Raízes da MPB – LUIZ GONZAGA

Autoria de Lu Dias Carvalho rel1234

Coube ao pernambucano de Exu, Luiz Gonzaga do Nascimento, um negro semianalfabeto, de cara redonda, em formato de lua, a ciclópica tarefa de colocar um naco substancial da diversidade estética de sua região – o nordeste, então chamado genericamente de norte – no mapa da música popular brasileira. (Tárik de Souza, jornalista de música)

O compositor, cantor e instrumentista Luiz Gonzaga do Nascimento, nasceu em Exu/PE, no ano de 1912. Seu pai, Januário dos Santos, sanfoneiro e consertador de instrumentos, era agregado na fazenda onde vivia com a mulher, Ana Batista (Santana) e uma penca de nove filhos. Não era fácil a vida do casal, tendo que sustentar tão grande prole. Tudo em casa era racionado. Só a música é que vinha com fartura, inclusive, cinco dos irmãos de Gonzaga vieram a se tornar sanfoneiros profissionais.

Luiz Gonzaga de tanto ver o pai tocar e consertar instrumentos, logo, logo já estava afinando-os e tocando também. Quando aprendeu a ler ganhou uma sanfona de “oito baixos” do patrão, para quem trabalhava como assistente em suas viagens. Aos 14 anos de idade, o garoto já era profissional e tinha por ídolo Lampião, cangaceiro e também sanfoneiro.

Ainda muito novo, Luiz Gonzaga começou a se envolver com as namoradas. Uma delas foi responsável por mudar sua vida totalmente. Ao se apaixonar por Nazarena, contou com a oposição do valente pai da moça. O moço rejeitado armou-se de uma faca, tomou uma birita para dar coragem e se preparou para enfrentar aquele que deveria se seu futuro sogro. Mas foi sua mãe, dona Santana, quem lhe deu uma boa sova pelo feio procedimento. Envergonhado, Luiz vendeu a sanfona e foi-se embora para Fortaleza, onde se alistou como voluntário no Exército. Ali chegou a corneteiro, recebendo o apelido de Bico de Aço. Permaneceu no Exército durante dez anos.

No Rio de Janeiro, com sua sanfona Homes 80 baixos, em companhia de um casal  com que fizera amizade, e que lhe deu moradia, tocava e ganhava alguns trocados. Ali teve contato com o acordeonista mineiro, Antenógenes Silva, o mais famoso da época, que lhe deu algumas aulas. Depois foi motivado a tocar músicas da região natal. Relutando a princípio, pois achava que este tipo de música era específico para o fole, compôs Vira e Mexe, com a qual ganhou o primeiro lugar no programa de calouros do famoso compositor mineiro Ary Barroso. O paraibano Zé do Norte levou Luiz para participar do programa “A Hora Sertaneja”, numa rádio.

Luiz Gonzaga sentiu que fazia parte de um novo mundo quando, acompanhado por Garoto ao Violão, foi convidado para gravar quatro músicas, sendo três de sua autoria: Maria Serena, Véspera de São João e Vira e mexe. Daí para frente, ele passou a gravar apenas como instrumentista, sendo suas canções gravadas por outros cantores, até fazer parceria como o letrista Miguel Lima. Para cantar suas músicas, Luiz Gonzaga ameaçou deixar sua gravadora, se ela não concordasse.

A parceria de Luiz Gonzaga com o cearense Humberto Teixeira, embora efêmera, trouxe grande sucessos. Ao ser contratado pela poderosa Rádio Nacional, grandes artistas passaram a gravar suas músicas, desde Emilinha Borba a Ivon Cury. E à medida que crescia o seu sucesso, o número de parceiros e de fornecedores de repertório aumentava. Mas Zé Dantas foi o mais importante dos parceiros, pois, além se ser um estudioso da cultura regional, era fã do trabalho de Luiz Gonzaga.

Uma dúvida para muitos é saber se Gonzaguinha é filho ou não de Luiz Gonzaga. O que se sabe é que o artista nordestino viveu com a cantora Odaleia Guedes dos Santos, que morreu jovem em decorrência da tuberculose. Luiz Gonzaga registrou o filho da cantora como Luiz Gonzaga Junior. Mas as biografias de Gonzagão relatam que ele teria confessado ser estéril. Após a morte da mãe, o filho ficou sendo criado pelo casal Xavier e Dina. Luiz Gonzaga casou-se depois com Helena das Neves Cavalcanti, adotando o casal uma menina de nome Rosa Maria.

Com a chegada da bossa-nova, o antigo dá lugar ao novo, como se ambos não pudessem viver harmoniosamente. Mas com o tropicalismo, Luiz Gonzaga voltou à tona, sendo acompanhado por seu aluno e sucessor, José Domingos de Moraes (Dominguinhos). Em 1968, ele incluiria seu filho Gonzaguinha como parceiro, e com que vivia em conflito, pois, para muitos, Gonzagão era um adulador dos poderosos, enquanto Gonzaguinha era um dos autores mais censurados da época da ditadura.

Ao fazer parceria com o pernambucano João Silva, Luiz Gonzaga voltou a produzir grandes sucessos. Morreu em 1989, aos 77 anos, em meio a uma agenda cheia de shows.

Segundo análise de Tárik de Souza, jornalista de música:

Gonzaga alterou os paradigmas da nordestinidade, ante uma classe média preconceituosa contra os “cabeça-chatas”, como eram então denominados pejorativamente os imigrantes da região. E, ao mesmo tempo, sintonizou a música com uma cultura que já pulsava na literatura retirante de autores como Graciliano Ramos, José Lins do Rêgo e Rachel de Queiroz. Um cenário mítico de Lampião a Paim Cícero, antecipado no épico “Os Sertões” de Euclides da Cunha.

Nota:
Acessem o link abaixo para ouvirem Asa Branca
http://www.youtube.com/watch?v=cWiJL0_yj9c&oq=asa%20b&gs_l=youtube..0.5j0l9.1463.3750.0.6621.2.2.0.0.0.0.419.736.3-1j1.2.0.eytns%2Cpt%3D-30%2Cn%3D2%2Cui%3Dt.1.0.0…1ac.1.11.youtube.mOLReHAb2cs

Fonte de Pesquisa:
Raízes da Música Popular Brasileira/Coleção Folha de São Paulo

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E SE ELE MORRESSE NAQUELA NOITE?

Autoria de Lu Dias Carvalho ute12

A noite estava fria. O vento zunia nas calçadas levantando papéis e o que ali se encontrasse. A chuva não tardaria a desabar com vontade daquele céu de chumbo. As pessoas corriam apressadas, trombando umas nas outras. Algumas sombrinhas e guarda-chuvas já se encontravam abertos, talvez na tentativa de proteger seus portadores do vento gélido. Os motoristas buzinavam apavorados com a iminência do temporal. Ninguém queria ser pego longe da quentura do lar.

Mulher e marido saíram apressados da sala do dentista. Um táxi não seria a melhor solução, diante do pandemônio que se formava, com as ruas abarrotadas de pessoas e automóveis tentando forçar a passagem a qualquer preço. Caminhar seria bem mais viável para quem morasse próximo ao centro. E assim, o casal alargou os passos, agarrados um no outro, tentando vencer o tempo e a distância de casa.

Ele estava na calçada. Um idoso franzino trajando uma camisa fina e um short velho. Nos pés, apenas um tênis velho, desacompanhado de um par de meias que pudesse lhe aquecer os pés. As pessoas passavam esbaforidas por ele. Talvez nem o vissem. Mas ele estava ali, tremendo, tentando ultrapassar as portas de aço de uma loja já fechada, como se assim pudesse mitigar a frieza do tempo e das pessoas.

A mulher viu-o. Nada comentou com o marido. Seu coração e alma doíam de compaixão. Ela se emudeceu por fora e por dentro encheu-se de porquês que jamais teriam resposta alguma. O casal seguiu em frente, ziguezagueando entre as pessoas, aguardando sinais, atravessando ruas, buscando calçadas, aquecendo seus corpos com os braços, querendo se salvar do temporal que já quase beijava o chão.

Eu vou voltar para levar-lhe um cobertor e comida – martelava a mulher em sua mente compassiva e indignada. Ela chegou à casa junto com o temporal. Juntou-se à família no jantar, depois veio o banho quente, a colônia costumeira, a cama acolhedora e os braços carinhosos do marido. Pela janela do quarto entravam apenas a luz dos relâmpagos que avivam a promessa que fizera a si mesma: levar cobertor e comida para o homem idoso na calçada de uma noite gélida. O marido dormiu, mas a mulher não, com a imagem daquele ser repassando diante de seus olhos, num vai e vem sem fim. E se ele morresse naquela noite? E se ele amanhecesse morto na calçada gélida?

A mente sábia foi acalmando o coração da mulher de mente conturbada pela promessa não cumprida. Era preciso dormir, pois, a madrugada já rompia para dar lugar a um novo dia. Ela dormiu. Acordou pensando no homem na calçada álgida, de uma noite frígida, com um vento cortante em meio a tantos corações gélidos, inclusive o dela.

A mulher teve medo de ler o jornal, no dia seguinte, e de ver os noticiários televisivos. Amedrontava-lhe a ideia de que a morte do homem pudesse se estampar diante de seus olhos. Ela tinha medo de que o tivesse matado pelo seu desamor e pela palavra dada ao coração, descumprida.

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Uccello – A BATALHA DE SAN ROMANO

Autoria de LuDiasBHute

                                                   (Clique na imagem para ampliá-la.)

A composição intitulada A Batalha de San Romano, também conhecida como Niccolò da Tolentino na Batalha de São Romão, é mostrada em três grandes painéis, criados pelo pintor florentino Paolo Uccello, retratando a luta travada entre as forças de Florença e as de Siena em 1432. A obra foi encomendada a Uccello por Piero Medici, com a finalidade de ornamentar seu palácio em Florença. Até quinhentos anos atrás, as três pinturas encontravam-se no mezanino do Palácio Medici, no chamado “quarto de Lorenzo”, mas atualmente os painéis estão divididos entre a Galeria Uffizi em Florença/Itália, a Galeria Nacional em Londres e o Louvre em Paris.

A unidade política da Itália desapareceu após a derrocada do Império Romano,  sendo, portanto, a Itália da aurora do Renascimento ainda uma colcha de retalhos, formada por pequenas cidades-estados independentes e beligerantes entre si, dominadas por poderosas famílias. As três composições, portanto, referem-se a uma disputa entre duas famílias. O tema da pintura  é a celebração da vitória dos florentinos sobre os sienenses sob a chefia do comandante Niccolò da Tolentino — amigo e aliado da família Medici e principal personagem da obra.

As lanças entrecruzadas à esquerda na pintura, assim como as plumas nos elmos dos cavaleiros e suas roupas pomposas são elementos que ornamentam a composição. São recursos simples, usados pelo artista, que compensam o dificultoso trabalho na representação dos homens e seus cavalos, desenhados com maestria.

Para entender melhor a composição é bom saber que seu movimento começa da esquerda para a direita, diminuindo ao chegar ao centro, onde se encontra o pomposo Niccolò em seu cavalo branco — ponto principal da composição. O comandante usa um imponente chapéu de veludo vermelho e dourado e carrega no ombro esquerdo um manto de semelhante textura e cor. Com certeza este não era um chapéu apropriado para a guerra, mas usado em recepções oficiais e desfiles de tropas.

Logo atrás do comandante Niccolò um jovem de cabelos dourados e com um manto vermelho no ombro direito carrega os estandartes com o nó de Salomão, insígnia em arabesco de Niccolò da Tolentino. Trata-se do escudeiro que leva o capacete de seu mestre. A maioria das bandeiras medievais não era retangular, terminando em duas longas extremidades. Assim são as bandeiras do exército de Niccolò. Seu símbolo é uma coroa de cordame com nós. Sobre os arreios dos cavalos é possível observar a presença de belos adornos dourados que são na verdade aplicações de ouro sobre a superfície da pintura.

Um soldado morto, de bruços, encontra-se em uma das linhas que convergem para o ponto de fuga da composição que se localiza na cabeça do cavalo branco de Tolentino. As lanças partidas no chão também direcionam o olhar do observador para este ponto. Para contornar a dificuldade em apresentar um plano intermediário, dificuldade própria dos artistas do início do Renascimento, Uccello separou o primeiro plano do fundo, colocando uma sebe com rosas brancas e vermelhas, laranjeiras e romãzeiras no meio, de modo que, no fundo da composição, a batalha continua com os soldados correndo de um lado para o outro, sem nenhuma representação de perspectiva. Talvez não tivesse relevância para ele a cena que acontecia por trás das cercas.

Embora o primeiro plano pareça muito estreito, com elmos, pedaços de lança, pés dos cavalos e os pés do cavaleiro morto quase saindo dos limites da tela, é bom saber que Uccello assim o pintou, levando em conta o local, onde a obra ficaria exposta, ou seja, pendurada acima do nível dos olhos do observador, acerca de dois metros de altura. Embora a composição represente uma cena de guerra, cavalos e homens mais se assemelham a brinquedos, contudo as figuras parecem esculpidas e não pintadas. Pintar a figura do guerreiro tombado no chão, representado em perspectiva, foi sem dúvida alguma de grande dificuldade para o pintor. Nunca uma figura fora pintada assim antes. Tratava-se de uma inovação na história da arte à época.

A figura do guerreiro caído por terra era sem dúvida de grande dificuldade de execução, ao ser representada em perspectiva e deve ter sido motivo de seu maior orgulho, pois, até então, nenhuma pintura fora pintada assim, mesmo que esta se apresente um pouco pequena, se comparada às outras figuras. Foi algo fenomenal para o artista e para a época.

Na sua composição Uccello emprega a perspectiva pela qual era um estudioso obcecado, além de mostrar com detalhes a forma e o movimento dos personagens e animais. Suas figuras parecem sólidas e reais, contudo, afirma o Prof. E. H. Gombrich em seu livro “A História da Arte” que mesmo vindo a tornar-se um grande artista, até a feitura dessa obra “Uccello ainda não aprendera a usar os efeitos de luz, sombra e ar a fim de suavizar os duros contornos de uma representação estritamente perspectivada”.

A pergunta que nos fazemos, ao olhar essa pintura que se mostra tão medieval, é o que ela tem de tão especial, se os animais nos parecem cavalinhos de brinquedo? A maravilha desta pintura relativa a cerca de 1450 (século XV) reside no fato de Uccello mostrar-se tão maravilhado com as novas técnicas que poderia inserir em sua arte que fez o máximo para dar destaque às suas figuras que parecem esculpidas em vez de pintadas.

Curiosidade:
Muitas áreas da pintura foram cobertas com ouro e prata. Enquanto a folha de ouro, como a encontrada nas decorações dos freios, manteve-se brilhante, a folha de prata, encontrada particularmente na armadura dos soldados, ficou oxidada em cinza escura ou mesmo preta. A impressão inicial da prata polida deveria ter sido deslumbrante. Todos os quadros, especialmente o do Museu do Louvre, têm sofrido com o tempo e com a restauração precoce, e muitas áreas perderam a sua modelação original.

Ficha técnica
Data: c. de 1450
Técnica: têmpera a ovo sobre álamo
Dimensões: 182 x 320 cm
Localização: National Gallery, Londres

Fontes de pesquisa:
Arte em detalhes/ Publifolha
A história da arte/ E.H. Gombrich
1000 obras-primas…/Konemann
501 grandes artistas/ Sextante
Los secretos de las obras de arte/ Taschen

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OS FRANCESES E O VINHO

Autoria do Dr. Telmo Diniz

vinho

Estando na Europa, passo a focar na coluna das próximas semanas temas relacionados entre saúde e os povos do Velho Continente. Os franceses, por exemplo, quando comparados com outros povos do mesmo nível sócio-econômico-cultural, são mais sedentários, fumam mais e comem mais gorduras saturadas – os queijos, patês e manteiga são usuais na culinária francesa – e, no entanto, têm a metade dos problemas cardiocirculatórios. Daí o termo: “Paradoxo Francês”.

Embora outros artigos científicos já tratassem desse assunto antes, foi o anúncio do “Paradoxo Francês” que despertou a atenção sobre o tema ‘vinho e saúde’. Uma publicação na revista “The Lancet” demonstrou que, nos países em que o consumo per capita de vinho é maior, a mortalidade por causa cardiocirculatória é menor, e vice-versa. E os franceses consumiam, à época, uma média anual de cem garrafas de vinho por pessoa, além de beber sempre junto com as refeições.

O anúncio do “Paradoxo Francês”, no início dos anos 90, colocou a comunidade científica a pensar. Até então, o que a ciência nos ensinava é que ingerir bebidas alcoólicas era tão prejudicial quanto fumar. Com esses dados, um conceito científico teria que ser mudado. E chegaram à conclusão de que a ingestão leve a moderada de bebidas alcoólicas, sobretudo o vinho, reduz o risco das doenças e da mortalidade cardiovascular de 40% a 60%. Se era o vinho que causava tamanho benefício à saúde, qual era então a substância que fazia tudo isso acontecer?

Passados quase 20 anos, várias centenas de pesquisas confirmaram os dados do “Paradoxo Francês”. Inúmeros estudos explicam os mecanismos pelos quais essa proteção acontece e evidenciam outros efeitos favoráveis do vinho, como o aumento da longevidade e a proteção do cérebro e do sistema cardiocirculatório. Chegaram à conclusão de que o benefício vem das uvas e seus derivados, como vinho e sucos, que são ótimas fontes naturais de antioxidantes, particularmente os vinhos tintos, pelo seu alto teor de polifenóis. O seu principal representante é o resveratrol. O composto polifenólico é encontrado em uvas frescas, suco de uva e vinho, e é produzido pela casca das uvas em resposta à exposição fúngica. O resveratrol protege o sistema cardiovascular por inibir a oxidação do colesterol, a agregação plaquetária, e promover o relaxamento vascular, melhorando, também, a pressão arterial.

Estudos feitos a partir do “Paradoxo Francês” mostram que é possível agregar o prazer de beber e ter benefícios para a saúde. Mas, para isso, é necessário que se faça junto com as refeições, de maneira regular e moderada, e somente se não houver contraindicação ao consumo de bebidas alcoólicas. Porém, este mesmo benefício pode ser obtido com o consumo regular de suco de uva. De qualquer forma, um brinde à saúde.

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Raízes da MPB – LUPICÍNIO RODRIGUES

Autoria de Lu Dias Carvalho baiana1234

Noel Rosa, Orestes Barbosa e Chico Buarque escreveram brilhantes canções sobre o descorno. Mas nenhum soube expressar como Lupicínio a mais acachapante cornitude. Cartola e Nelson Cavaquinho foram mestres supremos do samba-canção. Mas nenhum misturou tão bem o gênero a elementos musicais e poéticos do bolero e do tango. (Arthur de Faria, pianista, arranjador, produtor, compositor e cantor)

O compositor, cantor e boêmio Lupicínio Rodrigues, também conhecido por Lupi, nasceu em Porto Alegre/RS, em 1914. Nasceu numa família modesta de muitos irmãos. Era o quarto da prole e o primeiro dos filhos homens. Durante a infância, ajudava em casa como vendedor ambulante, e outros tipos de trabalho. Seus estudos foram pagos pelo desembargador André da Rocha, de quem seu pai fora agregado. Há, inclusive, suposições de que o artista era filho natural do desembargador. Quando completou o primário, aos 12 anos de idade, já fazia música, sendo depois matriculado num curso profissionalizante de mecânico.

Aos 13 anos de idade, Lupi estreou no Bloco da Moleza como compositor, com a marchinha Carnaval. Aos 15 anos, foi contratado para cantar no conjunto profissional de nome Conjunto Catão. Para evitar que o filho se enveredasse pelo caminho da música, seu pai, apavorado, modificou sua idade de 15 para 18 anos, para que fosse “voluntário” no 7º Batalhão de Caçadores do Exército. Tentativa essa que se tornou inglória, pois o rapazote continuava fascinado pela música.

Quando já era soldado raso, Lupi assistiu encantado ao show dos Ases do Samba, composto por Noel Rosa, Francisco Alves, Mário Reis, Nonô e Pery Cunha. Ficou deslumbrado, mas não teve coragem de falar com eles. Mas, quando se encontrava num boteco com um grupo de amigos, fazendo música, foi surpreendido com a chegada deles. Acabaram se interagindo e Lupi cantou algumas de suas músicas. O grupo visitante ficou encantado com o talento do rapaz, sendo que Mário Reis e Francisco Alves viriam a ser muito importantes para ele no futuro.

Lupicínio Rodrigues tornou-se cabo, mas no carnaval de 1933 passou em frente ao quartel, bêbado e fantasiado.  Como castigo foi mandado para a cidade de Santa Maria, a 300 quilômetros de Porto Alegre. Ali ficou conhecendo sua primeira paixão. Como ficasse enrolando a moça, ela se casou com outro, o que fez com que Lupi pedisse baixa no quartel e retornasse a Porto Alegre, voltando a se integrar ao Conjunto Catão, para tristeza de seu pai, que desejava que o filho seguisse seus passos: funcionário público durante o dia e músico nas horas de folga. Mas a música falava mais alto. Ganhou dois concursos musicais. O conhecido cantor, compositor e violonista Alcides Gonçalves gravou, em 1936, músicas em parceria com Lupicínio Rodrigues, obtendo grande sucesso e levando a música do parceiro para o Rio de Janeiro.

Lupicínio Rodrigues conseguiu um grande sucesso popular com o samba Se Acaso Você Chegasse que foi uma maneira de contar a seu amigo Heitor de Barros que estava com a namorada dele. A Revista Globo homenageou-o, chamando-o de “Doutor do Samba”. Resolveu então que estava na hora de ir tentar a sorte na capital federal, onde tudo acontecia. E, sem comunicar ninguém, partiu de vapor para o Rio de Janeiro, com uma passagem de terceira classe, mas, como passou a cantar no navio, ganhou um camarote, vivendo uma semana de mordomia. No Rio de Janeiro, fez amizade com Wilson Batista e Ataulfo Alves. Depois, ficou conhecendo Ary Barroso, Haroldo Lobo, Nássara e Francisco Alves. Pediram então ao gaúcho que cantasse “um negócio aí”. E Lupicínio atacou de: Você sabe o que é ter um amor, meu senhor, ter loucura por uma mulher… e mais outras. Francisco Alves prometeu gravá-las.

No Rio, Lupicínio Rodrigues viveu muitas farras, muitos amores, muitas amizades e também muitas desilusões, mas o dinheiro não entrava. Teve que voltar ao Rio Grande do Sul. E de lá nunca mais partiu. Para sua sorte, até o emprego que deixara estava à sua espera, e nele se aposentou aos 33 anos, sob a alegação de estar tuberculoso, o que jamais foi provado. Oito anos depois, Francisco Alves cumpriria o prometido, gravando músicas suas. Ele entrou no ramo dos negócios, abrindo casas noturnas e se tornando representante regional da Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Escritores de Música, por um período de 28 anos.

Francisco Alves voltou a gravar as novas músicas de Lupicínio Rodrigues, em 1948, dentre elas, Esses Moços, escrita por Lupi com a intenção de convencer seu amigo Hamilton Chaves a não se casar. Em 1952, Linda Batista gravou Vingança, que ganhou uma versão em espanhol, em ritmo de tango, gravada por artistas argentinos, virando um sucesso total. Dizem até que a música, com suas imprecações, causou grande reboliço na vida dos amantes infelizes. O fato é que Lupicínio Rodrigues tornou-se um dos compositores consagrados da MPB, mesmo morando em Porto Alegre, longe de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Conta-se que certo dia, Rubens Santos, um carioca parceiro de Lupi em mais de 40 canções, e sócio em restaurantes e bares, irritado com o séquito de mulheres que o amigo levava para comer e beber de graça, reclamou:

– Ô Lupicínio, você parece o São Francisco.

– Mas que bonito, meu camarada. É porque eu vivo cercado de passarinhos? – perguntou Lupi.

– Não, Lupicínio, não é o santo, é o rio. Porque você vive é cercado de piranhas. – respondeu Rubens.

A vida amorosa de Lupicínio foi intensa. Teve uma filha com uma moça chamada Juraci. Como ela estava muito mal de saúde, pediu ao artista que se cassassem para legalizarem a situação da filhinha. Assim, num intervalo de poucos dias, ele se viu solteiro, casado e viúvo. A filha foi morar com Lupi após a morte da mãe. Posteriormente, casou-se com Ceremita que lhe deu o primeiro filho homem: Lupicínio Rodrigues Filho.

Lupicínio tornou-se tão popular, que a capital de seu estado, Porto Alegre, foi chamada de A Capital do Samba-Canção, passando a ser gravado por uma geração nova: Luiz Gonzaga, Nelson Gonçalves, Nora Ney, Lúcio Alves, Elza Soares, etc. Quando ali esteve, Jamelão e Lupi tornam-se grandes amigos, e o cantor carioca autonomeou-se o principal intérprete de Lupicínio Rodrigues, cantando suas canções até a sua morte.

Com a chegada da Bossa-Nova e da Jovem Guarda, a MPB e os tropicalistas tornaram-se os responsáveis por tirar de cena a geração daqueles compositores, dentre eles Lupicínio Rodrigues. Em 1967, no II Festival Internacional da Canção, sua música No tempo da Vovó nem foi classificada. Mas em 1971, João Gilberto, o mestre da Bossa-Nova cantou Quem Há de Dizer. Caetano passou a cantar Volta em seus shows, depois gravada por Gal Costa, Paulinho da Viola gravou Nervos de Aço, Elis Regina gravou Cadeira Vazia e Maria Rosa. Bruno Barreto colocou Esses Moços como música do filme “A Estrela Sobe”. Não apenas se dando a volta de Lupicínio Rodrigues, mas de Cartola, Nelson Cavaquinho, Clementina de Jesus, entre outros.

Lupicínio morreu em 1974, aos 60 anos de idade, de insuficiência cardíaca decorrente de diabetes. A partir de sua morte, vem sendo gravado por inúmeros intérpretes.

Nota
Acessem o link abaixo para ouvirem Vingança
http://www.youtube.com/watch?v=YTyRs8krw9s

Fonte de pesquisa
Raízes da MPB/Coleção Folha de São Paulo

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Vidas Secas – ESGARAVATANDO UMA MENTIRA (8)

Autoria de Lu Dias Carvalho

cap baleia

Fabiano foi comprar sal, farinha, feijão, rapadura,
querosene e um corte de chita pra  Sinha Vitória.
Comprou tudo, menos o corte de fazenda, com
medo de ser logrado pelo comerciante do lugar.

Olhava os panos, regateava de olho na medida,
sem tirar o dinheiro da ponta do lenço sem alvura.
Foi procurar a bodega de Seu Inácio com o picuá,
querendo uma cachaça pra espantar a quentura.

Bebeu de um só trago, cuspiu e limpou os beiços.
Eis que um soldado amarelo bateu no seu ombro,
querendo jogar trinta e um, lá no fundo da botica.
Atentou no respeito à farda e obedeceu inseguro.

Só tinha feito obedecer na vida. Tinha muque e
sustância, mas jamais especulava, sujeitava-se.
Perdeu no jogo, e se ergueu puto e emburrado,
saiu trombudo, sem mesmo pra trás virar-se.

Ficou debaixo do jatobá, falando com Sinha Rita.
Matutava uma desculpa pra contar a Sinha Vitória.
Podia até inventar que roubaram o cobre da chita,
mas a ideia era fraca, faltava sabença pra mentira.

Não sabia explicar a  presença de Sinha Rita, ou
falar que o tinham pelado no trinta e um, ou contar
que o lenço das notas sumiu do bolso de seu gibão.
Sua mulher, bem atilada, notaria logo sua invenção.

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