num desses encontros que um estudante português, de 16 anos de idade, apaixonou-se por Chiquinha. O romance ficou em segredo durante dois anos, pois, nem empregados ela contratava para sua casa. Mas, após uma viagem à Europa, e já tendo João Batista Fernandes Lages completado a maioridade, eles se apresentaram como mãe e filho, ao retornarem, embora ninguém acreditasse em tal parentesco, até mesmo pelo sotaque português do gajo. Mas não houve maiores comentários. Ela recebeu amor e dedicação do rapaz, 36 anos mais novo do que ela, que realmente poderia se um de seus filhos.

Francisca, ou Chiquinha, viveu numa época em que a cidade do Rio de Janeiro era dividida meio a meio entre cidadãos livres e escravos, num total de 250.000 habitantes, em meio a problemas de toda ordem. Ela morreu aos 88 anos de idade, em 1935. Sua música, cujo gênero vai do maxixe à música sacra, continua viva, enriquecendo a cultura musical de seu país, além de ter deixado seu exemplo de mulher talentosa e aguerrida, bem adiante do tempo em que viveu.

Nota
Ouçam, clicando no link abaixo, a canção Lua Branca.
http://www.youtube.com/watch?v=SdpQi4ceHYA

Fonte de pesquisa:
Raízes da Música Popular Brasileira/ Coleção Folha de São Paulo.

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