ÍNDIA – CASAMENTO HINDU

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Os casamentos na Índia obedecem às várias tradições, variando de acordo com a casta, a região, a cultura e os costumes das mais diversas etnias que compõem o mosaico indiano. Embora encontremos exceções nos dias de hoje, muitos dos casamentos entre hindus são arranjados pelas famílias dos noivos, a fim de reforçar os laços familiares, que são muito importantes na Índia. Muitos hindus acreditam que uma pessoa solteira não possui status social. Por isso, o casamento hindu é considerado uma união sagrada e imutável. E, se um filho ou filha não casar, gera uma grande tristeza para a família.

Os pais buscam companheiros especiais para seus filhos, levando em conta a mesma religião ou casta das famílias. A aliança é arranjada depois que consultam os mais velhos da família e os astrólogos comparam horóscopos, castas, contexto familiar e social. Quando o casamento é arranjado, as duas famílias entram em uma relação mais profunda, de modo que, ao surgirem problemas na vida do novo casal, ambas  trabalham juntas, para resolvê-los.

Um casamento hindu mais parece uma maratona para os noivos e sua família. Exige uma cerimônia bem elaborada, que passa por diversas fases.  A duração pode levar vários dias. Já na semana anterior ao casório, vários rituais são feitos, principalmente aqueles ligados à fertilidade, pois uma mulher estéril é descriminada, principalmente pela sogra que, na maioria das vezes, não é lá flor que se cheire,e quer descontar na nora, aquilo que passou debaixo das garras da mãe de seu marido.

As mãos da noiva, assim como as de suas amigas, recebem lindos desenhos de henna, antes do casamento. Pela exuberância desses pode-se saber a qual casta pertence a noiva. Os corpos dos nubentes passam por intensa massagem com óleos perfumados, com as mais variadas essências, enquanto eles cantam mantras, de modo a purificar o corpo e a alma, antes da cerimônia. As irmãs do noivo costumam roubar-lhe os sapatos, para que o irmão lhes dê, em troca, presentes em ouro, ao devolvê-los.

No dia do casamento, o noivo chega à casa da escolhida conduzido por uma procissão, às vezes montado num cavalo branco, de turbante e espada. Durante a festa, para testar a coragem e o vigor do moço, um parente da noiva desafia-o para uma luta. Assim poderá ver se o cavalheiro está apto para defender a honra de sua futura esposa. O sacerdote invoca as bênçãos de Brahma para o casa, e se dirige a seus antepassados, pedindo-lhes para abençoar aquela união.

Iogurte e mel são oferecidos pela noiva ao futuro marido, como indicativo de sua pureza e doçura. Ambos trocam um colar, colocado durante a cerimônia no pescoço um do outro. Ao final, o pai entrega a filha ao marido, e eles trocam seus anéis. O ambiente é purificado com óleos e essências, enquanto os pombinhos fazem juras de amor eterno. No final da cerimônia, pisam numa pedra para simbolizar a força do amor de ambos. Mas a festa não para por aí. Mesmo depois de casados existem outras cerimônias a cumprir na nova casa. Levam consigo uma chama sagrada, que devem manter acesa. Primeiro entra a noiva com o pé direito e, depois, o noivo. A seguir, ficam em silêncio até o cair da noite, para que, sob um céu estrelado, prestem homenagens a seus antepassados.

A joia indiana está fortemente ligada ao casamento, pois existe uma grande necessidade de torná-lo visível aos olhos da sociedade. A Índia é regulada pelas regras do casamento e da religião. Ao término do ato do casório é comum o pai da noiva dizer para o genro: “Agora eu lhe entrego esta menina adornada de ouro”. Como veem, o ouro tem grande valor junto a esta cultura, que, embora alguns julguem espiritualizada, é na verdade muito materialista.

Embora o dote seja “oficialmente” ilegal nesse país, tal prática sobrevive com muita força. O único bem pertencente à mulher são as joias, que ela recebe da sua família ao se casar. Caso o casal venha a se divorciar, ela vai ter direito de levar apenas suas joias. Nada mais! Todo o resto fica para a família do marido. E se vier a se enviuvar, grande azar para uma mulher hindu, ela não poderá mais usar nem mesmo essas joias em seu corpo, mas poderá passá-las às filhas. Em razão da importância de tal adereço, o metal utilizado nas cerimônias de casamento é sempre o ouro (de acordo com a casta, é claro). Simboliza a deusa Lakshmi e é sinônimo de pureza e abundância, sendo proibido o seu uso nos pés.

Na Índia, setembro e março são os meses eleitos para os casamentos. As joalherias ficam entupidas de famílias ricas, para escolherem as joias mais vistosas que irão enfeitar a noiva. Algumas peças são indicadoras da casta ou da religião, e não podem ser usadas por outras castas ou pessoas oriundas de outros credos. Assim, enquanto num casamento ocidental o símbolo da união é o uso de alianças, na Índia, a noiva se casa carregada de ouro. Como diríamos por aqui, parecendo “uma árvore de natal”.

As peças mais utilizadas são:

  • o Nath (brinco de nariz);
  • o Bor (adorno usado na testa);
  • o Paizeb (tornozeleira com sininhos) e os populares anéis nos pés (somente em prata);
  • o Mangalsutram é a peça mais tradicional, que vem do sânscrito “mangal” (próspero, abençoado) e “sutram” (cordão).

O cordão de casamento só pode ser retirado em caso de morte do marido. É tecido com finas linhas de algodão tingidas de amarelo. São 108 pedaços de linha trançados (esse é um número de sorte para os indianos). Um pingente é colocado no cordão para atrair ainda mais sorte.

Nota: imagem copiada de http://www.noivas.net/cerimonia-de-casamento-hindu

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Picasso – AS SENHORITAS DE AVIGNON

Autoria de Lu Dias Carvalho

picasso1234567   (Faça o curso gratuito de História da Arte, acessando: ÍNDICE – HISTÓRIA DA ARTE)

Quando inventamos o Cubismo, não tínhamos a menor intenção de inventá-lo. Apenas queríamos expressar o que estava em nós. (Picasso)

A composição de Picasso As Senhoritas de Avignon levou nove meses para ser feita, vindo a tornar-se uma das obras responsáveis por revolucionar a história da arte, formando a base para o Cubismo e a pintura abstrata. Ela é o marco, portanto, do início dos experimentos com a linguagem cubista. Mas esta revolucionária obra foi incompreendida até mesmo pelos amigos do pintor, pois esses não aprovaram seu estilo, onde corpos e fundos transformam-se em formas geométricas. O primeiro título que o quadro recebeu foi o de “Bordel Filosófico”. O artista baseou-se na lembrança que teve de um bordel da Calle Avinyo em Barcelona. A obra apresenta um tema incomum e um estilo radical.

Estão presentes cinco personagens na composição, todas nuas, com seus corpos cinzelados rudimentarmente e com seus rostos esquemáticos. A cena tem como inspiração o interior de um bordel da rua Avignon na cidade de Barcelona, local bem conhecido do pintor e de seus amigos. Os corpos apresentam linhas irregulares e quebradas. São figuras dessemelhantes, só tendo em comum a nudez. Suas formas são definidas por contornos. As mulheres e o fundo da composição são feitos de planos angulosos e geométricos. Para fortalecer a composição geométrica, Picasso fez uso da cor azul em algumas partes da pintura.

Observando partes a composição:

1. No primeiro plano da pintura está um prato com frutas, também mostradas de maneira sensual, onde se espalham uvas, maçã, pera e melancia.
2. No centro duas das prostitutas fitam o observador, como se o convidassem provocadoramente para se deliciar com seus corpos. Elas são mais delicadas e realistas do que as demais.
3. À direita uma prostituta, assentada de costas para o observador, também o fita com sua cabeça cubista virada para trás, numa posição inverossímil. Seu rosto tem o nariz torto e os olhos de cores diferentes totalmente desalinhados. Parece usar uma máscara.
4. Acima da prostituta citada acima uma figura usando máscara africana tribal encontra-se de pé, com os braços abertos, abrindo as cortinas.
5. A quinta mulher está próxima à porta, como se convidasse as pessoas para entrarem, contendo uma cortina vermelha aberta. Ela é a mais musculosa das cinco.

O uso de máscaras na composição demonstra uma clara influência da arte africana sobre o pintor. Enquanto pintava As Senhoritas de Avignon, Picasso visitou uma mostra africana que acontecia em Paris. Quando esteve no local, ele já havia terminado o rosto das três mulheres à esquerda, mas não o das duas à direita que refletem uma clara influência da escultura africana que em sua rude estilização encantou o artista.  Portanto, a arte negra exerceu grande influência sobre o artista, com a qual teve contato antes de finalizar a obra em questão.

As Senhoritas de Avignon é uma das composições mais famosas de Picasso, principalmente por mostrar uma maneira diferente de retratar a realidade. É também uma das mais conhecidas obras do século XX. Ela incomodou seus colegas o e os críticos, porque o artista fez desmoronar toda a tradição pictórica ocidental, reinventando uma nova maneira de pintar. Abriu mão da luz e da atmosfera em troca da clareza da forma, assim como baniu tudo que era irreal, indefinido ou vago.

As Senhoritas de Avignon, portanto, falando em termos cronológicos, representa o nascimento do Cubismo. É bom também lembrar que o Cubismo passou por diversas etapas durante o seu desenvolvimento: Cubismo analítico, Cubismo sintético, Cubismo hermético e Cubismo cristalino e tinha por objetivo o desmanche da realidade que seria reconstruída pelo artista, segundo o seu ponto de vista, sendo uma linguagem pictórica extremamente pessoal, sem representação comum, sendo o supérfluo totalmente eliminado. Picasso, a princípio, pensou em incluir na composição duas figuras masculinas: um estudante e um marinheiro que comiam na companhia das mulheres, mas não o fez.

Ficha técnica
Ano: 1907
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 243,9 x 233,7 cm
Localização: The Museum of Art, Nova York, EUA

Fontes de pesquisa
Picasso/ Abril Coleções
Picasso/ Coleção Folha
Arte moderna/ Editra Taschen
Arte/ Publifolha
Tudo sobre arte/ Editora Sextante

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ÍNDIA – A FILOSOFIA HINDUÍSTA

Autoria de Lu Dias Carvalho

DARMA

O hinduísmo possui uma visão filosófica sobre a existência do Universo bem distante daquela apregoada pelo cristianismo que a relata de acordo com o seu livro Gênesis. Para os adeptos da religião hindu, o mundo vive em permanentes ciclos de evolução e dissolução, crescimento e decrescimento, assim como um organismo vegetal ou animal, sendo Brahma a força espiritual responsável por manter esse processo ininterrupto, numa eterna repetição.

Ao contrário do cristianismo, segundo o hinduísmo, o homem não ascende à natureza, mas apenas é uma parte dela, jamais seu dono. O que existe é a transmigração da alma que passa de uma espécie a outra, de corpo a corpo, de vida a vida, de modo que ele nada mais é que um elo na cadeia da vida, e não especificamente um indivíduo. Amanhã poderá ser uma árvore, depois um elefante, ontem pode ter sido uma barata, etc. As espécies não são, na verdade, um divisor de águas, mas estados transitórios, uma vez que a vida é una.

Para o hinduísmo, uma vida corresponde apenas a uma das infinitas transmigrações da alma, sendo que toda forma é transitória, dentro de uma realidade única e contínua. As reencarnações nada mais são do que fases de uma vida individual, que podem levar a alma ao progresso ou à decadência, de acordo com a sintonia existente entre Darma e Carma. De modo que todo ser existente no Universo possui um fim determinado, pois obedece à lei da existência. Tal lei recebe o nome de Darma, enquanto a ação de fazer com que ela seja cumprida recebe o nome de Carma.

Samsara (ou Roda de Samsara) representa o ciclo contínuo de nascimento, morte e transmigração da alma, a que tudo está sujeito. E quanto mais um ser se afastar, durante uma vida, da lei da existência, mais tempo permanecerá na Roda de Samsara. Para encurtar os ciclos de suas muitas existências é preciso que o homem busque a iluminação total, abrindo mão de qualquer tipo de apego. E isso se dá na busca pela harmonia entre Darma e Carma.

O hinduísmo argumenta que, sendo a alma imortal, ela não poderia ser definida em uma única existência. E assim como não temos memória de nossa infância, a alma também não se lembra das vidas anteriores. O lugar que cada homem ocupa hoje é o resultado de suas vidas passadas. Por isso, ou ele está cumprindo uma pena (como os dalits ou as sub-castas), ou desfrutando o prêmio da virtude vivida em alguma existência anterior (como as castas mais elevadas).

Na Lei do Carma (a lei da casualidade no mundo espiritual) nada fica sem efeito por menor que seja o bem ou o mal produzido. Essa é a mais reguladora de todas as leis, a mais justa, a mais sábia. Ela está acima dos deuses e dos homens e faz com que cada um renasça segundo o seu merecimento. Por isso, não há conversão ao hinduísmo. Pois a casta, onde se nasce, é determinante para a doutrina da religião. Nenhum deus (o hinduísmo possui mais de trezentos milhões de divindades) pode reverter a ação da Lei do Carma. A pobreza e a riqueza são resultantes de existências passadas. E assim deve viver o homem, até que cumpra a sua missão no ciclo de vidas.

Segundo alguns historiadores e economistas, a fé na Lei do Carma e na transmigração da alma é o maior obstáculo para suprimir o sistema de castas na Índia, embora a constituição do país já o tenha feito no papel. Mas entre os escritos no pergaminho e a realidade está o pico inacessível do Himalaia. Comprovando o que disse o Dr. Ambedkara a respeito da Constituição indiana:

Ela será apenas um pedaço de papel, enquanto não ficar inscrita no coração dos cidadãos.

E pior, os hindus ortodoxos tomam como um sacrilégio, perturbar o plano divino. De modo que as coisas têm que ser como são. E ponto final.

Enquanto não houve conversões ao cristianismo e ao islamismo, a Lei do Carma funcionou como um bálsamo, principalmente para os párias, que viviam dentro de uma passividade total. Todos aceitavam, sem chiar, o destino herdado, na esperança de voltar num patamar mais alto na próxima transmigração. O hinduísmo conseguia pacificar a tragédia humana, valorizando o sofrimento. Pois, se aceito com paciência, ele seria passageiro e conduziria a uma vida melhor. Caso contrário, voltaria a se repetir.

A mais nobre aspiração de um hindu é se ver livre da reencarnação, pois acredita que, quando isso acontece, o ego que revive em cada nascimento individual, foi vencido. Logo, a salvação não se dá através da fé ou das obras, como apregoa a maioria das religiões, mas pela crença de que o “eu” está morto. Por isso Gandhi disse:

– Eu não quero renascer!

De certa forma, o hinduísmo foi responsável pelo enfraquecimento e atraso da Índia por tanto tempo, ao amarrar grande parte de seu povo à onipotência dos brâmanes e a um sistema de castas, mantendo-o subjugado pela servidão, onde a esperança estava depositada apenas em outra vida, destruindo a coragem e a vontade de viver de seus fiéis. Os brâmanes confiavam na ignorância dos párias, como uma força capaz de preservar as divisões de castas. Tudo correu na mais absoluta tranquilidade, até que o Islã e o Cristianismo fizeram-se presentes no país.

A Índia atual vive tempos marcados pela revolta contra a injustiça e a pobreza extrema, quando passa a trilhar como gente grande os caminhos da tecnologia de ponta. Só para ilustrar a rapidez com que esse país adentra no mundo capitalista, deixo aqui a fala de um amigo estadunidense:

Quando ligo para o meu banco em Boston, sou atendido na Índia, por alguém com um inglês arrastado, muito difícil de ser compreendido.

 Como sobreviverão o Darma e o Carma dentro do capitalismo? Eis a questão!

Nota: imagem copiada de esoterismoyenergia.com

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FIO MARAVILHA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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O VII FIC (Festival Internacional da Canção) foi realizado pela TV Globo, em 1972. Foram 1920 músicas inscritas. Seus autores não podiam ser reconhecidos pelos cinco membros responsáveis pela escolha das canções, para evitar qualquer tipo de proteção. Era o primeiro ano em que o FIC estava sendo apresentado em TV a cores. Durante a fase nacional seriam realizadas duas eliminatórias, apresentando cada uma 15 canções, sendo selecionadas 12 dentre essas. A final nacional escolheria 2 entre as 12 classificadas nas duas fases anteriores, para concorrer com as internacionais. Nesse festival havia muitos compositores novatos. Dentre eles estavam Oswaldo Montenegro, ainda um goroto de 16 anos, Hermeto Paschoal, Walter Franco, Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Maria Alcina, etc. Nomes que viriam a ter grande influência na música popular brasileira.

A canção Viva Zapátria (Murilo Antunes e Sirlan Antônio de Jesus) causava preocupação aos organizadores, tanto é que Murilo teve que comparecer à Polícia Federal, junto com Sirlan, para explicar a letra. E lá, dando uma de bobo, explicou que a letra da música não passava de uma homenagem ao filme Viva Zapata mas, como já havia uma música com o mesmo nome, eles optaram por Viva Zapátria. E pôs-se a falar do filme num linguajar bem caipira. E assim, fingindo-se de inocentes, conseguiram liberar a canção.

A Censura Federal listou um monte de coisas que deveriam ser evitadas no festival, inclusive o gesto de punho cerrado erguido para o alto (símbolo do poder negro) e os decotes avantajados das intérpretes. Se houvesse desobediência, o programa sairia do ar. Na primeira eliminatória foram classificadas:

Serearei (Hermeto Paschoal)
Nó na Cana (Ari do Cavaco e César Augusto)
Eu Sou Eu, Nicuri é o Diabo (Raul Seixas)
Cabeça (Walter Franco)
Diálogo (Baden Powell e Paulo César Pinheiro)
Fio Maravilha (Jorge Ben)

Nara Leão, que foi escolhida como presidente do júri, ficou insatisfeita com a exclusão de Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua (Sérgio Sampaio), canção que viria depois a fazer um tremendo sucesso.

Na segunda eliminatória foram classificadas:

Let Me Sing, Let Me Sing (Raul Seixas e Edith Wisner)
Flor Lilás (Luli)
A volta do Ponteiro (Roberto L. da Silva e Roberto F. dos Santos)
Viva Zapátria (Sirlan e Murilo)
Mande um Abraço pra Velha (Os Mutantes)
Carangola (Futoti e Fauzi Arap)
Liberdade, Liberdade (Oscar Toledo)

A última música entrou em razão de um empate. Também incluíram Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua (Sérgio Sampaio), para contemplar Nara Leão. Assim, passaram a ser 14 concorrentes, e não mais 12, para a fase final.

Antes de chegar à final, os militares exigiram a saída de Nara Leão do júri, por não terem gostado de uma entrevista dela ao Jornal do Brasil, onde criticava a situação de nosso país. Para contornar a situação, a direção do FIC resolveu trocar o júri nacional por um internacional. O clima ficou tenso, ainda mais porque os jurados acharam que era uma tentativa de não permitir a escolha da música Cabeça, fazendo com que Maria Alcina, escolhida pela Globo, fosse a intérprete finalista. Os jurados não aceitaram, inclusive pela dificuldade dos gringos em conhecer a língua portuguesa. Fizeram um manifesto que entregam à imprensa.

O júri estrangeiro estava mais perdido do que cego em tiroteio, principalmente ao ouvir canções com gírias. Houve muita confusão, som desligado, algumas músicas impedidas de serem cantadas, palavras cortadas ao microfone, etc. O ex-jurado Roberto Freire conseguiu ir até ao palco para contar o ocorrido, mas foi arrastado pelos seguranças da TV Globo que, violentamente, entregaram-no nas mãos da repressão ali presente, alegando que se tratava de um comunista e que devia apanhar. Os homens bateram muito no rapaz, que ficou com inúmeras fraturas e todo deformado.

Nara Leão, ao ver o amigo assim, enfrentou Boni e os diretores da TV Globo, ameaçando invadir o palco, mesmo que todos fossem espancados. Boni então pediu que tirasse a  parte do manifesto que falava mal da Globo, e o comunicado foi lido, deixando os milicos espantados. No comunicado estavam também os nomes das duas canções eleitas pelo júri anterior: Cabeça (Walter Franco) e Nó na Cana (Ari Cavaco e César Augusto). Contudo, o “júri dos gringos” elegeu Diálogo (Baden Powell e Paulo César Pinheiro) e Fio Maravilha (Jorge Ben)

Na fase internacional participaram 14 canções, incluindo as duas brasileiras. Vazou o comentário de que No Body Calls Me a Prophet já estava escolhida. Ao tomar conhecimento disso, o artista grego Demis Roussos deixou o Maracanãzinho, só voltando após muita conversa. Ao final, o júri internacional deu como vencedora a música Sweat and Tears (David Clayton Thomas), embora a Globo quisesse que fosse dada a vitória a Fio Maravilha (Maria Alcina)

O VII FIC foi muito importante para Raul Seixas que se tornou uma revelação, tornando-se depois a maior figura do rock brasileiro. A Censura Federal, contudo, pegou firme no pé do mineiro Sirlan, um dos compositores de Viva Zapátria, impedindo que suas músicas fossem liberadas e gravadas, matando sua carreira musical.

Vejam abaixo a letra e a canção nacional finalista , com Maria Alcina como intérprete:

Fio Maravilha
Autor: Jorge Bem
Intérprete: Maria Alcina

Foi um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa
E a magnética agradecida se encantava
Foi um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa
E a magnética agradecida se encantava
Filho maravilha, nós gostamos de você
Filho maravilha, faz mais um pra gente vê
Filho maravilha, nós gostamos de você
Filho maravilha, faz mais um pra gente vê
E novamente ele chegou com inspiração
Com muito amor, com emoção, com explosão e gol
Sacudindo a torcida aos 33 minutos do segundo tempo
Depois de fazer uma jogada celestial em gol
Tabelou, driblou dois zagueiros
Deu um toque driblou o goleiro
Só não entrou com bola e tudo
Porque teve humildade em gol
Foi um gol de classe
Onde ele mostrou sua malícia e sua raça
Foi um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa
E a magnética agradecida se encantava
Foi um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa
E a magnética agradecida se encantava
Filho maravilha, nós gostamos de você
Filho maravilha, faz mais um pra gente vê
Filho maravilha, nós gostamos de você
Filho maravilha, faz mais um pra gente vê
Filho Maravilha!

https://www.youtube.com/watch?v=AYucUeksWPA

Fontes de Pesquisa:
A Era dos Festivais/ Zuza Homem de Mello
Música Popular Hoje/ Publifolha

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Picasso – CIÊNCIA E CARIDADE

Autoria de Lu Dias Carvalho

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A composição Ciência e Caridade é uma prova do talento precoce do pintor espanhol Pablo Picasso. Foi pintada quando ele tinha somente 16 anos de idade, seguindo orientação de seu pai José Ruiz, tomando como inspiração o avanço da ciência. Induz que, unidas, Ciência e Caridade fazem um bom par.

A Ciência e a Caridade apresentam-se à cabeceira de uma mulher moribunda, tentando ajudá-la em seu sofrimento. A Ciência é representada pela figura do médico, tendo o pai do artista pousado como modelo; a Caridade é representada pela freira, sendo que a modelo veste um hábito das religiosas da Ordem de São Vicente de Paula. A doente tem como modelo uma mendiga, encontrada pelo pintor, o menino é o filhinho dela.

O médico olha para o relógio, enquanto segura o pulso da enferma, medindo a sua pulsação. Por sua vez, a freira oferece-lhe algo num copo, enquanto segura a criança que fita a mãe doente. Enquanto o rosto do médico demonstra tensão, o da doente expressa dor e medo. O da freira, por sua vez, mostra bondade.

O quarto humilde contém apenas uma cama, um oratório acima dela e uma cadeira, onde está assentado o médico. A janela de madeira está fechada e são vistas marcas de chuva que dela escorreram, atingindo a parede. Uma porta, às costas do profissional, conduz a outro ambiente.

A composição Ciência e Caridade, pintada em grandes dimensões, tendo como inspiração o realismo social, deixa boquiaberto o observador, ao levar em conta a idade do artista, já capaz de captar tamanha sensibilidade. Esta obra, ao ser exposta em Madri, ganhou menção especial e, na exposição em Málaga, foi agraciada com a medalha de ouro.

Ficha técnica
Ano: 1987
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 197 x 249,4 cm
Localização: Museu Picasso, Barcelona, Espanha

Fontes de pesquisa
Picasso/ Abril Coleções
Picasso/ Coleção Folha

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PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FLORES

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Para Não Dizer Que Não Falei de Flores trata-se de uma canção com letra altamente subversiva, atentatória à Soberania do País, um achincalhe às Forças Armadas… (General Luís de França Oliveira – Secretário de Segurança da Guanabara)

A canção Caminhando, mais conhecida como Para Não Dizer Que Não Falei de Flores, de Geraldo Vandré, participou do III FIC (Festival Internacional da Canção) da TV Globo, em 1968. Foi exibida na segunda eliminatória paulista, classificando-se entre as seis daquela fase, que concorreriam à final paulista.

Havia por parte dos organizadores uma preocupação com a música de Geraldo Vandré, em razão da ditadura militar que dirigia o país. Contudo, a organização do festival não acreditava que ela fosse longe, ficando pelo meio do caminho, ou seja, não seria capaz de indispor os militares com o III FIC. Mas não foi isso que aconteceu. A plateia não demorou em aprender seu refrão: Vem vamos embora/que esperar não é saber/quem sabe faz a hora/não espera acontecer. A canção também ganhou as ruas. Portanto, não foi surpresa que ela se encontrasse entre as seis classificadas na 1ª final paulista. E, posteriormente se tornasse uma da seis classificadas paulistas para o festival nacional.

A canção Caminhando foi apresentada na segunda eliminatória nacional, sendo tão aplaudida, que Vandré, emocionado, chegou a passar mal fora do palco. Tudo indicava que estaria entre as candidatas a finalistas.

A direção do Festival recebeu um comunicado, vindo dos militares, dizendo que duas canções deveriam ser vetadas: América, América (Cesar Roldão Vieira) e Caminhando (Geraldo Vandré). Sem saber que decisão tomar, a direção do III FIC decidiu deixar o barco correr solto, mas no fundo torcendo para que Caminhando não fosse a vitoriosa. Dentre as canções que concorriam à final estava justamente ela. Ao ser apresentada, além de ser ovacionada pela plateia, ainda era cantada por ela.

Quando foi dado o resultado, Caminhando era a segunda colocada, perdendo apenas para Sabiá, de Tom Jobim. Foi uma revolta generalizada. O público queria Caminhando em primeiro lugar. Cynara e Cybele, que defendiam Sabiá, nem mesmo conseguiram apresentá-la, de tão ensurdecedora que era a vaia. Ao tentar acalmar a plateia, Vandré tornou célebre a frase:

– Olha, tem uma coisa só, a vida não se resume em festivais.

A seguir, começou a tocar e cantar junto com um coro de mais de 20 mil vozes. Ali estava a resposta para mostrar qual era realmente a canção vencedora. O compacto com Caminhando era o mais procurado, por isso, a polícia do estado da Guanabara mandou apreendê-lo, enquanto Marina Ferreira, Chefe da Censura estadual, dizia não haver ordem para a apreensão dos discos. Depois de muitas idas e vindas, afirmações e desmentidos de censura, Caminhando tornou-se proibida. Não poderia ser tocada em rádios e locais públicos de todo o país. Mesmo assim, ela continuava ser cantada em casas, durante reuniões.

O fato é que Caminhando foi proibida durante 20 anos, mas tornou-se um hino das contestações, cantado até os dias de hoje. Vandré ficou sob a mira dos radicais da ditadura. Com a decretação do AI-5, passou a ser procurado. Escondeu-se na casa de Marisa Urban e depois de dona Araci (viúva de Guimarães Rosa). Ajudada por um delegado de polícia, dona Araci e seu filho, que o acompanhavam num automóvel, ajudaram-no a se exilar. Vandré, que se encontrava envelhecido através de rinsagem no cabelo e maquiagem, atravessou, no carnaval de 1969, a fronteira com o Paraguai, indo para o Chile. De lá viajou para outros lugares, inclusive Paris. Contudo, não conseguiu se adaptar a lugar nenhum, sempre saudoso do Brasil.

Geraldo Vandré contou com a ajuda de um Coronel do exército para voltar ao Brasil. Aqui chegando, em pronunciamento, renegou qualquer elo com os adversários do regime militar. E nunca mais voltou a ser o que era antes. O que terá lhe acontecido? Eis a questão. São muitas as hipóteses, inclusive a de lavagem cerebral. Mas não há nenhuma confirmação.

Agora conheçam a letra e ouçam a canção que nos arrepia até hoje.

Caminhando (Para dizer que não falei de flores)
Autor: Geraldo Vandré
Intérprete: Geraldo Vandré

Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora

Não espera acontecer

(bis)

Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão

(Refrão)

Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição
De morrer pela pátria
E viver sem razão

(Refrão)

Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Somos todos soldados
Armados ou não
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão

(Refrão)

https://www.youtube.com/watch?v=PDWuwh6edkY

Fontes de pesquisa
A era dos festivais/ Zuza Homem de Mello
Uma noite em 67/ Renato Terra e Ricardo Calil
Chico Buarque/ Wagner Homem

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