Vidas Secas – ENCHENTE NO SERTÃO (15)

Autoria de Lu Dias Carvalho

cap baleia

A caatinga amareleceu e depois se avermelhou.
O gado encetou a secar coo pastio descarnado.
O pesadelo da seca tirava o sono das pessoas,
trazendo visões terríveis de tempos passados.

De repente, um bosquejo ligeiro tracejou no céu,
lá para as bandas da cabeceira do rio definhado.
Outros riscos surgiram mais ligeiros e brilhantes.
A trovoada roncou num cantarejo descontrolado.

A ventania ia arrancando sucupiras e imburanas.
Os relâmpagos riscavam a atmosfera com euforia.
A mãe ocultou-se na camarinha com os meninos,
tapando orelhas, enrolando-se nas cobertas finas.

A brutalidade do tempo findou-se repentinamente.
No escuro da noite rolavam nuvens cor de sangue.
A cheia levava consigo troncos e animais mortos.
Além dos juazeiros derreava o rumor da enchente.

O sertanejo estava prazenteiro com a tempestade.
As catingueiras encontravam-se todas submersas.
A espuma subia lambendo barrancos, desabando.
A água matava bichos, enchia grotas e várzeas.

O rio subia ladeira, já bem pertinho dos juazeiros.
As rezes abrigavam-se junto à parede da morada.
Os chocalhos do gado zuniam, sapos coaxavam.
Cheio de gosto batucava o coração do sertanejo.

As vacas engordariam coo pastio e dariam crias.
Ele cresceria verdoso e as árvores se enfeitariam.
As rezes se multiplicariam para riqueza do sertão,
e ele ficaria satisfeito junto a Baleia e sua família.

Logo aquela água iria se acabar – era o reverso.
Mas não era vantajoso ficar matutando no futuro,
não havia mais o medo da estiagem incontinente,
que aterrorizou a família durante tanto tempo.

O futuro seria deixado nas mãos do bom Deus,
de modo que bichos, terra, família e toda gente
desfrutasse da oferenda que ao sertão foi dada,
pois o sertão, por ora, não mais carecia d`água.

Views: 10

Van Gogh – O PINTOR DOS GIRASSÓIS

Autoria de Lu Dias Carvalho

papagaio123

   (Faça o curso gratuito de História da Arte, acessando: ÍNDICE – HISTÓRIA DA ARTE)

Eu tenho um pouco de girassol. (Van Gogh)

Uma luz que na falta de palavra melhor não posso denominá-la de outro modo, senão amarela. (Van Gogh sobre os girssóis)

Para superar esse elevado tom de amarelo a que cheguei neste verão, tiver de superar limites. (Van Gogh em carta ao irmão Theo)

Quando se fala sobre a obra de Vincent van Gogh logo vem à nossa mente os seus belos girassóis. O artista holandês não foi o primeiro a eleger tão belas flores como tema, mas, sem dúvida, nenhum outro pintor deu-lhes tamanha vitalidade e força, como o fez Van Gogh. Quando observamos sua série de girassóis, somos tomados pela exuberância da cor amarela que invade toda a tela, diante de nossos olhos extasiados. Ali também encontramos os tons vermelhos, azuis e verdes que parecem ter a função de apenas realçar a luminosidade do amarelo.

A famosa série de girassóis (sete quadros com um número de três, cinco, doze e quinze girassóis) exigiu muita dedicação e urgência do pintor, pois, se as flores eram colocadas num vaso de manhã cedo, murchavam ao fim de algumas horas. Como Van Gogh tinha como característica a rapidez com que pintava, era recompensado pela velocidade ao pintar seus girassóis. Nenhum outro pintor poderia captar a beleza que ele imprimia em suas telas, resultante da presteza de seu olhar diante da transitoriedade das flores. O amarelo dos girassóis vinha carregado da mais pura magia, com se nele estivessem agregados pedaços do sol.

O girassol sempre esteve ligado à simbologia, representando a fecundidade, vida e nostalgia em função de sua relação com o astro-rei. Como um ser devoto, o girassol  ajoelha-se diante do sol, acompanhando-o na sua trajetória de vida, recebendo a luz que dele emana com abundância. Apenas na sua maturação cessa a sua reverência, paralisando-se na posição da nascente. Talvez seja por isso que Van Gogh tenha se encantado tanto com os girassóis.

Embora tenha dado início à temática dos girassóis na cidade de Paris, abandonando as tonalidades do cinza e buscando uma escala de cores mais vivas, foi em Arles, para onde partira em busca de luminosidade, que Van Gogh encontrou a explosão do amarelo, ou seja, foi onde encontrou a mais alta nota amarela que já vinha buscando na capital parisiense.

Ao pintar sua série de girassóis, Van Gogh tinha como objetivo decorar o seu ateliê, preparando-o para receber o seu amigo e também pintor Paul Gauguin, pois sabia que ele também tinha predileção pelo tema. De modo que as pinturas foram penduradas no quarto de hóspedes. O pintor holandês pensava em pintar muitos outros quadros sobre girassóis, mas acabou não concretizando o seu objetivo. Perfeccionista, Van Gogh só considerou bons dois dos quadros pintados, colocando neles a sua assinatura.

Van Gogh sempre deixou claro que Os Girassóis estavam inclusos entre as suas obras mais importantes pelo modo como os pintou, usando apenas uma gama de cores – o amarelo e sutis matizes de linhas vermelhas e azuis. Todos os seus amigos conheciam o amor que ele nutria pelos girassóis. Adeline Ravoux, filha dos donos da pensão, onde Van Gogh hospedava-se antes de dar fim à vida, assim se expressou, ao falar sobre seu enterro: Seus amigos trouxeram muitas flores amarelas, principalmente dálias e girassóis.

Segundo alguns diagnósticos não comprovados, Vincent van Gogh sofria de xantopsia (visão dos objetos em amarelo) e, por essa razão, acontecia o exagero do amarelo em sua pintura. Outra teoria fala sobre o uso de digitalis, receitado pelo doutor Cachet, que poderia ter ocasionado sua visão amarelada. E outros documentos ainda relatam que, na verdade, ele era daltônico. Trocando em miúdos, quanto mais famoso é o gênio, maior é o número de teorias.

Nota: Doze Girassóis numa Jarra (1888), acima.
É tida como uma das melhores e mais famosas obras do pintor holandês, tendo sido trabalhada com pouquíssima cor, além do amarelo, façanha técnica quase inigualável. Encontra-se entre as telas mais famosas do mundo. Tal sucesso e reconhecimento contrastam com a vida de Van Gogh que sempre viveu com extrema dificuldade e à margem da sociedade da época.

Assim como o girassol transforma seu olhar apaixonado pela luz do sol que a tudo dá vida (…), a Arte da Pintura, por inata inclinação, animada por um fogo sagrado, segue a beleza da Natureza. (Joost van der Vondel, poeta holandês no século XVII)

Fontes de pesquisa:
Mestres da Pintura/ Editora Abril
Grandes Mestres da Pintura/ Coleção Folha
Van Gogh/ Editora Taschen
Van Gogh/ Girassol

Views: 137

Raízes da MPB – SÍLVIO CALDAS

Autoria de Lu Dias Carvalho

sc

Espírito irrequieto, o que seu jeito de falar sempre rápido e vivo apenas indicava, Sílvio Caldas não se contentou com a vida artística. Foi boêmio, bebeu e fumou até o fim da longa vida, foi dono de casas noturnas, era exímio cozinheiro, pescador e gostava de fazer viagens algo aventureiras. (Hugo Sukman, escritor e crítico musical)

O cantor, compositor, ator e apresentador de rádio e TV Sílvio Antônio Narciso de Figueiredo Caldas nasceu na cidade do Rio de Janeiro/RJ, no ano de 1908, numa família musical de 15 irmãos. O pai, Antônio Caldas, era proprietário de uma pequena loja de instrumentos musicais e também afinador, além de compor serestas. O irmão de Sílvio, Murilo Caldas, também foi cantor profissional.

Silvio Caldas, que cantava desde criança, iniciou sua carreira musical cantando samba, gênero que deixaria de ser regional para se transformar em música nacional. Sua estreia deu-se na Rádio Mayrink Veiga, em 1927. Ele criou uma cadência especial. Era dono de grande clareza na pronúncia das palavras e na divisão rítmica, afinação e romantismo, o que chamava a atenção dos compositores daqueles tempos, dentre eles estava Ary Barroso, que levou Sílvio Caldas para cantar no Teatro Recreio, onde também cantavam Francisco Alves e Carlos Galhardo. O samba Faceira foi o primeiro grande sucesso do cantor, em disco.

O teatro musical foi muito importante para a careira artística de Sílvio Caldas. Naquela época, o rádio ainda estava nascendo e a indústria fonográfica ainda em ascensão. Era o teatro musical de revista que trazia popularidade aos grandes compositores e intérpretes. Sílvio foi responsável por lançar grandes clássicos de Ary Barroso, como Maria e Velho Realejo, de Custódio Mesquita e Sady Cabral, Deusa de Minha Rua, de Jorge Faraj e Newton Teixeira, entre outros.

Sílvio Caldas era um boêmio assíduo da noite carioca. Tornou-se amigo de Orestes Barbosa, poeta popular, jornalista e letrista, que vivia próximo dos grandes compositores e cantores que frequentavam o Café Nice, formando uma parceria com ele. Em quatro anos, os dois comporiam cerca de 14 serestas, sendo Sem Você a primeira delas, gravada por Aurora Miranda (irmã de Carmem Miranda). O clássico Quase Que Eu Disse foi gravado por Sílvio e fez parte da trilha sonora do filme de Humberto Mauro, Favela dos Meus Amores, no qual o cantor trabalhava como ator, interpretando o malandro Zé Carioca. Recebeu o título de O Seresteiro do Brasil.

O artista Sílvio Caldas sempre fez sucesso quer no samba ou na seresta (nome genérico dado às valsas, modinhas e canções queixosas). A música de carnaval, Pastorinhas, de Noel Rosa e Braguinha, lançada por ele, faz sucesso até hoje. O cantor era sucesso em qualquer gênero musical, sendo também um excelente compositor, ao lado de Orestes Barbosa. Uma das composições da dupla, do gênero seresta, na voz do próprio Sílvio Caldas, continua atravessando os tempos: Chão de Estrelas, já gravada mais de cem vezes. O poeta Manoel Bandeira encantou-se com o verso “tu pisavas nos astros distraída”, elegendo-o como o mais belo da língua portuguesa.

Mas Sílvio Caldas não ficou apenas nos chamados compositores da Era de Ouro. Também gravou canções mais atuais como Poema dos Olhos da Amada, de Vinícius de Moraes e Paulo Soledad, Viva Meu Samba e Pistom de Gafieira, de Billy Blanco, entre outros. É tido como um dos cinco maiores cantores da conhecida Era de Ouro da Música Popular Brasileira, ou seja, um cantor da melhor qualidade.

Sílvio Caldas morreu aos 90 anos, em 1998, de insuficiência respiratória.

Nota
Cliquem no link abaixo para ouvirem Chão de Estrelas:
http://www.youtube.com/watch?v=wvSsOpA7jm4

Fonte de pesquisa:
Raízes da Música Popular Brasileira/ Coleção Folha de São Paulo

Views: 18

Van Gogh – QUARTO EM ARLES e A CASA AMARELA

Autoria de Lu Dias Carvalho

              vg123   vg1234

                                    (Cliquem nas imagens para ampliá-las.)

Uma luz amarela de enxofre pálido, limão dourado pálido. Que belo é o amarelo! (Van Gogh)

“A minha casa aqui é pintada por fora de amarelo manteiga e tem persianas em verde forte; fica rodeada de sol, numa praça, onde também há um parque verde com plátanos, aloendros , acácias. Por dentro é pintada de branco e o chão é de azulejos vermelhos. E por cima o céu de azul luminoso. Lá dentro posso, com efeito, viver e respirar e pensar e pintar”. (Van Gogh)

O Quarto em Arles (1888) é uma das pinturas mais conhecidas de Vincent van Gogh. A primeira versão foi feita apenas duas semanas depois de o artista terminar a obra A Casa Amarela, que retrata o local onde ele morou em Arles, e onde pensava instalar a sua tão sonhada comunidade dos artistas. O quarto fazia parte da “casa amarela”, nome com que a nomeou, tamanha era a sua paixão pela cor amarela.

O pintor holandês fez três versões da pintura referente ao seu próprio quarto e, segundo ele, a obra tinha o objetivo de trazer uma sensação de repouso e descanso, conforme escreveu a seu querido irmão Theo:

Desta vez é simplesmente um dormitório; só que a cor deve predominar aqui, transmitindo, com a sua simplificação, um estilo maior às coisas, para sugerir o repouso ou o sono. Em resumo, a presença do quadro deve acalmar a cabeça, ou melhor, a imaginação. As paredes são de um violeta pálido. O chão é de quadros vermelhos. A madeira da cama e das cadeiras é de um amarelo de manteiga fresca; o lençol e os travesseiros, limão verde muito claro. A colcha é vermelha escarlate. O lavatório, alaranjado; a cuba, azul. As portas são lilases. E isso é tudo – nada mais neste quarto com as persianas fechadas. O quadrado dos móveis deve insistir na expressão de repouso inquebrantável. Os retratos na parede, um espelho, uma garrafa e algumas roupas. A moldura – como não há branco no quadro – será branca.

Sobre a mesa vista na pintura encontram-se uma bacia com um jarro em seu interior, uma garrafa, um copo, um prato com sabão e um par de frascos e de escovas. O chão está pintado em variações da cor vermelha e verde e as pinceladas parecem simular faixas de madeira. O quadro que se encontra à cabeceira da cama é a reprodução da paisagem de Árvore Balançando ao Vento. Na outra parede existe um autorretrato do artista.

O dormitório de Van Gogh é de uma simplicidade extrema, possuindo apenas as coisas que lhe são necessárias. Contudo, não passa a sensação da tranquilidade tão desejada por ele. Ao contrário, destacam-se a solidão e a pobreza material em que vivia. O enquadramento e a disposição dos móveis e objetos no quarto deixam claro que ele não se encontrava muito lúcido na ocasião. Também é incomum duas cadeiras no quarto, o que evidencia o seu desejo por companhia.

Quando Van Gogh pintou Quarto em Arles, ele se via impossibilitado de trabalhar ao ar livre, porque era a época do vento mistral (vento violento, frio e seco, que sopra no N. da região sudeste da França) que trazia muitas lufadas de ar frio. Além disto, ele se encontrava com a vista muito fraca. Recentemente esta obra foi restaurada, pois, segundo informações do Van Gogh Museum`s, as cores da pintura esmaeceram-se com o tempo. O mais interessante é que a sua restauração pode ser acompanhada através de um blog hospedado no site do museu em Amsterdam.

Van Gogh morou em Arles durante 15 meses, sendo esse um dos seus períodos mais ricos em produtividade, assim como um dos mais lamentáveis, pois foi ali que ele cortou a própria orelha. Em Arles, nos dias de hoje, é possível ter uma ideia de como era o seu quarto, ao visitar o Le Chambre de Vincent, onde existe uma réplica em tamanho real e bem fiel à época.

A Casa Amarela (1888), uma das pinturas noturnas de Van Gogh, retrata a casa em que ele morou em Arles. Embora as outras casas estejam também pintadas com a cor amarela, a casa em questão é a de janelas verdes. A cor amarela da fachada foi de escolha do próprio artista.

Fichas técnicas
Obra: O Quarto em Arles
Data: 1889
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 57,5 x 74 cm
Localização: Museu d`Orsay, Paris, França

Obra: A Casa Amarela
Data: 1888
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 72 x 91,5 cm
Localização: Rijksmuseum Van Gogh, Amsterdã, Holanda

Fontes de pesquisa:
Mestres da Pintura/ Editora Abril
Grandes Mestres da Pintura/ Coleção Folha
Van Gogh/ Editora Taschen

Views: 52

Raízes da MPB – JACKSON DO PANDEIRO

Autoria de Lu Dias Carvalho

pand

Sanfoneiro de boca, solfejava, nota por nota, a partir da sanfona, para Sivuca, Dominguinhos, Severo e quem mais estivesse no palco ou estúdio. Uma máquina de ritmos. O rei do sincopado, do canto com chuleado e veneno, Jackson do Pandeiro foi uma matriz de muitos ritmos, de levadas variadas, de estilos que convergiam numa personalidade original. (Kiko Ferreira, jornalista, radialista e crítico musical)

O compositor, cantor e percussionista José Gomes Filho nasceu em Alagoa Grande,/PB, em 1919, filho de José Gomes, oleiro, e de Flora Mourão, cantora de cocos, que ajudava a família cantando em casamentos, batizados e outros tipos de festas. Naquela época, José nem cogitava de se enveredar pelos caminhos da música. Mas gostava de assistir às rodas de coco feitas em casa pela mãe, aprendendo letras, ritmos e batidas.

Quando José estava na casa dos sete anos, num desses encontros musicais que a mãe fazia em casa, seu acompanhante do zabumba, João Feitosa, faltou. O garoto então assumiu o bumbo. Três anos depois, era o responsável por acompanhar a mãe artista. Contudo, não abria mão de suas brincadeiras com os amigos, imitando personagens de cinema. Seu preferido era o ator americano Jack Perrim, por isso, nas brincadeiras, usava o apelido de Zé Jack.

Para ajudar a família, já com três filhos, tendo a mãe largado de cantar, Zé Jack passou a trabalhar na olaria como pai, até o falecimento desse. Mãe e filhos então se mudaram para Campina Grande, centro maior, indo morar com o cunhado e os filhos da irmã falecida. A vida ficou ainda mais dura para Zé Jack que passou a trabalhar como ajudante de padeiro ao lado dos primos.

Como a família morasse próxima à zona boêmia, Zé Jack passou a frequentar o local, sendo levado principalmente pela música, mas também gostava de ouvir música nas feiras. O menino sabia tocar toda espécie de instrumento de percussão. Depois de acompanhar o amigo Chico Bernardo, cego e cantador e também vendedor de literatura de cordel, é que assumiu o pandeiro.

Aos 18 anos de idade, Jack casou-se na polícia com Maria da Penha Filgueiras, filha de uma prostituta, separando-se pouco tempo depois, não oficialmente, o que lhe rendeu um processo por bigamia, ao se casar tempos depois com Almira Castilho.

Mesmo atuando apenas em saraus, mesas de bar e serestas, Jackson passou a ser visto como um bom músico, acompanhando profissionais da música nos bares, onde esses se apresentavam. Embora não tocasse bem a sanfona, chegou a chamar a atenção de sanfoneiros como Sivuca e Dominguinhos. Mas, como seu salário não desse para comprar tal instrumento, acabou optando pelo pandeiro. E viraria mais tarde Jackson do Pandeiro.

Jack assumiu o lugar de condutor do pastoril (mistura de festa religiosa com profana). Como animador, recebeu o nome de palhaço Parafuso. Depois formou com Zé Lacerda, seu amigo, a dupla Café com Leite, que cantava samba e marchas de carnaval e tocava pandeiro, participando de um show de calouros aos domingos. Tudo sem ganhar nada.

Tempos depois, Jack foi trabalhar num cabaré recém-inaugurado, muito chique, fazendo parte de uma excelente orquestra, onde se tocava gêneros variados: do choro ao jazz, do maxixe à rumba, do tango ao blues. Ao ver no cinema o chapéu do cantor e compositor Manezinho Araújo, adotou a nova moda. Também se encantou com o samba bem humorado e cheio de breques de Jorge Veiga, chegando a colocar no seu repertório músicas dos dois admirados.

Na época da Segunda Guerra Mundial, Jack mudou-se para João Pessoa, indo tocar num bar sugerido pelos amigos. Ao passar a frequentar a boemia, ficou conhecendo a famosa orquestra Jazz Tabajara. Tal era a fama da orquestra que parte dos músicos acabou indo para o Rio de Janeiro e Jackson ocupou uma das vagas deixadas. O salário era muito baixo, mas lhe dava  a oportunidade de ter mais contato com a Rádio Tabajara da Paraíba e o meio musical.

Jack passou a participar de vários grupos da rádio, trabalhando com bons músicos e aprendendo mais sobre o choro, o frevo e as emboladas. Época em que passou a ser chamado de Jackson do Pandeiro. Depois foi para a Rádio Jornal do Comércio, no Recife, fazendo muito sucesso. Fez dupla com Almira Castilho, que se tornou sua parceira de música e na vida pessoal, tornando os dois uma das atrações de maior sucesso do rádio. Jackson do Pandeiro assumiu a posição de cantor e comediante.

Jackson foi contratado pela gravadora Copacabana, onde gravou cinco discos. Depois, seguiu para o Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Nunca mais a dupla voltaria a morar no nordeste. Separou-se de Almira, casando-se depois com Neuza Flores dos Anjos, que aprendeu a tocar agogô e formou com ele uma nova dupla. No final de 1969, foi gravado por Gilberto Gil e Caetano Veloso e também por Gal Costa. Influenciou os nordestino: Geraldo Azevedo, Zé Ramalho, Fagner e Alceu Valença.

Jackson do Pandeiro morreu em 1983, aos 64 anos, em consequência de um infarte.

Nota:
No link abaixo, ouçam Chiclete com Banana
http://www.youtube.com/watch?v=EWjLg74cS4A

Fonte de pesquisa:
Raízes da Música Popular Brasileira/Coleção Folha de São Paulo

Views: 17

Vidas Secas – O INVERNO E OS RETIRANTES (14)

Autoria de Lu Dias Carvalho

cap baleia

A família estava em torno do fogo reunida:
Fabiano, o peão, sentado no pilão tombado,
Sinha Vitória com as suas pernas cruzadas,
os meninos deitados nas coxas da mãe e
Baleia olhando as cinzas com as brasas.

Estava um frio danado, de modo que o pai
impeliu os tições com a ponta da alpercata.
De quando em vez os meninos se mexiam.
O lume era fraco e só aquecia parte deles.
A outra parte recebia uma friagem danada.

Os pixotes não conseguiam pegar no sono.
O ar entrava pelas rachaduras das paredes
e pelas fendas da janela na noite friorenta.
Quando iam adormecer, arrepiavam-se, e
viravam-se de  lado na sonolência.

O menino mais velho, enregelado de frio,
foi pegar pra mãe uma braçada de lenha. Ela
mexeu as brasas coo cabo da quenga de coco,
arrumou com jeito as achas de angico molhado
entre as pedras, procurando logo acendê-las.

O pai ficou de quatro pés, soprou os carvões.
Uma fumaçada levantou, invadindo a cozinha.
Línguas de fogo subiam nas pedras, rápidas.
A família começou a tossir e enxugar os olhos.
Fabiano aqueceu no fogo as mãos calejadas.

A mãe agitava o abano pro fogo não apagar,
sustendo o fogo nos paus de angico molhado.
Marido e mulher falavam sem  se entenderem.
Os pixotes sentiam frio numa parte do corpo e
calor na outra, sem poder dormir, coitados.

O ar  entrava pelas rachas das paredes finas.
O menino mais velho, acomodou-se e dormiu
coo lado do corpo quente pelo calor do fogão
e o outro pelas nádegas quentes de sua mãe.
O casal arengava, esquentando as mãos.

Baleia olhava os carvões, esperando sua vez,
não podia dormir ainda. Cochilava de fazer dó.
Sinha Vitória inda ia retirar os carvões e cinza,
varrer o chão e se deitar na cama de varas. Os
guris deitariam na esteira, debaixo do caritó.

O dia todo Baleia espiava o bulício das pessoas,
queria saber de tudo pra aguentar o mau humor.
Ela precisava dormir e se libertar daquela vigília.
Tão logo o chão fosse varrido coa vassourinha,
iria se enroscar e adormecer no gostoso calor.

Views: 9