Autoria de Lu Dias Carvalho

O homem que nasce alto torna-se baixo pelas suas baixas associações, mas o que nasce baixo não se torna alto, por meio de altas associações. (Código de Manu)
Um brâmane ensina os Vedas. Um brâmane se sacrifica por outros e recebe deveres da alma. Comum a todas as castas é a reverência para com os deuses e brâmanes. (Vishnusmriti, 2-1.17)
Os brâmanes sempre gozaram das delícias do poder que só foi um pouco enfraquecido, quando o budismo sacudiu a Índia. Mas esses sacerdotes, com a tenacidade que lhes é peculiar, deram uma volta por cima e reconquistaram o domínio, ainda na dinastia dos Guptas. A partir do século II da nossa era, os registros já mostram grandes doações, principalmente em terras, feitas às castas dos brâmanes. Segundo alguns historiadores, a maioria das escrituras era fraudulenta. E, como não podia deixar de ser, as terras dos brâmanes eram isentas de taxas, mas só até a chegada dos ingleses.
Os britânicos não levaram em conta o Código de Manu, que advertia o rei de que “nunca deverá taxar um brâmane, mesmo quando todas as outras fontes de renda estejam esgotadas, pois um brâmane irado pode imediatamente destruir o rei e todo o seu exército, apenas com a recitação das maldições dos textos místicos.” Está aí o motivo de tanta riqueza e tanto ouro. Além disso, os espertinhos instituíram que “o mais importante elemento em todos os sacrifícios aos deuses era a taxa paga ao sacerdote ministrante; e a mais alta demonstração de piedade era uma gratificação engrossando essa taxa”. Mas a mina do rei Midas não ficava apenas nisso para a casta bramânica. Ela ia muito, mas muito além. Estava presente nos milagres e nas superstições, pois o brâmane podia tudo e contava com a crença do povo:
- tornar fecunda uma mulher estéril;
- conduzir negócios por meio de oráculos;
- levar os homens de loucura “simulada” a confessar ao povo, que estava assim, por castigo, por serem pouco generosos com os sacerdotes (brâmanes);
- tirar o mau augúrio que levava à doença, ao sonho desagradável, ao mau negócio.
O poder bramânico, muito espertamente, era assentado no monopólio do conhecimento. Cai muito bem para eles o provérbio de que “em terra de cegos, quem tem um olho só é rei”. Os brâmanes eram os reformadores e guardiães de todas as tradições hinduístas. E, polivalentes, eram educadores das crianças, compositores, editores e tudo o mais.
A lei bramânica rezava que, se um sudra (a quarta casta em posição) ouvisse a leitura das escrituras hinduístas, deveria receber, como castigo, chumbo em fusão no ouvido. E se recitasse qualquer coisa dos livros divinos, tinha a língua cortada. Se das escrituras guardasse qualquer coisa na memória, era cortado em dois. O bramanismo era apenas para os iluminados. Tudo era feito para que as castas baixas não tivessem acesso ao conhecimento, pois esse lhes daria poder, questionamento e revolta. Ou seja, quanto mais inculto fosse o povo, maior seria o domínio sobre ele.
Um brâmane estava, por direito divino, sobreposto a todas as criaturas. Devia ser mantido através de doações públicas e privadas. E, que ninguém tivesse a petulância de dizer que era por “caridade”, pois se tratava de uma obrigação “sagrada”. A hospitalidade a um brâmane constituía um alto dever religioso. E, se era mal recebido, retirava-se levando todo o mérito das boas obras do hospedeiro. Todo o poder era mantido através da chantagem e do medo.
Os brâmanes Nambudri exerciam o “jus primae noctis” sobre todas as noivas de seu território, até tempos recentes. Ou seja, eles se ofereciam para curar a esterilidade das mulheres que passavam uma noite no templo em companhia deles.
Se um brâmane cometia um crime, jamais podia ser morto. O rei exilava-o, mas sem lhe retirar a propriedade. Quem “tentasse” bater num brâmane ganhava o castigo de sofrer cem anos no inferno. E, se o desafortunado chegasse a bater, o castigo passava para mil anos. Os seguidores do hinduísmo acreditavam piamente em tais lorotas.
Se um sudra abusasse da mulher de um brâmane, tinha a propriedade confiscada, e pior, ainda tinha os órgãos sexuais cortados. O sudra que matava outro sudra obtinha o perdão através da doação de dez vacas aos brâmanes, é claro. E, se um sudra matava um vaicia (pertencente à 3ª casta) tinha que dar cem vacas. Mas, se o sujeito matava um brâmane, estava ferrado e fulminado, porque somente o homicídio de um brâmane era considerado como tal.
Deveres de um brâmane:
- banhar todos os dias e tomar mais um banho, se o barbeiro pertencer a outra casta;
- purificar com esterco de vaca o sítio onde vai dormir;
- nas necessidades fisiológicas precisa seguir um ritual higiênico, usando, nesse sagrado rito, a mão esquerda, ao lavar as partes pudendas com água.
Se um estrangeiro usasse papel higiênico, a casa era considerada conspurcada. O brâmane usualmente lavava mãos, pés e dentes antes da refeição. Comia com os dedos e só usava duas vezes os mesmos pratos e talheres. Ao terminar a refeição, lavava sete vezes a boca. A escova de dente (um fragmento de madeira) era sempre nova. Mascava folhas de bétel (um tipo de planta indiana) para branquear os dentes. Usava o ópio espaçadamente, pois tinha que se abster do fumo e do álcool.
O fato de pertencerem à casta mais alta tornou a posição social dos brâmanes especial, mas a intromissão desses em todos os assuntos do país vem provocando sérias divergências na sociedade indiana. Já na metade do século XX, um grupo de racionalistas insurgiu-se contra o excesso de poderes de tal casta, considerando seus rituais totalmente desnecessários. O sucesso do movimento contribuiu para que algumas mudanças acabassem se processando, principalmente nos estados indianos do sul. Na Índia hinduísta, nenhuma decisão é tomada sem primeiro consultar o sacerdote (pandit), que sempre aproveita dos casamentos e negócios para tirar mais dinheiro das família.
Nota: personagem “pandit” (José Maia) da novela Caminhos das Índias.
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