CHINA – COSTUMES CHINESES

Autoria deLu Dias Carvalho china

Os chineses estão agora no ano 4711 que representa o Ano da Serpente. Embora pensemos que seja esse o calendário pelo qual eles se guiam, não é bem assim. Pelo menos nas grandes cidades, o calendário usado é o gregoriano. Eles não comemoram o Natal, pois a quantidade de cristãos é ínfima.

O grande feriado chinês acontece no final de janeiro, quando é comemorado o Ano Novo Chinês. O país paralisa por um período de sete dias. Os fogos de artifício varam as noites e durma quem for capaz. A queima de fogos na entrada do novo ano tem por objetivo espantar os espíritos ruins, conforme reza a tradição chinesa. O barulho intenso, que dura mais de uma semana, deve escorraçar até o mais corajoso dos espíritos. O Ano Novo Chinês tem início na lua nova, no Festival da Primavera, e finda na lua cheia, no Festival das Lanternas. Ao contrário de nós ocidentais, que usamos branco ou amarelo na entrada do novo ano, os chineses vestem vermelho e dourado.

Para os ocidentais, a China parece ser o fim do mundo. Na verdade, esse país situa-se no meio da Ásia, tanto é que seu nome significa Reino do Meio. Mesmo dentro da China, não é fácil para um estrangeiro chegar ao destino escolhido: os taxistas não entendem o alfabeto arábico e os turistas internacionais nada divisam do mandarim. Resta ao viajante precavido encher-se de cartões de visita em mandarim, apresentando-os aos taxistas. Atrás, deve escrever as informações na sua língua para saber o que está pedindo.

Assim como na Índia, o trânsito nas grandes cidades chinesas é uma coisa de louco. As buzinas formam uma orquestra enlouquecida de sons intermináveis. Faz parte do código do trânsito buzinar sempre.

Muitos costumes deixados pela Revolução Cultural ainda perduram até os dias de hoje, principalmente entre as pessoas idosas. À época, o ato de escovar os dentes era considerado coisa de burguês, por isso, muitos chineses ainda seguem tal orientação que deixa os dentes amarelos e cariados. A alimentação forte em alho e soja também deixa nas pessoas um cheiro peculiar. Outra coisa interessante é o fato de os chineses adorarem um pijama. E quem não gosta? Podem ser encontrados com tal indumentária nas ruas, dentro dos carros e até mesmo nos aeroportos.

As palavrinhas mágicas (Desculpe-me!, Por favor!, Com licença!, Obrigado!) parecem não existir na China. Empurrões, cotoveladas e pisadas fazem parte do dia a dia. E tomar a frente do outro para enxergar melhor numa exposição, por exemplo, é mais do que normal. Não é costume entre os chineses o ato de se organizarem em fila, e tampouco dar a vez para outras pessoas passarem. Ali é no vale tudo. O jeito é entrar no bolo e tentar sair são e salvo da aglomeração.

O turista observador fica surpreso com os grandes vãos que existem em muitos prédios, perguntando-se o porquê de não terem aproveitado tanto espaço. Mas tais vãos têm uma finalidade definida: servir de passagem para os dragões (fictícios, é claro). Não é à toa que a China é também chamada de o Dragão Chinês. Há também pontes em zigue-zague e empecilhos para os espíritos do mal não chegarem às casas. Apesar de maus, eles são bem tolos, pois não sabem fazer curvas ou pular obstáculos.

O comunismo considera a religião o ópio da humanidade, que só serve para aumentar o servilismo dos pobres. Portanto, o povo chinês não tem uma religião oficial, embora grande parte dele professe o budismo. Vai-se ao templo budista para fazer pedidos de felicidade, fortuna, saúde e prosperidade. E como os chineses pedem a Buda!

O número 9 (e seus múltiplos) é considerado especial. O número 4, cujo som parece com a palavra morte, é indesejado, assim como o 13 é no ocidente para muitas pessoas. Para os chineses, são normais certos comportamentos que os ocidentais consideram falta de educação, se feitos em público. Arrotos e peidos não são guardados para depois. As crianças defecam em público. Os homens cospem e urinam em qualquer lugar, como fazem os indianos. E, sem preconceito algum, um mesmo pano de limpeza possui múltiplas funções, passando da cozinha ao banheiro. Não há constrangimentos.

Embora o uso de branco pelas noivas venha se tornando cada vez mais comum entre as chinesas, o dourado e o vermelho ainda predominam. Para as pessoas especiais, o convite de casamento vai com a fotografia dos noivos. Não há especificação de trajes para comparecer ao casório. Cada um se veste como quiser. E nada de o convidado ficar queimando os miolos, preocupando-se com o presente. Ele deve ser em yuan (money) mesmo. O Ano do Cachorro é propício para se casar, pois possui duas primaveras, enquanto no seguinte, Ano do Porco, não há nenhuma. Os casamentos não possuem um sentido religioso, sendo realizado em locais específicos para eventos.

A idade para namorar, casar e ter filhos é estipulada pelo governo. Não é permitido namorar na rua, ou mesmo em casa, antes dos 18 anos. E o casamento só é permitido após os 20 anos para as moças e 22 anos para os rapazes, idades a partir das quais podem ter filhos. Se uma criança nasce fora dos parâmetros preestabelecidos, ela perde o direito à certidão de nascimento, ou seja, como consequência perde o direito à saúde e à educação pública, vivendo como clandestina dentro de seu próprio país.

O Ano do Porco, que sucede o Ano do Cachorro, é próprio para a chegada dos rebentos. O mais interessante é que a idade do bebê começa a ser contada a partir da gestação. Quando o filhote completa um ano de nascido, já está com dois anos de idade. Achamos estranho, pois, por aqui as pessoas costumam tirar vários anos de sua passagem pela Terra, principalmente as mulheres.

O governo chinês não permite mães solteiras. O filho só pode nascer do casamento legal. Tampouco se revela o sexo da criança antes de seu nascimento, para evitar o aborto de bebês do sexo feminino, pois o país ainda privilegia, como em quase toda a Ásia, o nascimento do filho homem, responsável por cuidar dos pais na velhice. Como o aborto é permitido no país, a situação tornou-se trágica, uma vez que o número de homens é cada vez maior, em relação ao de mulheres.

Junto à fumaça das fábricas, que poluem tudo, está a fumaça do cigarro. Os chineses são fumantes contumazes.  Em festas, é comum encontrar maços de cigarros nas mesas para uso dos convidados.

Cobra é uma das iguarias dos chineses, além dos poderes místicos que eles julgam que o réptil possui. Por se tratar de um animal frio, além de fazer maravilhas à pele, segundo eles, traz também calma e tranquilidade. Então é de cobra que a humanidade precisa.

Nos vilarejos chineses é muito comum, encontrar caixões funerários nas casas. Segundo a crença local, o idoso precisa se acostumar com a ideia de morrer. Muitos deles confeccionam o próprio caixão. Que mundo estranho, para nós ocidentais!

Fonte de pesquisa:
Auroras Orientais/ Gianna Carvalheira

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Van Gogh – A PONTE DE LANGLOIS

Autoria de Lu Dias Carvalho Langois

A composição retrata uma ponte com uma pequena carroça amarela e um grupo de lavadeiras, um estudo em que a terra é laranja brilhante, a grama é muito verde, a água e o céu azuis. (Van Gogh)

Todas as cores que o impressionismo fez tornar moda são mutáveis, mais uma razão para usá-las puras, o tempo as atenuará até demais. (Van Gogh)

Van Gogh achava a paleta de cores, usada pelos mestres holandeses, com suas cores claras e desarmônicas, imprópria para o mercado da época.  Por isso, em 1888, pintou A Ponte de Langlois em Arles, também conhecida como A Ponte em Langlois com Lavadeiras, para demonstrar ao mercado holandês a importância de sua revolução de cores, ou seja, reafirmar suas ideias vanguardistas em relação à pintura.

Van Gogh conheceu a ponte de Langlois, quando explorava os arredores de Arles. Ele se encantou com sua leve estrutura de madeira e o seu maravilhoso contexto cromático. A cena vista por ele, remeteu-o à obra do artista japonês Utagawa Hiroshige, chamada de A ponte Sobre o Rio Takagi,  que fazia parte de sua coleção. Van Gogh nutria grande admiração pela pintura japonesa. Ele fez quatro pinturas e quatro desenhos desta cena, buscando reproduzi-la de ângulos diferenciados. Os personagens também diferem.

A maestria do pintor com sua paleta passa ao observador a sensação de movimento advindos da carroça e das lavadeiras, retratadas em diferentes posições. O movimento da água perto delas, deixa claro que um pequeno grupo está a enxaguar a roupa. O céu azul-turquesa do céu é separado do azul mais escuro das águas do canal pela ponte amarela. As pinturas de Van Gogh são dinâmicas, tudo parece estar num constante movimento.

Ficha técnica
Ano: 1888
Técnica – óleo sobre tela
Dimensões: 54 x 65 cm
Localização: Kröller – Müller, Otterlo, Holanda

Fonte de pesquisa
Van Gogh/ Coleção Folha de São Paulo
Van Gogh/ Abril Cultural

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O EXÉRCITO CHINÊS DE TERRACOTA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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                                   (Clique nas figuras para ampliá-las.)

Também conhecidos como os Guerreiros de Terracota, ou Guerreiros de Xian, ou ainda Exército do Imperador Quin, milhares de figuras (calcula-se que sejam mais de oito mil) em terracota foram localizadas em 1974 na cidade chinesa de Xian que foi uma das principais rotas da seda, usada por agricultores locais. É uma pena o fato de que em contato com o ar elas venham a perder sua coloração original.

É sabido que em tempos idos, quando um imperador morria, enterrava-se junto com ele os servos, eunucos, concubinas preferidas, etc. E, segundo contam, um ministro teve a ideia de fazer bonecos de terracota em tamanho natural, sob o argumento de que esses eram perenes, ideia que muito agradou o imperador que recrutou milhares de camponeses para confeccionarem 10 mil figuras.

 O nome desse imperador era Quin Shi Huangdi, primeiro imperador da China. Ele mandou preparar para si uma gigantesca necrópole subterrânea. Os Guerreiros de Terracota — enterrados em valas entre três trincheiras separadas — tinham a missão de “proteger” o reino subterrâneo imperial. O exército de terracota era tão bem elaborado que seus guerreiros tinham tamanhos diferentes, assim como uniformes e penteados, obedecendo à patente recebida. Por exemplo: enquanto um soldado de baixa patente tinha a cabeça raspada, um oficial ostentava um complexo penteado. As trincheiras foram assim encontradas:

 1ª trincheira — é a maior delas. Possui mais de 6 mil figuras de homens de infantaria, charretes e cavalos. Possivelmente trata-se do exército do imperador. Os soldados e cavalos estão postados em formação de batalha.

 2ª trincheira — contém cerca de 1.400 figuras da cavalaria e infantaria, assim como charretes.

 3ª trincheira — contém 68 figuras.  Trata-se de uma unidade de comando composta por oficiais. Há também uma carruagem de guerra puxada por 4 cavalos.

 4ª trincheira — encontrada vazia.

 Naqueles tempos, como hoje, o ser humano era imbuído pela cobiça, ainda que à beira da morte. Os arqueólogos chegaram à conclusão de que o reino do poderoso imperador não foi “protegido” por seu não tão valente exército de terracota, sendo saqueado menos de 5 anos depois de sua morte, inclusive foram levadas as lanças de bronze e espadas, assim como os arreios de metal dos cavalos.

 Na confecção das figuras foram usados oito moldes de rostos. E, para que nenhum viesse a repetir-se, conforme ordens do imperador, pequenas alterações foram feitas, antes das peças irem ao fogo. Depois de prontas, elas eram pintadas com cores fortes. O local onde se encontram os Guerreiros de Terracota é hoje um dos pontos turísticos mais visitados na China.

 Fonte de pesquisa:
Tudo sobre arte/Editora Sextante
Auroras Orientais/Granna Carvalheira

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Raízes da MPB – GERALDO PEREIRA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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O trunfo de Geraldo não era ser um grande ritmista, pois não se notabilizou por isso, ainda que tenha desempenhado bem a função em rádios e shows. O que ele sabia como ninguém na sua época era fazer o ritmo certo com linhas propositalmente tortas, balançantes. Ao resultado desta maestria se convencionou chamar samba sincopado, também conhecido por samba teleco-teco. (Luiz Fernando Viana – jornalista, editor e escritor)

Geraldo Pereira era tímido, um tímido que usava agressividade para se defender. Era vaidoso e ganancioso. Gostava de mulher e de bebida, mas não sabia ter mulher, nem bebida, nem dinheiro. (Cyro de Souza – amigo e parceiro)

Você vai encontrar a divisão rítmica de João Gilberto, que veio muitos anos depois caracterizar a bossa-nova nas síncopes de Geraldo Pereira (Cyro de Souza, compositor)

O compositor, cantor, ritmista e ator Geraldo Theodoro Pereira nasceu em Juiz de Fora/MG, no ano de 1918. Era filho de Clementina Maria Theodoro e Sebastião Maria. Tinha muitos irmãos, pois sua mãe também tivera filhos com Antônio Manuel Araújo. Quando ela resolveu se mudar para o Rio de Janeiro, deixou Geraldo aos cuidados de uma tia. E foi da família dessa tia que foi anexado o Pereira ao nome do menino. Como era muito esquivo e afeito a mágoas, ele não gostava de falar sobre sua infância. O que se sabe é que trabalhou na roça, inclusive como candeeiro de boi.

O modo como Geraldo Theodoro chegou à cidade do Rio de Janeiro, entre 1929 e 1931, nunca foi explicado. Ali, foi trabalhar na birosca de Mané Araújo, seu irmão mais velho e padrinho de batismo, filho da primeira união da mãe, responsável por trazê-lo de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro. No morro, ele e seus amigos ficavam ouvindo os compositores da Mangueira (Carlos Cachaça, Cartola, entre outros), enquanto iam aprendendo o abc de como se compor uma música.

Geraldo Pereira tinha um gênio forte. Vivia às turras até mesmo com Mané Araújo que era respeitado por todos do morro Santo Antônio, vindo a se formar juiz de fato do lugar. Resolvia até assuntos referentes à perda da virgindade das moças do local. E foi numa dessas resoluções do padrinho, que Geraldo perdeu sua solteirice. Foi acusado pelo pai de Eulíria Salustiano de ter desonrado a moça, então com 21 anos. E o irmão, para mostrar sua autoridade, acabou dando ordens para que o casório acontecesse. Como não há quem censure o censor, o dito juiz tinha três mulheres oficiais. Apesar da indiferença do marido, o rebento Celso Salustiano veio ao mundo, mas sem registro do pai.

Geraldo era sem responsabilidade. Quando sua mãe estava muito doente, sob os cuidados do filho mais velho Mané Araújo, que ao viajar deixou ao irmão a tarefa de cuidar dela, o sambista foi cantar num teatro, emendando com uma festa. Voltou no dia seguinte e encontrou a mãe morta e o irmão revoltado. Acabou deixando o local onde vivia.

Apesar de só ter feito o primário, Geraldo Pereira era muito inteligente e bom em língua portuguesa. Sua formação musical deu-se através da observação: olhos e ouvidos sempre atentos ao trabalho dos mais velhos. Não perdia um ensaio do conjunto Com Que Roupa?. Aluísio Dias, um dos integrantes do conjunto, ensinou-lhe, tempos depois, os rudimentos do violão. Alfredo Português, padrasto de Nelson Sargento, foi seu mestre e também parceiro. E Jacy de Paula Trindade, sobrinha de Aloísio Dias, além de dominar a língua portuguesa, ainda tinha um piano em seu barraco e também atraía os olhos do rapaz de 17 anos. E foi para ela que mostrou suas primeiras composições.

Geraldo Pereira era muito curioso quanto à música, mas a bebida e as mulheres deixaram-lhe pouco tempo para os estudos musicais. Mas, como já sabemos, não era fácil viver de música naquela época. Para sobreviver, Geraldo também teve que trabalhar em outros ofícios: foi entregador de marmita, soprador de vidros, guarda da Central do Brasil, motorista de caminhão de lixo, etc. Somente a partir de 1940, aos 22 anos, resolveu se dedicar totalmente à música.

Foi com a canção Se Você Sair Chorando, aos 21 anos, que Geraldo Pereira iniciou sua carreira de compositor, que lhe rendeu certo sucesso no carnaval. Para ele, aquilo era o início da glória. Deixou o emprego público para se dedicar aos clubes, rádios e gafieiras, como forma de propagar seu trabalho. O cantor Moreira da Silva, ao conhecê-lo, gostou tanto dele que solicitou a Wilson Batista que o incluísse no samba de breque Acertei no Milhar, que fez grande sucesso. Seu papel era apenas divulgar a música. Mas naquele mesmo ano, Cyro Monteiro gravou o samba de Geraldo, Acabou a Sopa, vindo a gravar outras canções do compositor. Daí para frente emplacou vários sucessos, como Falsa Baiana.

Geraldo Pereira passou a fazer parte do time dos grandes autores de sambas, sendo gravado pelos Anjos do Inferno, um dos bons conjuntos vocais da época. Também se lançou como cantor de Mais Um Milagre. Atuou no teatro em “Anjo Negro” e no cinema. Mas ele passou a beber muito, chegando até a ironizar a situação em seu samba Bebe Quem Pode. Brigou com o “padrinho” Cyro Monteiro, com os companheiros e amigos, com alguns até fisicamente, e passou a dar calotes, passando os companheiros para trás.

O alcoolismo transformou Geraldo Pereira num homem perigoso que não respeitava ninguém. Na sua loucura alcoólica, achava-se muito valente, topando qualquer parada. O seu tipo, alto e bem arrumado, atraía muitas mulheres. Tinha com elas uma relação ambígua, que variava entre o amor e o ódio. Os contatos com as “irmãzinhas” e “sobrinhazinhas”, como as apresentava, eram geralmente passageiros. Mas Isabel Mendes Silva, com quem viveu junto, foi sua grande paixão. Viviam em meio a tapas e beijos, ciúmes e traições. Para ela fez o samba Liberta Meu Coração.

Geraldo Pereira teve muitos parceiros: Arnaldo Passos, Ary Monteiro, João Batista e outros que viviam de negociar sambas, ou seja, nem sequer conheciam as notas musicais, mas compravam participações, jogando com o sucesso da canção. Também acontecia de obterem a parceria como acerto de dívida. Naquela época, no mundo musical valia tudo. E Geraldo não fugiu à regra. Ganhou dinheiro vendendo seus sambas para pagar suas dívidas de boemia. Mas também gravou sambas de outros companheiros, como se fossem seus, como é o caso de Olha o Pau-Peroba, de Buci Pereira, o que torna difícil saber com exatidão quantas foram as músicas feitas por ele.

Em 1950, Geraldo participou de uma inovação no campo da música nacional – o long-play. Ele gravou, na própria voz, sua composição Ela, que foi muito bem recebida, vindo a realizar com a Sinter Capitol, uma multinacional, novos discos. Os sambas Falsa Baiana e Escurinho foram os seus dois maiores sucessos. Escurinho foi interpretado posteriormente pelos cantores Roberto Silva e Zizi Possi.

Uma lenda criou-se em torno da morte de Geraldo Pereira, atribuindo-a a João Francisco dos Santos, conhecido por Madame Satã. Conta-se que numa briga com o cantor e compositor, Madame Satã deu-lhe um soco e ele caiu, batendo a cabeça no chão. Mas, segundo pesquisadores musicais, o músico sofria de sérios problemas gastrointestinais que foram fundamentais para  sua morte. Inclusive, chegou a contar para os amigos que andava perdendo sangue em suas diarreias. Uma de suas certidões de óbito fala em hemorragia intestinal, enquanto uma segunda fala sobre hemorragia cerebral. O fato é que o dito soco pode ter apenas contribuído para a causa de sua morte, pois, sua situação de saúde já era grave. Geraldo Pereira morreu em 1955, aos 37 anos de idade.

Nota
Acessem o link abaixo para ouvirem Acertei no Milhar
http://www.youtube.com/watch?v=2eOpqjyjX6I

Fonte de pesquisa:
Raízes da Música Popular Brasileira/ Coleção Folha de São Paulo

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Raízes da MPB – PAULO VANZOLINI

Autoria de Lu Dias Carvalho sc1

Um pesquisador atento observou que Paulo Vanzolini foi o único sambista que nunca usou a palavra “malandro” em suas canções. Talvez tenha sido o único formado em Harvard, em Zoologia! (Tom Cardoso, jornalista e crítico musical)

A lembrança que eu tenho de São Paulo é de uma paz completa. Era uma cidade meio caipira, mas uma cidade muito mansa, muito pacífica, muito cordial. (Paulo Vanzolini)

O compositor, cantor e zoólogo Paulo Emílio Vanzolini, nasceu em São Paulo/SP, em 1924, tendo morado parte de sua infância na cidade do Rio de Janeiro, onde gostava de ouvir, através do rádio, sambas e marchinhas.

Paulo Vanzolini, ao lado de Adoniran Barbosa, é considerado um expressivo nome do samba paulista, embora não tenha tido formação musical alguma, jamais tendo tocado qualquer instrumento. Contudo, trata-se de um compositor vigoroso, responsável por vários clássicos musicais, em que retrata com saudade a São Paulo de antigamente.

Tendo se formado em zoologia em Harvard, Estados Unidos, Vanzolini foi, durante mais de 30 anos, diretor do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, sem jamais perder o convívio com a boemia e o cotidiano de sua cidade. E desse seu envolvimento com a metrópole nasceram os clássicos: Ronda, Volta por Cima e Praça Clóvis. Com o salário recebido, alugou um lugar para morar na Av. São João.

Apesar de ser ainda muito criança à época, o contato que Vanzolini teve com a música brasileira, na cidade do Rio de Janeiro, foi muito importante na sua vida de compositor. Ali, ele ouviu gente como Ary Barroso, Lamartine Babo, Noel Rosa, Orestes Barbosa, Custódio Mesquita, Ismael Silva, Vadico, Mário Reis, Francisco Alves, Pixiguinha, Radamés Gnattalli, Assis Valente, Aracy de Almeida e Almirante, entre outros.

O Vanzolini compositor começou a surgir nos Regionais da Universidade, quando tentava se desgarrar da proteção exagerada da mãe, em razão de ter tido uma doença rara nos ossos, na infância, e passado por inúmeras cirurgias. Ele queria se ver livre da superproteção com que era tratado.

Vanzolini conseguiu um pequeno espaço no programa Consultório Sentimental, na Rádio América, comandada por Cacilda Becker, sendo promovido a assistente do Dr. Edson Gama. Foi depois convocado para servir o exército, enquanto pipocava a Segunda Guerra Mundial. Chegou a cabo. Com o final da guerra, voltou à vida de antes, e criou o samba-canção Ronda, cuja composição iniciou-se na zona de meretrício. A canção estourou, sendo tocado em todo o país. Ele estava com 21 anos de idade. Foi gravada por sua amiga Inezita Barroso, oito anos depois, acidentalmente, sem fazer sucesso. Mas 30 anos depois, ao ser gravada por diferentes intérpretes, Ronda virou o “hino nacional da fossa”. O compositor não gostou da gravação de Maria Betânia, alegando que ela é mais uma declamadora do que uma cantora.

Ao trabalhar na TV Record, Vanzolini travou amizade com os funcionários e artistas da emissora. Ele e Raul Duarte criaram o I Festival de Velha Guarda, responsável por apresentar uma geração de músicos sensacionais, que seriam jogados no ostracismo com a chegada da Bossa-Nova e, depois, da Jovem Guarda.

Paulo Vanzolini não tinha a preocupação de ver suas músicas gravadas. Gostava de compor para cantar nas rodas de samba com seus amigos, mas, nas voltas que a vida dá, o seu samba Volta por Cima foi gravado pelo cantor Mário Marques Júnior, fazendo um grande sucesso, de modo que até a expressão “dar a volta por cima” passou a fazer parte dos dicionários.

O primeiro disco de Vanzolini a ser gravado, Onze Sambas e um Capoeira, contou com a presença de Cristina Buarque e seu irmão Chico Buarque. O compositor e Chico tornaram-se grandes amigos.

Vanzolini compôs com muitos parceiros como Toquinho, Paulinho Nogueira, Adauto Santos, Elton Medeiros, entre outros, e foi gravado por vários intérpretes como Nelson Gonçalves e Martinho da Vila. Contudo, foi se desencantando com a música, à medida que via seus amigos e parceiros desaparecerem. Morreu aos 83 anos, em 2013, vitimado por uma pneumonia.

Nota
Cliquem no link para ouvirem Volta por Cima
http://www.youtube.com/watch?v=CHUl7pj5S_8

Fonte de pesquisa:
Raízes da Música Popular Brasileira/ Coleção Folha de São Paulo

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Raízes da MPB – ERNESTO DE NAZARETH

Autoria de Lu Dias Carvalho chiquinha12

Sobrecarregado de trabalho, e em luta constante contra a falta de dinheiro, como Mozart; perdendo a audição de maneira progressiva, como Beethoven; sifilítico, como Schubert; e um final de vida no qual já não estava de plena posse de suas faculdades mentais, como Schumman: a existência de Ernesto de Nazareth foi marcada por episódios que parecem um catálogo dos lances mais trágicos dos compositores da escola austro-germânica. (Irineu Francisco Perpétuo, jornalista, professor e autor)

Nazareth era muito pobre, quase nada lucrava com suas músicas. Tímido por natureza, quase humilde, foi por isso explorado pelas editoras, vendendo suas composições a “dez reis de mel coado” mal cobrindo suas despesas diárias (Luiz Antônio de Almeida)

O pianista e compositor Ernesto Júlio de Nazareth nasceu na cidade do Rio de Janeiro/RJ, em 1863, no morro do Nheco. Era o segundo filho de um grupo de 5 irmãos, tendo por pai Vasco Lourenço da Silva de Nazareth, despachante aduaneiro, e por mãe Carolina Augusta Pereira da Cunha, que tocava piano.

Naquela época, o piano era um símbolo de status. Ainda não havia rádio ou discos e, para se ter música em casa, era preciso ter um instrumento. O piano era tão requisitado na capital federal do Rio de Janeiro, que a cidade chegou a receber o apelido de “a cidade dos pianos”. E foi no piano que Carolina iniciou os filhos no mundo musical. Mas, para a tristeza da família, ela morreu precoce e inesperadamente.

Quando a mãe faleceu, Ernesto estava com 10 anos de idade. Época em que iniciaram seus problemas auditivos, em consequência de uma queda de uma árvore, o que lhe causou uma hemorragia no ouvido direito. Problema que o acompanharia durante toda a vida, chegando à surdez.

A morte da mãe paralisou os estudos musicais de Ernesto e de seus irmãos. Em razão do luto, o pai proibiu até o uso do piano em casa. Mas o menino ficou numa tristeza tal, que a proibição foi revogada, sendo contratado Eduardo Madeira como seu professor de piano. E assim, aos 16 anos de idade, o adolescente já apresentava sua primeira composição para piano solo: a polca-lundu Você Bem Sabe, levada pelo professor e aluno ao virtuose português do teclado, Arthur Napoleão, que era também professor de Chiquinha Gonzaga. O fato é que a partitura foi posta à venda na firma Arthur Napoleão & Miguéz.

Ernesto compunha e publicava suas polcas (dança de salão de origem europeia). Apresentava-se em renomados clubes cariocas com sucesso. Foi então que seus tios, Júlio e Ludovina, começaram a ajuntar recursos para enviá-lo à Europa, a exemplo de Anacleto de Mesquita e Antônio Carlos Gomes. Contudo, E o rapazinho não conseguiu atingir os sonhos do tio, por falta de recursos financeiros, decepção que amargaria em certa fase de sua vida.

Ernesto de Nazareth casou-se com Theodora Amália Leal de Meirelles. Juntos tiveram seis filhos. Apesar da numerosa prole, já no final do século XIX, ele começou a dar espaço em seu catálogo para um novo gênero: o tango, chegando, inclusive, a receber o apelido de “O Rei do Tango”. Mas esse tipo de tango não trazia semelhança alguma como tango portenho. Com Brejeiro, composição dedicada a seu sobrinho Gilberto Nazareth, Ernesto tornou-se um dos grandes sucessos da música popular brasileira do século XIX. Recebeu, inclusive, letra do poeta, músico e compositor Catulo da Paixão Cearense. Mas a obra não lhe trouxe sucesso financeiro. Com as inúmeras dificuldades pelas quais passava, era tido como “pianeiro”, por ter que tocar em casas de venda de partituras, demonstrando-as para os compradores, o que para muitos era uma atividade menor.

Naquela época, em que a elite brasileira só considerava bom o que vinha da Europa, Ernesto de Nazareth foi um dos 30 compositores escolhidos pelo compositor Luciano Gallet, a ser tocado por seus alunos em um conserto. O que acabou motivando um grande escândalo, pois se tratava de um compositor popular, coisa que a elite rejeitava. Foi necessária a presença de uma força policial para  garantir a realização do evento. Mário de Andrade (autor de Macunaíma), amigo do compositor, no mesmo ano escreveu no “Ensaio sobre a música brasileira”:

“… todo artista brasileiro que no momento atual fizer arte brasileira é um ser eficiente com valor humano. O que fizer arte internacional ou estrangeira, se não for gênio, é um inútil, um nulo. É uma reverendíssima besta.”

Aos 63 anos de idade, em 1926, Ernesto de Nazareth deixou seu Estado pela primeira vez, em direção a São Paulo, já colhendo os frutos da Semana da Arte Moderna de 1922. A acolhida foi tão calorosa que o compositor ali permaneceu 11 meses, fazendo, inclusive, apresentações no interior do estado paulista.

Em 1929, Ernesto de Nazareth ficou viúvo e sua saúde continuou fraquejando. Fez uma turnê pelo Rio Grande do Sul e a esticou até Montevidéu, onde teve uma crise nervosa, tocando piano convulsivamente, tendo que ser retirado à força do bar onde tocava. Ao voltar ao Rio de Janeiro foi diagnosticado com sífilis, que já tinha atingido o seu cérebro, sem possibilidade de reversão. Acabou sendo internado num manicômio. Fugiu do local, um ano depois, e, quatro dias após a fuga, seu corpo foi achado em uma represa, perto do manicômio. Morreu aos 71 anos, em 1934.

Nota
Cliquem no link abaixo para ouvirem Brejeiro
http://www.kalamata.com.br/site/cds/quinteto-villa-lobos-ernesto-nazareth/

Fonte de pesquisa:
Raízes da Música Popular Brasileira/Coleção Folha de São Paulo

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